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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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http://archive.org/details/daasiadejoodebar04p1barr 



focfl*^ V4^I^V%ft nnru-^v/^^o^ 







DA 


A S IA 

D E ' 



/ô -' / 



JOÃO DE BARROS 

Dos FEITOS , QUE OS PoRTUGUEZE$ ítóERAUl 

NO DESCUBRIMENTO 5 E CONQ_UISTA ÍDOS 

MARES, E TERRAS DO OrIENTE. 

DÉCADA QUARTA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 
anno mdcclxxvii. 

Com Licença da Rsal Mex,a C enfarta , c PrlvUeoio ReaL 





3)3 
7 

Hl' 
v ^ 



8 



índice 

DOS capítulos, que se CONTÉíM 
iNFSTA PARTE I. 

DA DÉCADA IV. 

LIVRO I. 

C^ AP. I. Corno foi aberta a fuccefiao 
de quem havia de fuc ceder a Dom 
-^ Henrique de Menezes^ efe achou 
que Pêro Mafcarenhas ; e por elle cfiar 
aufente , fuccedeo Lopo Vaz de Sam- 
paio, Pag. I. 

CAP. II. O Governador Lopo Va% de Sam- 
paio commetteo a Armada do ÇamoriJ , 
que eftava no rio de Bacanor , e houve 
dos Mouros huma grande vitoria. 7. 

CAP. III. Como Lopo Vaz *de Sampaio che- 
gou a Goa 5 e foi recebido nella por Go- 
vernador da índia ^ e das Armadas que 
fez, 14. 

CAP. IV. Do que aconteceo a Lopo Vaz 
de Sampaio na viagem de Goa a Ormuz , 
e do que fez naquella Cidade, iH. 

CAP. V. Como Eitor da Silveira foi a Dio , 
e do que alli paffou com Melique Saca , 
e do que ordenou o Governador com as 
novas da Armada dos Rumes. 21. 

CAP. VI. Das ndos que partiram de Por- 
tugal para a Índia , em qu,e foram as 

* ii fUC' 



Índice 

fuccefsoes , per que Lopo Vaz de Sam- 
paio havia de governar. 28, 

C A P. VIL Das jiiftijíca coes que Lopo Vaz 
de Sampaio fez cm Cocbij febre o direi- 
to de fua Governança : e do confclho que 
teve fohre a vinda dos Rumes, -^6, 

CAP. Vlir. Da Annada que Selim Rey 
dos Turcos ordenou para nella ir Raez 
Soleimão d Índia contra os Portuguczes , 
e do fuccefjo delia. 44. 

CAP. IX. Como Pêro Mafcarenhas man- 
dou Álvaro de Brito com algumas fuflas 
d Ilha de Bintam , para que lhe não en- 
trafjem mantimentos : da nova que teve 
da fua fuccefsão no Governo da índia: e 
da Armada que fez para ir a Bintam, ^^, 

CAP. X. Como Fero Mafcarenhas chegou 
ao porto da Ilha de Bintam , e desbara- 
tou huma Armada d'^ElRey de Pam ; e 
do confelho que teve per onde accommet- 
teria a entrada da Cidade, 61. 

CAP. XI. Como Pêro Mafcarenhas commet- 
teo , e deflruio a Cidade de Bintam com 
morte de muitos Mouros ^ e fugida d^^El- 
Rey. 68. 

CAP. XII. Da defcripção de Sunda , e 
coflumes de feus habitadores : e em que 
lugares da índia ha pimenta para car- 
regação, 73. 

CAP. XIII. Como Henrique Leme partio 

de 



DOS Capítulos 

de Malaca , e ajjentou paz com ElRey 
Samiam de Sunda , e metteo o padrão 
onde fe havia de fazer huma fortaleza : 
e da jornada de Francifco de Sd , da 
qual não refultou efeito, 82. 

CAP. XIV. Como D. Garcia foi entregue 
da fortaleza de Ternate , e per morte 
d'ElRey Almançor tomou a Cidade de 
Tidore , e a deftruio. 88. 

CAP. XV. Como Z). Garcia foube que no 
porto da Cidade de Camafo d''ElRey de 
Tidore eftava huma não de Cajiella , e 
o que fez para a trazer á fortaleza de 
Ternate, ^4. 

CAP. XVI. Como D, Jorge de Menezes 
partio de Malaca para Maluco a fervir 
de Capitão , e fez nova viagem pela Ilha 
de Borneo ; e das àifferenças que teve 
com D, Garcia Henriques, 10 1. 

CAP. XVII. Da jornada de Vicente da 
Fonfeca d Ilha de Banda , e fucceffos del- 
ia ^ e da viagem de D, Garcia Henri- 
ques té Cochij. 109. 

CAP. XVIII. Como os Caflelhanos elege- 
ram Capitão per morte de Martim Inhi- 
guez , e tomaram huma galeota aos Por-^ 
tuguezes com morte de Fernão Baldaia , 
t mandaram pejir foc corro d Nova Hef 
panha , e os Bortuguezes dejlruiram a 
Cidade de Camafo. 116. 

Li- 



1 N D I C E 

LIVRO 11. 

CAP. I. C 0)710 Lopo Vaz de Sampaio^ 
fahendo que vinha Vero Mafcarenhas 
de Malaca , lhe mandou notificar que 
não viejjè como Governador ; e que que- 
rendo entrar em Cochij , foi maltrata- 
do ^ e ferido. Pag. 124. 

CAP. II. Como Lopo Vaz de Sampaio man- 
dou prender a Vero Mafcarenhas per An- 
tónio da Silveira , e prezo em ferros foi 
levado a Cananor y e do que fobre fua 
prizão fuccedeo, 132. 

CAP. III. Como Lopo Vaz de Sampaio maíi" 
dou pjrender a Eitor da Silveira , e ou-* 
tros Fidalgos feus parentes , e amigos , 
€ a caufa que houve para ijfo. 142. 

CAP. IV, Como Pêro Mafcarenhas foi fol- 
io , e obedecido por Governador per al- 
guns Capitães. 149. 

CAP. V. Do que António de Miranda de 
Azevedo , e Chriflovão de Soufa ordena- 
rani para Lopo Vaz de Sampaio , e Ve^ 
ro Mafcarenhas defiftirem do governo , 
e fe porem em direito. i^^. 

CAP. VI. Das differenças que houve fobre 
accrefcentarem d cat^. de Lopo Vaz de 
Sampaio , e Vero Mafcarenhas mais Jui- 
zes dos que foram nomeadas a princi-- 

flO'y 



DOS Capítulos 

pio ; e como fe deo a fentença em favor 
de Lopo Faz, i<^o. 

CAP. VIL De algumas Armadas que Lo^ 
po Faz dejpachou , e como foccorreo a 
fortaleza de Ceilam , que eftava cerca- 
da , mandando a ella Martim Ajfonfo 
de Mello. i66. 

CAP. VIII. Do que fuccedeo a Martim 
Ajfonfo té fe perder na Ilha de Negama- 
Ic ^ e como foi cativo. 171. 

CAP. IX. Como D. João Deça desbara- 
tou , e prendeo a China Cutiale Capitão 
mór d ElRey de Calecut , e do que w.ais 
lhe fuccedeo. 178* 

CAP. X. Como António de Miranda Ca- 
pitão mór do mar partio para o Eftret- 
to : e do que pajfou naquella viagem té 
chegar ao porto da Cidade de Adem. 180. 

CAP. XI. Como António de Miranda veio 
de Ormuz a Dio , e do que aconteceo nef 
fe caminho a Lopo de Mefquita , a Dio- 
^0 de Mefquita , e a Henrique de Ma^ 
cedo 5 e como chegou a Cha.ul toda a Ar- 
mada. 18 8, 

CAP. XII. Como o Governador Lopo Vaz 
de Sampaio partio com huma grojja Ar^ 
mada para Cochij , e pelejou £Óm rento 
e trinta pardos de Ma lavar es ^^ €S def- 
h ar atou. 193. 

CAP. XIII. Como o Governador Lopo Faz 

de 



ÍNDICE 

* de Sampaio partio de Cochij com toda a 
fua Armada , e de o no lugar de Porcd , 
e o desbaratou , e queimou com morte de 
muitos, 197. 

CAP. XIV. Como ElRey de Cambaya mo- 
'veo guerra ao Nizamaluco , e o Gover* 

. 72a dor Lopo Vaz de Sampaio pelejou com 

•; .Alixiah Capitão das fuftas de Dio , e 
o desbaratou^ e das Armadas que fez, 202. 

CAP. XV. Como havida a vitoria das fuf- 
tas 5 quizera o Governador ir a Dio , e 
lhe foi contrariado : e de algumas Ar- 
ma das que mandou a diverfas partes, 212. 

CAP. XVI. Como Eitor da Silveira afjò- 
lou muitos lugares na cofia de Cambaya , 
e pelejou com o Capitão Alixiah , e lhe 
tomou a fortaleza em que ejiava , e da 
deftruição que fez em Baçaim, 217. 

CAP. XVII. Do que fuccedeo a Simão de 
Soufa Galvão , que hia por Capitão de 
Maluco, 227. 

CAP. XVIII. Como D. Jorge de Menezes 
tomou a Cidade de Tidore , e affentou 
pazes com os Cajlelhanos que nella ejla^ 
vam. 233. 

CAP. XIX. Da morte dElRey Bahaat , 
e prizão de feu irmão , e fucceffor Ca- 
chil Daialo ; e da injúria que fez Dom 
Jorge a Cachij Vaidua parente dEl- 
Key, 241. 

CAP. 



DOS C APITU LOS 

CAP. XX. Como D. Jorge majídou lançar 
a dons lebres o Regedor de Tabona , dos 
quaes foi cruelmente morto , e mandotí 
degollar a Cachil Daroez, 246. 

LIVRO m. 

CAP. L Como ElRey D, João mandou 
por Governador da Índia a Nuno 
da Cunha : e do que pajfou té chegar d 
Ilha de S, Lourenço, Pag. 25* 3. 

CAP. II. Da perdição das duas nãos de 
Manuel de la Cerda , e Aleixo de Abreu , 
e do que aconteceo aos que delias fe f al- 
var am, 25:9. 

CAP. III. Como a ndo de Nuno da Cunha 
fe perdeo com hum vento travefsao , fal- 
vandofe elle \ e fua gente : e do que lhe 
aconteceo té chegar d Ilha de Zanzi- 
bar, 26/{. 

CAP. IV. Do que Nuno da Cunha fez em 
Me linde, 271. 

CAP. V. Como Nuno da Cunha foi Jobre 
a Cidade de Mombaça , e a tow,ou. 276. 

CAP. VI. Do que Nuno da Cunha fez de- 
pois de tomar a Cidade de Mombaça com 
alguns Mouros que tornaram a ella : e 
das novas que lhe vieram de Simão da 
Cunha , e de outros Capitães da fua Ar* 
mada. 287. 

CAP- 



Índice 

CAP. VII. Como Nuno da Cunha mandou 
convidar certos fejíhores Mouros , que 
nianãajjem gente para povoar Mombaça : 
e como o liey delia fe fez vaffallo d'EU 
Rey de Portugal com lhe pagar pareas.2^1^, 

CAP. VIII. Do que fizeram os Mouros de 
Mombaça nos dias que fe tratava a paz: 

^^'e como Nuno da Cunha , ainda que dos 
Portuguezes morriam muitos , fe 7ião 
quiz ir da Cidade ^ e a defiruio , e quei- 
mou, 298. 

CAP. IX. Coyno Nuno da Cunha ajjèntou 
de ir a Ormuz , e do que fez antes que 
partiffe de Mlelinde : e do que ordenou 

,\^ em Calayate , e Mafcate té chegar a 

■ ■ Orynuz. 306. 

CAP. X, Do que era p afiado com Xarafo 
Guazil de Ormuz , e como foi prezo per 
cartas dJ^ElRey D. "João ^ que Manoel 
de Macedo levou defie Reyno : e do que 
Nuno da Cunha pajfou com ElRey de 
Ormuz. 312. 

CAP. XI. Do que Nuno da Cunha p afiou 

,ò\€Dm FJR^ey. de Ormuz , e como pezada- 

-h^nente accéitvu o que lhe deo , e o man- 

\^T,úou entregar ao Feitor d''ElRey de Por- 
tugaL 3.18. 

CAP. XII. Como Nuno da Cunha entendeo 
Vã devafia contra Raez Xarafo \ e do 

,-^iifue fez Jobre fua vinda a Portugal ^ e 
\>lh^^ con- 



DOS Capítulos 

conãemnou a ElRey de Ormuz por a mor- 
te de Raez Hamed. 322, 

CAP. XIII. Como Belchior de Soufa Ta- 
vares foi a Bafçord : e do Jitio daquella 
Cidade^ e da Ilha de Giza ir a, 331. 

CAP. XIV. Como Belchior de Soufa foi 
recebido d"" ElRey de Bafçord^ e foi com, 
elle co7itra ElRey de Giza ir a. 340. 

CAP. XV. Como Belchior de Soufa ajfen- 
tou pazes entre os Reys de Bafçord , e 
de Gizaira : e como do de Bafçord veio 
de f avindo por lhe faltar da promeffa que 
lhe fez, 346. 

CAP. XVI. Como Belchior de Soufa veio 
a Ormuz , e provendo-o o Governador da. 
capitania mór do mar , o mandou a Ba- 
barem ^ e do que lâ fez, 35'o. 

CAP. XVII. Como Nuno da Cunha fepar- 
tio para a índia com a gente que tinha 
comfigo em Ormuz da fua Armada : e 
de algumas coufas que deixou feitas pa^ 
ra quietação do Reyno, 3 5' 5'. 

CAP. XVIII. Do que Simão da Cunha paf- 
fou em a Ilha de Bajoarem , e depois ãe 
a combater fe recolheo por a doença ge- 
ral que veio a todos, 362. 

CAP. XIX. Como Simão da Cunha adoeceo 
do mal geral , e morreo delle , e alguns 
Fidalgos , ^ o vieram enterrar a Or- 
muz, 2Ó9. 

LI- 



Índice 

LIVRO IV. 

CAP. I. Do que Nuno da Cunha fez 
no primeiro anno de jeu governo : e 
o que pajjou com Lopo Vaz de Sampaio 
quando lho entregou, Pag. 372. 

CAP. 11. Como Nuno da Cunha par tio de 
Cananor , e foi a Cochij : e do recehimen-^ 
to que lhe fizeram : e como prendeo Lo- 
po y^az de Sampaio , e o mandou a Por- 
tugal, ^ . SZS'- 

CAP. III. Do muito damno que Diogo da 
Silveira fez na cofia de Calecut , pelo 
que Çamorij mandou pedir paz a Nuno 
da Cunha , a qual lhe concedeo com taes 
condições que elle a nao acceitou, 379. 

CAP. IV. Como o Governador mandou Gaf- 
par Paes a Melique Saca a feu reque- 
riynento ^ e do que com elle pajfou. 388, 

CAP. V. Como Gafpar Paes fe par tio def- 
avindo de Melique Saca , e lhe queimou 
algumas fuftas ^ efe tornou a Cochij. i^<)^. 

CAP. VI. Como Nuno da Cunha foi aGoa ^ 
e o que fez. em Çhalle ^ onde achou Dio- 
go da Silveira , a que encommendou que 
deflruijfe o Chatim do rio de Mangalor, 398. 

;ÇAP. VII. Como Diogo da Silveira entrou 

^'^,Qio rio de Mangalor , e deflruio o Cha- 

olytim que a IH vivia. 401. 

CAP, 



DOS Capítulos 

CAP. VIII. Bo que fez António da Sil- 
veira com huma Armada na enfcada de 
Camhaya , onde tomou Surat , e lieiner 
Cidades principaes daquella cofia, 407. 

CAP. IX. Como António da Silveira to- 
mou Agacim ^ e a dcjiruio. 416. 

CAP. X. Corno Franctjco Pereira de Ber- 
redo Capitão de Chaul , mandou recado 
a António da Silveira , que o viejjè foc- 
correr em huma prejja em que ejlava com 
os Capitães cVElRey de Camhaya, 420. 

CAP. XI. Do que Eitor da Silveira fe^ 
com a fua Armada té chegar a Mete , 
e depois d Cidade de Adem : e como fez 
tributário o Senhor delia, 425'. 

CAP. XII. Como Nuno da Cunha partio 
para Dio , e das novas que foube per 
mercadores Arábios , que na fortaleza 
de Baniam achou, 433. 

CAP. XIII. Como Nuno da Cunha chegou 
d Ilha de Beth , e a deflruio : e da cruel- 
dade que o Capitão delia executou em 
fua familia , por dar exemplo de fua 
confi anciã, 439. 

CAP. XIV. Como Nuno da Cunha , vifto 
o fitio , e baluartes de Bio , fe determi- 
710U em o combater, 445'. 

CAP. XV. Como Nuno da Cunha conmiet- 
teo a Cidade de Bio ; e por a principal 
artilheria lhe rebentar , e haver outros 



Índice 

impedimentos , não perfeverou no comba- 
te, 45*0. 

CAP. XVI. Como Mujiafdfoi recebido de 
Soltam Badur com muitas honras , e 
mercês : e dos nomes de honra , e titulos 
com que fe nomeam os Principes , e no- 
bres do Oriente. 45'8. 

CAP. XVIÍ. J^o que fez António de Sal- 
danha com a Armada que lhe ficou : e 
como o Governador houve d mão hum ir- 
mão cPElRey de Cambaya , e do fuccejjb 
da Armada de D, António da Silveira , 
e da fua morte. 463. 

CAP. XVIII. Como Nuno da Cunha a re- 
querimento d^ElRey de Calecut fez a 
fortaleza de Challe , e o modo que teve 
com elle primeiro que a fizeffè, 470. 

CAP. XIX. Do que Manuel de Vafconcel- 
los 5 e António de Saldanha fizeram em 
Xael , e como chegaram a Mafca- 
te, 478. 

CAP. XX. Do que António de Saldanha 
fez em Mafcate ; e dos trabalhos que 
paffou na paragem de Dio , té Diogo da 
Silveira tomar entrega da Armada ; e 
como veio ao Reyno por Capitão mor das 
nãos de viagem. 48 3. 

CAP. XXL (Jomo Diogo da Silveira , en- 
tregue da Armada de António de Salda- 
nha 3 defiruio as Cidades de Patan , Pa- 
tê , 



DOS Capítulos 

te ^ € Mmigalor , e as queimou , e as iiáos 

■ que em feus portos eftavam. 490. 

CAP. XXÍI. Como Nuno da Cunha tomou. 
a fortaleza de Baçaim , e a mandou des- 
truir , coyn morte de muitos Mouros , e 
fugida de MeliqueTocamfeu Capitão. 493. 

CAP. XXIII. Como q^Governador mandou 
Vafco da Cunha a Melique Tocam fobre 
fe fazer a fortaleza em Dia. 503. 

CAP. XXIV. Como o Governador mandou. 
Trifteío de Gd a ElRey de Cambaya fo- 
bre a fortaleza de Dio que lhe pedia : 
e C0W.0 ElRey mandou ir o^Govcrnador 
a Dio para fe verem , e as vijias não 
houveram ejfeito ^ e Manuel de Macedo 
de f afiou a Rume eh an, 508. 

CAP. XXV. Como Cunhale Marcar tomou 
hum bargantim , e outros 'navios de Por- 
tuguezes , e da morte que lhes deo : e 
como António da Silva de Menezes def- 
haratou efie cojfairo ^ e lhe tomou asfuf- 
tas, 517. 

CAP. XXVI. Como António da Silveira Ca- 
pitão de Ormuz mandou D. Jorge de 

- Ca firo , e depois Francifco de Gouvea a 
cajligar ElRey de Raxet , por fe levan- 
tar contra ElP^ey de Ormuz, 5'22. 

CAP. XXV 11. Como Martim Affonfo de 
Soufa foi de Portugal por Capitão mor 
do mar da índia , e tcmou Dam.am , e 

o def 



Índice 

o deflruio : e como ElRey de Camhaya 
pedio paz a Nuno da Cunha , e lhe deo 
por ella Baçaim com todas Juas ren- 
das, 527. 

LIVRO V. 

CAP. I. 'Em que fe defcreve o Keyno 
de Guzarate , e as gentes de que 
he habitado, Pag. 5' 3 5'. 

CAP. II. Como ^ e em que tempo os Mou- 
ros começaram a ganhar oKeyno doGu- 
zarate aos Gentios. 547. 

CAP. III. Como Hamed Mouro Tártaro 
de nação veio fer Rey do Guzarate , de 
que procederam todos os Reys que té 
agora foram ; e o que pajfou fobre fua 
fuccefsão. 5 5' 6. 

CAP. IV. Como por ElRey Modafar dar 
certas Cidades aos filhos de Melique Az , 
fe aggravdram feus filhos , e o terceira 
delles Badur Chan fi foi do feu Rey no 
para ElRey de Chitor , e o que lhe Id 
acontecco. 563. 

CAP. V. Como Badur fe fez Calandar ^ e 
da maneira , e coflumes daquella reli- 
gião : e como fabendo da morte de feu 
pai , e da d^ ElRey Efe andar que lhe fuc- 
cedeo , veio ao Reyno de Guzarate , e 
fe levantou com clle com morte de feus 
irmãos ^ e de outros muitos. 5' 6 8. 

CAP. 



DOS Capítulos 

CAP. VI. Como ElRey Badur determinou 
de matar todos os que em tempo de feu 
pai o tinham offendido , e entre elles a 
Melique Saca i. apita o de Dio , e da ma- 
nha que elle ufou para lhe efcapar : e 
como naquelles dias veio a Dio huma 
fido de Francezes que partira de Fran- 
ça , de que era Capitão^ e Piloto hum 
Portuguez, 574. 

CAP. VIL Da embaixada , que Bahor Pat- 
xiah Rey do Delij mandou a ElRey de 
Cambaya , o qual armando gente centra 
elle , foi contra o Nizamaluco : e como 
mandou esfolar huns Collijs , e da vin- 
gança que elles a iffo tomaram, 584. 

CAP. VIÍÍ. Como Babor Patxiah Rey dos 
Mogoles , indo para fazer guerra a El- 
Rey de Cambaya , lhe fahio ao caminho 
ElRey de Chitor \ e da batalha que am- 
bos tiveram, 5'9i. 

CAP. IX. Como Soltam Badur com feu exer- 
cito foi contra ElRey Mamud de Man- 
dou , e o venceo , e matou já cativo ; e 
encontrando no caminho o novo Sanga 

■ de Chitor , fez com elle alli ancas , e o 
que pafjbu com Salahedin. 5'95'. 

CAP. X. Como Salahedin por engano do 

■ Soltam Badur ^ vindo ao Reyno de Man- 
dou , foi prezo , e Badur fe foi a Rao* 

■ finga em bufca de Botiparao ^ que lhe 
Tom,IKP.L *^ ef- 



Índice 

efcapou : e corno qulz dar batalha ao 
Chitor menino irmão do Sanga , com quem, 
tinha feitas lianças ^ e amizade, 6o i. 

Cx\P. XI. Como o Soltam Badur tomou a 
Cidade de Raoftnga a partido: e da ver- 
dade ^ e diligencia que ufou , para que 
os vencidos não recebe fjhn offenfa : e do 
'ualerofo feito de Salahedin , e de fuás 
mulheres. 606. 

CAP. XII. Como Badur mandou dar hon- 
rada fepultura a Salahedin , e aos que 
com elle morreram : e como fez affogar 
Alicer feu privado em hum rio : e da 
vijitação que lhe fez Me li que Tocam : 
e como tomou o Reyno de Chitor ao San- 
ga , e das condições com que fe lhe fez 
vajfallo. 612. 

CAP. XIII. Como veio nova a Soltam Ba- 
dur 5 que Babor Rey dos Mogoles era 
falecido : e da vinda do Principe Mir 
Zaman , cunhado do Novo Rey ^ d Cor» 
te do Badur : e como elle intejitou dimi- 
nuir os foldos , e quantias que a gente 
de guerra tinha de lie. 617. 

CAP. XIV. Como Soltam Badur por Muja- 
te Chan lhe contrariar que não tirafje 
as comedias aos nobres que o fervtrant 
na guerra , o mandou a Dio para Me- 
lique Tocam o matar : e do valerofo fei- 
to que fizeram , Melique em dejcubrir 

aquela 



DOS Capítulos 

aqtielle fegredo a Mujate , e Mujate em 
fe ir aprcfentar a ElRey para que elle 
o matajjc, 621. 

CAP. X\^ Coyno Badur Rey de Camhaya, 
mandou fecretamente a Rume Chan to- 
mar Dio \ e fe Melique Tocam fe qui- 
zeffe defeitder , que o matajfe : e que ho- 
mem era João de Sant-lago ^ o que foi 
por língua a Cambaya. 626. 

CAP. XVI. Como Soltam Badur , e Omaum 
Patxiah fe vieram a defavir , e come- 
çdram fazer guerra entre fi , por Ba- 
dur lhe não querer entregar Mir Za- 
man, 632. 



DE- 



DEDICATÓRIA 

DE ]OÃO BAPTISTA LAVANHA 

A ELREY D. FILIPPE IL 



SENHOR. 



A QUARTA Década da Afia de 
João de Barros , que V. Mages- 
TADE me mandou reformar ^ he efta , 
que fe oíFerece aos Reaes Pés de Ve 
Magestade , paíTados qiiafi fincocnta 
annos , que leu Author a efcreveo, e 
per morte deixou imperfeita. Com a 
muita mercê , que de V. Magestade 
recebe Portugal ^ e a memoria de João 
de Barros renovada com eíla fua Dé- 
cada , alcança el!e morto mais illuftre 
nome, do que vivo pudera defejar: E 
os Portuguezes , que naquellas Regiões 
Orientaes derramaram leu fangue ^ e 
perderam fuás vidas em ferviço dos 
Reys daquelle Reino AnteceiTores de 
V. Magestade , recuperam a fama de 
Tom.ir.RL ** feus 



feiís gíoriofos feitos, que o tempo pro- 
curava fepultar no efquecimcnto : Que 
nunca o haverá delles , pois lembram 
a V. Magestade para os mandar ef- 
crever 5 e remunerar. Deos guarde a 
Catholica , e Real PeíToa de V. Ma- 
gestade. De Madrid xxiv. de Junho 
de MDCXV. 



JO- 



JOÃO BAPTISTA LAVANHA, 

AOS QJLJE LEREM 

ESTA QUARTA DÉCADA. 



ÇJBENDO ElRey Nofo Senhor ^ 
O que deixara João de Barros imper- 
feita a Qiiarta Década da Jua Afia ^ 
querendo fazer mercê a Portugal ^ ao 
nome de João de Barros j e a mim , me 
mandou que a reformaffe ^ e imprimifje j 
para que renovando-fe a memoria de hum 
tão célebre Hiftoriador com efta fiia obra 
pofihuma ^ per meio delia rcviveffe a fa- 
ina dos feitos ^ que os Portuguezes com 
grande valor obraram naquella parte da 
Afia^ que com o tempo fe hia efcurecen- 
do. Para efle effeito me mandou entre- 
gar SvA MaGESTADE dcz quadcmos j 
que fe acharam dos dez livros defia De- 
cada y rotos , faltos , efcritos a pedaços 
de varia letra , e tão imperfeitos y co^ 
mo trabalho de que era aquelle o pri- 
meiro penf amento , e em que fó fe puze- 
ra a primeira mão. E ajft faltavam fo- 
** ii Ihas^ 



lhas j havia outras cm branco , foheja^ 
vam coufas muitas vezes repetidas , ef- 
tavam outras fora defeu lugar ^ dava-fe 
larga relação de algumas j que imo per- 
tcficiam a esta HiHoria ^ mui breve no- 
ticia de outras importantes , e nenhuma 
de fuccejfos notáveis , que Jluthores em 
feus livros efcrevêrão, Defcuidos , que 
não houvera nejla Obra , fe a João de 
Barros durara tanto a vida , que a pu- 
dera rever , e acabar , como outras per 
elle promettidas , com que ficara o feu 
nome tnuito mais celebrado entre todas 
as Nações 5 do que merecidamente he 
hoje polas três Décadas ^ que deixou 
imprejfias. 

Polo que com mais trabalho , e ma- 
ior eliudo reformei efta quarta Década j 
que fe de novo a compuzera , porque 
( imitando quanto me foi pojfivel o eflilo 
de João de Barros ) accrefcentei , com 
approvação de hum Miniftro de Sua Ma- 
GESTADE , a que fe commetteo , capitu^ 
los inteiros , e grandes pedaços em ou- 
tros ( que tudo vai notado com comas ) 
cortei y antepuz , e pofpuz alguns , s 

clati- 



daufiilas inteiras , para melhor difpojl- 
ção do que nelles Je tratava , omitti o 
àefnecejpirio ^ e repetido , e illiiHrei com 
notas ds margens para maior noticia das 
coujas ejcritas per João de Barros , e 
das em qne Aiuhores delle dífferem, E 
porque nenhuma coujà dd tão perfeito 
conhecimento das defcripçoes das Pro- 
vindas , como o defenho delias ^ das que 
nejla Qj^iarta Década defcreve João de 
Barros ( em que excedeo a todos os Geó- 
grafos 5 ) ordenei três taboas da Ilha da 
Jãoa , dos Reinos die Guzarate , e Ben- 
gala 5 fegundo a mente do Author \ e 
as melhores informações , que dejias Re- 
giões pude alcançar. Muitas outras coít- 
fas reformei de menos confideração , co- 
mo foram alguns vocábulos , que fe ufa- 
vam em tempo de João de Barros , que 
o mefmo tempo tem defufado. Mas na 
Apologia j que elle fez em lugar de Pro- 
logo j a qual achei entre outros papeis 
inteira , e efcrita de fia mão , ( que o 
não eram os dez quadernas ) não mudei 
nem huma coma ^ por confervar iyitacio 
o que efle excellente Varão , e honra de 

Por- 



Portugal deixou acabado ; nem innovei 
os nomes da arte Militar , e Fortifica- 
ção j por continuar com os mefmos nefta 
Qitarta Década , de que elle ttfou nas 
prés. As quaes fe fe tornarem a impri- 
mir , nellas fe poderão pôr , como em lu- 
gar próprio y as notas , e tabeas Geo- 
gráficas j que nesta fe não puzeram , por 
não fer feu^ 



í 



DE- 



DÉCADA QUARTA. 

APOLOGIA 

DE JOÃO DE BARRQS 

EM LUGAR. 

DE PROLOGO. 



HAVENDO fmcoenta e tan- 
tos annos , que o defcubrimen^ 
to 5 e conqiiifta do Oriente fe con- 
tinuava , fem os obrigados per ofE- 
cio de Chroniftas , e per falario delle , 
darem á memoria tão gloriofos ^ e il- 
liiílres feitos, como meus Naturaes na- 
qucUas partes tinham acabado , e pro- 
feguiam com tanto louvor feu , pare- 
cia-me j que fe eu acudiíTe a efte defcui- 
do, tomando cuidado de as pôr emef- 
crito, podia merecer á minha pátria no- 
me de zelofo da gloria delia. Mas pois 
o tempo veio ataleftado, que aos obri- 
gados a fazerem alguma coufa menos 
culpa fe lhe dá quando a não fazem, 
que áquellcs , que a fazem fem ter a tal 

obri- 



Apologia. 

obrigação , necelHirio lie que andemos 
com a mcfma abusão do tempo, e que 
cm lugar de Prologo defta Qiuirra , e 
nltima Década , façamos Apologia , c 
defensão noíla para todas. Ifto nao por 
refponder a alguns competidores , co- 
mo fe aqueixava Terêncio nos fens Pró- 
logos apolvogcticos 5 pois louvado Deos 
nella parte ^de competir nefte noíTo tra- 
balho pacífica he aterra; mas para nos 
defculpar a quatro géneros de homens 
cenfores delle. E nao he coufa nova , 
porque toda obra publicamente feita 
íempre teve eftes três géneros de jui- 
zes , Ignorantes , Doutos , e Maliciofos ; 
pêro fer accufado de Parentes , e Ami- 
gos, eíte quarto género de perfegniçao 
aconteceo fomente a nós. Aos primei- 
ros demos nós ca ufa cm parte, mas não 
em todo; porque em a primeira Déca- 
da, e dcJi nalegunda, que huma apôs 
outra tiramos a luz com tenção de ir- 
mos emendando neftas duas ultimas o 
que foffc notado nas primeiras , vieram 
os Ignorantes j enão fe contentaram de 

emen- 



Apologia. 

emendar o çapato, a que fomente che- 
gava o leu juizo ; mas como fez o ça- 
pateiro de Apelles, quizcram entender 
na cabeça. Os Doutos (não flillamos na- 
quelles , que o sao cm fólida doutrina , 
mas nos que fcgucm a mais baixa par- 
te delia; ) tomaram o oiíicio de hum Me- 
dico , o qual quiz condemnar outra ta- 
boa de pintura , que hum grande Pin- 
tor, á imitação de Apelles 5 também pu- 
nha fuás obnís aporta a publico juizo ; 
porque não fomente apontava na fifio- 
nomia do roílo , poftura da peíFoa , e 
fymmetria dos membros , partes que lhe 
competiam pela proSfsão que tinha , 
mas ainda condemnou a pintura era 
outras fora do feu meíter, por moftrar 
que em tudo fabia. A qual confa não 
podendo foíFrer o Pintor , fahio donde 
citava ouvindo eíles juizos , e diíTe ao 
Medico : As minhas obras jiilgam-fe ^ 
porque fe vem , e as vojfas não , por-^ 
qtie as metteis debaixo^ da terra^^ onde 
as ninguém pode ver , motejando del- 
le, por matar muitos enfermos com fua 

erra- 



Apologia. 

errada cura. Os Maliciofos , que hc o 
terceiro género , nunca fe prezam de 
dar na capa , todo o feu golpe he tirar 
ao roílo : ca nao fe contentando de apon- 
tar vicios da obra , condemnam a pef- 
foa emmais grave crime , dizendo, que 
não fomente merecemos fer taxado pe- 
los erros da efcritura , mas ainda deve- 
mos ao officio , que fervimos , todo o 
tempo, que tomamos para eítas nolTas 
abusões , ( que allí lhe chamam elles ; ) 
pois leixamos a obrigação, e tomamos 
o alheio cuidado : cá, fegundo a cafa 
que fervimos, he huma roda viva, que 
não da efpaço pêra coufa fora de íi, 
não fc pôde borrar tanto papel fenão 
commettendo roubo do tempo , que de- 
vemos á cafa , e já pode fer que daqui 
procederá não nos dar ella tanto de li, 
e do feu quanto tiveram delia aquel- 
les, a que nós fucccdemos. Os Paren- 
tes , e Amigos , cuidando que fazem of- 
ficio piedofo, vem a fer mais cruéis que 
os outros, pois tocam n'alma ao modo 
4os amigos de Job , por verem que o 

cf- 



Apologia. 

€ftoii eu em fubftancia de fazenda , em 
comparação dos vizinhos , c concorren- 
tes no officio, dizendo, que fou melhor 
.ama que madre , pois fei crear aos meus 
•peitos 5 e braços os negócios alheios, e 
os próprios leixo fem creaçao : Qiie fe- 
fia melhor eftudar no que o geral da 
gente íizuda , e prudente faz , como 
com o favor do officio que íirvo , e in- 
duftria de minha peíToa poderei fazer 
de hum dez pêra manter dez filhos que 
tenho, eordenar-lhe vida , com que não 
fiquem por portas ; que fazer livros , e 
tratados , que a elles , e a mim não tra- 
tam bem. Porque como no tempo d'a- 
gora , e principalmente nefte Reyno , 
aquelle he havido por mais prudente, 
e pêra maiores negócios , que mais ar- 
tificies , e manhas buíca pêra fe apro- 
veitar do que traz entre as mãos ; efte 
he o modo da vida , que fe deve fe- 
guir, pois dá todo o fer delia em cre- 
dito, honra, e fazenda. E quem fe af- 
faftar delia geral eftrada , além de per- 
der o caminho , irá cahir no mais pro- 

fun- 



Apologia. 

fundo lugar , que tem a penitencia, 
quando le achar no fim da vida com 
as mãos vafias ; e principalmente em- 
pregando tanto tempo, e trabalho em 
efcrever memorias alheias, por vaidade 
de ter alguma , com a qual caufa da- 
mos matéria de rifo, e zombaria áquel- 
Ics, que profeíTam officios públicos, co- 
mo eíle noíTo , ao qual fomos obriga- 
dos, e nao amais. Ccá, fegundo admo- 
cfta S. Paulo , cada hum hc obrigado 
permanecer naquella adminiftraçao pê- 
ra que foi chamado , quafi como que 
nos quer dar entender , que entender 
em. mais hc abusão , coufa mui abomi- 
nável ante Deos. Qiianto mais que ain- 
da pêra coiifeguir efta noíTa inclinação, 
que he defejar faber , ou fer eftimado 
por fabedor , os Authores dos mefmos 
livros , per que nós eftudamos , clamam , 
que primeiro convém ter , e ifto acon- 
felha Ariíloteles, dizendo : He necejja^ 
rio primeiro enriquecer , e depois filO'- 
fofur. Porque como elle tinha experi- 
mentado , em quanto andou per cafas de 

Prin- 



Apologia. 

Príncipes 5 fer género de captivciro ef- 
perar llias címolas , trabalhou pcra en- 
riquecer muito por as não mendicar 
delles 5 c pêra melhor poder eftudar. E 
fegundo leu ellado, foi tão fobcjomcn- 
te rico , que de rollo a roílo o taxou 
diflb hum grande Filofofo Parfeo, que 
o veio ver á Grécia por fua fama, (fe- 
gundo os Parfcos efcrevcm em fuás 
Chronicas, ) ao qual elle refpondeo , que 
não era rico por deleitação de ter ri- 
quezas 5 mas porque não queria que ig- 
norantes Príncipes foíiem fenhores del- 
le per bens de Portuna , pois elle era 
fenhor dos m.efmos Príncipes per dotes 
de entendimento. Cá era confa contra 
Natureza fer a ignorância fenhora da 
fciencia, e a pobreza captiva á liberda- 
de do engenho na occupação do necef- 
fario. E daqui diíle Juvenal ^ que farto 
eftava Horácio , quando emhumaSaty- 
ra diíTe : Ohe , e que Je a Virgílio lhe 
Jalecêra o neccjfario pêra fe manter , 
não pintara elle tão poeticamente a fu^ 
ria infernal chamada Erynnisj e de fe 

ha- 



Apologia. 

haver por máxima de prudência entre 
os prudentes, que mais convém ter pê- 
ra fabcr, que faber pêra ter. Trabalhou 
Séneca por adquirir tanta fazenda, que 
le efcreve valer a liia fete contos , e 
meio d' ouro da nofla moeda. Pois fe 
eíles dous Príncipes de toda a doutrina 
natural , e moral Ariíloteles, e Séne- 
ca foram tão ricos como fcientes , pê- 
ra que fe deve abonar outra Filofofia, 
fe não a fua , qne eftá fundada fobre 
ter , e venha donde vier. E tratando 
também o Poeta Menandro efta maté- 
ria , diz : Epicarmo ãtjfe ferem Deofes 
os Ventos , o Sol , a Terra , a Agua , 
o Fogo , as EJlrellas ; mas eu cuido fe- 
rem Deofes mais proveitofos a Prata , e 
o Ouro ; cd fe tiverdes efes em cafa , 
pedi o que quizerdes , que tudo alcan- 
f areis , hef dades , cafas , ferves , baixei- 
las , amigos j juizes , teftemunhas , até 
os mefmos Deofes , qíiem defpender te- 
rá por minijiros, Finahnente com ef- 
tas , e outras admoeftações ^ que no^ 
fazem os Amigos , e Parentes^ alfi an- 
da- 



Apologia. 

damos atormentado no efpirito , e aP 
fombrado do caftigo de fuás palavras , 
qiie não temos que refponder , fcnão 
converter noíTa confideraçao ao cftado 
do Mundo , e ver quão cheio eftá de 
coníelhciros , e quão minguado de re- 
mediadores de alheios trabalhos, ainda 
que o polHim fazer; porque em dar pa- 
lavras per confelho, todos querem ga- 
nhar honra de prudentes ; e em reme- 
diar com adjutorio de fua própria fa- 
zenda 5 poucos a foltam da mão. E pois 
que alli he , que todos querem bem di- 
zer, e poucos bem fazer, e ainda fo- 
bre ilTo condemnar vidas, e obras alheias, 
fazendo-fe cenfores , e juizes das cou- 
fas , em que não tem jurifdicção, que 
he da tenção , que cada hum tem no 
que faz , a qual jurifdicção he de Deos y 
e efta tenção he a que dá nome á Obra 
de boa , ou má , ( íegundo diz Santo 
Ambrofio ) neceíTario he , pêra nos fal- 
rar delles juizes , e cenfores, profeguir 
adiante com noíTa defensão , e conti- 
nuaremos nella com outra pintura de 

mais 



/ Apologia. 

mais vivas figuras , que as duas paíTa- 
das , a qual damos por rcfpoíla aos 
Maliciofos 5 por fer do inefmo Apellcs , 
também cm defensão de faa peíToa. 
Sendo clle acculado ante ElRey Ptolo- 
meu per Antipíbnte leu próprio difci^ 
pulo, pintou huma raboa com eftas fi- 
guras : Hum homem aíTentado com 
grande mageftade , e compridas ore- 
lhas 5 á maneira de como pintam El- 
Rey Midas 5 o qual homem dava a 
mão, que vieffe a elle, a huma mulher 
chamada Galumnia, que he a falfa ac- 
cufação , e logo junto delle juiz efta- 
vam duas mulheres , que eram a Igno- 
rância, e Sufpeita , c a figura Calum- 
nia efíava mui afíeitada per mãos de 
duas moças, que tinha junto de fi^, cha- 
madas Traição, e Infidia , que eíprci- 
ta vidas alheias ; a qual Galumnia ef- 
tava mui furiofa , e indignada , tendo 
na mão efquerda huma facha de fogo 
ardendo , e com a direita tinha hum 
mancebo pelos cabellos , o qual com as 
mãos levantadas ao Ceo pedia a Deos 

foc- 



Apologia. 

foccorro ; e diante da Caliimnia hia 
hiima mulher já mui velha , disforme 
em figura , e torpe, e vil em habito, 
que via muito , chamada Inveja ; e hum 
pouco affaftada delia vinha huma mu- 
lher mui chorofa , cuberta de negras , 
e rotas veíliduras , que havia nome Pe- 
nitencia , a qual com o roílo virado 
para trás , e com choro , e vergonha 
olhava á Verdade , que vinha contr'ella 
hum pouco longe , e de vagar. Com a 
qual pintura , em que Apelles reprefen- 
tou todo o difcurfo de fua accufação, 
e as caufas delia , e a verdade fabida , 
não fomente foi julgado por innocente , 
mas ainda pela avexação, querecebeo, 
ElRey lhe mandou dar cem talentos, 
que da noíTa moeda poderão fer feíTen- 
ta mil cruzados, e aíH lhe mandou en- 
tregar o accufador por captivo. Nós 
porque não fomos accufado do aleive, 
que era pofto a Apelles , não efpera- 
mos a fatisfação, que lhe foi dada per 
ElRey Ptolomeu , fomente queríamos 
fatisfazer aos Maliciofos, e Gammnia- 
Tom. IK P. L *** do' 



Apologia. 

dores. Mas |X)rqiie per ventura ellcs 
não ficarão futisfeitos com cita pintura 
de Apelles , em que elle pintou os af- 
fedlos dos maliciofos per figuras huma- 
nas : ao contrario nelle papel pintare- 
mos a figura de hum animal , que tem 
os aíFcftos 5 e condição delles , per ven- 
tura pola conformidade que tem , lhe 
fera mais accpta que a de Apelles. Efte 
animal a maior parte do feu diftinto 
tem na ponta do nariz , e per faro 
quer raftejar^ e inquirir a verdade das 
coufas fem as ver , e latindo alta , e 
apreíTadamente, aíli affirma a mentira, 
como a verdade ; de maneira , que mui- 
tas vezes o Senhor delle enganado per 
feus latidos, chega mui canfado, cui- 
dando que lhe tem encovado hum coe- 
lho , e acha hum lagarto. Tem mais 
per condição ranger per inveja , ladrar 
per ódio , morder per vingança , e o 
que pcior he , que ninguém lhe fabe 
em que parte ha de aíTocegar, e quie- 
tar feu efpirito ; porque quando o quer 
fazer y anda em redondo , até que fe 

en- 



Apologia. 

enrofca á maneira de cobra ; e de elles 
nao terem certa cabeceira , diíleram os 
Gregos aqiielle Provérbio : Aos cães 
for demais he poer-lbe almofada por 
cabeceira, Eftes Cães (como S. Jerony- 
mo chamavM aos léus perfcgiiidoresj) 
fe lhe não contentar eíla cabeceira, que 
lhe fizemos pcra aíTocegarem de feiís 
ladridos, poios imitar tomem eftes nof- 
los , que lhe damos em refpofta ; di- 
zendo, que quanto ao roubo do tem- 
po 5 que elles dizem ler da obrigação 
do officio , não a elles , mas ao próprio 
oíficio pertencem os queixumes do tem- 
po , fe foíTe verdade que lho roubaíTe- 
mos ; mas pois elle os não faz , parece 
que lho não merecemos. E fe no mef- 
mo oíficio nao temos tanto fer , coma 
elles dizem que tiveram aquelles a 
que nós fuccedemos , não fera porque 
elle tiveíTe nelles mais do que tem em 
nós , mas porque elles tiveram delia 
mais do que nós tivemos, e a caufa fi- 
que pêra outro lugar, porque aqui não 
o fojffre o tempo fer manifefta. Porém. 



Apologia. 

refpondcndo ao que compete á noíTa 
parte , louvado Deos , chea temos a 
nofla obrigação , e nunca por ella Te- 
remos citado com juftlça ; pois nao fo- 
mente guardamos os regimentos , e leis , 
que nos a mefma cafa deo de como a 
haviamos de íervir, e eftendemos noíTo 
juizo 5 e poder a tanta parte , quanta 
ella quiz que tiveíTemos delia os dias 
feriaes , que sao feus , como fizeram 
aquelles, a que nós fuccedemos ; mas 
ainda os feftivaes , e noites , que sao 
devidas ao repouíb da humanidade , 
empregamos em a fervir em obras do 
mefmo fer deila , de que elles , nem 
outrem até ora lançou mão ; porque as 
três partes , em que confifte todo feu 
fer 5 eftado, e gloria , ordenamos em 
outras tantas de efcritura. A primeira 
(como no principio diíTemos) he efta, 
que trata da Milicia ; a fegunda a Geo- 
grafia do conquiftado , e defcuberto ; e 
a terceira do Commercio , que he o 
fim das duas. Pois fe por tomarmos 
cuidado náo fòmçnte de dar conta das 

cou- 



Apologia. 

coufas 5 que tocam ao Commercio da 
índia , e Guiné , como fizeram noíTos 
anteceíTores ; mas além defta parte ( per- 
dendo o fomno) tomamos eíloutro no- 
vo trabalho de c (breve r os Commenta- 
rios de fua gloria , e nome que tem 
acerca de todalas gentes , nos faz per- 
der os méritos do próprio oificio ; Deos , 
que julga as obras , e tenção de cada 
hum , julgue as nofias , pois o juizo 
dos homens ellá mais prompto em jul- 
gar a outrem ) que a fi mefmo. Porém 
contra aquelles, que mal íentem defte 
noíTo trabalho , iíío podemos affirmar : 
Que as obras, cujo fim he algum bem 
commum , paíTada a murmuração , fi- 
cam ellas vivas , e a memoria de feii 
Author, por mais dentadas que em vi- 
da lhe dem. E fe as materiaes tem ef- 
ta regra , que fera naquellas , per que 
(diz Tullio) paíTam as coufas, e ficam 
as efcrituras ? porque efta lei tem os 
bens do entendimento , nao ferem fu- 
jeitos a nenhum infortúnio , e os da 
Fortuna a muitos : da qual regra , que 

o tem- 



Apologia. 

o tempo tem moftrado per todo o feu 
difciirío y nos fica huma certa efperan- 
ça , (feja-nos licito gloriar de noíTos 
trabalhos, e não attribuido â arrogân- 
cia, polto que, como diz Valério Má- 
ximo, nao ha hi tanta humildade, que 
-nao feja tocada de gloria : ) que virá 
tempo , em que feremos julgado por 
homem mais zelofo , e diligente no 
cuidado do bem , e gloria da pátria , 
que da própria peíToa. Pois pola pá- 
tria , no tem^po que os outros cá , e lá 
andam a quem fe carregará de mais 
fardos ás coftas dos dcfpojos da índia, 
nós tomamos cuidado de levantar a 
bandeira dos triunfos delia , que eftes 
carregados leixáram jazer defampara- 
da ,. e efquecida com a occupação , e 
préíTa , que cada hum em fcu modo 
■traz de falvar a prêa , de que lançou 
ináo , por lhe mais importar o próprio 
inrereílc, que a gloria commum da pá- 
tria. A qual bandeira , mediante o ad- 
jutorio Divino, fcm favor, ou esforço 
íjc quem o podia dar, e nós o efpera- 

V4* 



Apologia. 

vamos 5 c fcm temor da artilheria dos 
juízos daquelles , que fempre encarou 
cm noíTa face , que muitas vezes fe fez 
vermelha com motes, e zombaria, que 
he hum peíUmo gciicro de injúria ^ nós 
cabeça baixa , e paciente , com o peito 
per terra como leal vaiTallo, fem o te- 
mor de tanta língua , nao defcançamos 
até a ter arvorada á vifta de todo Mun- 
do neftas quatro Décadas , que he o 
diícurfo de cento e vinte annos de hif- 
toria 5 melhor recebida de eftrangeiros , 
que approvada , e agradecida dos na- 
turaes. E pofto que já demos portefte- 
munha o próprio ofiicio, que fervimos, 
nao lhe fer em obrigação do tempo , 
que gaitamos nefta efcritura , e querem 
laber qual he logo o tempo , em que 
borramos tanto papel , como temos gai- 
tado nefta Obra, e cm outras, que já 
nos fahíram da mão: por lhe tirar efte 
efcrupulo do peito o queremos fazer, 
contando aquelle cafo , que efcreve Plí- 
nio aquecer a Furio Greíino Liberto, 
Efte Grefmo tinha junto de Roma hu- 

ma 



Apologia. 

ma pequena herdade, em que lavrava, 
c de que fe mantinha , c por lhe re- 
fponder com mais novidade do que 
haviam ieus vizinhos das grandes her- 
dades , que lavravam , movidos de in- 
veja , foi per elles accuíado, dizendo, 
que per encantamentos das proprieda- 
des alheias roubava as novidades pêra 
a fua. E como era lei das doze Ta- 
boas , que todo feiticeiro j e vencfico 
morreíTe ; quando veio o tempo , que 
elle Crcílno fe havia de aprelentar em 
juizo j a que era citado por efte cafo, 
levou comligo os bois , arados , enxa- 
das 5 e todo outro inílriuPiento de fua 
lavoura , c huma filha baroil , que o 
ajudava nefte trabalho. Perguntado clle 
pelo Juiz , que déíFe razão de fi acerca 
do que era accufado, diíTe : Eu ^ Se- 
nhor , não pojfo trazer aqui os dias , as: 
noites , e o Juor de meus trabalhos de 
todo o anno , fomente trago os infiru- 
mentos delles , que são ejies , que aqui 
aprefento , putdos , e gaftados de mi- 
nhas mãos 5 com os quaes eu encanto 

a mi' 



Apologia. 

a minha propriedade , e faço qiie me 
refponda com fruto. Se meus vizinhos , 
que me accufam , jizeffem outros taes 
encantamentos ás fuás propriedades , 
ellas lhe refponderiam como a minha 
faz a mim. Com a qual razão demon- 
ftrada á vifta , vendo o Juiz que a ac- 
cufação contra Crefino procedia de in- 
veja, o houve porabfolto delia. Senos 
também houveíTemos de trazer aqui as 
vigilias da noite , o não dormir féfta , 
nem paíTear pela cidade, nem ir efpa- 
recer ao campo , nem andar em ban- 
quetes , nem jogar, caçar, pefcar, e 
lograr outros paíTatempos , que leixa- 
mos de fazer por condição , e foíTemos 
com elles inftruínentos ante o Juiz de 
Crefino, per ventura abfolveria a nós, 
e condemnaria a quem nos accufa , po- 
ios achar comprehendidos em alguma 
delias coufas , que apontamos , ufan- 
do-as elles mais fobejamente do que 
convém á qualidade , e idade de fuás 
peíToas ; pois , fegundo a lei diz , con- 
vém á Republica , que cada hum ufe 

bem 



Apologia. 

bem de íí 5 c do feu. E íc o Juiz de 
Crefino não baítar para nos abíbiver, 
por ter potica authoridade , abíolvam- 
nos eftes Príncipes com a muita que ti- 
veram : Júlio Cefar com os livros da 
analogia da iingua Latina , e hum Poe- 
ma chamado Caminho , que compoz 
ambos fazendo dous caminhos de Itá- 
lia pêra França , e Hcfpanha , indo em 
andas ; e abíblva-nos Carlos Magno 
com huma Arte de Grammatica , que 
com.poz da Iingua Alemã ; c ablblva- 
nos o Papa Pio com a Geografia que 
fez, defculpando-fe por tratar daquella 
matéria , e não d'outra conforme a fua 
dignidade; e abfolva-nos ElRcy Dom 
AíFonfo de Gaílella com fuás Taboas 
dos movimentos dos Orbes celeftes , 
chamadas de feu nome Alfonfis, e com 
huma Geografia , que compoz de toda 
Hefpanha ; e abfolva-nos o Emperador 
Carlos Quinto com o feu Commenta- 
rio da guerra de Alemanha , e outras 
Obras 5 que ainda não fahíram á luz, 
poílo que a primeira vai intitulada em 



quem 



Apologia. 

quem lhe ferve de efcritor , e revedor 
delias 5 por o grande juizo , que tem 
em a cenfura da compoiíçao da HiJfto- 
ria. Pois ih eftes Principes , e outro 
grande numero delles , que leixamos 
de nomear , por nao fazer comprido 
catalogo , os quaes cm mageílade , 
potencia , cuidados , negócios , occupa- 
ções , e juizo diíFerem do noíTo fem 
comparação alguma, não perderam em 
compor as taes Obras o tempo de fua 
obrigação , e fe prezaram de o gaftar 
cm tinta, e papel, por moftrarem que 
tanto com elles partira a Natureza dos 
bens do entendimento, quanto a Fortu- 
na de fuás profperidades , e efte exer- 
cicio he a elles louvor de gloria ; em 
nós porque fera vitupério de infâmia? 
Porque não fomente eftes Principes em 
íi mefmo approváram prevalecerem ef- 
tes bens do engenho aos da Fortuna ; 
mas ainda em outrem o approvou , e 

I confirmou o Emperador Maximiliano, 
no que diíTe por Alberto Durero , que 
foi ora em noíTos tempos hum dos ex- 

I ccl- 



Apologia. 

ccllcntes dcbiixadores de roda Europa: 
O qual vindo muitas vezes ante elle 
com algumas obras , que lhe fazia, 
principalmente com hum pórtico, que 
nós temos , em que eftá toda a fua ge- 
nealogia , e feitos de guerra , que fez 
em íua idade , o Emperador lhe fazia 
muita honra , de que fentio elle , que 
algumas peíToas illuftres , que eram pre- 
fentes , motejavam diíTo , contra os 
quaes elle diffe : Sabeis vós-otitros por- 
que faço tanta honra a Alberto , por- 
qtie as partes , ^tie elle tem , por cujo 
refpeito a merece , deo-lhas Deos ^ e a 
Natureza , e de mim não tem alguma 
coufa , e vós-outros as que tendes são 
minhas y cd não me ctijidjlcs mais que 
ajjlnar hum pequeno palpei para vos 
dar o fer que tendes, E os Principes , 
que fazem honra aos hoxmcns, em que 
Deos poz alguma particular , e extre- 
mada graça , honram a Deos na hon- 
ra que lhe fazem j por fer obra fua ; e 
quando honram áquelles , que elles fi- 
zeram, Scam idólatras de fcus próprios 

fei- 



Apologia. 

feitos ; como o Imaginário , que feita 
a imagem , põc-fe em joelhos ante cila. 
Pois íe hum Emperador confeíTa , que 
pode fazer Duques , Condes , e dar 
grandes Eftados com allínar hum pe- 
queno papei 5 e não he poderofo para 
fazer hum Alberto pintor, quem tiver 
algum talento de Deos , ainda que não 
feja tal como o de Alberto, porque o 
não dará á ufura ? Cá perelle fera con- 
ftituido na outra vida em maiores bens , 
como fiel fervo , ( fegundo o Senhor em 
fen Evangelho promctte,) quando as 
obras fe ordenam em feu louvor, e pro- 
veito commum. E o galardão, que ha- 
verá nefta vida , fera , que fe o Author 
delias for ante Maximiliano Cefar , fe 
lhe não fizer a honra de Alberto , ao 
menos 'refpondcrá por elle áquelles , 
que o deíprezarem. E per efta maneira 
dá-fe a Deos o de Deos , e a Cefar o 
feu , e os Maliciofos ficarão confufos na 
maldade defeus argumentos. Qiianto á 
refpofta , que ainda devemos aos Pa- 
rentes j e Amigos por as culpas que 

nos 



Apologia. 

nos dam ; pcro que as fiias grandes 
admocltaçoes , com que nos quizeram 
caftigar, (feguindo nellas o intento do 
Mundo prcfente , ) pediam comprida re- 
fpofta , pedimos>lhe que nos hajam por 
cfculb delia , e cUes por pagos com eí- 
ta hiíloria, que Ariftoteles traz no pri- 
meiro livro de fua Politica , pois , per 
exemplos , vou ncfte modo de refpon- 
der a todos. O Filofofo Tales Milefia 
era mui zombado dos outros Filofo- 
fos 5 vendo que a Filofofia natural , a 
que fe elle dava , não era de muito ga* 
nho , e proveito. Tales por tirar efte 
opprobrio, e infâmia á Filofofia, ven- 
do per Aílrologia que o anno vindou* 
ro não havia de haver novidade de 
azeite , eífe pouco dinheiro que tinha 
deo em final de huma grande copia 
delle , que comprou ; e vinda a novi- 
dade, pola careftia delle vendeo o que 
tinha comprado por huma grande fom- 
ma de dinheiro , o qual a moftrou 
áquelles, que zombavam delle, dizen- 
do : Que a Filofofia Natural não lei-' 

xa- 



Apologia. 

xava de enriquecer aos que fe davam 
a ella , fcv.ão porque elles engeitavam 
as riquezas ; e com eíla demonllração 
animou muitos ao cftudo delia , e a fe- 
guircm a fua doutrina. Nos neíla noC- 
la inclinação, (ou como lhe cada hum 
quizer chamar,) pofto que não ícjamos 
Tales pêra faber o que eftá por vir , 
pelo paíTado per nós , e que paíTa cada 
dia pelas mãos, também poderíamos 
comprar do azeite , com que allumiaífe 
a mim , e a meus filhos , por não an- 
darmos tanto ás efcuras do Mundo co- 
mo andamos. Porém como efta clari- 
dade de azeite tem hum certo termo 
<le luz , que he até á fombra da mor- 
te , e mais por fer de azeite leixa ás 
vezes nódoas , que duram eternamen- 
te : quando apparecer hum Tratada 
noíTo intitulado das abusões do tempo, 
em que particularmente efcrevemos as 
noflas abusões , de que nos taxam , e 
as que vimos ufar ao meftno tempo, 
então fe verá fe permaneceo cada hum 
na vocação a que foi chamado ;, e fe 

lei- 



Apologia. 
leixoii a própria pola imprópria a feii 
eftado, oíficio, e habito. Porque como 
com efta authoridade de S. Paulo nos 
quizeram arguir , que leixavamos a 
obrigação de noíTo officio por efte de 
efcrever voluntário : A mefma authori- 
dade havemos de tomar por thema con- 
tra aquelles , que jazem neíta culpa , 
fem terem algum exercício provcitofo 
á Republica , ou íb o tem, fe leixam 
o mais polo menos. E também então 
fe verá porque imitamos ante a dou- 
trina de Tales , que o feu azeite , que 
he o voto de noíTos Parentes, e Ami- 
gos y cuja he efta refpofta. E verdadei- 
ramente Deos he teftemunha , que ne- 
nhuma deftas quatro fortes de efcanda- 
lo , a que refpondemos y obrou tanto 
em nós, que porelle recebeíTemos mais 
trabalho , que efte de refponder a to- 
das ; pêro não me poder aqueixar de 
hum certo género de peflbas , que não 
faliam bem , nem mal , no juizo das 
quaes nós tínhamos pofto o premio de 
noíTo trabalho , aqui fe perde toda a 

pa- 



Apologia. 
paciência fem a poder íoltar do ani- 
mo pêra fóra : por eíle calar dclles 
fer huma obra crua , c peílima , e de 
maior dor , e tormento , que fe pode 
dar a hum homem. E pois com calar, 
e outras coulas , a que nao ponho no- 
me por reverencia dos léus nomes , nos 
pagam nolTo trabalho , elle íó premio 
querem.os delle ante aquelles , que o 
accpráram de boa vontade, íaber, que 
tendo nós ante os olhos eftes defenga- 
nos, pode mais o amor da pátria, quç 
o feu galardão. E porque nós nao que- 
riamos dar, nem receber cfcandalo de 
alguém , nem menos ouvir queixumes 
de alguns , que em noiTa elcritura de- 
mos muito louvor a huns , e não tanto 
a outros , e que cm huma parte fomos 
largo, e em outra curto, e que efcre- 
vemos os bens , que cada hum fez , e 
não os males , e roubos ; e affi dizem 
outras palavras , a que propriamente 
podemos chamar faftios de gente en- 
ferma de doença de ingratidão ; pedi- 
mos por mercê a eftes enfermos ^ a que 
Tom.IKP.L **** nof- 



Apologia. 

nolTo trabalho não aprouve y que lhe 
apraza de nós perdoar o que até aqui 
tomamos por elles , cuidando de lhe 
fer apraíivel , e nós os nao enfaíliare- 
mos mais com outra efcritura noíTa. E 
náo nos hajam por homem , que não 
cumpre conifua palavra, pois no prin- 
cipio deita efcritura promettemos ef- 
crevcr as coufas y que elles fizeram em 
Europa, e Africa ; porque quando fiz 
a tal promeíTa , parecia-me que podia 
achar em meus naturaes aquella acep- 
taçao , que Lucilio achava nos fcus 
Cofentinos , e Tarentinos , pêra os 
quaes elle dizia fomente efcrever , e 
não pêra eftranhos. Mas pois meus na^- 
turaes com fuás palavras me defobrí- 
gam das minhas, nao me podem obri- 
gar pola lei da obrigação delias ; pois 
a mefma lei quer que nao haja obri- 
gação onJe não ha aceptação. E por- 
que neíla parte eftou mais obrigado 
aos eftranhos, que a elles, por lhe fe- 
rem meus trabalhos mais aceptos; pê- 
ra os ílicisfazer no que efperam dç 

mim, 



Apologia. 

mim, converto a minha penna a eíles, 
que me querem, efcrevendo a Geogra- 
fia de todo o Orbe defcuberto , e as 
gentes delle: Imitando nefte propofito 
a S. Paulo, ( fe he licito ufar das gran- 
des coufas pêra exemplo das pequenas ;) 
o qual vendo que os Hebreos feus na- 
turaes , a quem elle primeiro que ás 
outras gentes era obrigado denunciar 
o Evangelho, não o quizeram aceptar 
per elle , diíTe : Ecce convertimur ad 
Gentes. 



DE- 









:*-?Ttj<: »-?ft-A J»-jH-«g ^a-m-»^ a«-Jlt_«^ .M>^t_t£Ò>_y)ljLe.^t_yTt->t :»-^Tv->t M-JtI-JuSJ 



15 



DÉCADA (QUARTA, 
LIVRO I. 

Governava a índia Lopo Vaz 
de .Sampaio. 



CAPITULO I. 

Como foi aberta a fuccefsao de quem ha-* 

via de fucceder a D. Henrique de Me- 

nezes , e Je achou que Fero Mafcare- 

nhãs \ e for elle eftar aufente , fuc- 

cedeo Lopo Vaz de Sampaio, 




Epois que o Governador Dom 
Flenriquc de Menezes foi fe- 
pultado na Capella de Sant-Ia- 
go da Igreja de Cananor, on- 
de faleceo a 23 de Fevereiro 
do anno de i5'27 , como efcrevemos no ulti- 
mo Capitulo da Terceira Década , abrio o 
Secretario Vicente Pegado a íègunda fuccef- 
sao das três que levou á índia o Conde 
Almirante " D. Vafco da Gama , quando 
Tom. IV. P.L A foi 

a Foram ejlas as primeiras fuccefsÕes , (jue EIRey Dom 
João Viandou á Índia , a de Fero Ala/carinhas foi feita 
cm Évora a lo de Fevereiro de i j 24. 



2 ASlA DE JoAO DE Barros 

foi por Vifo-Rey daquelle Eftado , c nella 
fe achou nomeado Pêro Mafcarcnhas , que 
eftava em Malaca havia hum anno por Ca- 
pitão daquella fortaleza. Ficaram mui con- 
fufos com eíla nomeação os Fidalgos pre- 
fentes ; porque Pêro Mafcarcnhas não po- 
dia fcr avifido fcnão em Maio , tempo da 
monção , em que fe navega da índia para 
aquellas partes , c delias não podia eile vir 
á índia fenao na outra monção do anno 
feguinte : largo prazo para ter a índia o feu 
Governador aufente , quando eftava de guer- 
ra com os Reys de Calecut , e Cambaya , 
e com novas certas , que no mar Roxo apref- 
tava o Grão Turco Solimão huma Arma- 
da para deitar da Índia os Portuguezes , 
pelo que convinha tomar breve refolução 
nó modo do Governo. Efta dependia de 
vários pareceres ; porque muitos votaram , 
que fe nomeaííem Regentes que governaf- 
fem , cm quanto não vieífe Pêro Mafcare- 
nhas ; a outros pareceo que fe abriífe a ter- 
ceira fuccefsão , e que governaíTe quem nel- 
lá ykíÍQ nomeado , jurando folemnemente , 
que vindo Pêro Mafcarcnhas , lhe entrega- 
ria o Governo ; e que ao mefmo fe obri- 
gaíTem com fcmelhante juramento Affonfo 
Mexia Veedor da Fazenda , o Licenciado 
João de Ofouro Ouvidor geral, D. Sim.ao 
de Menezes Capitão de Cananor, D. Vaf- 

co 



Década IV. Liv. I. Cap. I. 5 

CO Deça , D. Henrique Deça , Riiy Vaz 
Pereira , António de Miranda de Azevedo , 
D. AfFonfo de Menezes , D. António da 
Silveira, Manuel de Brito , António da Sil- 
va , Lopo de Melquita , e Diogo de Mef- 
quita feu irmão , Diogo da Silveira , Ma- 
nuel de Macedo , D. Vaíco de Lima , Mar- 
tim AfFonfo de Mello Jufarte , D. Jorge 
de Menezes, D. Jorge de Caftro , Francis- 
co de Taíde , e outros Fidalgos que efta- 
vam prefentes. Contrariavam alguns cftevo- 
t to , c principalmente D. Vafco Deça , di- 
zendo , que abrir-fe a terceira fuccefsão , 
vivo o Governador nomeado pela fegunda , 
era contra o ferviço d'EiRe7, e fuás Pre- 
visões , e grande inconveniente , fabendo-fe 
tanto ante mão quem havia de fucceder ao 
Governador , que ainda não entrara no Go- 
verno ; e que o que o tiveíTe , o não que- 
reria largar a Pêro Mafcarenlias quando vieC- 
fe de Malaca , de que refultariam grandes 
difFerenças , e inquietações. Mas não appro- 
vando AíFonfo Mexia efte acertado parecer 
de D. Vafco , acabou com todos os mais 
Fidalgos , que a terceira fuccefsão fe abrif- 
fe ; caufa das difcordias , que depois houve 
na índia , que a ferem menos leaes os co- 
rações Portuguezes , paíTáram a huma guer- 
ra civil , com que aquelle Eftado fe perde- 
ra. Parece que lhe revelou o Efpirito os 
% A ii fu- 



4 ÁSIA DE João de Barros 

futuros dcfaíTocegos ao Governador D. Hen- 
rique de Menezes ; porque dous dias antes 
que morreíTe , por não faltar em coufa al- 
guma ao ler viço d'ElRey , fazendo huma 
prática aos Fidalgos fobre as coufas que 
tocavam ao Governo da índia , lhes diíFe , 
que porque poderia eílar aufente a peíToa 
que lhe houveíTe de fucceder , elle deixava 
nomeada outra em hum papel cerrado , a 
qual afíirmava , que tinha as qualidades ne- 
ceíTarias para governar , em~ quanto o íeu 
fucceíTor não vieíTe. Era efte Fidalgo Fran- 
cifco de Sá Capitão de Goa , a quem baf- 
tava a approvaçao do Governador para oc- 
cupar merecidamente maiores cargos. Mas 
eíla Provisão por refpeitos particulares não 
appareceo ; que íe fora viíla , e fe fizera o 
que D. Henrique nella deixava ordenado , 
por ventura que fe não arrifcára o eftado 
da índia , nem as partes principaes , e au- 
thores dos tratos cautelofos , que neíla no- 
meação houve , não foram depois accufa- 
dos, e caíligados. 

Determinados pois os Fidalgos que fe 
abriíTe a terceira fuccefsão , juraram todos 
como eftava aíTentado, que obedeceriam a 
Pêro Mafcarenhas , logo que vieíTe de Ma- 
laca , e não á peíToa que governaíTe pela 
terceira fuccefsão , a quem obrigariam que 
entregaífe o governo da índia a Peio Mat 

é ca- 



Década IV. Lrv. I. Cap. L 5' 

carenhas. Feito de nido hum auto pelo Se- 
cretario Vicente Pegado , em que todos aí^ 
íináram , abdo elle a terceira fucceísao '^ , na 
qual ElRey nomeava a Lopo Vaz de Sam- 
paio para governar a índia por morte de Pê- 
ro Ma fcarenhas ^ AíFonfo Mexia, a quem 
por razão de íeu officio roçava o cargo deC- 
tas ruccefsòes , com os OfKciaes , e peíToas 
que fe aciíáram nefte auto , fe partio para 
Cocliij , onde Lopo Vaz eftava por Capi- 
tão ; e chegados em breves dias áquella Ci- 
dade , lhe entregaram o governo da índia 
condicionalmente para elle a entregar a Pê- 
ro Mafcarenhas quando vieíTe , e aíli o ju- 
rou Lopo Vaz nos Evangelhos com toda a 
folemnidade , de que fe fez outro auto , que 
elle aílinou com os Fidalgos atrás nomea- 
dos , os quaes com novo juramento ratifica- 
ram o que juraram em Cananor. 

Ejitregue Lopo Vaz de Sampaio da go- 
vernança 5 a primeira coufa que fez foi dar 
a capitania de Cochij a D. Vafco Deça , 
fílho de D. João Deça , irmão de fua mu- 
lher , e defpachou a Jorge Cabral , (como 

D. 

a O Alvará defla fticcefsão de Lopo Va7, foi feito em 
Évora a 16 de Fevereiro de 524. 

b Francifco de Andrade diz , <^ue a fuccefsrio de Fero 
Mafcarenhas fe ahrio em Cananor , donde viera de Cochij 
Lopo Vaz de Sampaio com o avifo da morte de D. Henri- 
q:ie ; e que de Cananor fe foram todos a Cochij , onde fe 
abrio a fuccefsuo de Lopo Vaz. Cap. i. e 2. da Jeg. Farte, 



6 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

D. Henrique tinha mandado , ) para as Ilhas 
de Maldiva ás prezas das náos dos Mou- 
ros 5 que fugindo da cofta da índia com 
temor das noílas Armadas , intentaram aqiiel- 
la nova navegação , para de Cambaia , e do 
€Ítreito do mar Roxo irem, e virem a Ben- 
gala 5 e a Çamatra. Ficando eftes Capitães 
para AíFonfo Mexia os prover do neceíTa- 
rio 5 e irem fazer fuás viagens , Lopo Vaz 
fe partio logo com huma frota de fcte ve- 
las para ir correndo a cofta , e acabar de 
a alimpar dos ladroes que a infeílavam. Fo- 
ram os Capitães defta Annada D. Vafco de 
Lima na galé baílarda em que hia o Go- 
vernador , Manuel de Macedo , Henrique 
de Z\lacedo feu irmão , Diogo da Silveira , 
Manuel de Brito, Diogo deMefquita, Lo- 
po de Mefquita feu irmão , e António da 
Silva de Menezes , que era vindo de fon- 
dar a barra de Dio , onde D. Henrique o 
mandou , com cuja morte feneceram todos 
os apercebimentos, que elle apreftava para 
aquella empreza. 

Correndo Lopo Vaz de Sampaio a cof- 
ta , tomou Cananor , e alli recebeo cartas de 
D.Jorge Tello , e de Pedro de Faria, (que 
eftavam fobre a barra de Bacanor , ) com avi- 
fo , que tin]iam dentro encerrada Jiuma grof- 
fa Armada do Çamorij , a qual os Mouros 
íiefaziam amuitapreíTa para navegar a Cam- 
baia, 



Dec. IV. Liv. I. Cap. I. E II. 7 

baia ) ao que elles não poderiam reíiftir por 
fer grande o número dos navios , e gente. 
Lopo Vaz lidas as cartas , e confiderado 
o poder dos inimigos , e o pouco que le- 
vava , ( que não paíTava de fetecentos ho- 
mens 5 deípachou hum Catur muito ligeiro 
para Goa a chamar António da Silveira , e 
Chriftovão de Soufa , que com os feus ga- 
leões íe vieflem para elle , e os efperava na 
barra de Bacanor; e mandou a Manuel de 
Brito , que fe adiantaíle , e com o feu ga- 
leão fe foíTe juntar com D.Jorge, e Pedro 
de Faria, efcrevendo-Ihes , que procuraíTem 
não fahiíTe fora a Armada inimiga , em quan- 
to elle não chegava com a fua ; e proven- 
do-lè de mais baílimentos , e munições , par- 
tio para Bacanor. 

CAPITULO IL 

O Governador Lopo Va% de Sampaio com- 

metteo a Armada do Camorij , que ejia- 

va no rio de Bacanor , e houve dos 

Mouros huma grande vitoria, 

AVifado Cotiale Capitão mor da Ar^ 
mada Malavar da partida do Gover- 
nador de Cananor , e que hia com tenção 
de pelejar com elle , não fe atrevendo a ík- 
hir do rio de Bacanor com temor dos três 
galeões que eíhvam fobre a barra , deter- 

mi- 



^ ÁSIA DE João de Barros 

minou de o efperar em terra , onde lhe pa- 
receo que tinha a vitoria certa , íe nella o 
quizeílem coinmetter. Para o que fe aper- 
cebeo , retirando os íeus navios quanto po- 
de pelo rio dentro , para lhe nao poderem 
chegar os noffos ; e de Jiuma , e de outra 
parte do rio mandou fazer grandes , e for- 
tes tranqueiras de madeira , terraplenadas , 
com que eftreitou muito o canal , e nellas af- 
fentou muita artilheria , para que não paíTaf- 
fe embarcação fem perigo certo de fer met- 
tida no fundo \ e de tranqueira a tranquei- 
ra atraveíTáram viradores grolTos cubertos de 
agua 5 em que encalhando as embarcações , 
entezando-os , foçobraíTem. 

Lopo Vaz chegado a Eacanor , depois 
que foube que os Mouros eílavam bem for- 
tificados 5 e que feriam mais de dez mil , 
determinou de entrar o rio , e pelejar com 
elles 5 poílo que lho contrariaram os Capi- 
tães 5 reprefentando-lhe grandes difficulda- 
des j as quaes nao o mudando de feu pare- 
cer , quiz reconhecer per íi mcfrno a for- 
tificação dos inimigos , não fe confiando de 
outrem. E aííi o dia feguinte antemanhã , 
por fazer bom luar , com três catures ; clle 
em hum , e nos dous Paio Rodrigues de 
Araújo de Barros , e Manuel de Brito Ca- 
pitães mui esforçados , que foram de voto 
que pelejaíTem ^ entrou pelo rio dentro , e 

per 



Década IV. Liv. I. Cap. II. 9 

per huma chuva de pelouros da artilhcria 
das tranqueiras que os Mouros , lèntindo os 
catures , diíparáram ibbre elles , foi o Go- 
vernador reconhecendo tudo , e íem darnno 
algum voltou com igual perigo. E porque 
Paio Rodrigues cortara á entrada hurn dos 
viradores , que das tranqueiras eilavam atra- 
veffados , mandou Lopo Vaz cortar todos 
para deíimpedir o caminho ás noíías em- 
barcações. E labendo que naquclles dez , ou 
doze mil homens , que alli eilavam para de- 
fender os paraos, havia alguns cinco mil na- 
turaes da terra , e cila era d'EiRey de Nar- 
íinga 5 que tinha paz , e amizade com El- 
Rey de Portugal , mandou dizer a eííes , 
que fe efpantava tomarem arm.as contra os 
Portuguezes em defensão de feus inimigos ; 
que elle lhes requeria da parte de ambos os 
Reys 5 e por a paz que tinham afíentada , que 
fe apartaíTem daquella g(^ntQ , porque deter- 
minava de a ir cailigar , e nao queria oífen- 
dellos a elles , pois os tinha por amigos. Ao 
que refpondéram , que não efcava em razão 
defampararem huns homens , que fe a elles 
acolhiam ,6 quQ muito mais oífenderiam a 
ElRey feu Senhor em os defamparar, que 
em offender a quem algum darnno , e mal 
lhes quizeíTe fazer. Eílas , e outras diligen- 
cias fez Lopo Vaz de Sampaio primeiro 
que commetteíTe aquelie feito. O qual poílo 



ic ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

fegu nda' vez em Confelho , foi mui contra- 
riado , pondo-lhe muitos inconvenientes , 
hum dos quaes , c o mais importante era fer 
aqueLia terra d^ElRey de Narfinga. E pof- 
to que elle tivefle feito aquelle cumprimen- 
to com os feus naturaes , como dizia , re- 
cebendo elies algum damno , ficavam os Por- 
ruguezes , que eílavam em Narfinga , arriC- 
cados a lançar EIRey mao per fuás peílbas , 
e fazendas ; e neíla fua fahida cm terra nao 
iè ganhava mais que tomar huns poucos de 
paraos , e de pimenta. E que não era fer- 
viço d'EiRc7 portão pouco intereíTe aven- 
turar tanta nobreza de gente , e a frol da 
índia , que alli eílava. Não fe fundava efte 
voto em covardia , (que bem entendiam os 
que o davam , que coufas maiores podia em- 
prender o Governador , e os Capitães que 
o acompanhavam , ) fenão em inveja do va- 
lor de Lopo Vaz de Sampaio , cujos ému- 
los eram muitos delles , prefumindo pela opi- 
nião que tinham de íi , que puderam fer 
nomeados por SlPvcy , como elic , para o 
governo da índia ; e querendo impedir a 
reputação , que Lopo Vaz poderia ganhar 
naquella emoreza , fe lhe fuccedeífe bem , 
defprezavam a gloria particular , que da- 
quella vitoria , como foldados , lhes podia 
caber. Lopo Vaz como era valerofo , e de 
grande animo , parecia-lhe fraqueza . e me- 
nos 



Década IV. Liv. I. Cap. II. n 

nos cabo da fua opinião , que com os Mouros 
queria accrcfcentar , lúo commerier aqueiie 
feito para que alli viera , e partir-fe íèm 
vingar as mortes , c perdas , que os Ponu- 
guezes daquelles Mouros recebiam. E co- 
mo os que eram de voto que não peicjaf- 
fe , eram mais que os do contrario parecer, 
não iè reíolveo té a vinda de António da 
Silveira , e Chriftovao de Soufa , que foi da- 
hi a dous dias ; cujos pareceres lendo con- 
formes com o feu , e feguidos quaíi de to- 
dos , que pela authoridade deíles dous Fi- 
dalgos fe retrataram , teve Lopo Vaz por 
mui certa a vitoria dos inimigos , e fe de- 
terminou de fahir logo em terra , o que or- 
denou defta maneira. Daquelles bateis gran- 
des 5 e mantas , que D. Henrique tinha pa- 
ra commetter Dio , mandou concertar três 
com artilheria bem ordenada , e em cada 
hum poz cem homens , para que de huma 
chegada á terra lançarem nella trezentos ; em 
bargantijs hiam outros trezentos foldados ; e 
os Capitães dos bateis , que haviam de ir di- 
ante, eram Manuel de Brito, e Paio Rodri- 
gues de Araújo : o Governador os havia de 
feguir, rodeado de huma ilharga, e da ou- 
tra dos outros navios de remo , nas quaes 
embarcações hiam té mil homens Portugue- 
1 es , a fora os Canarijs , e Malavares que 
remavam. Os Mouros dentro do rio , on- 
de 



12 ÁSIA DE João DE Barros 

de a terra fazia huma ponta , que ficava em 
lugar de baluarte para defender a paííagem , 
tinham foiro huma cerca de pedra , e taipa, 
bem entulhada , e rebatida , que daria pe- 
la barba a hum homem , e em três cftan- 
cias delia puzeram artilheria , que jogava 
a través huma da outra ; e diftancia de fe- 
te palmos entre o lugar , onde os noíTos 
poderiam defembarcar , e as eílacadas , ti- 
nham feito outra eftacada , e de huma a ou^ 
tra eftava atraveíTada huma viga ao lume 
d'gua , que não foíTe viíla , e por baixo hum 
virador , para embaraçar , e trabucar os nof- 
fos bateis , quando alli foíTem ter. Sendo 
Lopo Vaz fabedor defte artificio , ordenou 
hum Catur mui pequeno , que foíTe diante , 
e áé[[c aviíb aos dos bateis , que haviam 
de ir na dianteira , que não dclpáraíTem a 
artilheria , e que elle poria o roílo a huma 
parte , como guia , para furtar a volta aos 
Mouros , e defembarcar em outra parte nao 
cuidada delles. lílo aíTi ordenado , commet- 
têram os inimigos ao outro dia pela manha , 
partindo Lopo Vaz com grande eftrondo , 
e grita de toda a gente , e com o remo tão 
tezo , como quem hia ganhar algam pario ; 
e permittio Deos que nao foram os peri- 
gos 5 que paiTáram tão grandes , como fo- 
ram 03 medos , c difficuldades , que no Con- 
felho fe puzeram , principalmente quando 

che- 



Década IV. Lrv. L Cap. II. 15 

chcgárdm ao baluarte ; porque ainda que 
clle defcarregou lua artilheria , como as nof- 
ias embarcações eram guiadas pelo Catur, 
paíTáram com muito menos perigo , e foram 
demandar eíle baluarte per outro lugar, que 
3ião tinha través , nem os embaraços referi- 
dos. Neíle tempo defpcdio o Governador 
a Pêro de Faria para queimar os paraos , 
que eftavam diante , e António da Silveira 
per hum lado , e o Governador per outro ; 
e Manuel de Brito , e Paio Rodrigues de 
Araújo diante ás lançadas , e efpingardadas , 
dando Sant-lago nos Mouros , os fizeram 
retirar da guarda dos paraos , com que Iiou- 
ve lugar para os queimar. Foi efíe feito tão 
pelejado de huma , e outra parte , que dos 
noíTos morreram quatro Portuguezes , e fo- 
ram feridos oitenta e cinco \ e os paraos 
dos inimigos , que eram fetenta e tantos, 
foram queimados , e tomada toda a arti- 
liíeria do baluarte , e tranqueiras , que eram 
mais de oitenta peças , algum.as de bronze. 
No lugar não quiz Lopo Vaz que tocaííem , 
por fer d'ElRey de Narfinga , e aíli o ti- 
nha mandado aos Capitães. E pofto que el- 
le havia amoedado aos do lugar , que fe 
aífaílaíTem daquelle perigo , os que nelle en- 
traram , também levaram boa parte nos mor- 
tos j e feridos : dos outros fe não foube o 
número \ mas fegundo a coufa foi pelejada , 

de- 



14 ÁSIA DE João de Barros 

devia fer grande ; porém o de que fe teve 
noticia foi ferem mortos alguns homens no- 
bres de Calecut , por os quaes na Cida- 
de houve grande pranto : o que o Çamo- 
rim muito fentio , por fer eíla notável per- 
da fobre as outras , que tinha recebido. A 
peífoa aífmalada dos Portuguezes , que nef- 
ta peleja correo maior riíco foi D. Jorge 
de Menezes , a quem fe alagou o batel , 
em que hia com toda a gente ; e como el- 
le não fabia nadar , e hia armado ^ andou 
debaixo da agua bebendo muita , té que lhe 
acudiram outros bateis , e o falváram. 

CAPITULO III. 

Como Lopo Vã% de Sampaio chegou a Goa , 

e foi recebido nella por Governador da 

Índia , e das Armadas que fez, 

H Ávida eHia vitoria em Bacanor , partio 
o Governador Lopo Vaz de Sampaio 
para Goa ; e entrando pelo rio de Pangin , 
Francifco de Sá Capitão da Cidade , per con- 
felho dos Ofliciacs da Camará , lhe mandou 
requerer , que não paíTaíTe dal li , porque o 
não havia de receber como Governador da 
índia 5 pois o não era , por fer deito por 
liomens , que para iíío não tinham poder , 
e não por ElRey , nem pelo fcu Governa- 
dor, e que Pêro Mafcarenhas era o Gover- 
na* 



Década IV. Liv. I. Cap. III. 15^ 

nsdor 5 e em fua ínifcncia ellc Francifco de 
Sá 5 que fora nomeado por D. Henrique de 
Menezes , como atrás eícrevcmos , e que 
quizeíle para os outros o dirciro que quiz 
para íi. Porque morrendo o Conde Viío- 
Rey , deixou nomeado aelleLopoVaz poD 
Governador da índia , té vir a peíToa , que 
ElRey mandava , que o fuccedeííe , o que fe 
cumprio "" \ eaíli que agora guardaíle a meí- 
ma Jei , e deixaíTe governar a elle. Deíle re- 
querimento fez Lopo Vaz pouca conta , e 
foi-íe pelo rio acima té chegar ás portas da 
Cidade 5 fem lhas quererem abrir. E depois 
de muitas altercações confentio Francifco de 
Sá no que a Camará quiz, que já eílava de 
outro parecer , intervindo niíTo Chriftováo 
de Soufa • e aíTi foi Lopo Vaz de Sampaio 
recebido naquella Cidade como Governador. 
Começou logo a entender nos negócios 
do Governo ; e a primeira coufa que fez foi 
pôr huma náo da carreira de Malaca, (que 
António da Silva de Menezes tinha cem as 
roupas , que fingidamente D. Henrique man- 
I dou bufcar a Dio,) mandar recado a Pêro 
Mafcarenhas da fua fuccefsao no Governo da 
índia 5 a qual nova lhe era já mandada per 
duas vias , como adiante fe dirá. E porque 
Francifco de Sá , que eftava por Capitão em 
, Goa 5 quando partio de Portugal com o Con- 
I de 

o Década 3. Jiv. 9. cap. 2. 



i6 ÁSIA DE João de Barros 

de Almirante levava Provisão para ir a Sun- 
da fazer nelia huina fortaleza , tirou-lhe Lo- 
po Vaz a capitania de Goa , e deo-a a An- 
tónio da Silveira de Menezes , ( que tinha 
deípofado com D. Mecia lua fillia , ) o qual 
eílava provido da capitania de Çofala , que 
dcíie Reyno levou , mas não entrava ainda 
nella ; e a Franciíco de Sá mandou dar dous 
galeões , huma galé , huma galeota , liuma 
caravella , e hum bargantim com quatrocen- 
tos homens , e todos os baílimentos , e mu- 
nições neceílarias para a Armada, e Forta- 
leza que hia fazer. E a D. Jorge de Mene- 
zes 5 que fieira provido da capitania de Ma- 
luco pelo Governador D. Henrique , defpa- 
chou para ir entrar nella com dous navios, 
e cem homens ; e em fua com.panhia a Si- 
mão de Soufa Galvão filho de Duarte Gal- 
vão , que havia de fervir de Capitão mor 
do mar de Maluco "". Fez mais o Governa- 
dor outra Armada de quatorze vélas , de 
que hia por Capitão mór António de Mi- 
randa de Azevedo para andar em guarda da 
cofta da índia, e impedir as náos do eílrei- 
to de Aleca levarem pimenta. E para guar- 
da dos ladroes , que andavam em Coroman- 
del , fez outra x4rmada de nove veias , de 

que 

a Efle cargo dd Capitão mór ão mar de Maluco n~/o fir- 
vio Simão d:: Soufa y por fer pouca fatisfã cão de fetts fervi- 
ços , e ficou em Malaca , 6 acompanhou Fero MajCareniias 
na tomada de Bimam. 



Década IV. Liv. I. Cap. III. 17 

que foi por Capitão mor Manuel da Gama , 
o qual com ella alimpou aquelJa coíla de 
CoíTairos Malavarcs , que nella andavam , 
e cobrou toda a fazenda de huma náo nof- 
fa muito rica , que ciles ladroes tomaram 
emPaleacate, com morte de oito Portugue- 
zes. E aíli deo três navios a Ruy Vaz Pe- 
reira , com que foíTe a Bengala andar ás pre- 
zas ''. E por Lopo Vaz ter recado das dif- 
ferenças , e difcordias , que havia entre EI- 
Rey de Ormuz , e Raez Xarafo , e o Ca- 
pitão Diogo de Mello , e íer chamado por 
ElRey , com os mefmos queixumes , que 
já tinha enviados a D. Henrique de Mene- 
zes 5 determinou de acudir a apaziguar aquel- 
las revoltas antes que vieííem a mais. Náo 
havendo por inconveniente , tendo efpalha- 
do tantas Armadas , deixar a índia , e ir a 
Ormuz , fazendo elle poucos dias atrás re- 
querimento a D. Henrique , que lá nao fof- 
fe por ElRey o defender aos Governadores , 
TomAK P.L B co- 

a Saiendo Lopo Vaz , que Jor^^c Cahraí era partido para 
AIníaca , ynandoti Aíartim Affonfo de MeiIo Jnfarte ás Ilhas 
de Maídiva com huma Armada de cinco fiiflas , e huma ca^ 
ravella y com a gual fe pox Martim Affonfo de Atei/o em 
hum dos Canaes daquellas Ilhas , dijlrihuindo asfnjlas pelos 
outros , e nelle topou huma não de Rumes , que hia de Tj- 
naqarim para Meca , que levava trexentos foUlados , e mui" 
ta avtHheria : pelejou com ella Aíartim AJfonfo ; e depois 
de huma porfiada hatalha , que durou todo hum dia , a to- 
mou com morte de todos os Rumes. Fernão Lopes de Cafta- 
TiheUa //v. 7. í:. 5. e Diogo òo Couto Dec. 4. Hv. i. cap, 6. 



i8 ÁSIA DE João DE Barros 

como no precedente Livro eícrevemos. E aíH 
fendo vinte dias de Março , em que a mon- 
ção era quaíi gaitada para navegar áquellas 
partes de Ormuz , partio mal acompanha- 
do 5 e como náo convinha á dignidade do 
feu cargo ; porque levou pouco mais de tre- 
zentos Ibldados em cinco velas , que eram 
huma gale baftarda , em que elle foi , e por 
Capitão delia D. Vafco de Lima , e três ga- 
leões 5 de que eram Capitães D. Aíronfo de 
Menezes , Manuel de Macedo , c Manuel 
de Brito, e hum bargantim para ferviço das 
outras velas , cje que era Capitão João Ra- 
mires , que também era Capitão da guarda 
do Governador. 

CAPITULO IV. 

Do que aconteceo a Lopo Vaz de Sampaio 

na viagem de Goa a Ormuz , e do que 

fez naquella Cidade» 

SEndo a partida de Lopo Vaz de Sampaio 
fora de monção , pailbu muito trabalho 
com as calmarias ; e por as aguas correrem 
muito para Ceilão , andou alli mais de oito 
dias fem os Pilotos faberem onde eftavam 
por navegarem per rumo de Lefte a Oefte , 
em que fe não conhece a diíferença da al- 
tura de Norte a Sul : finalmente o negocio 
chegou a tanto , que por terem gaftada a 

agua, 



Década IV. Liv. I. Cap. IV. 19 

agua , veio a gente a adoecer , c morrer , e 
muitos conílrangidos da neceíTidade bebiam 
agua falgada , e para a adoçar lhe iançavam 
muito açúcar , com que m.ais fe lhe incita- 
va a lede. Com eiic trabalho chegou aCa- 
Jaiate , que cíld nn coda da Arábia , e he 
do Reyno de Ormuz , onde a gente que hia 
bem enferma tornou ás íuas forças com a 
agua frefca. E por efta viagem , que Lopo 
Vaz fez per cila Villa de Calaiate , e pela 
de Maícate , tornaram ellas á obediência d'El- 
Rey de Portugal, cftando levantadas contra 
clíe; eacaufa do levantamento era ter Dio- 
go de Mello Capitão de Ormuz prezo a 
Raez Xarafo Guazil d'ElRey de Ormuz por 
paixões , que procediam mais de particula- 
res intereíTes de Diogo de Mello , que do 
ferviço delRey ; ibbre as quaes efcrevêram 
ElRey de Ormuz , e Raez Xarafo a D. Hen- 
rique de Menezes ; e refpondcndo elle ás 
faas cartas , efcreveo a Diogo de Mello , 
que trataUe bem a Raez Xarafo •, e entre ou- 
tras palavras lhe diíTe , que lhe pedia fe hou- 
veíTe naquelles negócios temperadamente, e 
náo déiTe occafiao que os feus trinta annos 
foíTemx a Ormuz a emendar os feílenta delle 
Diogo de Mello. Deílas palavras fe fentio 
Diogo de Mello , e receava muito que Dom 
Henrique foíTe a Ormuz ; e como o vic mor- 
to , cfcandalizado do que Raez Xarafo lhe 
B ii po- 



20 ÁSIA DE João DE Barros 

poderia cfcrcver , pcrquc obrigou a D. Hen- 
rique efcrcver-lhe aquellas palavras , confiado 
no parentcfco que tinha com o Governador 
Lopo Vaz , o mandou prender. E bem fe 
vio proceder a prizao deíla ca ufa ; porque 
chegado Lopo Vaz de Sampaio a Ormuz 
aos trcs dias de Junho , em poucos , todas 
as difFerenças , epciixder, fe apaziguaram , fi- 
cando Raez Xarafo iblro , c reítituido a feu 
Guazilado ; o qual , como prudente , e lagaz 
que era , como íoube que Diogo de Mello 
era parente de Lopo Vaz de Sampaio , e 
favorecido dclle , cefTou de feus queixumes. 
Mas a fazenda delRey de Ormuz veio a pa- 
gar todas as paixões ; porque Lopo Vaz con- 
tentou-fe de arrecadar fcíTenta mil pardaos , 
que devia dos annos paíTados das páreas ^ e 
dez mil de huma náo de preza , que man- 
dou vender. Deo eíia venda matéria de mur- 
murações , c muito mais a arrecadação da 
fazenda que ella trazia. Tomara efta náo no 
cabo de Guardafú Francifco de Mendon- 
ça , (a quem o Governador levou na fua com- 
panhia a Orm.uz , achando-o na aguada de 
Teive 5 quando por alli paíTou , ) Capitão 
de hum galeão da Armada deEitor da Sil- 
veira " , com a qual o mandou ao eílreito 
do mar Pvoxo D. Henrique de Menezes , de 

cuja 

rt A vlcií^em y e Jucceffos dcjia Armada de Eitor da Sí'U 
veira ejcfeveo João Ue Barros yia Dec. 3. Uv. 10. cap. i. 



Dec. IV. Liv. I. Cap. IV. E V. 21 

cuja morte fendo clle ílibedor em Mafcate , 
e que governava Lopo Vaz de Sampaio , fe 
veio a Ormuz, aonde chegou aos 26 de Ju- 
nho , trazendo com.íigo a Zagazabo Embai- 
xador do Prefte João , e a D. Rodrigo de 
Lima 5 que na lua Corte , e Reyno eítivera 
feis annos por Embaixador delRey de Por- 
tugal 

CAPITULO V. 

Como Eitor da Silveira foi a Dio , e da 
que alli pajjou com Melique Saca , e do 
que ordenou o Governador com as no- 
vas da Armada dos Rumes, 

DEpois que Lopo Vaz de Sampaio rece- 
beo ao Embaixador do Prefte João com 
a honra que lhe era devida , e o mandou 
agazalhar , e prover mui largamente do ne- 
ceíTario , como fez tempo , (o que foi no 
mez de Julho daquclle anno de 1^26,) lo- 
go defpedio a Eitor da Silveira para que 
fe foíTe diante delle lançar á ponta de Dio 
a efperar alli as náos que hiarn do mar Ro- 
xo a Cambaia. Nefta paragem tomou elle 
três náos groífas , das quaes as duas abalroa- 
ram Manuel de Macedo , e Henrique de 
Macedo , ambos irmãos , e aíli tomou tam- 
bém hum Zambuco ; e por elle fer o pri- 
meiro da preza , dcfpejado da fazenda, o 

met- 



zz ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

iiiettco no fundo , e com as três náos fe veio 
eiperar o Governador a Chaul. E porto que 
deftas náos muitos homens fe aproveitaram 
bem 5 renderam mais de fetenta mil parda os 
para ElRey , e partes. E Eitor da Silveira 
não fomente ganhou muita honra no modo 
de as tomar , mas moftrou muita limpeza 
de fua peflba na entrega delias aos officiaes 
d'ElRe7 cm Chaul. 

Cinco dias depois defta entrega chega- 
ram duc-^s Atalaias de Dio com cartas de Me- 
liquc Saca Capitão daquella Cidade , filho 
do nomeado Aielique Az , que já era fale- 
cido ; huma das cartas era para o Governa- 
dor, e outra para Chriftovao de Soufa Ca- 
pitão de Chaul , pedindo-lhe , que mandaife 
a elle hum homem de authoridade para fal- 
lar com elle coufas que importavam muito 
ao fervico delRey de Portugal ; c que da 
fua parte lhe requeria que foíle mui em bre- 
ve ; e entretanto mandaífe a outra carta ao 
Governador , para prover no mcfmo nego- 
cio em prompto , tanto que elle foubeíTe per 
a peíToa que lá mandaííe a importância do 
cafo 5 por não fer de qualidade para o eC- 
crever. Confultada a prelTa dcrte Mouro en- 
tre Chrirtovao de Soufa, e Eitor da Silvei- 
ra , e com os Capitães das náos que hi ef- 
tavam , aílentáram , que Eitor da Silveira fe 
devia ver com Mcliquc Saca j porque não. 

po- 



Década IV. Liv. I. Cap. V. 23 

podia deixar defer algum grande myfterio , 
e coufa mui importante ao Ibrviço d'ElRey 
de Portugal , pois aquelle Capitão a reque- 
ria com tanta iníkncia , e com proteftos. Ei- 
tor da Silveira íè partio logo no galeão de 
Manuel de Macedo , levando mais dous bar- 
gantijs ; e chegado a Dio teve prática com 
Melique Saca , o qual por moítrar que o 
não mandara chamar fem caufa , começou 
de lhe contar hum grande proceíTo de hií^ 
torias verdadeiras com artificio , para com 
ellas encubrir fuás mentiras. Foi a hi floria 
dizer-lhe, que elle o mandara chamar por 
fugir á ira d^ElRey feu Senhor , que era tão 
cruel , que matara já a feu próprio irmão , 
a quem vinha o Rcyno per ligítima fuccef- 
são 5 e aíli matara muitos homens notáveis , 
mais por lhes roubar fuás fazendas , que por 
culpas algumas. E porque da Corte lhe ti- 
nham efcrito peíToas do Confelho Real , que 
fe guardaíTe d'ElRey , porque determinava 
de ir contra elle , e tirar-lhe a vida , e tomar- 
Ihe a fazenda ; que antes que vieíTe aqueila 
hora , elle determinava de entregar a Cida- 
de de Dio ao Governador da índia , e fa- 
hir-fe delia a povoar huma Ilha junto da pon- 
ta de Jaquete , que diftavá dalli 35' léguas , 
por fugir da morte , que lhe aquelle tyran- 
no queria dar fem caufa ; e que a entrega 
da Cidade faria ao Governador com tal con- 
di- 



24 ÁSIA DE JOAO DE BaRROS 

dição 5 que clle houvcíTe a metade dos di- 
reitos que rendeííe aqucJJa Alfandega emfaa 
vida. E porque iílo nao fe podia fazer fenao 
com o Governador prefente , que lho devia 
mandar dizer , e que mandaífc mais gente 
para fe eíle negocio fazer íem alvoroço do 
povo da Cidade. Eitor da Silveira , fegun- 
do vio a moftra que Aíelique Saca dava 
da indignação que tinha contra ElPvey , e 
das cruezas referidas , que ufava no Reyno , 
parecia-lhe que tinha a Cidade de Dio nas 
mãos 5 c efcreveo logo a I.opo Vaz de Sam- 
paio per Manuel de Macedo , que enviou 
cm lium dos bargantijs , que lhe mandaííe 
mais gente , e navios , porque Melique Saca 
eftava para lhe entregar a Cidade ; e nao Jhe 
quiz dizer de elle Governador haver de ci- 
tar prefente , como Melique pedia , pare- 
cendo-lhe que elle per fi fó faria ifto , e ga- 
nliaria a honra daquelle negocio. E por Lo- 
po Vaz eílar já em Chaul da volta de Or- 
muz , mandou-lhe o galeão S. Rafael , de 
que hia por Capitão Fernão Rodrigues Bar- 
ba com duzentos homens , e Gonçalo Go- 
mes de Azevedo em hum navio com cineo- 
.enta. 

A tenção deíle Melique Saca em efcre- 
ver a Chriílovão r!e Souía , e o Governa- 
dor , nao foi maic que para haver algumas 
velas noíFas com gente, para ElRey Badiír 

de 



Década IV. Liv. I. Cap. V. 25: 

de Cambaia fufpeitar e]uc. queria dar a Ci- 
dade de Dio aos Porruguezes ; e tomando 
diíto algum receio , aíTentar elle com Badur 
fcus negócios á fua vontade. E aííi fe fez , 
porque Meliquc entreteve a Eitor da Silvei- 
ra mais de quarenta dias , no qual tempo 
ElRey foi avitado , que o Capitão mor do 
mar eílava na barra de Dio , e^o Governa- 
dor em Chaul , e tinlia prática com Meli- 
que , com a qual nova lhe concedeo EiRcy 
todos os feguros , e mais ccufas que lhe pe- 
dio 5 com que ficou farisfeito por então. E 
porque neíles tratos deo Melique a enten- 
der a Eitor da Silveira , que convinha re- 
lirar-fe elle hum pouco para Chaul para fo- 
cegar o alvoroço do povo caufado de o 
verem alli furto tanto tempo ; Eitor da Sil- 
veira dando diílo conta ao Governador , com 
ordem faa fc foi para Chaul. E não quiz 
Lopo Vaz que elle tornaíTe a Dio , enien- 
dendo fer tudo artificio de Melique j o qual 
depois de Eitor da Silveira eilar em Goa , 
teve poder para o fazer tornar lá com. im- 
portunações ; mas tudo foi em vão. E a cau- 
fa , e o que eftas negociações cuíláram depois 
a Melique Saca fe dirá adiante , quando tra- 
tarmos da vida , e feitos de Soltam Badur. * 

E 

a Francifco tíe Anãraãe refere ejh cnfo dij^erentemcnte , 
forcj-.ie efcreve , (jtie Lopo Vaz de Sampaio foi duas vex.es a 
Onmix '• a primeira , de que trotou João de Barros no Ca^ 
piíiih pagado ; e dajegunda não /àx, mín^ão nenhum outro 



26 ÁSIA DE João DE Barros 

E porque pelos Mouros que Eitor da 
Silveira tomou nas náos da preza que vi- 
nham de Meca , e per outros meios , foube 
Lopo Vaz que os Turcos tinham huma Ar- 
mada no eíireito do mar Roxo , e efpera- 
vani de vir á índia no tempo da primeira 
monção ; mandou repairar a fortaleza de 
Chaul 5 levantando a torre de homenagem ; 
e aííi mandou a João de Gá em hum bar- 
gantim a Adem a iaber nova dos Rum.es , 
o qual poz nifib tanta diligencia , que tor- 
nou com recado certo , que eílavam na Ilha 
de Cam.aram fazendo huma fortaleza. Com 
efta nova defpedio logo o Governador hum 
navio para Portugal , de que fez Capitão 
Francilco deMendoça 5 com cartas a EJRey 
como íe efperavam os Turcos , e o ellado 
em que ficava a índia , e como elic a go- 
vernava em aufencia de Perc Mafcarenhas ; 
mas Francifco de Mendoça nao veio a efce 
Reyno antes que as náos do an:io feguin- 
te partiííem de cá. Defpachou também o na- 
vio 

Author , fenão Francifco ãe Andrade , o qual dit, , que tor- 
nando Lopo Vaz ejhí fe^^ufida vez de Ormuz em Afro/lo de 
1528, -palJára de noite por defronte de Dio ; que [abendo-9 
Melique Saca , lhe mandara em liumajujia huma carta , pe- 
dindo-lhe que q:iÍT^e[}e voltar a Dio para lhe fazer hum gran- 
de fervi qo y [que era a entrec;a daquella Jb'talezo) defeja- 
do , e procurada de todos os Governadores paffados , e que 
Lopo Vaz. lhe mandara em (eu favor a Eitor da Silveira com 
huma hoa Armada , o qual chegando a Dio , fouiera que Me- 
lique Saca era fugido parajaquete. Cap. }* e ]f), da Farte a. 



Década IV. Liv. I. Cap. V. 27 

vio do trato de Çofala , de que era Capitão 
Nuno Vaz de Caftello-branco , e por eiie 
efcreveo ao Capitão de Moçambique , que 
eílivelle apercebido , como fe os inimigos lá 
houveíTem de ir; e per outro navio proveo 
Ormuz de munições com o mefmo aviíb. 
Eícreveo também a Goa , e a Cochij , que 
proveíTem algumas couíiis , por as novas que 
tiniia dos Rumes , m.andando cm algumas 
partes fazer navios , de que tinha neceíTidade. 
Ordenou que íerepairaíTe a fortaleza de Ca- 
nanor , refazendo de pedra , e cal o que era 
de pedra , e barro , e accrefcentando-Iiie mais 
dous baluartes com huma boa cava. 

Acabando de prover eftasco ufas , fepar- 
tio para Cochij , e de caminho paíTou por 
Dabui com tenção de lhe dar hum cafti- 
go pelo que nelle fe fizera na morte de Chri- 
ííovão de Brito , de que atrás diíTemos ^ Ef- 
lecaftigo náo determinava o Governador fa- 
zer tanto na povoação , quanto no 1\anadar , 
porque tínhamos naquelle tempo paz com o 
Hidalcão 5 cuja a povoação era ; porém o 
Tanadar confiado na fua innocencia , por 
não fercile o culpado, tanto que vio o Go- 
vernador no porto 5 fe veio deitar aos feus 
pés. Lopo Vaz lhe recebeo fuás defculpas , 
fabendo que não era dlc o que agazalhára 
os Turcos y e o Tanadar lhe entregou hu- 
ma 

a Na ^.Decaãa Uv. Z,cap,iit 



28 ASlA DE João de Barros 

ma náo que alli citava de Mouros de Meca 
carregada de cfpeciaria , e fandalos , e duas 
fuftas com alguma artilheria , por ferem de 
Mouros noíTos inimigos , e outra que elle 
tinha pofta em hum baluarte , que fizera na 
entrada da barra , o qual fe lhe mandou der- 
ribar. Com eftas coufas feitas , e pagas as 
páreas que devia , ficou o Tanadar na gra- 
ça de Lopo Vaz , o qual fe partio para Goa , 
e no caminho chegou a elle Thomé Pires 
em hum catur, que lhe vinha pedir alvice- 
ras , como eram chegadas a Cochij duas 
náos do Reyno , nas quaes hia Provisão d'El- 
Rey , per que havia por bem , que falecen- 
do D. Henrique de Menezes , ficaíTe elle por 
Governador. 

CAPITULO VL 

Das nãos que partiram de Portugal para 

a Índia , em que foram as fuccefsoes , 

per que Lopo Va^ de Sampaio ha- 

via de governar, 

NAquelle anno de I5'26 partiram deíle 
Reyno para a índia quatro náos *" di- 
vididas em duas efquadras , por não eílarem 
juntamente preftes^ das duas primeiras, que 

par- 

a As náos eram cinco , e o Capitão da (jiiinta não foi 
Vicente Gil y filho de Duarte Tnftão Armador das nãos. 
Francifco de Andrade P«/*. 2. cap. 9. e Diogo de Couto 
iiv, i . cap. 9. 



Década IV. I.iv. I. Cap. VI. 29 

partiram ao tempo ordinário , eram Capi- 
tães Francifco deAnhaia, (filho dePcro de 
Anhaia,) que oanno dantes hia também á 
índia, iegundo atrás diíTem.os '^ , e fe per- 
deo á lahida da barra de Lisboa ; e TriC- 
tão Vaz da Veiga , (filho de Diogo Vaz da 
Veiga , ) que na entrada de Ormuz , quan- 
do eíleve cercado , paílbu os perigos que 
fe referiram na terceira Década K Das duas 
que partiram tarde, e fora da monção a 16 
de Maio eram Capitães António de Abreu , 
filho de João Fernandes do Arco da Ilha da 
Madeira , que invernou em Moçambique , e 
António Galvão , filho de Duarte Galvão , 
o qual fora de toda efperança paíTou á ín- 
dia ^ Os dous que primeiro partiram, che- 
garam a Cochij 5 onde eftava AíFoníb Mexia 
Veedor geral da fazenda da índia , a quem 
entregaram as duas vias das cartas d'EÍRe)r 
para o Governador , e para elle ; nas quaes 
vias mandava ElRey novas íuccefsoes da go- 
vernança da índia , falecendo alguns dos Ca^ 
pitães , que ElRey tinha nomeados nas ou- 
tras , que lá eílavam. E porque a Carta d'EI- 
Rey paraAfFonfo Mexia foi caufa de mui- 
tas revoltas , e defaíTocegos , (que puderam 
chegar a muito , fenâo fuccedêram entre For- 

tu- 

a Na }, Década Uv. ío. cap. i. 
h Livro 7. cap. j. 

c A via;rem de António Galvão efcreve particutarmeti' 
í^ Fernão Lopes de Caftanheda no cap. lo. do Uv.-j, 



30 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

tuguczes 5 tao leaes a feu Rey , que nas par- 
les onde citam mais alongados delle, com 
mais fujeiçao , e amor procuram feu fcrvi- 
ço,) porei aqui o traslado delia, para que 
íe veja , que o que AíFonfo JVLexia fez , pro- 
cedeo mais da fua vontade , que da Carta 
d'E]Rc7 ; e para exemplo aos pofteriores , 
que quando mandarem á índia fuccefsôes da 
governança , feia de maneira , que nao fe po- 
nha em audiências, e aljcgaçoes de procurado- 
res , como fe poz efta , e o que peior he com 
artilheria cevada da liuma parte , e da outra. 

Carta d'ElRey para Affonso 

Mexia. 

/t Ffonfo Mexia. Eu EIRey dos envio 
.JiA. muitofãídãar. Per duas vias vos envio 
nefta Armada , que NoJJo Senhor leve a 
falvaraento , dous facos de cartas ^ e def- 
pachos das coufas defias partes , que hou- 
've por meu fervi ço , que ora fojjem , e le- 
nja hum dos maçosTriJicío Vaz da Veiga y 
e o outro Francifco da /bíhaia. Tomai as 
cartas que vam para vós , e as do Capitão 
mór lhe dai ^ ^ ^ffi todas as outras ás pef- 
Joas a que vam , e não fique nenhuma que 
não feja dada ; e aquellas que eftiverem 
fora donde vós eftiverdes , mandai-lhas dar , 
e vam a todo bom recado. E nefta Arma- 
da vie enviai hum rol de como foram da- 
das 



Década IV. Liv. I. Cap. VI. 31 

das aquellas que dê fies às pejjòas onde vós 
ejlais , e o modo que trcejies em enviar as 
outras , que vam para as pejjcas que ef- 
tiverem fora ; e tomai dtfto bom cuidado , 
porque o hei por muito meu fervi ç o ferem 
dadas todas as ditas cartas, /Is Provisões 
que vani das fuccefsÕes da capitania mór 
tende naquella boa guarda , e fegredo , que 
cumpre a meu fervi ço , como de vós confio. 
Efcrita em Almeirim a vinte de Março. 
Pêro de Alcáçova Carneiro a fez de mil e 
quinhentos e vinte féis, E das outras Pro^ 
visões que lá tendes não fe ha de ufar , e 
as teres em boa guarda , e mas trares 
quando erãbora vierdes, 

Affonfo Mexia tanto que vio efta claa- 
fula derradeira , que das Provisões paliadas 
não fe havia de ufar, (a qual hia em huma 
das fuás duas Cartas , e na outra não , ) de- 
fejando de abrir a fuccefsão , que de novo 
mandava ElRey , cm cafo que falcceíTe Dom 
Henrique de Menezes , fez ajuntar na Sé de 
Cochij o Capitão da fortaleza D. Vaíco De- 
ça , João de Ofouro Ouvidor geral , Joaa 
Rabello Feitor , Duarte Teixeira Thefourei- 
ro , e outros OíTiciaes da Fazenda , Jufdça , 
e outras peíToas principaes com os Capitães 
das náos que do Reyno foram , aos quaes 
notificou 5 como ElRev per aquelles Capi- 
tães que eram prefentes , Iheefcrevêra huma 

car- 



32 ÁSIA DE João de Barros 

carta febre as íuccefsoes dos Governadores 
da índia , a qual carta era aqiiella que elle 
tinha na máo , e ouviriam. Lida , lhes diC- 
f e , que elle levava alli aíucccfsao de Dom 
Henrique , que a queria abrir , vifto como 
por aquella carta que lhe ElRey efcrevia , 
era fua vontade uílir daquella Provisão no- 
va 5 e não das outras paíTadas. D. Vafco De- 
ça como Capitão de Cochij começou a con- 
trariar abrir-fe a nova íucceísão 5 pois as ou- 
tras fobre que EiRey efcrevia eram já aber- 
tas j e que í'e ElRey o foubera , não prove- 
ra com aquella que apreíentava. A D. Vaf- 
co ajudaram ccmx fuás razões as outras pcf- 
foas que eram prefentes. O que Affonfo Me- 
xia não quiz conceder , e tomou por ultima 
conclusão 5 que fe elle o fazia m.al , que a 
ElRey havia de dar conta diíTo ; e favore- 
cendo fua tenção algumas peíToas que o que- 
riam comprazer , e também para verem no- 
vidades 5 condição natural dos homens , a- 
brio-fe a Provisão per Fernão Nunes Efcri- 
vão da Fazenda , a qual elle leo cm voz 
alta , cujas palavras eram eftas. 

Provisão d'elRey da Sue cessão 
DE D. Henrique de Menezes. 

EU ElRey. Faço faber a todos os meus 
Capitães , e Alcaides mores das mi- 
nhas fortalezas da índia , Capitães dos 

na- 



Década IV. Lrv. I. Cap. VI. 33 

navios , e Arruadas , que nas ditas partes 
andam , e Feitores , Èfcrivaes das minhas 
feitorias , Capitães das ndos , e navios que 
vani para vir coyn carga para ejles Rey- 
nos 5 Fidalgos , Cavalleiros , ge^ite de ar- 
mas , que nas ditas partes andam ^ e a to-- 
das qiiaefquer outras pejjoas , e officiaes 
da jujiiça ^ e fa-zenda ^ a que efte meu Al- 
'uará for mojlrado : Que pela muita confian- 
ça que tenho de Lopo Vaz de Sampaio 
Fidalgo de minha Cafa , que nas coufas 
de que . o encarregar me faberd bem fer- 
vir , me apraz , que fendo cafo que faleça. 
D. Henrique de Menezes , que ora he meu 
Capitão mór , e Governador das partes da 
Índia 5 {fjue NqlJb Senhor 7tão ma-nde , ) fuc-- 
ceda , e entre na capitania mór , e gover- 
fiança o dito Lopo Vaz de Sampaio , com 
aquelle poder ^ e jur dição , e alçada que 
tinha dada ao dito D, Henrique de Mene- 
zes , e me apraz que haja em cada hum 
anno , em quanto me fcrvir na dita capi- 
tania mór y c gove^mança , dez mil cruza- 
dos ; convém a faber , cinco mil em pimen- 
ta comprada do feu dinheiro , ao partido 
do meu , tomando , e nomeando feu rifco nas 
ndos , e navios que nomear que vierem pa- 
ra eftes Reynos , fegundo a ordenação dos 
partidos do meu, E entrando afji o dito 
Lopo Vaz na dita capitania mór y e go- 
Tom.IV. P.L C -ver- 



34 ASIAdeJoaodeBarros 

*vernança da Índia , entrará 7ia capitania 
mor do raar , que elle tem , António de Mi- 
randa de Azf:vedo , com o ordenado que 
cora ella tinka o dito Lopo Vaz de Sam- 
paio \ e no cargo que elle ao tal tempo ti- 
ver , provera o dito Capitão mor , e Gover- 
nador té eu prover, E não e fiando na Ín- 
dia o dito Lopo Vaz ao tempo do fale ci- 
mento de D, Henrique , por Jèr vindo pa- 
ra efies Reynos , ou fendo falecido , ou fa- 
lecendo depois de entrar , efucceder na di- 
ta capitania mor , e governança , em qual- 
quer defies cafos entrará por Capitão mor , 
e Governador Pêro Mafc are nhãs , que ef- 
tá por Capitão de Malaca, E haverá o 
dito Pêro Mafcarenhas os ditos dez mil 
cruzados de feu ordenado de Capitão mór , 
e Governador daquella maneira que os or- 
deno ao dito Lopo Vaz, E entrará Pêro 
de Faria na capitania de Malaca , onde 
o dito Pêro Mafcarenhas eflá ^ e haverá o 
ordenado da capitania de Malaca, Eeft an- 
do elle por Capitão em Goa , proverá o di- 
to Capitão mor na dita capitania a peffoa 
que lhe bera parecer , que pertence mais a 
meu fervi ço , té eu prover , e haverá o or- 
denado da dita capitania, E porém vo-lo 
notifico a f/i , e vos mando a todos em ge- 
ral ^ e a cada hum em efpecial ^ que vindo 
o dito cafo a fer , fe cmnpra , e guarde 

in- 



Década IV. Liv. I. Cap. VI. 35- 

inteiramente efte meu Alvará^ como nelle 
he conteúdo ; e a qualquer dos fobr éditos 
que entrar na dita Governança obedeçais , 
e que cumprais feus requer imej^Jos , e man- 
dados , ajll como o fazeis ao dito D. Hen- 
rique , e como fois obrigados de fazer ao 
dito meu Capitão 7nór , e Governador , e 
em todo o deixai ufar do poder , e jur di- 
ção , e alçada , que ao dito D, Henrique 
tinha dada per minha Carta , fem dúvida , 
neva embargo algum que a ello ponhais : e 
mando ^ ao meu Veeo.or da Fazenda , que 
em cada hum anno , em quanto me fervir 
na dita capitania mór , e governança , lhe 
771 ande pagar os ditos dez mil cruz^ados 
na maneira fobredita. Feito em Almeirim 
a quatro dias de AJoril , Jorge Rodrigues 
o fez de mil e quinhentos e vinte féis. Eftes 
dez mil cruzados que ordeno que hajam os 
fobreditos por anno , ferão naquelle modo , 
e forma , e maneira que os tenho dados a 
D. Flenrique j e o ordenado de António de 
Miranda de Azevedo , entrando na capi- 
tania mór do mar , ferao dous mil cruza- 
dos por anno , conver,i afabcr , mil cruzi^ 
dos em dinheiro , e mil em pimenta , 710 
modo fobredito de como o ha de haver o 
dito D. Henrique , pojio que diga que ha 
de haver o ordenado de Lopo Vaz, 

Lida eíla Carta , foi feito hum auto per 
C ii Fer- 



36 ÁSIA DE João de Barros 

Fernão Nunes , que a leo , o qual foi aílina- 
do pelos nomeados , c pelas prineipaes peí- 
loas que eram preíentes , que Aífonlo Me- 
xia reeollieo para dar razão a ElRey com 
que folemnidade abrira aquclla via. Feito 
ifto , deípacliou logo a D. Henrique Deça 
com a fuccefsao que a levaíTe a Goa , cui- 
dando ler Lopo Vaz já vindo ; e aíTi eícre- 
veo huma carta d Gamara de Goa , perque 
lhe notificava fcr Lopo Vaz de Sampaio Go- 
vernador per aquella nova Provisão de Sua 
Alteza j e fcndo-lhe notificada, quiz Tho- 
'iné Pires ganhar as alvicera? deíla nova , e 
foi em hum fcu catur le valia a Lopo Vaz 
de Sampaio , que achou vindo de Dabul, 
como atrás diíTemos. 

CAPITULO VIL 

Das juJiificaçQes que Lopo Va% de Sam- 
paio fez em Cochij fobre o direito de 
fua Governança : e do confelho que te- 
ve [obre a vinda dos Rumes. 

Lopo Vaz de Sampaio com a nova da 
fua fuccefsao chegou a Goa , onde foi 
recebido comafeíia que fe coftumava fazer 
aos novos Governadores ; pofto que a Cida- 
\de eílava dividida em dous bandos , não fe 
praticando nella em outra coufa fenão na 
juftiça de Lopo Vaz , e de Pêro Mafcare- 

nhãs : 



Década IV. Liv. I. Cap. VIL 37 

nhãs : e o mefmo paíTava nas fortalezas , ar- 
madas , c outros ajuntamentos , e cada hum 
dava a fentenca legundo o amor , e ódio que 
o governava. Os afeiçoados á caufa de Pêro 
Malcarcnhas , (de quem já havia nova que 
era em.barcado para vir a tomar poíTe do 
Íqu governo , ) eílranhavam muito a AíFon- 
fo Mexia abrir a ruccefsáo de Lopo Vaz , 
lendo Pcro Maícarenhas eleito , jurado , 
obedecido , e chamado para Governador ; e 
de tal maneira hiam crefcendo cilas duas fac- 
ções , que chegavam a revoltas , e defafios. 
Era já tempo do defpacho das náos , que 
efte anno haviam de vir ao Reyno com car- 
ga , pelo que Lopo Vaz partio para Cochij , 
onde os moradores lhe fizeram muita fefta ; 
porém quem fe nella mais aíTmalou foi Af- 
fonfo Mexia , como author da fuccefsao de 
Lopo Vaz , a qual tornou a confirmar com 
novo juramento feu , e de todos os que ef- 
tavam em Cochij. Accrefcentava a AíFonfo 
Mexia ogofto com que feílejava ao Gover- 
nador, o contentamento que tinha de huma 
nova Provisão que lhe ElRey mandou com 
as outras , pcrque o fez Capitão de Cochij , 
além de Vecdor da Fazenda ; porque per-^ 
fuadíram a ElRey, que o Capitão da for- 
taleza de Cochij fempre traria competências 
com o Veedor da Fazenda fobre a jurdi- 
ção 5 e que para o Veedor ftrvir bem feu car^ 



58 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

go 5 que era de tanta importância , não podki 
ler leiíáo fendo também Capitão da Cidade. 
Lopo Vaz íabcndo os movimentos , e 
alterações do povo , c aiie os mais dizi^ím 
que com violência iiíiirpara o cargo de Go- 
vernador , com todos íe juílifícava , e para 
maior fatisfaçao fua m.andou cliamar Sebaí- 
tiáo de Soufa d'Elvas , Francifco de Anhaia , 
António Galvão , Filippc de Caílro , e Trif- 
tão Vaz da Veiga Capitães das náos d' Ar- 
mada , que havia de tornar para Portugal , e 
lhes diíTe diante de António Rico , (que a- 
quelle anno fora de Portugal á índia por 
Secretario,) o que fe praticava contra a fua 
fuccefsao por parte de Pêro Mafcarenhas , e 
porque nao queria caítigar os alvorotadores 
do povo , que oufadamente falia vam contra 
elle 5 antes os defejava reduzir com brandu- 
ra á paz , e quietação : e elles como Capi- 
tães que fe hiam para o Rcyno , nao eíla- 
vam debaxo de fua jurdição , nem da de Pê- 
ro Mafcarenhas , e aííi poderiam fem aíFei- 
ção dizer o que lhes parcceiTe • lhes pedia 
que como a Fidalgos tão honrados , que ti- 
nh:im por obrigação fallar verdade, lhe dif- 
feifem livremente o que fentiam da fua fuc- 
cefsao , e íè entendiam que per virtude del- 
ia era Governador. E como Lopo Vaz de 
Sampaio lhes perguntou fimplesmente o que 
lhes parecia , aíli fimplcsmente refpondêram , 

que 



Década IV. Liv. I. Cap. VIL 39 

que nao tinham dúvida fcr elle ligitimo Go- 
vernador , e ligitima , e jiifta a lua fuccef- 
são ; e afii o juraram , de que fe fez Auto 
pelo Secretario que aqueiles Capitães aíliná- 
ram. A melma pergunta fez Lopo Vaz de 
Sampaio a Fr. João de Haro da Ordem de 
S. Domingos , homem letrado , que per 
mandado d^ElRey de Portugal fora pregar 
á índia , e tornava aquelle anno para o Rey- 
110 5 o qual affirmou fer elle verdadeiro Go- 
vernador. E ao outro dia , que era da fefe 
da Circumcisão de NoíTo Senhor , na pre- 
gação que fez , o diíTe no púlpito , provan- 
do-o com muitas razoes , e allegaçoes do 
Direito Divino , e Humano , e que quem o 
encontrava , com.meítia peccado mortal , e 
deíobcdiencia contra ElRey : e que elle não 
affirmava aquella verdade por refpeito al- 
gum , porque como Religiofo , e que fe hia 
para Portugal , nao tinha neceííidade do Go- 
vernador , de quem nao era tamanho amigo 
como dePcro Mafcarenhas ; e concluindo, 
requcreo a Lopo Vaz da parte de Deos que 
caítigaíregraviííimamenteaquem caufaíTe al- 
vorotos 5 ou moveffe duvidas fobre o feu 
governo , e os degradaíTe. 

Apreíladasjá a elle tempo as náos de via- 
gem , partiram de Cochij aio de Janeiro '; 



a Nejlas nãos emí? arcou o Governador a Zíie^zc^o Em- 
Vaixador d^ElRcy da Ahajfm , qui chegou a ^alvamento a 



40 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

e quando cliegáram a Ailvamento a Portu- 
gal , tinha ElRey já mandado hum navio , 
de que era Capitão , e Piloto Pedrcancs Fran- 
cez , com cartas para apagar com luas Pro- 
visões as revoltas que feprefumia poderiam 
haver entre Lopo Vaz de Sampaio , c Pêro 
Mafcarenhas por caufa das novas fuccef- 
soes , que Francifco de Anhaia , e Triílao 
Vaz da Veiga levaram ; por ElRey ter ía-t 
bido per Francifco de Mendoça , (como atrás 
diíTemos , ) que D, Henrique era falecido , 

e Lo- 

JLishoa , âoncíe foi a Coimhra dar fua emhnixnda a E/Rey 
D. João , que ejiava naqueUa Cidade. Sua Alteui o rnatir 
dou encontrar per Diogo Lopes de Sequeira Ahnoiacer mêr , 
e Governador cjue fora da Índia , e á entrada da Cidade 
•per o Marquez de Villa Real. E/Key o receber com granr 
des demonjiraqoes de gojlo d*i fua vinda -, e ZagaiaVo lhe 
deo duas cartas de feti Key , e lhe aprefentou huma Coroa 
de ouro , e prata. E P. Francifco Alvares , que vinha 
em companhia do Embaixador , ( e efcreveo huma larga 
relaqTio defa viagem , e das coufas daquella grande Re- 
gião f ) mollrou a Sua Alteia huma Cruz de ouro cem hum 
pedaço do fanto Lenho da Cruz de Chrijio T<ofjo Salvadcr , 
£ outras duas cartas que levava a leu cargo para o Pa- 
pa Clemente Vil. pelas qnaes aquelle Rey mandava dar 
chediencia a Sua Santidade , e pedir Patriarca da Igreja 
"Romana y porque os pagados foram da Grega O anno Je- 
guinte partia Zaga^aho , e Franciuo Alvares para Roma , 
onde o Summo Pontífice ouvi o a euihoixada da que lie Rey 
com grande alegria fua , e do /agrado Coile(^io dos Car deães , 
engrandecendo com mui: os louvores a obediência daquele 
novo , e amado filho , ao qual concedeo com muitas graças 
O Patriarca que lhe pedia , com que o Embaixador toi nou 
a Portugal , e delle á índia , onde chegando morreo. 
Diogo do Gou':o liv. i,cop. 10, 



Década IV. Liv. I. Cap. VIL 41 

c Lopo Vaz governava cm aufencia de Pcro 
Mafcarenhas. Mas cíle Pedrcanes fe pcrdeo 
310 mar , com que o negocio entre duas pel- 
ioas de tanta qualidade , cavalleria , c fervi- 
cos foi podo em differenças. 

Lopo Vaz 5 depois que as náos partiram 
para eiie Rcyno , por as novas que tinha da 
Armada dos Rumes , foi-liie neccífario tor- 
nar a Goa dar ordem ás coufas do provi- 
niento da Armada contra elles , c repairar as 
iortalezas ; pelo que deixando recado a Af- 
fonfo Mexia do que havia de fazer emCo- 
diij , elle foi a Cananor, e fez alii outro 
tanto 5 encommendando as obras da forta- 
leza a D. Simão de Menezes Capitão dei- 
la. Chegado a Goa , teve logo conlèllío com 
os Capitães 5 e principaes Fidalgos fobre a 
vinda dos Rumes ; e declarando-Ibes que 
ília vontade , e determinação era ir bufcai- 
los ao próprio eftreito , antes que cníraílem 
no mar da índia , e dando para iílb muitas 
razões , todas lhe foram desfeitas com ou- 
tras. Porque diziam que era grande incon- 
veniente tentar aquella jornada , vifto como 
não tinha navios , nem gente, e aventura^ 
va nella o eílado da índia ; e que fegundo 
fe dizia a Armada dos Rumes não eftava cer- 
to vir aquelle anno ; porque fa'zendo elles 
fortaleza na Ilha de Camaram , como fa- 
ziam , final era eftarem de vagar ^ e que 

pri^ 



42 ÁSIA DE João de Barros 

primeiro queriam fazer o ninho em que íe 
recollieílcm , que vir á índia , onde o nao 
tinham feito. E que para o anno feguintc 
por a nova que fc mandara a ElRey per 
Francifco de Mendonça em as náos que vief- 
fcm aquelle anno , lhe mandaria Sua Alteza 
gente, e munições ; c que com agente que 
vieíTe , e com os galeões , e navios que clle 
Governador mandava fazer, já então eftaria 
apercebido para pelejar com os Rumes ; e 
que quando iíTo foíle , a peleja não havia 
de fer no eftreito , fenão á ponta de Dio , 
porque quando alli chegam vem já quebran- 
tados do golfão que paíTam , c com os ap- 
parelhos dos navios cortidos do Sol , e a 
artilheria ' abatida j eque eftando dlc coma 
gente freíca , e efperta , levemente haveria 
vitoria , e que como quem tinha a acolhei- 
ta longe , todos lhe ficariam na mão. E in- 
do a Gamaram havia de chegar com a Ar- 
mada dividida , e deílroçada , de que tinha 
exemplo nos defaftres , e perdições que tive- 
ram Affonfo d'Alboquerque , e Diogo Lo- 
pes de Sequeira quando entraram aquelle 
eílrcito. 

Eítas, contras razoes foram reprefenta- 
das a Lopo Vaz de Sampaio , com que en- 
tão deíiftio de íèu propoíito , e mudou o 
penfamento a outras coufas , como veremos. 
A gente porém não deixava de murmurar, 

di- 



Década IV. Liv. I. Cap. VIL 43 

dizendo, que fua ida aocílreito era fingida , 
c no mais que para nioftrar á gente que ti- 
nha defejo daquelle caminho , e que o feu 
intento era prover-fe per aquciie modo para 
a vinda de Pêro Maícareniias , temendo que 
como a gQníc o viíTe na índia, lhe haviam 
de obedecer como a Governador. 

Outros eram doutra opinião , e diziam, 
que verdadeiramente fua tenção era ir ao eí- 
treito , e fugir de Pêro Mafcarenhas , e levar 
a frol da gente comligo , e os navios ; e que 
quando náo pelejaíTe com os Rumes , faria 
tanta preza , que vieíTe a gente contente dci- 
le. Eiles , e outros juizos lançava o vulgo, 
de que fempre fe diííe fer animxal de muitas 
cabeças , e aííi dava cada hum a interpreta- 
ção fegundo o amor , ou o ódio que ti- 
nham a eíles dous Capitães , e ao que del- 
les efperavam. 

De Goa mandou Lopo Vaz de Sampaio 
Manuel de Macedo em huma caravella a 
Ormuz com Provisões para prender P.aez 
Xarafo 5 e levallo a Goa; porque per car- 
tas d'£lRe7 ^^ Ormuz , e do Capitão Dio- 
go de Mello, (que mandaram per Fernão 
de Moraes , ) o avifavam dos roubos , c in- 
fultos que Raez Xarafo tinha commcttido 
contra o povo , e lhe requeriam , que o man- 
daffe levar daquella fortaleza , porque em 
quanto nella eíliveíTe , não deixaria de m- 

ten- 



44 ÁSIA DE João DE Barros 

tentar alguma novidade , como já fizera cm 
tempo do Governador Diogo Lopes de Se- 
queira. 

CAPITULO vin. 

Da Armada que Selim Rey dos Turcos or- 
denou para nella ir Raez Soleimao d 
índia contra os Portuguezes , e 
do fuccejjo delia, 

HAvendo Raez Soleimao morto a Mir 
Hocem peJa maneira que diíTemos na 
precedente Década "" ; e vendo que o Sol- 
tam do Cairo , Canfor Algauri * , (em cujo 
ferviço andava fendo Turco , ) fora desba- 
ratado 5 e morto per Selim Rey dos Tur- 
cos ' , pofto que íè temeííe dellc por o que 

ti- 

a Liv. 1. cnp. j. onda João de Barros efcreveo com 
pnriicíi/tiridade a viâa de Kaez Soleimao. 

1) Ejie Ccinfor A/gíiuri Soltam do Egypto eleito pelos 
Mnmahicos no anno de 1505 , foi pela tniiçTio de Caiei' 
lei feu Governador de Alepo vencido , e morto junto da 
viefma Cidade per Selim I. Rey dos Turcos no anno de 
j 5 1 6 , per cu; a morte elegeram os Mamnhicos a Tumnm- 
teio de nação Circajjo ., çtte no anno feguinte de j<jij foi 
vencido , e morto do mefmo Selim , e nelle je acabou o 
Reyno dos Mamalucos em Egypto , ^ue Je transferia aos 
Turcos. 

c Selim I. Rey dos Turcos , fl/10 de Balazeio II. [ci 
quem Juccedeo no Reyno no anno de 1512) e neto de Ma- 
hamet H que tomou Conjiantinopla no anno de 14 ÇJ com 
■morte do Eraperador Con/lantino Puleologo , pelejou com 
yiiah llmael Rey dcs Perfas , de quem alcançou vitoria , 
fojlo que com grande perda ftia ; c per morte dos dous 



Década IV. Liv. I. Cap. VIII. 45- 

tinlia feito em Turquia fendo CoíTairo , fe- 
gundo atrás contámos '' ; querendo reíiituir- 
le em fua graça , lhe mandou hum homem 
de que confiava ao Cairo com hum grande 
prefente , dando-lhe conta como fora envia- 
do pelo Soltam á empreza da índia , e o 
que riniia feito cmZeibid, e quão leve cou- 
fa feria tomar aquelle eftado da iVrabia , e 
que eile era feu efcravo , e ficava alii com 
cinco galés fomente ; que fe mandaíTe que 
fe foíTc para o Cairo que logo o faria ; e 
que ie também houveUe por íèu ferviço que 
profeguiíTe a emipreza da índia , que o pro- 
veíTe de mais em.barcacóes , miunicoes , e 
gente , porque com cinco galés com que cl- 
le ficava já m.ui desbaratadas , e tão mal pro- 
vido de outras coufas , por o muito que 
havia que dera princípio áquella empreza , 
não fe atrevia a dar boa conta deíi, e mais? 
andando os Portuguezes tão poderofos co- 
mo andavam. Selim como vio , e recebeo os 
prefentes que lhe Raez Soleimao mandava , 
e como fe mettia debaixo de feu poder, 
determinou de logo o prover de novo pa- 
ra entrar poderofamente na índia , e a gran- 
de preíía mandou acabar vinte galés , e cin- 
co 

Reys do Egypto C^n^or Algauri , e Tumumieio fe apode- 
rou do Egypto , Syria , e Arahia , e morrei) no anm de 
• 520. 

a No mejilto Uv. j. cap. 5. 



46 ÁSIA DE João DK Barros 

CO galeões ^ , que eílavam começados no 
porro de Suez por ordem do Soltam , pa- 
ra os mandar ao meímo Raez Soleimao. 

Provida cila Armada de gente , e de to- 
do oneceiíario, já em tempo de Soleimao, 
filho de Selim , que lhe fuccedeo no Rey- 
no dos Turcos \ mandou cUe por Capitão 
delia a hum Haidairin , Charques de nação , 
homem de muita idade, eauthoridade, que 
fora Veedor da fazenda do Soltam , com 
ordem que depois que entrcgaíle a Arma- 
da a Raez Soleimao , fícaíTe com o mcíbo 
cargo de Veedor da Fazenda , fem Raez So- 
leimao entender em miais que no que toca- 
va á guerra , e governo da gente. Chega- 
do Haidairin á Ilha de Camaram , onde 
Raez Soleim.ão eílava , e tinha começad:i 
huma fortaleza , lhe entregou a Armada; 
e fobre o governo , c defpczas delia houve 
entre Soleimao , e Haidairin tantas diíFeren- 

a A madeira , 'prcç;a:hira , enxarcea , e todas as nuiis 
cottfas fn'ce//(tr/iis para e/ia Armada foram levadas de Ale- 
S^andria cm h are as pelo NUo acima té o Cairo , e dal li 
£om exccjjtvas dcfpe-^as em camello-s ti Siiez^ que são 24 
Jegtias de terra deferia , e (em a(rua. 

h Soleimao , oti Solimão II. (jtie fuccedeo a feu pai Se- 
Jimy tomou Rodes y e gua/i toda Utigria y cujo Rey Luiz 
foi delle vencido , e na latalha rjwrto 1 entrou em Au/iria , 
intentou tomar Vienna fua Metropoli y da qual fe retirou 
com perda , por acudir á fua defensão o Emperador Car- 
los V. máximo. Apoderou fc de Aflyria , e Bcbylonia , to* 
jnou Aíoldaviay cor.imetteo a etr.preza de Mali a , c no cer* 
ÇO dc Zlget morreo no anuo de ^66. 



Década IV. Lrv. I. Cap. VIIL 47 

ças , que Jentindo Hnidairin que a gente 
eílava defconrentc , e elcandalizada de So- 
leimão , e que nao haveria quem por elle 
tornaffe , o matou ás punhaladas dentro em 
huma galé. A cauía por que Soleimao co- 
brou eíle ódio , era por não coníèntir que 
Haidairin limpamente pagaíTe o foldo que 
era devido á gente da Armada a dinheiro , 
o qual ellc queria recadar para íl , e pagar 
aos Toldados em mantimentos , pannos , e 
outras coufas , que houvera do defpojo das 
terras que ganhara em Arábia , que aos 
foldados nao eram neccíTarias para feus ufos , 
como o dinheiro. Além diíTo como aquel- 
la gente partira com. tenção de ir á índia, 
e trazia fede das riquezas delia , de que já 
faziam conta , tomavam mal a detença que 
Soleimao fazia em conquiftar terras naquel- 
la parte da Arábia , de que fe dle pcrten- 
dia fazer fenhor; eque por entreter a gen- 
te dilatava acabar a fortaleza , que começa- 
ra fazer na Ilha de Gamaram, per manda- 
do do Turco 5 para fer huma efcaia da 
navegação daquelle eftreito do mar Roxo, 
e defensão para os Portuguezes não entra- 
rem nclle. A qual fazia tão de vagar , que 
quando Haidairin o matou havia dous an- 
nos que chegara áquella Ilha , e tinha ga- 
nhado muitos lugares na terra firme. 

Muílafá fobrinho de Soleimao , filho 

de 



4o ÁSIA DE João de Barros 

de huma íua irmã , como foube da morte 
de fcLi tio 5 e que tanto que Haidairiíi o 
matou , fe fora á Cidade de Zeibid a to- 
mar poíTe delia , e de quanta fazenda fcu 
tio nella tinha , ajuntando-fe com a mais 
gente de cavallo , e de pé que pode , o foi 
bufcar , e houveram batalha , na qual fu- 
gindo Haidairin já m.eio desbaratado , e re- 
coliiendo-fe para a Cidade , Muftafá o ma- 
tou ás lançadas. Com eílas difcordias , e 
morres fe desfez eíla Armada de Raez So- 
lei máo ; porque os Capitães que não qui- 
seram feguir as partes de Muílnfá , fe tor- 
naram para Suez , onde varadas as embar- 
cações , levaram novas ao Turco do fuccef* 
fo daquella fua Armada , que elle fentio 
muito. 

Muílafá ficou com cinco galés ; e to- 
mada a Cidade de Zeibid , começou paci- 
ficar a gente aíli a ordenada para ir á índia , 
como outra que eílava polia em guarnição 
dos lugares que feu tio ganhara , fizcndo- 
Ihes grandes pagamentos , c muitas largue- 
2as por os ter de fua mão. E vendo que 
antes de m.uito tempo lhe havia de fcr pe- 
dida conta da morte de Haidairin , e que 
o Turco podia logo prover niíío , come- 
çou de fe fazer prelles para a índia , lan- 
çando fama que queria fazer o que feu tio 
té então não tinha feito ^ com aoccupaçao 

que 



Década IV. Liv. L Cap. VIII. 49 

que tivera cm fazer a fortaleza em Gama- 
ram , e ra conquiíla da terra firme ; mas 
em feu peito não tinha tenção de ir emfer- 
viço do Turco, fenao por^fe em falvo, e 
evitar a indignação delle , c feguir a fortu- 
na em ferviço d^ElRey de Cambaia , que 
tinha guerra comnoico , porque fabia par- 
ticularmente muitas coulas daquellcReyno , 
e da fraqueza da gente delle per informa- 
ção de Coge Sofar , efcravo de Raez So- 
Jeimão fcu tio , que elle cativou na cofta de 
Apulha , (como diffemos na terceira Déca- 
da '^ , ) o qual refidio em Dio algum tempo 
em habito de mercador para fazer os negó- 
cios de Soleimão ; polo que Muftafá o tor- 
nou a mandar com a mcfma íimulação de 
mercador a intentar o animo d'ElRey de 
Cambaia fobre a fua ida. 

Coge Sôfar chegado a Dio , foi ter cem 
ElRey Badur , de quem era conhecido por 
Feitor de Raez Soleimão, por lhe ter da- 
do muitos prefentes da parte de feu amo , 
c dadas muitas efperanças de elle ir com hu- 
nia grande Armada para lançar aos Portu- 
guezes da índia , e fazer coufas grandes 
por feu ferviço. E como era fagaz , deo 
conta a Soltam Badur como Soleimão era 
morto 5 com que todos feus apparatos , e 
difenhos ficaram perdidos , e fruftrada a eC- 
Tom.IKP.L D pe- 

LfV, z. cap, i. 



^o ÁSIA DE João de Barros 

perança de nos lançarem da índia. Alas que 
dado caio que leu íenhor foíTe morto per 
aquella traição , que ie prcfumia íer ordena- 
da pelo Turco , por o ódio que lhe tinha 
por fe lançar com o Soltao do Cairo , e 
quiz diílimular com elle pelo modo que te- 
ve cm lhe mandar entregar a Armada per 
Haidairin ; todavia pela vingança que Muf- 
tafá feufobrinho tomou dailia morte, ma- 
tando Haidairin , e toda a gente fe íbmet- 
ter ao feu mando , e governo , Sua Alteza 
tinha certo poder- fe aproveitar , e fervir del- 
Je. E affi que feu parecer era , que elle Se- 
nhor lliQ efcrevcíle que fe vieífe para feu 
ferviço 5 promettendo-lhe de lhe fazer hon- 
ra 5 e mercê. Com eílas , e outras coufas 
aíli teceo Coge Sofar o negocio , com idas , 
e vindas , e cartas de huma , e outra parte , 
que por as grandes promeífas que lhe Sol- 
tao Badur deo de íi , determinou Muílafá 
de fe ir para a índia. 

Em quanto ifto fe tratava, quiz Mufta- 
fá tentar a fortuna , fe poderia tomar a Ci- 
dade de Adem , que tinha por vizinha j e 
dando fuás razoes coradas a eílc feu propo- 
íito a fim de comprazer á gente , foi cer- 
car a Cidade com dez navios de remo , e 
quarenta gelvas da terra , nas quaes embar- 
cações levou fetccentos Rumes , Arábios , 
e Abexijs. Combateo Adem per mar , e per 

ter- 



Década IV. Lív. I. Cap. VIIL ^r 

terra com groíTa artilheria , em que havia 
quatro bafilifcos , que derrubaram boa par- 
te dos muros ; mas os Arábios íe defende- 
ram animofamente á cuíla das vidas de mui- 
tos , pela falvaçáo de fuás peíToas , mulhe- 
res 5 e filhos ; e o maior trabalho que no 
cerco padeceram foi a fome de que morre- 
ram mais que a ferro. Vendo Muftafá quão 
mal lhe havia fuccedido aquella jornada ^ 
levantou o cerco, (que durou cinco mezes , ) 
por fer já tempo de monção de noíTas Ar- 
madas 5 que ordinariamente cada anno vi- 
nham áquellas partes " ; e deixando na Ci« 
dade de Zeibid por Governador a Xerife 
Ali Turco 5 que lhe fervia de Veedor, e 
na Cidade de Batalfac , Efcander Maus 
Charques , e em Gizam outro feu criado 
chamado Bagxij , partio para a índia com 
dous galeões , em que recolhco â flor da 
gente , e as melhores peças de artilheria , 
com muitas munições. Chegando a Xael, 
que he na coíla de Arábia , onde invernou , 
porque huns fete Turcos dos mais princi- 
paes que elle levava recufáram paíTar á In- 

D ii dia , 

a Diogo do Couto efcreve no cap. to. do tiv. 6. (jue 
Muftofá fe ajuntara com ElRey de Xneí , e amhos ajje' 
diáram Adem com mais de vinte mil homens , e a puze- 
iam em tamanho aperto , ^ue a tomariam , fenao chegara 
/Kjuelíe porto hv.ma Armada nofja , de que era Capitão môr 
Eitor da Silveira , com temor da qual y e que poderia ir 
tomar Xael defapereeblda , o fen R(y , e Mujlafâ levanta*. 



ram o CérsQy 



5*2 ÁSIA DE João de Barros 

dia , fentindo que cUe hia mais fugido do 
Turco, que em feu ferviço , a cinco delles 
tirou os olhos , e aos dous cortou os bra- 
ços pelos cotovelios , e em lium batel os 
mandou lançar em terra. De Xael feguio 
fua viagem para Dio , onde fez o que adian- 
te diremos ''. E niflo parou a Armada dos 
Rumes , tão receada na índia ; de cujo íuc- 
ceíTo chegaram as novas a Chaul na entra- 
da de Setembro do anno 1527 per algumas 
náos de Meca , que naquclle porto entra- 
ram 5 

a Diff'erentemcnte efcreve ãdjía Armada Diogo ào Cou- 
to ( Dec. 4. liv. 3. cap, 6, ) f>or<]iie diz , ^tte fe (irmárom 
no porto de Sue^ fetdnfa e jeis velas per vwndado de So- 
limão Rey dos Turcos , das quaes fez Capitão geral a So- 
íeimão y (rt ífue Couto erradamente chama JBaxa , e Gover- 
nador do Cairo , não o Jendo ejle SoleimTio ^ fcnão o Capa- 
ífo y que no anno de 538 pnjjou ã índia , e teve Dio cer- 
cada y) e por Jeu Lugar- tenente a Efcander Clian. Na fua 
companhia hiam Mujtafã CannaniJ E/aracen , çue depois 
foi fenhor de Baroche y Acem Lan j que noReyno de Cam- 
hoia teve o titulo de Madre Maluco , e Coge Sofir , que 
naquelle tempo era Thefoureiro do Cairo , o qual levava 
fua mulher , filhos , e genro. Com efia Armada par tio So' 
Jeimão de Suez ; na entrada do Verão de 1527 chegou a 
Camaram , onde fez huma fortokia , e provida da gente , 
e munições , \e emVarcou para pa[}ar á índia ; e por achar 
na hoca do ejireito os Levojites , voltou para dentro , & 
foi efperar a monção dos Ponentes de Abril em Coiit Sa- 
rif porto de Arahia do Reyno de Zeihid , o qual tomou 
Soleimão , e nomeou per Governador delle a Efcandej-^. SuC' 
ít deram entre amhos diferenças y das quaes refultou amor- 
te a Soleimão dada per ordem de Ekander , que ficou em 
Zeihid com titulo de Rey -, os outros Capitães fe tornã'> 
ram para Suez , ^ Mufiafú fohrinho de Soleimão , com OS 
da fua valia y fe pajjou a Xael ^ c dalli aDíQ, 



Década IV. Liv. I. Cap. VIII. 5*3 

rani , de que Chriílovao de Soiifa avifou 
logo a Lopo Vaz de Sampaio , que alJivia- 
do derte cuidado arrendeo a outras coufas 
ncceíTarias ao governo. 

Do fucceíío deíla Armada teve depois 
aviib ElRey D. João per via de Ormuz , 
que lho mandou Chriftovao de Mendoça 
Capitão daquella fortaleza , o qual faben- 
do que os Rumes não paíTavam á índia , 
determinou de avifar a EIRcy per terra , 
jornada té então não imaginada , e havida 
por quafi impoílivel , (como agora ordiná- 
ria , e fácil , ) a qual á inftancia de Chriílo- 
vao de Mendoça fez António Tenreiro , 
pelo muito conhecimento que tinha de lin- 
guas , e de aquellas regiões , perque havia 
paliado em companhia de Balthazar PeíToa 
Embaixador de D. Duarte de Menezes Go- 
vernador da índia ao Xiah Ifmael. Partio 
António Tenreiro de Ormuz para fazer ef- 
te novo caminho em Setembro de I5'28; 
e chegando a Bafçorá , a tempo que eram 
já partidas as cáfilas para Alépo , com hum 
Mouro Piloto do deferto o atraveíTou em 
dromedários , com grandes perigos de la- 
droes , e de feras que nelle andam ; o qual 
paliado , em vinte e dous dias chegou ao 
lugar de Cocana , e delle em companhia 
de huma cáfila a Alépo , e dalii a Tripole 
de Soria, onde fe embarcou para Chipre, 

e paf- 



54 ÁSIA DE João de Barros 

c paíTando á Itália veio ter a Portugal , on-^ 
de ElRey D. João lhe fez mercê pelo tra- 
balho de huma tão nova , e incógnita jor- 
nada , da qual , e da pimenta fez António 
Tenreiro huma larga , e curiofa relação , 
que com nome de Itinerário imprimio em 
Coimbra no anno de ijój dedicado a El- 
Rey D. Sebaítião. 

CAPITULO IX. 

Como Pêro Mafcarenhas mandou Álvaro 
ãe Brito com algumas fujias d Ilha de 
Bintam , para que lhe não entrajjem man- 
timentos : da nova que teve da fua fuccef- 
são no governo da Índia : e da Armada 
que fez para ir a Bintam, 

DEpois que Aires da Cunha , e Jorge 
Mafcarenhas fe vieram de Bintam por 
caufa das enfermidades , e mortes da gente , 
(como atrás temos dito "" , ) tornou Pêro Maf- 
carenhas a mandar lá ao mefmo effeito Ál- 
varo de Brito com alguns navios para eftor- 
var que naquelle porto não entraíTem man- 
timentos ; e por a grande neceílidade que 
elle tinha delles , mandou três navios ájaoa , 
de que eram Capitães João Moreno , Fran- 
cifco Lopes Bulhão , e Gonçalo Alvares , e 
não foram á coita de Pam , donde Alalaca 
> ás 

a Dec. }. Jiv. lo. cap. 6. 

I L 



Década IV. Liv. I. Cap. IX. 5^5' 

ás vezes fe provia , porque eftava de guer- 
ra com os Portuguezes por caufa da morte 
de D. Sancho Henriques "^ , e do damno que 
por eílíi razão lhe fez Martim AíFonfo de 
Souíli \ 

Ncíle tempo Jorge Cabral , que partira 
de Cochij para as Ilhas de Maldiva , fendo 
ji Lopo Vaz de Sampaio Governador , e 
trazia duas fuílas , hum catur , e huma ca- 
ravella , (na qual hia hum Ruy Martins ca- 
valleiro da cafa d'EiRey para ficar alli por 
Feitor , ) entregou os navios a Gomes de 
Souto-maior , que hia em huma das fuftas 
por Sota-Capitáo , e elle fe foi na outra ca- 
minho de JVialaca dar novas a Pcro Ma& 
carenhas da lua fuccefsao , para ver fe de 
slviceras podia alcançar a capitania de Ma- 
laca. E como na felicidade acham os ho- 
mens muitos amigos , trás elle foi Duarte 
Coelho com recado de AíFonfo Mexia , e 
dahi a poucos dias António da Silva de Me- 
nezes , que lhe levava a carta da governan- 
ça 5 e os autos que fobre iíTo eram feitos em 
Cochij, Com* osquaes chegado António da 
Silva a Malaca , o Alcaide mor , Feitor , e 
Officiacs delia fe foram á Igreja , e nclla com 
fua folemnidade deram juramento a Fero 

Maf- 

rt Dn morte de D. Siincho Dec. j. fiv, 8. cnp. -j-. 

h Era Martim AJfonfo ãc Snufa filho lU Manuel de 
Sc ufa y de q:ie:n trata João de Barros na ^.Dec. I/v.io. 
cap. 1. 



5*6 ÁSIA DE João de Barros 

Mafcarenhas de feii cargo , fegundo coílu- 
ine ; c com grandes moftras de prazer o hou- 
veram todos por Governador , e logo pro- 
veo de Capitão da fortaleza a Jorge Cabral 
porás qualidades defua peíToa , e por a boa 
nova que lhe levou ; e fez Secretario a Lan- 
çarote de Seixas , e Ouvidor geral a Simão 
Caeiro. Mas Aires da Cunha Capitão mor 
domar fe aggravou do provimento da for- 
taleza em Jorge Cabral por alviceras , e não 
nelle por juftiça , pela qual dizia pertencer- 
lhe per Regimento d'ElRey'5 de que o tras- 
lado citava na feitoria. Pêro Mafcarenhas 
porém fe refolveo , que a Provisão fe en- 
tendia quando o Capitão da fortaleza fale- 
ceííe , do que Aires da Cunha ficou mui ef- 
candalizado. Duarte Coelho também houve 
feu quinhão das alviceras , que foi huma 
viagem para a China , que não houve eíFei- 
to fenão a capitania mor do mar da Arma- 
da de Francifco de Sá , que hia para a Sun- 
da , que dahi a poucos dias chegou da ín- 
dia , a qual capitania vagara por D. Jorge 
Tello de Menezes , que partio de Cochij 
provido delia em companhia de Francifco 
de Sá em hum galeão velho , em que leva- 
va todas as munições neceílarias para fe fa- 
zer a fortaleza em Sunda ; e no primeiro 
tempo rijo que lhe deo no golfão de Cei- 
lão , abrio o galeão , e fe foi ao fundo com 

mais 



Década IV. Liv. I. Cap. IX. 5'7 

mais de fe (Tenta homens , e D. Jorge efca- 
pou em hum batel com alguns quarenta , e 
fe tornou á índia. 

E pofto que a monção de Setembro nao 
era vinda para Pêro Malcarenhas íè partir 
para a índia , por nao elperar a de Dezem- 
bro , e o inverno , que era mui tarde , quiz 
em Agoílo ir efperar os Levantes aos Ilheos 
dcPulopuar, eeílando furto neílcs , Jhedco 
hum temporal tão rijo, que com os maílos 
quebrados do galeão em que hia , tornou 
arribar a Malaca , e por huma maré que fe 
adiantou , hum navio que hia carregado de 
drogas para a índia , efcapou do temporal , 
e paíTou á índia "" , onde deo nova como Fe- 
ro Mafcarenhas hia ; e a caufa de elle não 
partir na mefma maré , foi haver viíla a fa- 
hida do porto de navios que vinham de Ban- 
da com António de Brito Capitão que fora 
de Maluco , e tornou a entrar no porto por 
faber novas daquellas partes , de que havia 
mezes que as nao tinha : e eíla breve deten- 
ça que então fez foi caufa de arribar , e de 
tomar Bintam , quando o feu Rey tinha ma- 
iores efperanças de occupar Maiaca. Porque 
do tempo de Jorge d'Alboquerquc ficara 
mui desbaratada com as guerras , e fomes 
que nella houve , com que muitos merca- 
do- 

a EJle navio chegou à Jndia no fim de Dex.emhro dô 
1526. 



5:8 ASIx\ DE João de Barros 

dores a deixaram, e foram habitar a outras 
partes , e os Ibnhores que tinham cfcravos 
Jhes deram liberdade por os não poderem 
manter. Sobre cfta neceílidade de fome , e 
da guerra paílada era já morta muita gente 
da que Pêro Mafcarenhas levou nas idas a 
Bintam , onde muitos acabaram de doença. 
Hia-fe também Pêro Mafcarenhas á índia a 
governar, eFrancifco de Sá havia de ir fa- 
zer a fortaleza de Sunda , com que a Cida- 
de de Malaca ficava fó , e em poder de Jor- 
ge Cabral novo Capitão fem cabedal para 
fuftentar a fortaleza fem gente. Todas eílas 
couías eram manifeftas a ElRey de Bintam 
per Mouros de Malaca , que de tudo lhe 
davam avifo ^ c como todas eram em feu 
favor , determinou de fe aproveitar da oc- 
caíiáo , c vir tomar Malaca, pondo niíTo 
todas fuás forças , e de feus amigos. Para 
o que mandou requerer todos feus parentes , 
e aíliados que o foccorreíTem com gente quan- 
do foíTe tempo , c com mantimentos por feu 
dinheiro , e que a Malaca os dencgalTcm , 
porque per fome , e ferro lhe queria fazer 
guerra té ganlnr o feu que tinha perdido. 
Aeíles penfamentos atalhou Dcos NoíTo 
Senhor com o eílorvo que dcp á partida de 
Pêro Mafcarenhas , o qual fabendo que não 
podia já partir para a índia menos que no 
fim de Dezembro , ou entrada de Janeiro , 

e que 



Década IV. Li\r. I. Cap. IX. $^ 

e c^e deixava aquella Cidade em perigo ma^ 
nifeílo , fenão deílruilíe a Bintam antes da 
fua partida , chamou a confelho todos aquel- 
les Capitães , e Fidalgos que alli eftavam , 
e maiiifeftando-lhes o perigo de Malaca , e 
cue o remédio delle era a ruina de Bintam , 
lhes difle , que elle determinava commetter 
aquella em.preza , da qual tinha por certo 
tornar com vitoria , porque para iíTo enten- 
dia haver Deos eílorvado a fua ida á índia , 
e juntado naquella occaíião tantos Fidalgos , 
e Capitães, e valentes foldados. Apprová- 
ram todos a determinação de Pêro Mafca- 
renhas , o qual para que o Rey de Bintam 
jião fe apercebeíTe mais do que eílava fortale- 
cido , ulou defta cautela. Como era público 
que Francifco de Sá eílava ordenado para ir 
a Sunda , e elle eílava doente , deo Pêro 
Mafcarenhas cuidado a Duarte Coelho , que 
apreílaíTe as coufas da Armada para Bintam , 
com voz que as fazia para a Sunda , por 
elle eílar declarado que havia de ir com Fran- 
cifco de Sá fervir de Capitão mor do mar. 
Eíla eílratagema , e ardil foi mui proveito- 
fo y porque em quanto Duarte Coelho aper- 
cebeo aquella Armada , fempre os Mouros 
tiveram para li fer para a Sunda. 

Providas todas as coufas para a jornada , 
embarcou-fe Pêro Mafcarenhas em hum ga- 
leão , de que era Capitão Álvaro de Brito j 

e das 



6o ÁSIA DE João de Barros 

e das outras velas , que eram vinte , em que 
entravam íeis que haviam de ir a Sunda , 
eram Capitães Aires da Cunha , Álvaro da 
Cunha leu irmão, António da Silva, An- 
tónio de Brito , D.Jorge de Menezes 5 Fran- 
cifco de Sá , Duarte Coelho , Simão de Sou- 
fa Galvão , Triftão Teixeira , João Rodri- 
gues 5 Pereira PaíTaro , Franciíco de Vafcon- 
cellos 5 Jordão Jorge , Franciíco Jorge , e 
Fernão Serrão de Évora , todos eftes hiam 
em navios Portuguezes : as outras embarca- 
ções eram lancharas da terra , e nellas hiam 
por Capitães Jorge de Alvarenga , Diogo de 
Ornellas , João Eílevens , Vafco Lourenço , 
Fernão Pires , e Gafpar Luiz. Nefta frota 
hiam té quatrocentos íbldados Poituguezes , 
em que entravam muitos Fidalgos , além dos 
Capitães , e outra gente nobre. C>s Malaios 
da terra , e vaíTallos da Cidade feriam feit- 
centos , de que eram Capitães dous Mouros 
principaes , Tuam Mafamede , e Sinaia Ra- 
xa. Com efta Armada , e gente partio Pêro 
Mafcarenhas hum Domingo 23 dias de Ou- 
tubro daquelle anno de 15 2 6. 



CA- 



Década IV. Livro L 6r 

CAPITULO X. 

Como Pêro Mafcarenhas chegou ao porto 

da Ilha de Bintani , e desbaratou huma 

Armada d''ElRey de Pam j e do confe- 

lho que teve per onde accommetteria 

a entrada da Cidade. 

SEndo todo o caminho de Malaca a Bin- 
tam ciíeio de ilhetas , reftingas , e baixos 
de muito perigo , chegou Pêro Mafcarenhas 
ao porto de Bintam com grande trabalho , 
e rifco ; e furgindo , mandou fondar a barra 
do rio para ver fe poderia fubir per elle aci- 
ma com os navios pequenos que levava. Foi 
Duarte Coelho a fazer eíla íbnda ; e tornan- 
do 5 deo-lhe menos efperanças da fubida dos 
navios das que elle levava de Malaca. Por- 
que depois que Jorge d'Alboquerque vol- 
tou de Bintam , mandou ElRey metter no 
rio mais eílacas , e tao retorcidas , que não 
podiam entrar em aquelle canal fenao al- 
gumas pequenas lancharas \ e porque levar 
a gente nellas té á ponte , que eftava na Ci- 
dade , onde Pêro Mafcarenhas íe queria ver , 
era ofPerecer a gente á morte mui certa , aC- 
fentou per confelho dos que alli foram com 
Jorge d'Alboquerque de mandar arrancar as 
eftacas , e defpejar o caminho , e alli fe fez ; 
para a qual obra nomeou a Fernão Serrão > 

que 



éi ÁSIA DE João DE Barros 

que era Capitão de hum navio , por íer bom 
cavalleiro , e homem induílriofo , e deo-lhe 
cincoenta homens elcolhidos , e defpachados 
para aquelle mifter. Começando Fernão Ser- 
rão cfta obra , foram tantos os tiros fobre 
ellc da artilheria que eílava aíTentada na ter- 
ra , principalmente nos cotovellos delia , que 
fenão foram as grandes arrombadas que o 
navio levava, fora mettido no fundo. Foi 
efta arrancada das eílacas hum trabalho tão 
grande , que bailava para matar os homens , 
quanto mais os pelouros da artilheria ; por- 
que como as eílacas foram alli mettidas com 
força de maíío , e fobre cilas crefceo a va- 
fa , aíli fe unio com os páos , que parecia 
terem creado raizes ; tão firmes eftavam j pe- 
lo que a força de cabreftantes fe buliam , e 
arrancavam , pondo os homens niíTo tanto 
trabalho que cofpiam fangue. 

Sobre efte trabalho lhe recrefceo outro , 
que os mctteo em maior revolta , e foi o 
foccorro que ElRey de Pam genro d'ElRey 
de Bintam lhe mandava , aíli de gente , co- 
mo de mantimentos , em trinta lancharas , 
que faziam grande apparato , e moftra ao 
inar ; e pofto que Pêro Mafcarenhas já ti- 
nha noticia defta Armada que ElRey de Bin- 
tam tinha mandado pedir , e não o fobre- 
faltou a vifta delia , todavia fez em todos 
grande alteração, de mais de verem tama- 
nha 



Década IV. Liv. I. Cap. X. 65 

nha frota , recearem que chegada ella aô 
porto 3 íahiíTe de dentro do rio Lacxemena , 
e os metteíTe em maior trabalho. E aíTi an- 
tes que fechegaíTe mais , mandou Pêro Maf- 
carenlias a Duarte Coelho que lhe fahiíTe com 
algumas velas ao encontro ; porque Aires 
da Cunha , que era Capitão mór do mar , 
tinha engeitado o cargo por as paixões paC- 
fadas com Pêro Mafcarenhas fobre a capi- 
tania de Malaca que lhe não deo. Porém 
quando vio a revolta que hia na vifta da- 
quellas lancharas , elle com feus irmãos Ál- 
varo da Cunha, Francifco da Cunha , e al- 
guns parentes , e amigos , que fe lhe chega- 
ram , fe foi a Pêro Mafcarenhas , dizendo : 
Senhor , que mandais que faça por fervi ça 
á/ElKey , que para ijjò não 7íegarei minha- 
feffoa ? Ao que Pêro Mafcarenhas refpon- 
deo : Acudi ^ fenhor ^ ao encontro daquelle^ 
navios que vedes ; o que Aires da Cunha 
logo fez , mandando Pêro Mafcarenhas al- 
guns navios que o acompanhaíTem , e ficou 
daquella parte defcançado , vendo que Aires 
da Cunha fe oííerecia , e com elle hiam feus 
irmãos , e peíToas , que do cafo haviam de 
dar boa conta. Os Mouros quando viram 
Duarte Coelho que fahia da Armada de Pe* 
ro Mafcarenhas , não fizeram delle conta , 
porque levava fomente quatro , ou cinco na- 
vios \ mas quando lhes appareceo Aires da 

Cu' 



64 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

Cunha, imaginando fer ardil de guerra , ca- 
commctrercm-nos efpalhados , e começaram 
a rcdemuinhar ; e a maior parte delles , que 
a Duarte Coelho que hia diante já começa- 
vam a varejar com a artilheria , foram-fe re- 
tirando para huma Ilha que alli eílava per- 
to com fundamento de fe falvar em terra , 
e aíli o fizeram. Finalmente a fua vinda pa- 
rou em muitos delles ferem tomados no mar , 
e muitos naquella Ilha , e outros deixando 
os navios falváram luas peíToas , a que aju- 
dou fer perto da noite , por razão da qual 
Duarte Coelho , c Aires da Cunha os dei- 
xaram de perfeguir, e contentáram-fe com 
lhe ficarem na mão mais de doze lancharas 
com quanta artilheria , e mantimentos tra- 
ziam. 

Havida efta vitoria , que Pêro Mafcare- 
nhas tom.ou por certo final da outra que ef- 
perava da tomada da Cidade , dobrou mais 
gente para revezar com outra frefca o ar- 
rancar das eftacas , que ainda com toda ef- 
ta dobrada diligencia durou o trabalho mais 
de doze dias , fendo já neíle tempo o navio 
de Fernão Serrão tão esfuracado da artilhe- 
ria , e tão cheio de agua , que era outro no- 
vo trabalho efgotalla porque fe não foffe 
ao fundo. Todavia ellc acabou fua obra , e 
foi-fe pôr muito perto da ponte , a qual or- 
denada para fcryentia , e defensão da Cida- 
de, 



Década IV. Liv. L Cap. X. 6; 

de , eftava armada fobre groflbs maftos de 
páo barbulano , que por Ter forte , e rijo 
lhe chamam páo ferro. A Cidade ficava 11- 
tiiada á mão direita da ponte * , apartada 
delia pouco mais de mil paiTos , toda cer- 
cada de madeira grcíía , com eílacada do- 
brada , c táo alta como hum muro feito a 
dentes de ferra, que* ficavam, lendo travézes 
huns dos curros , defendidos com. muita ar- 
tiilieria. E para defensão de huma praça que 
ficava entre a Cidade , e o rio , e lervia pa- 
ra a embarcação , e defem.barcaçao , havia 
hum baluarte terraplenado , e nelle aíTenta- 
das muitas peças de artilheria. Na outra par- 
te da ponte , aíTi da banda debaixo té a foz 
do rio 5 como acima delia , tudo era hum 
efpeíío arvoredo de mangues , arvores que 
fe criam. n'gua falgada , iem haver outra 
ferventia , nem caminho , por tudo fer. ala- 
gadiço 5 pcrque fe não ferviam. E com. tu- 
do no fím deíla ponte , (ainda que com efte 
arvoredo de mangues abaixo , e acima efta- 
va fegura deíla mão efquerda , fronteira á 
outra direita, em que ElRey tinha pofla a 
maior defensão , ) eílava feito outro balu- 
arte daquelia madeira forte com muita ar- 
tilheria , e por Capitão defta eítancia hum 
Mouro por nome Tuam Raja , bom caval- 
Tom, W. P. /. "E lei- 

a O fitio da Ilha , e Cidade de Bintam dcfcreveo João 
de Barros na 3. Dcc, llv, 5. caV' 4. 



66 ÁSIA DE João de Barros 

leiro , com gente que elle efcolheo á ília von- 
tade. Da outra banda da Cidade , que era a 
direita , em que os Mouros outro íi tinham 
pofta íua defensão , além dos Capitães que 
eílavam repartidos peJos lanços do muro que 
diíTemos , ficava de fora Lacxemena , como 
Capiíác domar, poralli ter fuás lancharas , 
com queefperava pelejar havendo diíTo ne- 
ceílidade. E aíli o fez ; porque tanto que 
Fernão Serrão acabou lua obra , e com gran- 
de grita , e prazer chegou á ponte , ficando 
de maré chea , como hum baluarte fobre 
cila , accommetteo Lacxemena o navio, e 
pelejando os Mouros anim.olamente com cuf- 
to de muito fangue dos noílbs , e derriban- 
do a Fernão Serrão quaíi por morto , hou- 
veram de ficar fenhores do navio. Mas a 
eíla preíTa acudio Pêro Mafcarcnhas em as 
mais pequenas embarcações que tinha , por 
caufa da artilhcria que cílava nos cotovellos 
de terra das torceduras do rio , e fez tal ef- 
trago cm os Mouros , que defpejáram o na- 
vio , e Lacxemena fe tornou a recolher. A- 
conteceo que nefce recontro hum efcravo mo- 
ço , e Chriílâo de hum Portuguez que eílava 
cativo , tendo tempo , efcapou , e veio dar 
nova a Pêro Mafcarenhas do eílado das cou- 
fas d'EIRe7 , e como eílava fortalecido ; e 
per o mefmo modo também hum Portuguez 
cativo , prezo com huma groíTa braga , an- 
te 



Década IV. Liv. I. Cap. X. 6j 

te manha metiido bem na vaía por chegar 
ao navio de Fernão Serrão , começou a bra- 
dar, e pelos noflbs foi dalli tirado, e leva- 
do a Fero Maícarenhas , a quem contou tu- 
do o que paíTava entre os Mouros. 

Vendo pois Pcro Maícarenhas per fua 
própria peíToa a forrificaçao que os Mouro3 
tinham pofla naqueiJa parte da mao direita, 
onde a .Cidade eílava , como em lugar de 
maior íiifpeira , por razão da praça , e fer- 
ventia ; e confiderando também a outra par- 
te da ponte onde eílava o baluarte , e o gran- 
de arvoredo que havia ao longo do rio té 
ir dar nella \ diílo que reconheceo , c nota- 
ram os que com elle foram , tirou o con Te- 
lho do que havia de fazer , e foi mandar 
logo aquella noite ordenar na praia , na face 
do terreiro , que era ferventia da Cidade , 
hum rcpairo de pipas cheias de terra , guar- 
necido com alguns falcões , c guardado com 
os Malaios que vinham naquella Arm.ada , 
Capitães Tuam Mafamcde , e Sinaia Raja, 
com alguns Portuguezes que os governaíTem , 
aos quaes elle dcfcubrio os fmaes que ha- 
viam de fazer, e aos que haviam de refpon- 
der , porque fua tenção era accommeíter a 
entrada da Cidade per outra parte , e dar a 
entender ao inimigo com aquella prevenção 
que por alli a queria entrar ; e a eíle íim 
mandou pôr naquella parte os Malaios , que 

E ii CO- 



62 ÁSIA DE João de Barros 

como gente menos fiel náo lhe ferviam de 
mais que de moílra do que elle nao queria 
fazer. E por onde determinava que foíTe a 
entrada da Cidade , menos ílifpeitofa a El- 
Rey 5 e mais trabalhoía aos noílbs, por a 
grande afpereza do caminho , era pela mao 
cfquerda per entre os mangues , té ir dar no 
baluarte da ponte. Vinda a noite . deixando 
os navios grandes providos de gente, e em 
os de remo leves embarcando outra, os re- 
partio em duas efquadras , huma deixou ao 
meio do rio , para que fe ajuntaífe com os 
Malaios , e a outra que foíTe demandar o 
navio de Fernão Serrão , que correo rifco 
de fer perdido por os Mouros lhe virem cor- 
tar as amarras , o que fentindo os noíTos que 
vigiavam , lançaram outras guarnecidas com 
cadeias de ferro , que fe não podiam cortar. 

CAPITULO XI. 

Como Pêro Mafcarenhas commetteo , e def-^ 

triíio a Cidade de Bintam com morte 

de muitos Mouros , e fugida d'ElRey, 

Ada cila ordem , fahio logo Pêro Maf- 
carenhas em terra abaixo da ponte ef- 
paço de huma Icgua , e com guias que le- 
vava diante comieçou a cam.inhar per entre 
os mangues 5 e accommetteo hum trabalho 

in- 



Década IV. Liv. I. Cap. XI. Ó9 

incrível , e hum feito , que cm outro Capi- 
tão , que nao tivera o animo , c valor de Pe- 

o Maicarenhas , íe podia chamar temerário , 
j inconfiderado , vilta a pouca noticia que 
clle tinha daqueíle lugar, e as circumftan- 
cias delle , e do tempo ; porque o tempo era 
de noite eícura , o caminho entre arvores , 
juja eipeíTura fozia a noite mais efcura ; c 

)ra pela vaia, ora per cima de grandes raí- 
zes 5 que eflas arvores criam do meio do tron- 
co para baixo , ordenadas de maneira que per 
cima delias íe nao pôde andar em pé, e tu- 
do tão intricado com ellas , que para de dia 
era eíle caminho em eftremo trabalhofo , 
quanto mais pelo efcuro da noite. Com cftes 
trabalhos caníados , e enlameados osnoíTos, 
chegaram ao baluarte da ponte , antes que 
a alva rompefle ; e como os Mouros da vi- 
gia da noite eftavam caníados , e defcuida- 
dos de ferem accommettidos por aquelle lu- 
gar , quaíi nao fentíram os noífos , fenao 
quando deram Sant-lago nelles , e as trom- 
betas fizeram íinal aos que eílavam com Fer- 
não Serrão , e com os Malaios na eítancia 
das pipas , e todos arrem.ettêram com tão 
efpantofa grita , que os Mouros nao atina- 
vam aonde haviam de acudir; e por ouvi- 
rem maior ruido de vozes na eftancia dos 
Malaios , por fer de maior número de gente , 
e haver neíla trombetas para enlearem mais 

os 



70 ÁSIA DE João de Barros 

os inimigos , acudiram elles alli primeiro que 
a outra parte ; e como tinham eíla por mais 
principal eftancia , parecendo-lhes que por 
ella os havia de accommettcr Pêro Mafca- 
renhas , e cftava nclla Lacximena , ajuntou- 
fe alli a maior parte dos Mouros , mas não 
fe fabiam determinar , porque ainda a luz 
do dia não dava muita claridade. Fernão 
Serrão , como lhe eílava encommendado , 
com panellas de pólvora poz o fogo a hum 
baluarte pegado com a ponte , de que os 
Mouros com temor ie a fartaram. Já a efte 
tempo a parte que Pêro Mafcarenhas accom- 
metteo era entrada , e o primeiro que fu- 
bio por aquelle baluarte foi Aires da Cu- 
nha com feus irmãos Álvaro da Cunha , è 
Francifco da Cunha , e João Pacheco , aos 
quaes os Mouros rcfiílíram valeroílimente ; 
e Aires da Cunha logo ahi houve o retor- 
no do ferro com que matou o primeiro que 
fc lhe defendeo , porque quando fubio lhe 
mettêram hum zarguncho per entre as per- 
nas , de que depois trouxe muito tempo a 
ferida aberta , e manquejou. Por a meima 
parte per onde Aires da Cunha entrou, foi 
aberto hum portigo que fechava a ponte fo- 
bre íi 5 ao qual acudiram muitos dos nof- 
fos , e entrando per elle , começaram enca- 
minhar pela ponte adiante té irem entrar 
na Cidade , que já andava poíla em gran- 
de 



1 



Década IV. Liv. L Cap. XI. 71 

de revolta , attonitos , e confufós os Mou- 
ros , iem íaberem a que parte haviam de 



acudir. 



ElRey ficou tão cortado , quando foube 
que a Cidade era entrada , que não oulan- 
do efperar a fúria da vitoria , houve á mão 
hum elefante , e fem efperar outra coufa 
quiz falvar fiia peíToa , e metteo-fe pelo 
mato ao interior da Ilha ; e para mais tra- 
balho feu , entendendo da gente que o acom- 
panhava , que alguns dos noííos o fcguiam , 
com temor fe defeco do elefante , e fe em- 
brenhou na efpeíTura do mato , indo alguns 
Portuguezes no feu alcance té fe embrenhar. 
E cuidando Pêro Mafcarenhas que o tinha 
nas fuás cafas , com o maior corpo da gen- 
te que o feguia 5 foi direito a ellas; e hum 
dos Capitães d'ElRe7 , per nome Laxa Ra- 
ja , que eftava em guarda de outra parte 
principal da Cidade , por lhe darem reba- 
te que era entrada pela ponte , acudio tam- 
bém ás cafas d'ElRey , não fabendo que 
era fugido , e veio-fe a encontrar neilas com 
Pêro Mafcarenhas , onde pelejaram os Mou- 
ros mui esforçadamente , em quanto não 
fouberam que ElRey era partido ; mas de- 
pois que lhes chegou eíla nova , não fomen- 
te Laxa Raja , que primeiro o foube , já fe- 
rido de duas efpingardadas , mas todos os 
outros a quem melhor falvaria a vida, en- 
tre- 



72 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

tregaram a Cidade á vontade dos noíTos vi- 
toriofos. "" 

Anrcs que foíTc mettida a ílico , três 
mercadores eftrangeiros , que nella tinham 
muita fazenda 5 fc vieram a Pêro Malcare- 
nhas , pedindo-lhc que delles houve íle com- 
paixão , por não ferem naturaes da terra; 
o que elle| concedeo com condição, que lhe 
dcírem os mantimentos que houveffem m.if- 
ter os dias que ai li eíliveíTem , como fizeram. 
Depois que a Cidade foi faqueada , puze- 
ram-lhe o fogo. Houve nella grande def- 
pojo , em que entraram perto de trezentas 
peças de artilheria , das quaes muitas foram 
uoíTas , havidas per os navios das Armadas 
que eíleRey trazia contra nós. O qual ven- 
do-fe desbarata(4o , furtadamente íe paíTou 
á terra firme de Malaca , a hum lugar cha- 
mado Ujantana , onde dahi a poucos dias 
com o trabalho do caminho, enojo da fua 
ultima perdição acabou a vida j mas fícou- 
Ihe-hum filho por nome Alaudim , que tam- 
bém feguio efta guerra contra nós , como 
adiante diremos *. Acabado eíle feito , que 

foi 

a Havia na Cidade para fua defensão mais defete mit 
homens de peleta , dos <fiaes morreram mais de (jnntrocen- 
tos y fem as muitos feridos , e fe cativai ~io dom mil: e dos 
Poituiruex^es morreram doas ^ ou três. Diogo do Couto liv. 
2. Cap. j. 

h Antes (fie Pêro Ivlafcarenhas partifje de Bintam > ''^''^ 
fllli ter o Çeihor q-.te fora doij:ul!a Ilha , a ijuem o Rey 
pior^to a tomou f e pedio a Fero iMafcarenhas que lha ref- 




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Barroj T.IlTBJ.pa^.73. 



Dec. IV. Liv. I. Cap. XI. E XII. 73 

foi o mais honrado de quantos naqueilas 
partes le fizeram , porque Francifco de Sá 
havia de fazer lua viagem para Sunda , Pê- 
ro Mafcarenhas o defpedio dalli , e elle fe 
tornou para Malaca com honra , c triunfo 
de táo gíoriola vitoria. 

CAPITULO XII. 

I Da deferi peão de Sunda , e cofiumes de 
jeiis habitadores : e em que lugares da 
Índia ha pimenta para earregaçao, 

ANtes que tratemos do fuccefib da jor- 
nada de Francifco de Sá , he neceíla- 
o contar a ca ufa delia • e como eíla de- 
. jiide da amizade , e paz , que Henrique 
Leme per ordem de Jorge d^Alboquerque , 
Capitão que foi de Malaca , aílentou com 
ElRey de Sunda , por razão da pimenta que 
ha naquelle Reyno ; convém primeiro dar 
noticia da viagem de Henrique Leme , ain- 
da que na conta dos annos tornem.os hum 
pouco atrás do tempo de que ao prefente 
tratamos ; e porque o Reyno de Sunda he 
hum dos da Ilha da Jaíia , fera neceíliirio 

pre- 

tituifjc , e elle lha ãea com condição , ^ue ficnfje Vúflallo 
âP ElRey de Portugal , e que nTio faria fortaleza naqnella 
Ilha , nem traria Almada no mar.. Veio tamiem UlRey 
de L/nra grande amigo dos Portuguej^es , <]ue vinha em 
feii foccorro com dezoito lancharas , e foi mui tem recebi" 
Ão dc Per O Majcarcnhas» Dioa;o do Couto //v, 2. cap, 3. 



74 ÁSIA deJõao de Barros 

preceder a tudo a defcripção dcíla Ilha , e 
Reyno , para le melhor entender o que ío- 
bre clle hemos de dizer. 

Da terra da Jaíia fazemos duas Ilhas , 
huma ante outra , cujo lançamento he de 
Ponente para Oriente , quafi ambas em hum 
parallelo , em altura de lete té oito gráos da 
parte da linha Equinoccial para o Sul. No 
comprimento deílas Ilhas , íegundo os ma- 
reantes daquellc Oriente as aíTentam cm fuás 
cartas , haverá diílancia pouco mais , ou me- 
nos de cento e oitenta léguas , não fendo 
na verdade tantas , como moftraremos na 
noíTa Geografia univerfal. Os mefmos Jáos 
náo fazem da Jaíia duas Ilhas, fenão huma 
de todo aquelíe comprimento. E para o 
Ponente , onde elia vem avizinhar com a 
Ilha Çamatra , fica entre ambas hum canal 
de dez té doze léguas de largura * , pe!o 
qual fe navegava todo aquelle Oriente com 
o Occidente da índia , antes que Malaca 
fe fundaílè , como já temos efcrito. Eíta 
Jaíia aíli como vai em comprimento , leva • 
pelo meio huma corda de ferranias mui al- 
tas , que ferão da coíla do mar da parte 
que tem a face ao Norte té o mais interior 
da terra vinte e cinco léguas , e delias para 

o Sul 

a E/le canal f que fe chama o Boqmiriío da Sunda y 
tem no mais largo vinte e cinco léguas , e no mais ejireito 
Jeis : e na fahiãa delle da parte de Levante fica a Ilha 
I^íacar , que fe affirma ter muito ouro. 



Década IV. Liv. I. Cap. XIL 75- 

o Sul os mefmos naturacs da terra nao ía- 
bem o que vai , lomenrc dizem ter noticia , 
que deílas ferras té o mar do Sul haverá 
outro tanto. Qiiafi no terço do comprimen- 
to delia Ilha , na parte Occidental , eílá Sun- 
da , de que Jiavemos de tratar , a qual par- 
te de terra os feus naturaes tem ícr íllia 
apartada da Jaíia per hum rio pouco íabi- 
do dos noííos navegantes , a que elles cha- 
mam Chiamo , ou Chenano , que corta do 
mar todo aquelle terço de terra de manei- 
ra , que quando aquelles naturaes dam a 
demarcação da Jaiia , dizem que a parte do 
Ponente confina com a Ilha de Sunda , e fe 
aparta delia por eíle rio Chiarno , e da par- 
te do Oriente com a Ilha Bale , e que do 
Norte tem a Ilha Madura , e do Sul mar 
nao defcuberto , porque tem elles para íi que 
quem íahe per eftes canaes contra aquelle 
mar do Sul , efgarra com as grandes cor- 
rentes , e não pode mais tornar , e por iíTo 
o não navegam ao modo que fazem os Mou- 
ros na cofta da Cafraria té Çoi^ala , que não 
paíTam o Cabo das correntes por as grandes 
•que aquelle mar tem. Os moradores de Sun- 
da em abonação da fua terra , gloriando-fe 
fer melhor que a Jaiia . dizem , que Deos 
■ordenou aííi eíia divisão entre eftas duas ter- 
ras per aquelle rioJChiamo ; e logo per el- 
le mefmo o quiz mollrar nas arvores que 

naf- 



76 ASlA DE João de Barros 

nafcein ao longo dellc , porque tendo as 
raízes na fua margem , lançam as ramas , 
c fruro para dentro de fi , deixando o rio 
deíaflbin brado deite arvoredo ; a qual cau- 
fa Tendo conforme a razáo natural , elles a 
attribucm a myílerio , por carecerem dos 
princípios da Filoíbíia , porque todas as cou- 
fas naturalmente são tão amigas deíiia pró- 
pria coníervação , e fogem tanto das que 
lhe podem fer perjudiciaes , que por fugi- 
rem aqiiellas arvores aos ventos , que cor- 
rem com grande Ímpeto pela madre daquel- 
le rio , le inclinam a outra parte , como quem 
lhes foge^^p que he coiifa mui nota aos 
bons mareantes , que da inclinação das ar- 
vores , que eílam ao longo do mar , conhe- 
cem que vento curfa naquella cofia o mais 
do anno. E tornando á repartição que os 
naturaes daquellas partes de Sunda fazem , 
eiies a apartam per aquelle rio Cliiamo que 
diíTemos , o qual por não fer dos noíTos 
navegantes mui íabido , fazem de Sunda , 
c Jaiia huma liha ; e deixando as coufas da 
Jaiia para a noíla Geografia univerfal , pois 
a Sunda nos trouxe a efta defcripção de ter- 
ras 5 fallaremos hum pouco delia "" . 

Ef- 

a A Ilha da Jaua he dividida em muitos Reynos pe- 
lo marítimo Sepientr/onal delia ; e dos que fe tem noticia , 
começando da jua parte Oriental , são Paneruca , Ovalle , 
Afafai\ Faniam y [cujo Bey rejide no fer tão y e tem fu- 
fijrioridade johre os Reynos referidos , e outros , ) BerO' 



Década ÍV. Liv. I. Cap. XII. 77 

Efta Ilha de Sunda hc terra mais mon- 
tiiofa por dentro que a Jaíia , tem íeis por- 
tos de mar notáveis , Cliiamo que he o es- 
tremo da Ilha 5 Xacatara por outro nome 
Caravam , Tangaram , Cheguide , Pon- 
dang 5 e Bintam "^ , que sao de grande tra- 
fego , por razão do commercio que fe aqui 
vem fazer 5 aíli da Jaíia, como de Malaca , 

e Ça- 

díim y Si\!(t/o , Tiiham , Cojoam , Japara , {<? Ciâode prin- 
cipal dejle Reytio fe chama Cherinhamá , ires kffuas apar~ 
tildas do mar ■. e á horda deite fica a de Japara , ) Dama , 
Margam , è Matarem. Nas ferras deila Ilha vivem mtti- 
tos fenhores tjue fe chamam Gutios , geíite faíva^em , e 
útie Come carne humana. Osfeiit primeiros povoadores fo» 
ram Siamês y me cerca do omw de Sc o partindo de Siam 
£m hum junco para a Ilha de J\Iacaçar , efr.nrráram coni 
.um temperai y e fe perderam na Ilha de Bale y e na cham^ 

nia do Junco vieram ter á Jatia té ent~io não defcuher' 
.a y a çual por fua p,yo[Jura y e fertilidade veio logo po- 
voar Pafjard filho d^h.lí^ey de Siam , e em hum Vom por' 
to delia fundou a CulTde Tafiarvani do feu nome , (jue foi 
a primeira povoação defia ilha. São os Jáos foíerhos , va^ 
■sntes y e atrei coados , tão vingativos , tjue por gualtjuer 

ií/uena offenfa , [tendo elles pola maior de todas porem-Ihes 
a mão na te/fa , ) fe fazem amoucos para fe fatisfa^erem 
delia : exercitam muito a navegação per açuelle Arcipela- 
CO Oriental y e dizem (jue tiavegãram já pelo Cceano té a 
h'!ia de S. Lourenço. 

a A Cidade de Bintam , ou Banta , (jue fica no meia 
dc< Boífueirão de Sunda , efiá fituada no meio de Inima lar- 
ga enfeada , de ponta a ponta terá três léguas : he limpa , 
de féis té duas traças de fundo : fahs nella hum rio , que. 
divide a Cidade em duas , perçue podem entrar juncos , 
e galés. A hum lado da Cidade ha huma fortaleza , cujo 
muro y que he de adcíes , terá de largura fetd palmos , e 
CS f cus haliiartes são de madeira guarnecidos com l/ca ar- 
tilheria. 



70 ÁSIA DE João de Barros 

e Çamatra. A principal Cidade que tem eP 
te Rcyno ie chama Daio , mettida hum pou- 
co no lertáo , a qual a.Hirmam , que no tem- 
po que foi áquella Ilha Henrique Leme, 
tinha cincoenta mil vizinhos , e no Reyno 
haveria cem mil homens de peleja ; agora 
por a guerra que lhe fizeram os Mouros ef- 
tá tudo muito diminuído. A terra he em 
íi muito groffa , ha nclla ouro baixo de fe- 
te quilates , tem carne , e monteria de toda 
forte , muitos mantimentos , e tamarindos , 
que aos naturacs fervem de vinagre. A gen- 
te náo he muito bellicofa, mas dada ás fuás 
idolatrias , para o que tem grande número 
de templos ; querem mal aos Mouros , e 
muito maior agora , depois que os conquif- 
tou hum Sangue de Patê de Dama. Podem 
aqui refgatar quatro , e cinco mil peíToas 
por cativos , por fer miuito povo , e licito 
por lei fua , que o pai poíTa vender os fi- 
lhos por qualquer leve neceílidade. As mu- 
lheres temi bom parecer , e as nobres sao 
mui caílas , o que nao sao as do povo ; 
tem Morteiros de mulheres que guardam 
perpétua virgindade, por vaidade da hon- 
ra mais , que por devoção. Os homens no- 
bres quando não podem cafar fuás filhas 
á fua vontade , contra a fua delias as met- 
íem neftes Morteiros. As cafadas , quando 
lhes morrem feus maridos, hão de morrer 

com 



Década IV. Liv. I. Cap. XII. ^(^ 

com ellcs por honra ; e fe temem a morte , 
então íe morrem naquellcs Moíleiros como 
religioías. O Reyno fe fiiccede de pai a fi- 
lho , enao o íbbrinho filho de irmã ao tio, 
como uíam os Malavares , e outro Gentio 
da índia. Prezam- fe de ter armas ricas , guar- 
necidas de ouro , e lavradas de tauxia , e 
aili douram os crifes , c ferros de lança , e 
ioda outra arma de ferro. Muitas outras 
coufas pudéramos efcrever deíia terra , (que 
deixamos pata a noíTa Geografia , por nao 
fazer ao propofito defta hiítoria , ) e de to- 
das as que eJla produz , a de maior impor- 
tância he a pim.enta de que fe colhe cada 
anno m.ais de trinta mdl quintaes. 

E porque os Reys de Portugal , além 
da conquiíla daquelhis partes de Oriente, 
para fuílentaçao delia , tem o commercio 
das mercadorias, que a cftes Pveynos fe tra- 
zem , parte fica fendo deíla hiíloria da ín- 
dia , com a occafião da pimenta de Sunda , 
tratar delia, (como de eípeciaria mais prin- 
cipal , ) e dos lugares donde vem.. Dizemos 
por tanto , que das partes que os Poríugue- 
zes conquiftáram na índia, daquém , e da- 
lém do Ganges , em féis partes fòm.ente ha 
pimenta , que feja coufa notável para car- 
regação de náos. Na terra do Malavar a 
ha , muito neta , na parte Occidental da Ilha 
Camatra, onde são os Reynos de Pacem , 

ePe- 



8o ÁSIA DE João DE Ba KRos 

e Pedir, na coíla de Malaca onde chamam 
Qiiedá , e na outra parte da meíma terra 
que tem o rofto para Levante qiiaíi oppof- 
ta a eík , e na terra da Jaiia , por nome Sun- 
da. A pimenta daqui , e do Malavar he qua- 
11 igual em pezo , groílura , e fabor , c neí- 
tas duas partes ha maior quantidade que nas 
outras. E antes que entraflemos na índia , 
todas as terras Occidentaes do mar Paríeo 
para nós l"e proviam, da que haviam, do Ma- 
lavar 5 e de Qi-iedá , Çamatra , Sunda , e Pa- 
tane , todo aquelle Oriente té a China. Mas 
antigamente quando os Chijs conquiíláram 
a índia , (como já em outra parte elcreve- 
mos , ) no Malavar faziam fuás carregações 
por dar faiiida a fuás mercadorias que tra- 
ziam do feu Oriente , por fer mui vizinho 
á Perfia , e Arábia , e per as quaes Provin- 
das tinham íahida para o noíTo Occidente , 
e ainda hoje a Cochij , onde nós fazemos 
a carga , ficou eíte nome que lhe os Cohijs 
puzeram. Mas como com noíTa entrada na 
índia todo o commercio , e navegação das 
efpeciarias fe mudou , os Mouros , que neílc 
tempo eram fenhores dellc, o vieram a perder, 
por nós o defendermos com noífas Armadas , 
com as quaes elles atormentados , deixando 
a coíla do Malavar , hiam aos Reynos de 
Pacem , c Pedir , onde além de pimenta acha- 
yam noz ;, maça , e cravo , que pela via de 

Ma- 






Década IV. Liy. I. Cap. XII. 8r 

Malaca alli vinha ter , e outras mercadorias 
daqiielle Oriente , e lua navegação era per 
entre as Ilhas de Maldiva , vindo abocar o 
cftrcito de Meca , fugindo de noílas Arma- 
das. E alguns depois que os Portuguezes fo- 
ram íenhores do Reyno de Pacem ^ poílo 
que era comprida navegação, hiam per fo- 
ra da Ilha Çamatra ao porto de Sunda , on- 
de achavam mais cópia de pimenta , e aííi 
de outras drogas , por fer todo aquelle Ori- 
ente navegadopelos Jáos 5 de cujas mãos el- 
les haviam tudo. 

E porque a fuftancia de Malaca eftava 
no trato daquclle Oriente , por fer huma 
feira a que o de lá , e o de cá concorre , 
e por ódio noíTo os Jáos fugiam delia , e 
bufcavam eíloutras fahidas , aíH para a Chi- 
na , como para Cambaia , e eílreito de Me- 
ca : como Jorge d'Alboquerque Capitão de 
Malaca tinha muita noticia deíle commer- 
cio da Sunda , determinou de o mandar ten- 
tar per Henrique Leme feu cunhado , por 
fer Senhor delle hum Rey Gentio chama- 
do Samiam , com o qual já tinha commu- 
nicação da primeira vez que eíleve em Ma- 
laca em tempo de Aífoníb d'Alboquerque* 



TonuIF.P.l F CA- 



82 ÁSIA DE João de Barros 
CAPITULO XIII. 

Como Henrique Leme par tio ãe Malaca , 
e ajjentou paz com ElRey Samiam de Sun- 
da , e metteo o padrão onde fe havia de 
fazer hmna fortaleza : e da jornada de 
Francifco de Sd^ da qual não refultou ejfeito, 

JOrge d'AIboqi]crque para o commcrcio 
que queria aíícnrar com ElRey de Sunda , 
mandou armar hum navio o anno de 1522 , 
de que foi por Capitão Henrique Leme , 
bem acompanhado de gente , e com algumas 
coufas de prefente para aquelle Rey Samiam. 
Chegado ao feu porto "^ , ç\\q o recebeo com 
muito gazalhado ; e como homem a que im- 
portava muito noíía amizade , aíli para fe 
ajudar de nós na guerra que tinha com os 
Mouros, como por caufa do commercio, 
aífentou logo cem Henrique Leme , c^uq 
mandaííe ElRey de Portugal fazer alli huma 
fortaleza, e que lhe carregaria quantas nãos 
quizeííe de pimenta a troco de outras mer- 
cadorias 5 que a terra houveíTe mifter. E que 
demais lhe aprazia dar a ElPvcy D. João IIL 
de Portugal cada anno defde o dia que co- 
irecaíTe a fabrica da fortaleza , mil faccos 
de pimenta por boa amizade , e paz que 
com clle folgava ter , os quaes feriam dos 

cof- 

w Ejle porto , fegmdo Diogo do Couto , he ode Bintam, 



Década IV. Liv. I. Cap. XIIT. 83 

coílumados cm lua terra , que era cada hum 
de quarenta e cinco arráteis dos noíTos , que 
montam trezentos e cincoenta e hum quin- 
taes. De tudo o que fe aíTentou entre El- 
Rey , e Henrique Leme fe fizeram duas eC* 
criruras a 21 de Agofto do dito anno de 
i)"!! ; huma , que a ElRey ficou na mão , e 
outra trouxe Henrique Leme , das quaes por 
noíTa parte foram teftemunhas Fernão de Al- 
meida Feitor da fazenda daquella viagem , 
Francifqueanes Efcrivão do feu cargo. Ma- 
j nuel Mendes , Sebaílião do Rego , Francif» 
|co Dias , João Coutinho, Gil Barboía , e 
! Thomé Pinto , que eram as principaes peí^ 
: foas do navio ; e por parte d'ElRey Man- 
dari Tadam , Tamungo Sangue de Patê , e 
Bengar Xabandar da terra. As quaes três peí^ 
foas 5 que eram as principaes do Reyno , 
I mandou ElRey que foíTem nioftrar a Hen- 
IriqueLeme o lugar onde queria fazer a for- 
jtaleza, eaífentaíTe hi o padrão por firmeza 
Ido que tinham concertado. O padrão com 
grande feita , aíFi dos Portuguezes , como 
[dosnaturaes da terra , fe metteo na barra do 
rio á mão direita da entrada delle em hum 
íitio da terra , a que elles cham^am Calapa , 
lugar mais conveniente que a Henrique Le- 
me' pareceo para a fortaleza ; o qual padrão 
era dos coftumados , que aíTentavam os Por- 
tuguezes nas terras que defcubriam ^ toman- 

F ii do 



84 ÁSIA DE João DE Barros 

do poíTe delias , como atrás efcrcvemos* 
Deílc auto também Henrique Leme tirou feu 
inftrumento aííinado pelas teílcmunhas refe- 
ridas , que ElRey confirmou , c ajTinou. A- 
cabadas eítas couías , e dados feus prefcntes 
de parte a parte , Henrique Leme íb partio 
para Malaca , e de Jorge d'AIboquerque foi 
bem recebido , o qual logo efcreveo a El- 
Rey na primeira Armada , que daquellas par- 
tes veio 5 dando-lhe conta de como tinha 
feita aquella obra Icm fua licença , por en- 
tender quanto importava a feu ferviço por 
bem de Malaca ter alli aquella fortaleza. Ap- 
provou ElRey o que fizera Jorge d'Albo- 
querque , e aííi quando o Conde Almirante 
Vifo-Rey no anno 1524 partio deileReyno 
para a índia , levava em regimento fazer lo- 
go efta fortaleza , de que deo a capitania a 
Francifco de Sá , que foi com o mefmo Con- 
de. Mas como o Vifo-Rey logo faleceo , D. 
Henrique de Menezes que lhe fuccedeo , pro- 
veo a Francifco de Sá da capitania de Goa , 
e nao houve tempo para elle partir ; como 
Lopo Vaz de Samipaio entrou no governo , 
tirou-lhe a capitania , aíH para lhe dar fahi- 
da a ir fervir feu cargo , pois o de Capitão 
de Goa nao era feu , como por ElRey de 
Portugal efcrever a D. Henrique , que man- 
daííe fazer a fortaleza de Sunda ; pelo que 
Lopo Vaz lhe mandou apreftar logo huma 

Ar- 



Década IV. Liv. I. Cap. XIII. 85' 

Armada de féis véJas , de que eram dous 
galeões , em hum dos qiiaes hia Francifco 
de Sá , e D. Jorge Tello de Menezes no 
outro , e Diogo de Sá em huma galé , An- 
tónio de Sá cm huma gaíeota , e Francifco 
Mendes de Vafconcellos cm huma caravel- 
la , e Duarte Coelho em hum bargantim. 
Chegado Francifco de Sá a Malaca , foi a 
tempo que Pêro Mafcarenhas eílava de ca- 
minho para Bintam ; e indo com elle fe achou 
naquella empreza , e dalli o defpedio para 
Sunda, como atrás diífemos. Partido Fran- 
cifco de Sá de Bintam , deo-lhe hum tem- 
poral , com que Duarte Coelho acertou de 
ir primeiro ao porto de Calapa , e alli fe 
lhe perdeo o bargantim da Armada , o qual 
foi dar á cofta , onde todos morreram a mãos 
dos Mouros que eftavam em terra , os quaes 
havia poucos dias que eram fenhores delia, 
por tomarem a Cidade áquelle Rey Gentio , 
que era amigo d'ElRey de Portugal , e lhe 
dera lugar para a fortaleza. 

O Mouro que tomou a Cidade era ho- 
mem de baixa forte , nome Faletehan natu- 
ral da Ilha Çamatra do Rejno de Pacem. 
Efte em tempo de Jorge d'AIboquerque , 
quando fe tomou a Cidade de Pacem ao ty- 
ranno Geinal , e fe entregou ao Principe her- 
deiro '^ , fe partio dalli em huma náo ^ que 

hia 

a Década 5. Viv. 5. cap. j. 



86 ÁSIA DE João DE Barros 

hia para o eftreito de Meca com cfpeciaria , 
e lá le deixou eftar dous , ou três annos apren- 
dendo as coufas da feita de Mafamede pa- 
ra íeu intento. Tornando a Paccm , achou 
noíTa fortaleza feita , e nella por Capitão 
D. André Henriques ; e por a terra nao ef- 
tar então a propofito para fe femear a lei 
de Mafemede , por a vizinhança da fortaleza 
dos Portuguezes , fe paíTou em hum navio 
á Cidade de Japara , oníje com o nome de 
Caciz de Mafamede fe metteo com oRey, 
e com pregações o fez Mouro , e com fua 
licença a muitos Genfios. Ficou efte Rey tão 
contente da nova lei que tomara , que pa- 
recendo-lhe que niíTo fervia a Deos , e gra- 
tificava a Falatehan o benefício que lhe fi- 
zera 5 lhe deo hum a irmã fua por mulher ; 
eelle como fua tenção era converter muita 
gente á fua feita , pedio a El Rey feu cu- 
nhado licença para ir a Bintam Cidade de 
Sunda a fazer efta obra, onde foi recebido 
de hum homem principal da terra , que fe 
converteo , e lhe deo commodidade que fof- 
fe com a conversão adiante. Faletehan co- 
mo vio a Cidade apparelhada para profcguir 
feus intentos , e que o Rey da terra eftava 
mettido pelo fertão , mandou pedir a ElRey 
feu cunhado que lhe madaíTe fua mullier , 
e alguma gente para fua ajuda , o qual lhe 
mandou a mulher , e com ella dous mil ho- 
mens 



Década IV. Liv. I. Cap. XIII. 87 

niens para o ajudarem no que lhe cumpriíTe. 
QLiando aquelíe homem principal que o aga- 
zalhouvio osdous miljáos , fello íaber ao 
Rey da terra ; mas Faletehan fe houve com 
tanta induftria , c afll trabalhou neíle nego- 
cio 5 que ficou Icnhor da Cidade , e da terra ; 
c aíTi quando Francilco de Sá chegou ao 
porto de Sunda , cílava efte tyranno Fale- 
tehan táo íenhor , que lhe nao confentio fa- 
zer a fortaleza , antes lhe matou alguma gen- 
te , e o desbaratou de maneira, que toman- 
do conielho com os principaes da fua Ar- 
mada , vifto os inconvenientes , c o pouco 
aviamento que tinliam para profeguir a guer- 
ra , fe tornou para Malaca. Donde defpedio 
logo Francifco de Mello" em huma caravel- 
la com cartas para o Governador , avifin- 
do-o do fucceílb da fua jornada , pedindo-lhe 
m.ais gente , e Armada para tornar a inten- 
tar a empreza. Francifco de Mello fazendo 
fua viagem , fobre a barra de Achem vio 
huma náo furta á carga , e com confelho 
dos companheiros a commetteo ^ e porque 
neila havia mais de trezentos Achens , e qua- 
renta Rumes , não íè atrevendo a abordai- 
la , fe puzeram á trinca , e com a artilhe- 
ria a bateram , té que com hum camello que 
lhe tiraram ao longo da agua , a abriram , 
e cheia delia fe foi ao fundo. Os Achens 3 

eRu- 

a Diogo do Couto cap. i. ão tiv, 5. 



88 ÁSIA DE JoXo DE Barros 

e Rumes fe lançaram ao mar para fe íalva- 
rem , mas eí caparam poucos j porque os 
Porruguezes raivofos da perda da náo , que 
eítava cheia de fazendas , os mataram quafi 
todos , e feguindo fua viagem foram tarde 
tomar Cochij. Os quaes ora deixamos , por 
fer neceíTario darmos conta do que Jie feito 
em Maluco, do tempo em que D. Garcia 
Henriques entrou por Capitão , e aííi con- 
tinuaremos com a ordem que já diííemos 
que tinhamos em contar os feitos que fe fi- 
zeram neílas partes de Malaca por diante. 

CAPITULO XIV. 

Como D, Garcia foi entregue da fortaleza 

de Ternate , e per morte à''ElRey Al- 

mancor tomou a Cidade de Ti dor e , 

e a dejiruio, 

TEndo António de Brito entregue a Dom 
Garcia Henriques a fortaleza de Ter- 
nate , pela maneira que na terceira Década 
diíTemos"', vindo a monção, clie fe partio 
para Malaca a 12 de Janeiro doanno I5'26, 
e foi furgir ao porto da Ilha de Bacham , 
ccom a detença que hi fez em concertar o 
feu junco, a 5' de Fevereiro foi ter a Ban- 
da , c dahi partio a 13 de Julho , e che- 
gou ájaiia a 10 deAgofto ao porto dePa- 

na- 

# Livro 10. cap, 5. 



Década IV. Liy. I. Cap. XIV. 89 

naruca , onde achou João Moreno, e Gon- 
çalo Alvares , e alguns vinte juncos de Ma- 
laca , que vinham de baixo da bandeira de 
Gonçalo Alvaites , per hum Alvará de Fero 
Maícarenhas , ijuc ao tempo da íua partida 
ainda eftava eni Malaca , e huns contra os 
outros eftavampoílos em armas. António de 
Brito 5 (a queili elles tomavam por Capitão , 
conáo quiz acceitar , enfadado dos íuccef- 
íos de Maluco , ) atalhou a tudo , e os con- 
certou que governa (Tem ás femanas , com ju- 
ramento de eílarem por eíle pafto ; e elÍQ 
fe partio , e foi á Cidade de 1'agaçam , cujos 
moradores , que eílavam de guerra com os 
Portuguezes , lhe haviam tomado hum jun- 
co de cravo , que dlc tinha mandado dian- 
te a Malaca , e intentaram tomar o leu em 
que vinha ; pelo que fe partio logo daquel- 
la Cidade , tomando primeiro hum junco , 
que achou no porto carregado de mantimen- 
tos , e chegou a Malaca a tempo que Pêro 
Maícarenhas dava á veia para ir governar 
a índia; eporefperar que entraíle no porto 
António de Brito para íaber delle das cou- 
las de Maluco , nao partio aquella m.aré , 
com que não pode ir aquelle anno á Índia , 
como atrás diíTemos. 

D. Garcia Henriques ficava em Maluco 
com neceílidade de gente, por a muita que 
António de Brito lhe levara , e aííi de fa- 

zen- 



90 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

zenda para comprar mantimentos , e pagar 
á gente , perque Jhe foi forçado mandar Mar- 
tim Corrêa Capitão mor do mar a Banda 
tomar alguns juncos dos que ahi achaíTe de 
Malaca , o que podia fazer por cfta Ilha fer 
da governança da lua capitania. E partindo 
Martim Corrêa cm Fevereiro , achou ainda 
António de Brito naquella Ilha muito de va- 
gar, fozendo carrega de maça, mui pacifi- 
co , por fer conhecido na terra do tempo que 
hi invernára. Dahi a poucos dias chegou de 
Malaca Manuel Falcão , que vinha com cer- 
tos juncos per mandado de Pêro Mafcare- 
rihas 5 e levava a Maluco o pagamento dos 
foldados , e com elle Fernão BaJdaia , que 
hia por Efcrivao da Feitoria daquella for- 
taleza , os quaes deram nova a Martim Cor- 
rêa , que por entre as Ilhas viram paíTar hu- 
ma náo da feição das noíTiis ; e receando Mar- 
tim Corrêa fer náo de Caílclla , requereo a 
António de Brito que IhedéíTe alguma gen- 
te , e a Manuel Falcão que foíTe com elle. 
Partio Martim Corrêa de Banda a 8 de 
Maio , levando comfigo Manuel Falcíio , e 
hum Gomes Aires criado do Moílre de Sant- 
iago , e chegou a Maluco , onde achou duas 
coufas que o defcontentáram , fervir Manuel 
Lobo feu officio fem feu confentimento , e 
andar Cachil Daroez muito defcontente , por- 
que D. Garcia tinha feitas pazes comElRey 

de 



Década IV. Liv. L Cap. XIV. 91 

de Tidore , porque com a guerra era fcnhor , 
e eillmado , e com a paz receava que por 
o nao haverem miííer , a Rainha mai d'El- 
Rey 5 por ler filha d'EIRey de Tidore , Vac 
ordenaria per algum modo a morte ; e o 
meímo receavam os Portuguezes , que pof- 
tos eílcs dous Reys em liga , todos fc levan- 
taíTem contra elles , aíli os de l'ernate , co- 
mo os de Tidore ^ e que Cachii Daroez por 
tornar á amizade d'ElRey Almançor de Ti- 
dore , e da Rainha de Ternate fua filha , fe 
ajuntaria com os Mouros deílas duas Ilhas, 
e feria também contra elles. Deíla fufpeita 
ie viram logo linaes manifeílos , porque Ca- 
chii Daroez tratava concertos com EiRey 
Ahiiançor de Tidore , que lhe déíTe por mu- 
lher fua filha, o que D. Garcia eílorvava, 
e Cachii o fentia muito ; e em quanto an- 
dava defcontente de D. Garcki , não pude- 
ram acabar com elle que tornaíTe a profe- 
guir a guerra. 

Nefte meio tempo veio a falecer ElRey 
Almançor de Tidore , deixando muitos fi- 
lhos , dos quaes o maior fe chamava Ca- 
chii Rade , e os outros eram Cachii Chei- 
re , Cachii Daroez , Cachii Abuçafa , Ca- 
chii Rageale , e Cachii Duquo ^^ Efte fò 
era o herdeiro por fer filho da Rainha Ca- 
chii Mir 5 e os outros de mancebas. O Ca- 
chii 

n EJle cliamaUxoio do Couto Cachii Raxamira. 



92 ÁSIA DE JoXo DE Barros 

chil Duquo era moço de dez annos , e ti- 
nha por leu Governador hum Mandarim cha- 
mado Libernhamc , que era como Condef- 
tabre , ou Capitão da gente de guerra. Ca- 
chil Rade , que em idade fe via maior, e 
nao Rey , nem Governador , tinha deiaven- 
ças com ElRey Cachii Duquo , e queria man- 
dar o Reyno. D. Garcia vendo-os dela vin- 
dos y defejando de lhes mover guerra , man- 
dou dizer a ElRey, que lhe mandafle toda 
a artiiheria que os de Tidore tomaram a 
huma fufta de Portuguczes , que pelas pa- 
zes que fizera com feu pai eftava aíTentado 
que lha reílituilFcm dentro de íeis mezes , e 
por fua morte íe acabava o tempo. Os Ti- 
dores íc efcufavam , dizendo , que ainda nao 
tinham dado íepultura a ElRey , nem era 
levantado o novo Rey , nem os leis mezes 
eram acabados , que lhes déíTe tempo para 
acabarem hum confelho em que eftavam , 
que logo fatisfariam a D. Garcia. Fernão 
Baídaia tornou lá , dizendo , que naquella 
embarcação em que elle hia lhe mandaíTcm 
logo a artiiheria , e nao lha entregando lhe 
apregoaíTe guerra , porque eíta lhe vinha en- 
tão melhor que a paz , de que eíiava arre- 
pendido. Em quanto efte recado foi , como 
quem em leu peito tinha aíTentado o que ha- 
via de fazer , fe fez preíles , e Cachii Daroez 
com a fua gente j c na mefma noite que tor- 
nou 



DEr:ADA IV. Liv. I. Cap. XIV. 95 

DOU com a rerpofta Fernão Baldaia , foi Dom 
Garcia á Cidade de Tidore , (que de Tcr- 
nare nao diíla mais que huma pequena lé- 
gua,) c deo nella per huma parte , fendo 
encaminhado de Manuel Lobo que já lá eC- 
tivera ; e pela outra , que era mais defenfa- 
vei , entrou Martim Corrêa. Os Tidores 
vendo-fe accommetridos tao de fubito , e en- 
trada fua Cidade , e fem Rev que os dci-en- 
deíFe , puzeram-fc em fugida , deixando a 
Cidade fó entregue aos Portuguezes ; os 
quaes recolhida a artilheria , puzeram fogo 
á povoação 5 que por fer toda de madeira, 
e cubería de ola , não tardou muito em fe 
fazer em brafa ; e aíTi a paz que fe fez fem 
bom confelho , por outro nao bom. confe- 
Iho fe desfez. Com efta vitoria fe torna- 
ram os noíTos á fortaleza mui defacredita- 
dos entre as gentes daquellas Ilhas , e em 
reputação de homens que não guardavam fua 
fé , e aíli no Reyno de Bachami , e cm ou- 
tros a que de antes hiam os nao recolliiam , 
e defendiam todo commercio , e communi- 
cação. 



CA- 



94 ÁSIA DE João DE Barros 
CAPITULO XV. 

Como D, Garcia fouhe que no -porto da Ci- 
dade de Camafo d'ElRey delidore ejiava 
huma não _ de Cajlella , e o que fez par a 
a trazer d fortaleza de Ternate, 

ESrando D. Garcia com mais repoufo na 
fortaleza , depois que deftruio a Cidade 
de Tidore 5 deram-lhc novas os Mouros de 
Ternate , que nas coílas da grande Ilha Ba- 
tochina , onde chamam o Moro , viram pai- 
far duas náos da feição das noílas. E por- 
que D. Garcia efperava por D.Jorge de Me- 
nezes 5 que vinha por Capitão daquella for- 
taleza de Ternate , (o qual partira de Ma- 
laca em AgoítO , e elcorrêra de maneira que 
fora invernar nas Ilhas Papuas , que cílam a 
Leílc de Ternate,) pareceo-lhe que feriam 
as náos fuás. Também fafpeitou que pode- 
riam fer de Caftelhanos , pelo que mandou 
lá Martim Corrêa em huma coracóra , e com 
elle Diogo da Guerra lingua para faber que 
náos eram. A nova que trouxe foi ,• que em 
Camafo" Cidade d'ElRey deTidore inimi- 
go dos Portuguezes , eííava huma náo de 
Caílelia ; mas que viram mais duas que não 
puderam tomar terra por o vento lhes não 

fer- 

a ííf.á Camafo na Maratoja , cujo fan^m era vaj/al- 
Jo iCElRcy íU Tsdore, 



Década IV. Liv. I. Cap. XV. 9^ 

fcrvir. Havida efta nova , fez D. Garcia a 
Armada prcílcs , e mandou por Capitão mor 
delia Manuel Falcão em hum navio de Duar- 
te de Rezende , em outro hia Franciíco de 
Caftro , e em huma fuíla Diogo da Rocha , e 
Cachil Daroez com a Armada da terra. Che- 
gados á náo , mandaram diante Francifco de 
Caftro, que fervia de Ouvidor, com huma 
carta de D. Garcia para o Capitão da náo , 
e com offerecimentos , pedindo-lhe que vief- 
fc a Ternate ; ao que ellc refpondeo com 
cortezia , e boas palavras. E vindo todos á 
vela 5 e íèndo tanto avante com huma pon- 
ta da Batochina , a tempo que fe ajuntaram 
á vifta com os noiTos , fobreveio hum chu- 
veiro em conjunção , que a náo paíTou fem 
fer vifta , e foi leu caminho direito a Ti- 
dore 5 com Pilotos que trazia da terra , on- 
de fe recolhco , emeitéram a náo em huma 
calheta por eftarem mais feguros ; porque 
bem entenderam os Caftelhanos com a viira 
da noíTa Armada , que os nao hia demandar 
com bom propoíito , e difto fe queixavam 
depois y mas D. Garcia fe efcufava que era 
Armada , que fempre trazia na Cofta cm guar- 
da da terra. Dahi a dez , ou doze dias veio 
a D. Garcia hum Caftelhano , e fobre a vin- 
da , e eftada deftes novos hofpedes houve 
grande rcferta , fe veriam á fortaleza ^ e dei- 
xariam de comprar o cravo. Mas vendo 

D. 



96 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

D. Garcia que com elies não havia nenhuma: 
conckisao 5 e que o cravo era per elles pof- 
to em grande preço , depois de dcípedido 
cftc mcníagciro , com o parecer dos que com 
elle eílavam , determinou de ir em peíToa ver 
fe com boas palavras podia trazer comfigo a 
gente deita náo Caílclhana. Era Capitão del- 
ia hum Martim Inhjgucz de Carquizano Bif- 
cainho , por morte de Fr. Garcia Jofre de 
Loaiía Cavalleiro da Ordem do Hofpital de 
S. João 5 Capitão gerai de huma Armada 
que partira da Corunha o anno de i^i^''* 

Mar- 

a Ejla Armada mandou aprejlar o Ewpcrador Car/os 
V. para mandar às J//:as de Aíaíuco , depois çue fem re- 
fofação fe desfez huma Junta de Jarijlas , Afronomos , e 
mareantes y entre Elvas, e Badajcx no anno de \<fi^ fo' 
hre a poíje , e propriedade da(juel'as lihas. Era a Arma- 
da de féis navios , e hum patuxe , da (j uai foi per Capi- 
//?('» peral Fr, Garcia Jofi e de Loaifa Cavalleiro da Or- 
dem de S. João , natural de Ciudad Real. Das outras nãos 
eram Capitães João Sebajiião de! Cano , [que voltou á HeP- 
yanlia por Capitão da náo Vitoria , (jue foi a primeira que 
deo huma inteira volta ao Mundo , ) Pedro de Vera , Dom 
Kodriç;o da Cunha , D. Jorge Aíenrique , Francifco de 
liozes, e Sant-Iaco de Guevara. Partia ejia Armada da 
Corunha em Julho de i <2<^ , fex fua viagem pelo Ejlreito de 
Jílagalhães , a qual defembocou ao mar do Sul no fim de 
Maio de i'f'26, e de toda ella fó a náo Capitaina chegou a 
Tidore o ultimo de Dezembro do mefmo anno com morte de 
ivuita gente , da qual foram os principaes o Geral Frei 
úarcia Jofre de Loaifa , João Seba/lião dei Cano , e To- 
ri^to Affonfo de Sala:^ar , que hum irás outro fuccedeo a 
Lo/iifa na Capitania ; e per morte de Salazar fvi eleito 
Martim Inhiguez. António de Herrera na Hifioria das 
Índias Dec. 5. liv. 7. tf 9. 

EM 



Década IV. Liv. í. Cap. XV. ()j 

Marrim Inhiguez como entendeo a tcnçad 
de D. Garcia 5 que era pelejar com os Caí-^ 
telhanos , fenão vielTem para ellc á fua for- 
taleza , fe fez preítes para o que fucccdciTc. 
Dava-lhe animo faber o pouco poder , c pou- 
ca gente que D. Garcia tinha , de que os da 
terra o informavam , como homens que dos 
Caftclhanos efperavam mais proveito , aíli 
por o maior preço que lhe davam pelo cra- 
vo , e mais drogas , como por as grandes 
promeílas que lhes faziam de os livrarem , c 
vingarem dos Portuguezes ; e aííi a primei- 
ra coufa que os Caftclhanos fizeram foi cn- 
topir a calheta , que lhe não pudeOem to- 
jnaranáo, e fizeram de pedra , e barro hu- 
ma cafa , e hum baluarte da mefma maté- 
ria ^ em que puzeram toda a fua artilheria. 
D. Garcia vendo o eilado em que fe os 
Caílelhanos punham , determinou de ir a el- 
les . deixando Manuel Falcão por Capitão 
da fortaleza , e ordenou fua Armada , man- 
dando que Diogo da Rocha Capitão da fuf- 
ta levaífe huma bombarda groífa para com 
cila poder entrar pela calheta , e Manuel Lo- 
Tonu IV, P, L G bo 

Efia Arma fia de Fr. Garcia de Loaifa aportou em h:i^ 
ma Ilha em altura de três gráns agucm da Unha , ã qm 
■pui^eram nome S. Mattheas , na (jual fe viram finaes de 
Jer já povoada per Portu^ruezes havia oitenta efete annôs , 
Je^^undo os letreiros abertos nos troncos das arvores: achJ^ 
rarn nelia laranjeiras , e outras arvores de fruto , gaUi- 
rihns no mato, e raflro de porco.í. /.utonio Gulvrio «í7í '^V" 
cubrimenlos das Ár.tHhas ^ e índio. 



^8 ÁSIA DE João de Barros 

bo cm hum batel grande com hum camelo > 
c Ília manta , e Diogo Rodrigues de Azevedo 
cm iium calaluz com iiuma elpera. Na Arma» 
da deCachil Daroez hia embarcado D. Gar- 
cia , c Martim Corrêa , e toda a gente com 
determinação , que D. Garcia em peíToa re- 
qucreíle ao Capitão Caftelhano , que íe vieíTe 
á fortaleza, onde í lie feria feita toda acortc- 
2Ía , e que não quizeífe eftar em terra de 
icus inimigos , que pareceria fer Jium del- 
Ics , e quando não quizcíle , per armas o 
obrigaffe a vir. Não houve lugar de Dom 
Garcia fazer eíle requerimento ; porque os 
Caílelhanos como fentíram asnoífas embar- 
cações 5 e que fe chegavam ao recife que era 
a defensão da náo , difparáram a fua arti- 
Iheria , com que mataram logo hum remei- 
ro na fufta de Diogo da Rocha , e lhe que- 
braram a cana do leme , ferindo o que a 
levava , e aíli fe começaram, a esbombardear 
huns aos outros ; e porque a artilheria dos 
Portuguezes fazia pouco damno aos Caíle- 
lhanos , e á fua náo , porque com o recife 
fe não podia bem apontar^ e da fua eram 
os noíTos mui offendidos , depois de durar 
o combate quaíl três horas , fe afaílou Dom 
Garcia, e pert:onfelho de Martim Corrêa 
foi dar em huma villa dos Mouros íituada 
á borda da agua ; mas ella eílava tão aper- 
cebida,, e defenfavcl com ajuda dos Cafte- 

Iha- 



Década IV. Liv. I. Cap. XV. ()() 

lhanos , que primeiro que D. Garcia clie- 
gafic a pelejar 5 íalnndo Alartim Corrêa em 
terra com alguns vinte c cinco Ibldados , o 
feriram per duas vezes com virotoens , e ha- 
ma com hum quadrei lo que \\\^ deo em hum 
ouvido , de que ficou quaíi morto , e per 
toda a íua vida lurdo. E vendo D. Garcia 
o pouco que fazia , fe tornou para a forta- 
leza , onde chegando foi^ certificado que a 
ndo dos Caftelhanos ficara tão aberta , aíli 
por a larga viagem que tinha feito , como 
da artilheria dos Portuguezes , que fe fora 
ao fundo \ pelo que D. Garcia determinou 
não fazer mais guerra aos Caftelhanos , por- 
que bailava a do tempo , que os iria conru- 
nnndo , e os faria vir á fortaleza , onde el- 
le eíbva com deigoílo , por lhe ferem con- 
trários todos os moradores delia, por o que 
elles perdiam* no cravo que D. Garcia fazia 
para ElRey \ e porque era chegada a mon- 
ção para Malaca , defpedio os que haviam 
de partir para lá , que foram Martim Cor- 
rêa , ainda enfermo da fua ferida , no junco 
dejoão Rodrigues , e Manuel Lobo em ou- 
tro junco de D. Garcia , e Duarte de Re- 
zende em hum navio pequeno que comprou 
por nome S. Pantalião. 

Martim Corrêa '^ chegou a Malaca cm 

G ii tcm- 

n Francifco de Andrade cav. JJ- ^'^ i.Part-, Dioga 
do Couto cap. ^.. do Uv, J. & FeinTio Lopss de GaJílunhe- 
dã cap, Oj. do Uv. 7. 



ICO ÁSIA DE JOAO DE BARROá 

tempo que os moradores de Lobú , (porto da 
Ilha de Çamatra , cujo Rey , e vaíTallos cor- 
riam com amizade com o Capitão de Ma- 
laca , ) tinham tomado havia poucos dias hu- 
ma galé , e morto Álvaro de Brito Capitão 
delia , e íetenta homens que levava , a qual 
mandara Jorge Cabral Capitão de Malaca a 
tomar fatisfaçao da morte , que fem caufa 
deram os mefmos Mouros a outros Portu- 
guezes , que em Jium navio foram tratar ao 
leu porto de Lobii : pelo que Jorge Cabral 
pedio a Martim Corrêa que quizeile ir vin- 
gar aquella aíFronta ; e acceitando-o clle ^ 
com cento c vinte Toldados , em algumas 
lancharas que fe armaram , atraveíTou a ou- 
tra coíla de noite , e foi demandar o porto 
de Lobú 5 e de madrugada entraram pelo 
rio , e fem ferem fentidos defembarcáram na 
Cidade , a qual queimaram , e com morte 
de feus moradores fatisfizeram largamente o 
damno que alli osnoíTos receberam, e dei- 
xando tudo aíTolado ; e tomada a galé que 
eftava no rio , com. toda a íua artiiheria , e 
outras muitas embarcações , e pondo fogo 
ás que eftavam em eílaleiro , fe embarcaram 
para Malaca ^ onde com muita feíla foram 
recebidos. 



CA- 



Década IV. Livko L ioi 

CAPITULO XVI. 

Cmno D. Jorge de Menezes partto de Ma-- 

laca para Maluco a fervir de Capitão , 

e fez nova viagem pela Ilha de Bor- 

neo ; e das di ff crenças que teve com 

D, Garcia Henriques, 

AS duas náos , que os Mouros de Ter- 
nate viram que não podiam tomar ter- 
ra , e que D. Garcia fufpeitava ferem de Caf- 
telhanos , eram de D.Jorge de Menezes , ao 
qual por muitos , e aíllnalados lerviços que 
fizera na índia , (principalmente quando ma- 
taram Diogo Fernandes de Beja , e clle cu- 
brio o feu corpo , e na entrada da cava de 
Calecut , onde o aleijaram da mão direita "" ) 
D. Henrique de Menezes o provéo da ca- 
pitania de Maluco ; e porque antes da lua 
partida faleceo D. Henrique , confirmou a 
Provisão Lopo Vaz de Sampaio ; e chegan- 
do D. Jorge a Malaca , achou Pêro Maf- 
carenhas , que eftava já com nome de Go- 
vernador da índia , o qual pelas qualidades 
da pefToa de D. Jorge lhe paíTou Carta da 
confirmação da fua capitania de melhor von- 
tade. E querendo partir de Malaca a 22 de 
Agoílo do anno 1526 com feíícnta homens , 
e dous navios que trazia da índia , em hum 

dos 

a Djj.hía }. //v. 6. cap. 9. e liv. 9. cap. 10. 



102 ASIx\ DE JOAO DE BaRROS 

dos quaes hia elle , e no outro Balthazar 
Rapofo que hia por Feitor, porque havia 
dous caminhos para Maluco , hum per via 
da Jaíia , e Banda , que he mais frequenta- 
do ^ mas mais comprido, e outro mais cur- 
to per via da Ilha de Borneo , que ainda 
nao era defcuberto , fez D. Jorge fua via- 
gem per Borneo , por Pêro Mafcarenhas 
IJio dar por regimento que foiTe per aquel- 
le novo caminho para fe fiber , e fe efcu- 
far á detença que fe fazia em Banda ef- 
perando por as monções. E por fer D. Jor- 
ge o primeiro Portugucz que per aquella 
parte navegou , diremos o decurfo da fua 
viagem. '^ 

Partindo D. Jorge de Malaca com Pi- 
lotos Mouros , que tinham noticia daquella 
carreira , indo cofteando , entrou pelo Ef- 
treito de Cingapiira , que he de largura de 
hum tiro de berço , e tão baixo , que em 
muitas partes nao tem de fundo féis braças , 
e muitas reílingas que entram humas per 
outras. Aqui achou que a terra fazia huns 
cotovellos de maneira , que era necelTario 

ter 

a Diz, Diogo do Couto Dec. 4. Jlv. 4. cap. 2. gue o pri' 
mieiro (jne intentou defcuhrir ejie caminho lU Malaca a 
Maluco per Borneo f foi António de Ahren no anno dei<,2-^ 
per ordem de António de Brito Capitão de Maluco y o çual 
António de Abreu , depois de andar muitos dias perdido 
per entre acjuellas Ilhas , i ornou arrihir a Maluco ftím ot^a- 
iar a viivrem.. 



Década IV. Liv. I. Cap. XVT. 103 

ter grande tento para fe navegar. Cl legan- 
do a hiiinalUia que chamam Pedrabraíica , 
que he mui demandada dos Pilotos daquel- 
las partes, fez lua derrota á Ilha, que os 
da terra chamam Pulugaia , que quer dizer 
Ilha do Eleiante , pela figura que m.cílra 
em feu afpeíto. Daqui per outras muitas 
Ilhas , de que aquelle mar he muito fujo , 
chegou á de Borneo , ao porto da Cidade , 
que eftá em cinco gráos de altura da parte 
do Norte ; e depois de mandar prefentes a 
ElRey , e ElRey a elle , fez feu caminho 
per entre muitas Ilhas , e reítingas , que ef- 
tam na paragem de Borneo em fete gráos , 
coufa muito perigofa , e que fe não pode 
navegar fenáo de dia , com hum marinhei- 
ro na gávea vigiando os baixos , fem ter 
mais noticia delles , que a que aílinala a 
agua onde branqueja , chegou á Ilha de São 
Miguel , que os da terra chamam Cagua- 
hão , e paífou á Ilha Mindanao , e foi per 
entre ella , e a Ilha Taguima , que he além 
deíle canal, onde fe D. Jorge já havia por 
fulvo do perigo delle. E como aqui os ven- 
tos , e as aguas em Outubro , e Fevereiro 
curfam muito contra Leíle , e os Pilotos não 
foflem muito certos , efcorrêram á Ilha do 
Moro , a que também chamam Batochina , 
ao longo da qual jazem as Ilhas de Malu- 
co , fim da fua jornada j e andando pela 

par- 



104 ASIÀ deJoao de Barros 

parte do Norte para tomar eíla Ilha do Alo- 
ro , *íem os ventos que vinham per cim.a del- 
ia lhe darem lugar , foi viílo per aquelles 
que de fuás náos deram as novas a D. Gar- 
cia. Dahi foi difcorrendo té ir ás Ilhas de 
huns povos a que chamam Papuas "" , a que 
muitos por efta ida de D. Jorge cham^am 
Ilhas de D. Jorge , que eftam a Leite das 
Ilhas de Maluco diftancia de duzentas lé- 
guas. Mas aquella onde elle invernou , que 
era de bom porto , fe chama Verfija , a qual 
eílá debaixo da linha Equinoccial. Vindo 
o tempo da monção, eílas náos de D.Jor- 
ge fe mettêram íempre debaixo da linha j 
porque por ella vinham a dar em Maluco , 
e chegaram a huma Ilha , que os da terra 
chamam Menufii , e á outra a que chamam 
Biifii 5 que eílá mais a Leíle , á qual puze- 
ram nome dos Grãos , por os muitos que 
nelía acharam. Dalli vieram por a parte do 
Sul da Batochina á Cidade Onage , e paf- 
fáram entre ella , e a Ilha da Qarça , que 

he 



a Os Papuas , /fue em lin^,iía dos naturaes çujr di\er 
r,es;rps , pox/itc ofam elles como es Cafres , com cabello re- 
volto , de grandes , e crefpas grenhas , fam magros , feios , 
rijos , e atiiradores do tratalho , e mui habites para toda 
tpaldade , e traição. Entre elles ha muitos fiudos , e ou- 
tros tão brancr.s , e hntrns c.wio Alemães , os quaes v€tn 
mui pouco. Tem todas ejias Hhas Reys , e ha neJlas ouro , 
do (juat não tiram os Papuas mais que o que hão mifler 
pura jóias. Dlvogo do Couto cnp. j. do liv. 7. 



Década IV. Liv. I. Cap. XVL 105' 

he já do fenhorio dos Reys de Maluco ; 
e indo aíli ao longo da Batochina , vendo 
todas as Ilhas do cravo , chegaram a Ter- 
natc ao derradeiro dia de Maio de 1527; 
de maneira ^ que puzeram de Malaca té Ter- 
nate oito mezes , e nove dias em diftancia 
de quinhentas léguas que ha , indo per ca- 
minho direito , e com ellas voltas , e rodeios 
andaram mais de mil ; tao defícil , e traba- 
Ihofa he aquella navegação. 

Tanto que D.Jorge chegou, foi entre- 
gue da fortaleza de Ternate , c da terra , 
aíli como eftava de guerra , fem D. Garcia 
niíTo ter dúvida , nem diíFerenças ; mas não 
tardou muito que a não tiveíTe , por Dom 
Garcia querer trazer de Maluco alguns of- 
ficiaes da fortaleza , e não querer vir pela 
via de Borneo , como D. Jorge lhe notifi- 
cara por parte de Pêro Mafcarenhas , para 
fe faber , e continuar aquella navegação : o 
que D. Garcia recufava por o muito que 
ganhava vindo per Banda , (que era a car- 
reira ordinária , ) onde pretendia carregar de 
noz , e maça. E pofto que D. Jorge impor- 
tunado 5 e defobedecido de D. Garcia lhe 
veio a conceder que vieíTe per Banda , e 
deixaíTe a nova viagem de Borneo , não fe 
fatisfazia D. Garcia , porque fempre fe ha- 
via de faber que não viera pelo caminho 
que Pêro Mafcarenhas , ccmo Governador, 

m an- 



io6 ÁSIA DE João de Barros 

mandava *. Não perderam efta occaíiao os 
inquietos , que da difcordia deftes dous Fi- 
dalgos pretendiam intereíTe , porque aíTi a 
femeáram entre elles , que de altercações 
vieram a palavras injurioias , e de palavras 
a obras , prendendo D. Jorge "em ferros a 
D. Garcia ; e depois de folto D. Garcia , 
e ferem ambos reconciliados , per meio de 

máos 

a Não querendo D. Garcia fo-^er fua viagem per Bor- 
neo i parecendo a D. Jorge fer necejjario avijar ao Capi- 
tão de Malaca das cotijas fuc cedi das em Te mate , e que 
fc fiufje a viagem per Bomeo , para fe defcuhrir com par- 
ticular idade aquelle novo caminho , mandou a ejle efeito 
em hiima coracôra Vafco Lourenqo , Diogo Cão , e Gonça- 
h Veí/ofo , cavalleiros mui honrados , com ordem que em 
Bomeo ajjentaíjem commercig com ElRey , a quem enviou 
hum prefente -. entre as peças delíe havia hum panno dâ 
B-ax. y de figuras grandes, que reprefentavam o cajamento 
d^EíRey Henrique VIII. de Inglaterra com a Rainha Dona 
Catharina fua mulher. Chegaram ejles Portugne-^es a Bor- 
neo y cnde acharam hum junco , de que era Capitão hum 
Affonfo Pires : fallãram a ElRey , de quem foram hem 
recebidos ; e aprefentando-lhe Vafco Lourenço as peças que 
íhe levava , ahrindo-fe o panno , vendo ElRey huma coufa 
tão defacojlumada , fuj peitando que a que l/as figuras eram 
encantadas , que lhe queriam metter em cafa , para de 
noite o matarem , e lhe tomarem o Reyno , mandou que 
Jogo lho tiraffem dalli , e os Portugueses fe fof/em do fett 
porto , que nao queria na fua terra outro Rey fenão elle, 
E pojlo que Ajfònfo Pires , que era feu conhecido , e al- 
guns Mouros procuraram tirar ElRey daquella imaginaçaoy 
dixendo-lhe o que aquellas figuras figmficavam , não pude- 
ram. E a/Ji Affònfo Pires fe tornou para Malaca , com 
quem foi Vafo Lourenço , e os [eus companheiros voltaram 
na coracôra para Maluco. Diogo do Couto liv. 4. cap. 1. 
e 4.e Francifco de Andrade 2. Part. cap, 52. ^ Fernão 
Lopes de Caíbmheda cap. jy. do liv. 7. 



Década IV. Liv. L Cap. XVI. 107 

mios terceiros , e falfos confelheiros , Dom 
Garcia prendeo ao inclmo Capitão D.Jor- 
ge de Menezes , por tao má maneira , e rao 
deshoneílo tratamento , como íe fora hum vil 
malfeitor, fendo D.Jorge hum Fidalgo de 
grandes qualidades , e mui cavalleiro , que fe 
cíHvcra lòlto , e com armas , o nao houve- 
ram de prender. Sobre eíla prizao Simão de 
Vera Alcaide mor da fortaleza , e os amigos 
de D. Jorge fe retiraram aonde chamam a 
terra alta , que he namefmallha, c manda- 
ram dizer a D. Garcia , que foltaíTe a Dom 
Jorge, fenão que convocariam osTidorcs, 
e os Caftelhanos , e o iriam tirar da prizao. 
Com eíla determinação foi affentado , que 
D. Jorge fo íTc folto debaixo deitas condi- 
ções : Que D. Jorge havia de dar a Dom 
Garcia o navio de Pêro Botelho para fua 
embarcação , e havia de deixar ir o mcí- 
mo Pêro Botelho com quantos eílavam no 
navio y e que havia de dar licença que to- 
dos os que eram de parte de D. Garcia fe 
foífem com elle , fem lhes embargar fuás fa- 
zendas 5 e que fe haviam de romper todos os 
autos , e devaíTas que eram tiradas , os quaes 
capítulos haviam jurar folemnem.ente Dom 
Jorge, e D. Garcia. E que depois de ido D. 
Garcia para Talangame com todos os que 
haviam de ir com elle , viria Simão de Ve- 
ra^ e os outros da facção de D. Jorge, e 

o foi- 



io8 ÁSIA DE João de Barros 

o foltaricim. D. Garcia mandou diante fcii 
fato , e os que o haviam de acompanhar j e 
primeiro que fe partifTe da fortaleza , fez en- 
cravar a artilheria , para que lhe náo tiraí- 
fem com ella "*. Ido D. Garcia , entraram 
Simão de Verá , e feus companheiros , e 
foltáram a D.Jorge com muito prazer dei- 
les j mas nao de D. Jorge que eílava mui 
triíle, e fentido da oflenfa que fe Jhe fize- 
ra: polo que mandou logo ao Ouvidor que 
fizeíTc autos de tudo o que paífira , e pedio 
inílrumentos de como no tempo que eftive- 
la prezo fe apoderaram os Caftelhanos da 
Ilha de Maquiem , por nao haver quem lha 
defendeíTe , no que ElRey de Portugal re- 
cebera muita perda por haver nella muito 
cravo , e mandou fazer hum requerimento 
a Pêro Botelho , que fe foífe á fortaleza , 
porque tinha muita neceílidade do feu na- 
vio , por caufa da guerra dqs Caftelhanos; 
mas defte , e de outros requerimentos nao 
fez caio Pêro Botelho , nem D. Garcia , os 
quaes fe partiram para Malaca ; e D. Jor- 
ge mandou fazer auto da defobediencia de 
D. Garcia , havendo-o por alevantado , e 
aos que com ellc hiam , e fez proteftos co- 
mo 

a "Delas ãitfercnças entre D. Jorge , e D. Garcia 
€\cyevem com particularidade Francifco de Andrade nos 
cap.^i. J2. n- ^ )4- '^'' 2. Vart. Diogo do Couto nos 
cap.i. \. e 4. dõ liv. 4. e Fernão Lopes de CaAanhe- 
da niyU o cjp. 54. í^' o cap. 62. do Hv. 7. 



Dec, IV. Liv. I.Cap.XVI. eXVII. 109 

mo Ilies dera licença per força , eftando fo- 
ra de Tua liberdade , e cargo , prezo em fer- 
ros 5 havendo tanta neccllidade daquella gen- 
te por o citado cm que a terra ficava. Com 
eiks autos , e iníbumentos , e com cartas 
que D. Jorge efcrevco ao Capitão de Ma- 
laca , em que lhe dava relação dos fuccef- 
fos de Maluco , e lhe mandava pedir foc- 
corro de gente , mandou Vicente da Fon- 
fcca á preíTa em hum navio apôs D. Gar- 
cia , efcrevendo também , e requerendo da 
parte d'ElRey , e da fua a qualquer Capi- 
tão que em Banda eíliveíTe enviado de Ma- 
laca , que tomaíTe a D. Garcia o navio que 
levava contra feu mandado , e o prendeííe. 
E enviou Gomes "^ de Sequeira bufcar man- 
timentos ás Ilhas de Mindanao , o qual 
defgarrando com hum temporal , defcubrio 
muitas Ilhas juntas em nove para dez gráos 
da parte do Norte , que delle fe chamaram 
as Ilhas de Gomes de Sequeira. 

CAPITULO XVII. 

Da joriíãdã de Vicente da Vonfeca d Ilha 

de Banda , efuccejpjs delia , e da viagem 

de D. Garcia Henriques té Ccchij, 

TAnta diligencia poz Vicente da Fonfeca 
na viagem ;, que chegou a Banda pri- 
mei- 

a Diogo do Couto caip. 4. do Uv.. 4. 



lio ÁSIA DE João de Barros 

mciro que D. Garcia ; c nao achando allí 
navios , nem Capitão a que notificaíle os au- 
tos , e requerimentos de D. Jorge , receou 
que clicgando D. Garcia o prendeííe ; mas 
ncíta conjunção veio Gonçalo Gomes de Aze- 
vedo 5 (filho do Almirante Lopo Vaz de Aze- 
vedo , ) que o favoreceo. A caufa de Gon- 
çalo Gomes vir naquelle tempo foi , que fa- 
bendo Jorge Cabral , que eftava por Capi- 
tão em Malaca , per Martim Corrêa , como 
os Portuguezes , que eftavam em Maluco , 
tinham guerra com ElRey de Tidore , e com 
os Caftelhanos 3 ordenou de lhe mandar íòc- 
corro de gente honrada , e limpa , e hum a 
Armada de cinco navios , da qual fez Ca- 
pitão mór a Gonçalo Gomes de Azevedo ; 
e os outros Capitães eram Gafpar Corrêa , 
Jorge Fernandes de Refoios , Manuel Bote- 
lho , e Ruy Figueira "^ . PaíTou Gonçalo Go- 
mes perBintam por mandado do mefmo Jor- 
ge Cabral , para também foccorrer ao Se- 
nhor daquella IlJia , porque efperava fer cer- 
cado per Lacxemena Capitão mór do mar 
d'ElRey de Campar inimigo dos Portugue- 
zes. Deteve-íe em Bintam Gonçalo Gomes 
fetc 5 ou oito dias , efperando por Lacxeme- 
na ; e vendo que não vinha , fe fez a veia 
para Banda , onde chegou primeiro que Dom 

Gar- 

a Ejia Armada partio dd Malaca na entrada de Ja* 
neúo de i^2d. 



Dkcada IV. Lxv. I. Cap. XVII. iii 

Garcia , e achou a Vicente da Fonfeca , o 
qual contou a Gonçalo Gomes tudo o que 
D. Garcia fizera a D. Jorge , requerendo- 
liie em ícgredo que o prendcííe , e lhe tomaiTe 
o navio 5 que per força trouxera contra os 
requerimentos de D.Jorge, que delle tinha 
muita neceílidade , por tícar de guerra com 
os Mouros , e com os Caílelhanos. Gonçalo 
Gomes não dcferio á prizao , dizendo , que 
o não podia fazer , mas que lhe tomaria o 
navio quando foíTe tempo. E por a terra 
não íer fegura , nem a gente fel , fez Gon- 
çalo Gomes huma tranqueira onde fe reco- 
Iheo. 

A efte tempo chegou D. Garcia Henri- 
ques 5 e por fe fegurar fez outra tranqueira , 
e entretanto foi hoipcde de Gonçalo Ciomes 
na fua. Mas quando D. Garcia vio Vicen- 
te da Fonfeca , que fabia fer amigo de Dom 
Jorge de Menezes , fufpeitou a caufa da lua 
vmda , e começou temer que Gonçalo Go- 
mes o prendeíTe : e mais o temeo , quando 
vio que Manuel Falcão , que hia em fua 
companhia , fe paíTára para a tranqueira de 
Gonçalo Gomes de Azevedo , a quem tam- 
bém contou o que paíílira D. Garcia com 
D.Jorge , aconfelhando-lhe que prendeíTe D. 
Garcia , e lhe tomaíTe o navio em que hia , 
fendo elle o mefmo que fez com D. Garcia 
que prendeíFe a D. Jorge. E como era ho- 

meoi 



TI2 ÁSIA DE João de Barros 

nicm novelleiro , e que nao durava nas ami- 
zades mais que quanto a elle cumpria , lan- 
çou fama que Gonçalo Gomes havia de pren- 
der D. Garcia por o que fizera a D. Jorge ; 
o que D. Garcia nao creo , nem menos que 
lhe houveíTe de tomar o navio , porque le- 
vava cravo para ElRey. Gonçalo Gomes 
quando aos 28 de Abril fe houve de par- 
tir para Maluco , fe foi defpedir de D. Gar- 
cia ; e embarcado nos bateis , e alargado da 
terra, prepaíTando pelo navio em que Dom 
Garcia havia de ir, lhe metteo dentro Ruy 
Figueira com alguns Portuguezes , e não lhe 
achando velas , as mandou pedir a D. Gar- 
cia 5 que as tinha na fua tranqueira , defcul- 
pando-fe de lhe tomar o navio , porque o 
fazia a requerimento de D.Jorge de Mene- 
zes Capitão de Maluco , de cuja jurdição 
era aqueila terra ; e por D. Garcia lhas nao 
querer dar , lhe tomou hum junco feu que 
Uie viera de Malaca : polo que D. Garcia 
mandou logo as velas , e queixas a Gonça- 
lo Gomes per Manuel Lobo por quem avi- 
fou ao Meílrc , e Condeflabre , c a outras 
peíToas do navio, que deílem á véla derra- 
deiro de todos , c tomaííem por davante , 
para afíl ficarem na trazcira , porque entre 
tanto iria elle com gente, e cobraria o na- 
vio. O Meilre por cumprir com o que Dom 
Garcia lhe mandava, fez que fe embaraça- 
va 



Década IV. Liv. I. Cap. XVII. 115 

va ao dar da véla , de maneira , que já os 
outros navios todos navegavam quando el- 
le deo d vela , e fez tomar o navio por da- 
vante. D. Garcia , que aí]uardava eíte tem- 
po , acudio logo com muita gente em pa- 
ráos , e Ruy Figueira conhecendo a malí- 
cia , capeou a Gonçalo Gomes que tinha os 
olhos no embaraço do navio ; e vendo a 
gente que hia da terra para o navio , e o 
capear de Ruy Figueira , entendeo o que 
era , e mandou tirar ás bombardadas a Dom 
Garcia , o que também fez Manuel Falcão. 
E por Manuel Lobo ir na dianteira , matou- 
IhQ de huma bomba rdada dous remeiros , e 
a ellc quebrou huma perna , e D. Garcia def- 
eípcrado de cobrar o navio fe tornou , e Ruy 
Figueira feguio fua viagem apôs Gonçalo 
Gomes de Azevedo , que chegou a Terna- 
te a 12 de Maio. 

D.Garcia carregou o feu junco que lhe 
viera de ?ríalaca , e partio para lá no mez 
de Julho daquelleanno de 15*28, e veio fur- 
gir no porto de Panaruca , que he na Jaíia , 
onde efteve tomando mantimentos , e dalli 
fez fua derrota a Malaca; e chegando a hu- 
mas Ilhas três léguas delia , mandou pedir 
feguro a Pêro de Faria , ( que já então era 
Capitão daquella fortaleza , ) que o nao pren- 
deiTe a elle , nem aos de fua companhia , 
o qual lho deo; mas defembarcando em ter- 
Tom.IKF.I. H ra^V 



114 ÁSIA DE João de Barros 

ra 5 triandoii-lhe embargar toda a fazenda , 
dizendo que lhe nao dera íèguro mais que 
para o nao prender, " 

Eílando D. Garcia em Malaca , e huns 
Embaixadores d'Ellley de Panaruca , que 
hiam aííentar paz , e amizade com Pêro de 
Faria , íè levantou Iiuma briga entre os cria- 
dos deftes Embaixadores , e os Malaios , á 
qual D. Garcia com íete , ou oito Portugue- 
zes da íua companliia acudio , e apazigou , 
e foi caufa de Fero de Faria lhe mandar def- 
embargar liia fazenda, dando fiança de cer- 
tos mil cruzados para ih delle qurzeíle Dom 
Jorge de Menezes alguma coufli. Não pa- 
raram aqui as aventuras que havia de paf- 
far a fazenda de D. Garcia j porque vinda 
a monção para ir á índia , partiram Jorge 
Cabral , que fora Capitão de Malaca , e Bom 
Garcia Henriques , cada hum em feu junco , 
com outros Fidalgos no mez de Janeiro de 
1^29 , e chegaram á barra deCochij, e por 
fer já no fim de Março , e ventarem os No- 
roeftes , Jorge Cabral entrou em Cochij , e 
D. Garcia o não quiz íèguir , dizendo que 
havia de paffar a Goa, em que pezaíTe ao 
vento 5 e ao mar. E por o vento fer contra- 
rio , e o junco ir muito carregado, chegou 
a Baticalá com grande traballio , e perfia j 

e ven- 

a Fernão Lopes de Caftanheda cap.%2. e 108. do Uv* 
7, e Francifco de Andrade cap, 37. da i. Fmt, 



Década IV. Liv. I. Cap. XVIL iij 

e vendo que o vento havia de fer cada vez 
inais forte , por fer já entrada do inverno , 
houve por bom conlèlho tornar- fe a Cochij , 
e aiii voltou com grande tormenta á barra 
onde furgio , porque por o junco fer gran- 
de , e ir mui carregado nao pode entrar no 
rio. E deixando D. Garcia o junco furto fo- 
bre huma amarra , fe foi elle a terra ; e cref- 
cendo o vento , o mar fe fez táo groíTo , que 
o junco fe foi ao fundo com a muita agua 
que ihe entrou , em que D. Garcia perdeo 
mais de cincoenta mil cruzados , que valia 
a fazenda que levava , fem ihe ficar mais del- 
ia que o veftido com que fahio em terra. 
Sobre eíladeígraça o prendeo Nuno da Cu- 
nha por o que fizera em Maluco , e o man- 
dou prezo a Portugal o anno feguinte , e 
aíli ficaram em vão todas as diligencias que 
poz por vir rico de bens tao fragiles , e in- 
certos , e a temerária promeiTa de poder mais 
que o mar, e o vento» 



H li CA. 



iió ÁSIA DE João de Barros 

CAPITULO XVIÍI. 

Como os Caftelhanos elegeram Capitão 
per morte de Alar ti m Inhiguez , e toma- 
ram huma gale Ota aos Portuguezes com 
morte de Fernão Baldai a , e mandaram pe^ 
dir foc corro ã Nova Hefpanha , e os Por- 
tuguezes dejiruiram a Cidade de Camafo, 

NEÍle mefmo tempo houve difFereiíças 
__ entre os Caftelhanos íbbre a íbcceísão 
da capitania , porque falecco Manim Inhi- 
guez de Carquizano feu Capitão , e huns 
queriam que foirc Capitão Fernando de Bui- 
tamante , que era Contador da Armada , e 
diziam que trazia a fuccefsao per regimen- 
to ; outros queriam que foííe hum Fernan- 
do de la Torre , que fervia de Alcaide mór 
daquella caía forte de pedra , e barro , que 
elles chamavam fortaleza ; e como eíle tivef- 
fe mais voros que favoreciam feu partido , 
prendeo a Buílamante, e teve-o tanto tem- 
po prezo , té que per partido lhe obedeceo , 
e ficou por Alcaide mór em lugar de Fer- 
nando de Ia Torre , e hum chamado Mon- 
te-maior por Capitão do mar , e AfFonfo de 
los Rios por Efcrivão. Vindo depois em 
Março de 15 2 8 hum junco de D.Jorge de 
fazer nóz , e maça para Ternate , encontrou 

hu- 



Dec. IV. Liv. L Cap. XVIII. 117 

Iiuma náo ** , que partira da Nova Hefpanha , 
cm que vinha por Capitão hum Álvaro de 
Saavedra , o qual náo fabeiido a terra em 
que era aportado , vendo o navio de Dom 
Jorge , perguntou onde eftava ; conhecendo 
os noíTos lerem Callclhanos , calaram- fe , e 
foram dar nova daquella náo a D.Jorge de 
Menezes. Mandou elle logo a Simão de Ve- 
ra Alcaide mor da fortaleza em huma fuf- 
ta , e Fernão Baldaia Feitor em hum batel , 
que foíTem requerer ao Capitão daquella náo 
qije vieíTe á fortaleza. Mas neíte tempo os 
Caftelhanos de Tidore fsbcndo como a náo 
era entrada , tiveram mais diligencia , e fi- 
zeram com que a náo fe mettelTe no porto 
de Geilolo ; e poílo que Simão de Vera fi- 
zelTe fcus requerimentos , a reípoíla que lhe 
deram os Caílelhanos foram bombardadas ; 
e como elle eflava fó, e a pclvora que ti- 
nha era molhada , e Fernão Baldaia não che- 

a E/í a nJo era a Orpitaína ãe huma Ârmaãa de três 
navios , que Fertwndo Cor/és iiumãou do Nova Hefpanha 
a Afaluco em hafcu da Armada de Fr. Garcia de Loaifa. 
"Era CapitTio Geral defla frota Álvaro de Saavedra , pa- 
rente de Fernando Cctés ^ e dos outros dons navios hníx, 
de Cardenas de Córdova , e Pedro de Fuentes de Kerer : 
hiam nella cento e dcx homens ; levavam trinta peças de 
ortiVieria , e muita vittialha ■. pafíio do porto de Zivatla- 
vejo vefpera de todos os Santos do anno de 1527: E dejia 
Armada fó a náo de Álvaro de Saavedra chegou a Aíalu- 
CO y c foi a primeira que fcT, ejia nova navegação ^ que 
pola conta dos Pilotos foi de duas mil íeguas. António de 
Herrera Uifcria das índias ^ Decaia 4. Uv. i. <? |. 



ii8 ÁSIA DE JoAO DE Barros ' 

gára á náo , tornou-fe Simão de Vera para 
Tcrnate. 

A eíle tempo mandaram os moradores 
da Ilha de Moutel , que era do íènhorio 
d'ElRey de Ternare , pedir íoccorro a Dom 
Jorge por o muito damno que recebiam dos 
de Tidore , mui orgulhofos com ajuda dos 
Caftelhanos , e com a vinda da náo de Saave- 
dra. E porque os Caíleihanos começaram fa- 
zer navios d'armada para irem deílruir a Mou- 
tel , mandou lá D. Jorge a Fernão Baldaia 
em huma galeota com. trinta e tantos Por- 
tuguezes , e com ellc hia Cachil Daroez com 
gente da terra ; e como elles não podiam 
paíTar a Moutel , fenao á vifta de Tidore , 
vendo os Caíleihanos a galeota, com gran- 
de al/oroço le embarcaram em huma fuíla 
que traziam preftes , da qual foi por Capi- 
tão AíFonfo de los Rios , e com a Armada 
da terra , cm que hiam muitos Tidores , ac- 
commcttéram os noíTos ; e depois de duas ho- 
ras de peleja foi entrada a galeota dos Por- 
tuguezes , em que morreo Fernão Baldaia ; 
o qual por fe reííituir do erro paíTado , de- 
pois que deferido, ecanfado não pode pe- 
lejar em pé, em giolhos pelejou em quan- 
to teve mãos ; e depois que fe não pode va- 
ler delias , pelejava com a lingua , animan- 
do , e esforçando os feus. Com elle morre- 
ram outros, que depois cuíláram a vida a 

mui- 



Dec. IV. Liv. I. Cap. XVIII. 119 

muitos Caftelhanos , os qiiaes levaram a ga- 
Icota com fingular alegria , e triunfo feu , e 
dos Mouros de Tidore. 

Náo havia mais que doze dias que paf- 
fára efta dcfgraça ; quando chegou Gonçalo 
Gomes de Azevedo de Banda , com cuja vin- 
da os Portuguezes ficaram nuâ contentes ; c 
per o navio que ei]e tomara a D. Garcia 
mandou logo D. Jorge recado a Malaca per 
Simáo de Vera per via de Borneo , o qual 
fe perdeo cm as Ilhas de Mindanao. Os Caf- 
telhanos apreílaram também o navio de Saa- 
vedra para o mandarem com recado á No- 
va Hefpanha , e o carregaram com quaren- 
ta bares de cravo ; e para credito da galeo- 
ta que tomaram aos Portuguezes , levava 
Saavedra comllgo Fernão Moreira patrão 
da Ribeira , Jacome Ribeiro comitre , e 
Jium Eícrivão da fortaleza , c alguns outros 
que foram cativos na gaieota \ e porque o 
Piloto de Saavedra era morto , levou cllc 
em feu lugar a Simão de Brito Patalim , 
que era prático na arte de navegar , ao qual 
querendo D. Jorge caftigar por culpas que 
tinha , fe lançou com os Caftelhanos , com 
outros dous Portuguezes , como também fe 
lançavam os Caftelhanos cem os Portugue- 
zes quando feus Capitães os queriam cafti- 
gar. Partio Saavedra para a Nova Hefpa- 
nha a 14 de Junho, e fazendo fua derrota, 

foi 



120 ÁSIA DE João de Barros 

foi tomar a Ilha Hamci cento e fcrcnta lé- 
guas de Tidorc , onde fiirgio para íe pro- 
ver de agua , e lenha. Simão de Brito , e 
Fernão Moreira o patrão arrependidos do 
que tinham feito, determinaram de queimar 
o navio, para que Saavedra não foíTe pedir 
foccorro ; e não achando para iíTo commo- 
d idade , furtaram o batel da náo , e quatro 
cfcravos que o remaflem , e tornáram-fe com 
outros alguns da com.panhia camdnho de 
Ternate. Álvaro de Saavedra ficando feni 
batel com que fe ferviíTe , foi poíto em cour 
dição de fe tornar; porém commetteo a jor- 
nada té tomar humas Ilhas em altura de 
dez gráos da banda do Norte, as quaes por 
ferem mui freicas , e cubcrtas de grande ar- 
voredo, lhe poz nome Beljardin ". Nellas 
fe deteve alguns dias, em que lhe entraram 
os Levantes , com que foi forçado arribar 
a Maluco , onde chegou já no fim de Ou- 

tu- 

a EJlos lUias dijlam da Ilha Haniei quafi ãui^entas e 
cmcoenta léguas. Os natiiiaes delias são humcos , de olhos 
peíjuems , poucas harbas , como os Chijs -. não havia na- 
<j:idlas Ilhas creaqao de aves , nem de gados ■. vejíiom os 
jl'us habitadores huns pannos feitos de hervas ■■ não tinham 
ferro , e em lugar delle ufavam inflrumentos feitos de con- 
chas de amegeas , e o liras : pescavam em almadias de ma- 
ihira de pinho .• o Jeu pão eram cocos Jeccos ao Sol y que 
na índia chamam Copra -. não tinham ufo do fogo , porque 
nunca o viram , fenão depois que os Cajlelhanos lho enfi- 
nâram. António Galvão no livro y que fez dos defcubrimen- 
ios das Antilhas , e índia : e Diogo do Couto liv. 4» 
cap. I, 



Dec. IV. Liv. I. Ca?. XVIIÍ. 121 

tiibro ". Simão de Brito , e os outros Por- 
tiigLiczes que- fugírani no batel , foram de 
Ilha em Ilha íblfrendo ranto trabalho , e fo- 
me , que de canfados fc deixaram ficar trcs 
delles em huma daquellas Ilhas ; os outros 
três feguíram avante te a 11 .ha de Guaime- 
lim , que he do lênhorio d^ElRey de Ti- 
dore , onde fendo conhecidos que eram Por- 
tuguezes , foram prczos , e levados a Fer- 
nando de la Torre , que conhecendo que 
eram os que hiam com Saavedra , tendo 
má íiifpeita delles , lhes deo tormento , e con- 
feílando a verdade , os condemnou á mor- 
te por traidores ao Emperador. Simão de 
Brito foi arraílado , e degollado , Fernão 
Moreira enforcado , e o outro ficou cativo. 
Os Caílclhanos vendo o máo fucceíTo da 
viagem do navio , que tinham mandado á 
Nova Hefpanha a pedir foccorro , c que 
D. Jorge fe havia de querer fnisfazer da 

per- 

a Álvaro de Saavedra arritando a Tidore , fex. varar 
a núo , e dar-lhe quer ena , e concertada tornou a fahir de 
Tidore para JVova Hejpanlia no anno feguinte de 1529. 
Fex. leu caminho a Lejnordejle , chegou a himias Ilhas cfue 
di fiavam de Tidore mil léguas , e outras tantas de Nova 
'Hefpanha : dalli correo a Nordejle té fe pôr cm altura de 
26 grãos , onde morreo. Prcfeguíram os Cajielhanos fua 
viagem fcnipre com ventos contrários té huma Ilha dos 
Ladrões em altura de 5 x grdos , mil e duzentas léguas 
de Maluco , de donde arribaram ^ e chegaram a Gcilolo 
no fim de Outubro do -mefino anno com o navio comido ã& 
bruma , que entregaram a Fernão de la Torre. António 
dc Herrera Hijioria das índias Dec. 4. liv. 5. cap. 6. 



122 ASIx\ DE João de Barros 

perda da galcota , fe aperceberam com cui- 
dado. Porem Gonçalo Gom.cs de Azevedo , 
depois que chegou , não quiz entender em 
piais que em fua fazenda , e em fazer cra- 
vo, fem em alguma coufa querer ajudar a 
D.Jorge, que determinava ir deílruir a Ci- 
dade de Tidore , c aíli fem fazer nada fe 
partio para Malaca a lo de Fevereiro de 
1529. 

No Novembro dantes chegou a Ter- 
nate D. Jorge de Caílro , que de Malaca 
veio per via de Borneo cm hum junco de 
Diogo Chainho Feitor que fora de Mala- 
ca, e em fua companhia Jorge de Brito em 
huma fuíla , e errando a viagem veio ter 
ao longo da Ilha de Macaçar , e delia a 
Ternatc , fem a fufta , que não appareceo 
mais ^ . E porque mandando D. Jorge em 
bufca delia a algumas líhas do Moro a Go- 
mes Aires em huma coracóra , os de To- 
lo, e Camafo o não quizeram agazalhar, 
nem dar de comer , mas fizeram zombaria 
òúlc , tendo agazalhado , e banqueteado aos 
Caftelhanos havia poucos dias , vindo elles 
de queimar Jium lugar d'EiRey de 1 erna- 
te por nome Chiamo , e eíla nova havia já 
chegado a D. Jorge per terra , quando tor- 
nou Gomes Aires , fez elle preíles huma 

Ar- 

a EJla fttjla ãix. Fiancifco de Andrade no cap. 59. ãa 
2. Parte , giie veio aportar a Banda. 



Dec. IV. Liv. I. Cap. XVIIT. 123 

Armada , de que mandou por Capitão Dom 
Jorge de Caftro com te vinte e cinco Por- 
tuguezcs 5 e com elJes Caclií Darocz com 
os navios da terra , os quaes foram fobre 
a Cidade de Camafo , que era d'ElRey de 
Tidore, e a queimaram de todo , poílo que 
a gente com medo fugio , e fe poz cm fal- 
vo. Tornados a Ternate , foi D. Jorge de 
Caílro per mandado de D.Jorge de Mene- 
zes a Tidore tratar pazes com Fernando 
de la Tori^e ; m.as elle , e os Caftelhanos 
que com elle eftavam íicáram. tão ufanos com 
o bom fucceífo da galeota que tomaram , 
e da morte de Fernão Baldaia , e de feus 
companheiros , e de outras vitorias que hou- 
veram de alguns do Alaluco , que nao qui- 
zeram vir a concerto com as condições que 
D. Jorge pi opunha a paz , e fizeram tré- 
guas , o que elle guardou para feu tempo, 
como fe dirá ao diante ; porque deixadas 
agora ascouías do Maluco, daremos razão 
das que fe paíiaram na índia. 



DE. 






DÉCADA (QUARTA. 
LIVRO II. 

Governava a índia Lopo Vaz 
de Sampaio. 



C A P I T U L. O I. 

Como Lopo Va% de Sampaio , fahendo que 
vinha Ter o Mafcarenhas de Malaca , lhe 
mandou notificar que não viejje co- 
mo Governador ; e que querendo en- 
trar em Cochij , foi maltrata- 
do 5 e ferido, 

O mez de Dezembro do anno de 15*26 
na fegunda Oitava do Natal chegou 
de Malaca hum junco a Cochij , que 
deo nova que vinha Pêro Mafcarenhas ; o 
que fahendo Lopo Vaz , teve logo confelho , 
em que fe determinou , que íe Pêro Maf- 
carenhas 5 como pcíToa privada , quizeífe fa- 
hir em terra , o deixaíTem defembarcar livre- 
mente ^ mas que fe como Governador o ten- 
tai- 




Década IV. Liv. IL Cap. I. 125- 

taíTe 5 lho nao confentiíTem. Com efta refo- 
lução mandou logo hum bargantim a Cou- 
Iam com cartas a Henrique Figueira Capi- 
tão daquella fortajcza , e ao Feitor, e OlK- 
ciacs 5 c com o traslado da fua fuccefsao , 
e huma relação do que foi acordado , para 
que tanto que Pêro Maicarcnhas alli chegaf- 
fe , lho amoftraíTem , e lhe requereílem da 
parte d'EiRey, e da lua , que obedeceíTe a 
elle Lopo Vaz como a Governador; e fa- 
zendo-o aífi , lhe abrilTem as portas da for- 
taleza , e deíTem todo o neceíTario ; e nao 
querendo obedecer , o nao deixaíFem entrar 
nella. Outra tal ordem como a de Coulam 
deo Lopo Vaz a Aífonfo Mexia , e logo 
fe partio para Goa. E por ter a gente con- 
tente lhe mandou pagar muitos foidos ^ mas 
a paga que em retorno lhe deram os mef- 
mos que receberam os pagamentos , foi mur- 
murarem ádh , e interpretarem fua tenção , 
dizendo , que fe pagava era por ter os ho- 
mens comentes para a vinda de Pêro MaC- 
carenhas , o qual haviam por Governador , 
e não a elle ; e como a gente popular he va- 
ria 5 e inconftante , c amiga de novidades , co- 
mo peíToas de baixo eílado , que fempre o ef- 
peram melhorar com a mudança dos tempos , 
todos aguardavam a vinda de Pêro Mafcare- 
nhas para verem em que paravam fuás coufas. 
Pêro Mafcarenhas , que tomada , e def- 

trui-» 



126 ÁSIA DE João de Barros? 

truida a Cidade de Bintam fe partira para 
Malaca, chegou a cila a falvamento ; e pro- 
vendo em muitas coiíías daquella fortaleza , 
fe partio para a índia no fim de Dezembro 
com três galeões carregados de muita fazen- 
da d'ElRey , c elle de vitorias , e triunfos. 
Chegando a Coulam , alli foube de Henri- 
que Figueira , (que como Governador o re- 
cebeo , ) como Lopo Vaz de Sampaio go- 
vernava ; e moílrando-lhc os papeis , e re- 
querimentos que lhe mandava fazer , lhe con- 
tou o que na índia paííiira defde o tempo 
que o mandaram chamar a Malaca pa^a go- 
vernar. Do que Pêro Mafcarenhas ficou mui 
anojado , e per confelho de Simão Caeiro , 
que elle como Governador fizera leu Ouvi- 
dor geral , e de Lançarote de Seixas , a quem 
fizera Secretario , • fe determinou ir a Cochij , 
e ufar de todo rigor com AíFonfo Mexia 
por abrir a nova fuccefsao , pelo que fe poz 
a caminho , e ao derradeiro de Fevereiro do 
anno de i^iy chegou a Cochij. Antes de 
íurgir na barra, AíFonfo Mexia Capitão da 
fortaleza , que fobre elle tinha efpias , fa- 
bendo per ellas que era chegado , lhe man- 
dou notificar pelos Juizes da Cidade, e per 
Duarte Teixeira Thefoureiro , e Manuel Lo- 
bato Efcrivão da Feitoria , a Provisão da 
nova fuccefsao de Lopo Vaz de Sampaio , 
e a ordem que linha fua para não receber 

a el- 



Década IV. Liv. II. Cap. I. 127 

a elle Pêro Mafcarenhtis como Governador, 
e lhe requerer que obedeceíTe a Lopo Vaz , 
pois era Governador por aquella Provisão. 
A iílo reípondeo Pêro Maícarenhas com mui- 
ta cólera , que aquella Provisão não era aíli- 
nada por ElRey , e por tanto a não reco- 
nhecia por fua j e que Affonfo Mexia co- 
mo leu inimigo a poderia fazer , e por eíTa 
caufa lhe não havia de obedecer : e que os 
que com tal embaixada vinham, mereciam fer 
cailigados como homens , que commettiam 
traição contra íeu Rey , pois reíiíliam a quem 
ElRey fizera Governador , e eiles o appro- 
váram , e chamaram. : e per coníelho de Si- 
mão Caeiro houve Pêro Mafcarcnhas aos Jui- 
zes por fuípenfos dos oíiicios , e lhes man- 
dou que fob pena de perdiroento das fazen- 
das não fahiíTem de fuás cafas , como fof* 
fem na Cidade ; e feito auto da liia prizão , 
com efta reipoíla os mandou ; e a Duarte 
Teixeira , e a Manuel Lobato , como peí- 
foas que mais infiíliram no requerimento , 
mandou prender em í^rros em hum dos ga- 
leões. 

Sabendo iílo AíFonfo Mexia , mandou re- 
querer a Pêro Mafcarcnhas , que lhe foltaf- 
fe os prezos , que eram Ofíiciaes da Fazen- 
da d'ElRey , que fe podia perder ; e de no- 
vo lhe mandou notificar a Provisão do Go- 
vernador Lopo Vaz, e que fe quizeíTe al- 



128 ÁSIA DE João de Barros 

guma coiifa dcHe , que foíTe a Goa onde o 
acharia. Pêro Maicarenhas lhe refpondco , 
que ao outro dia , (porque era já quafi noi- 
te 5 ) lhe daria a relpoíla em rerni. AfFoníb 
Mexia fe temeo que Pêro Maícarenhas def- 
embarcaíTe de noite , e entra íTe na Cidade 
por não fer cercada , polo que a fom de hum 
fino que mandou repicar , ajuntou todo o 
povo ; e poílo que a mais da gente favore- 
cia a parte de Pêro Mafcarenhas , e o de- 
lejavam ver no feu cargo , porque tinham 
para fi que per direito a governança era fua , 
e que lha tiravam inju (lamente , todos po- 
rém acudiram a AíFonfo Mexia poftos em 
armas para fazerem o que lhes mandaíTe , o 
qual lhes ordenou que foílem vigiar a praia , 
para que nella não defembarcaífe Pêro Maf- 
<:arcnhas , o que elles fizeram , como fe fo- 
ram feus inimigos. No que fe bem vio a 
•lealdade de Portuguezes , que para fervirem 
feu Rey não efpeculam fe íeus mandados , 
ou de íèus Miniílros Swlo jullos , ou injuílos : 
mas quanto as coufas são mais difficulrofas , 
e contra feus pareceres , e vontades , alli ne- 
gam as próprias por cumprir com a de feu 
Rey , e Senhor. Ifto fe manifeíiou mais nef- 
tes dous Fidalgos competidores , e nos no- 
bres que os feguiam ; porque cada hum del- 
les , e feus favorecedores fe pegavam ás Pro- 
yisóes d'ElRey, querendo que fe guardaf- 

fem , 



Década IV. Liv. II. Cap. L 129 

íèm , fcm contra ellas excederem coufa al- 
guma , lendo íb a dilFcrença, e difficulda- 
de entre elles o entendimento das Provisões , 
e a interpretação da vontade de íeu Prínci- 
pe , cuidando cada hum que íe abraçava com 
elJa : e o que Jie mais de ponderar , fendo 
eíles dons Fidalgos tâo animoibs , eílando cm 
terras tao remotas , onde cada hum achara 
muitos Reys , e muita gente daquellas Pro- 
víncias porfi, íè a coula viera a rompimen- 
to. 

Vendjo pois AíFonfo Mexia que Pêro 
Mafcarenhas determinava dcíembarcar , tor- 
nou a mandar-lhe m.uitos recados , e reque- 
rimentos que não dcíembarcaíTb , porque per 
armas lhe havia defender a defembarcaçao. 
Ao que Pêro Mafcarenhas refpondeo , que 
não queria mais que entrar dcfarmado para 
ouvir MiíTa em Santo António , confiado 
que como foíTe na Cidade , tinha dentro mui- 
ta gcntQ da lua facção que lliQ obedeceria : 
e aíli fe metteo em dous bateis com o feu 
Ouvidor , e Aieirinho com. varas , c todos 
os feus defarmados , e fem efpadas , pare- 
cendo-lhe que AíFonfo Mexia não queria bri- 
gar com elle , vendo-o em terra defarmado ; 
mas foi ao contrario , porque chegando Pê- 
ro Mafcarenhas á praia , vendo AfFonfo Me- 
xia que intentava defembarcar , lho defen- 
deo ás lançadas como a inimigo , fazendo 
Tom,IF, PJ, 1 aos 



1 30 A S i A D ?-: João de Barros 

aos que o acompanliavnni , (entre os quaes 
andava cileariiiaLlo ibhre iium cavallo acu- 
bertado , ) incrtcr pela agua , mandando^lhes 
que feriíTem a Pcro ivlaícarenlias , e aos íeus , 
e os maralíem , fe quizcííeiTi defembarcar : 
Bradando Pêro Maícarcnhas , que eram Chri- 
fíáos , e leaes a íeu Rey , e Senhor , e que 
mio tinliaai anuas , nem queriam guerra , íe- 
nâo paz. Polo que vendo o perigo em que 
eílava , e que não podia defembarcar , e que 
os mefmos eni que eile confiava o perfeguiam, 
fe recolheo bem eicandalizado , e com duas 
lançadas em hum braço , e Jorge Maícarc- 
nhas feu parente com huma chuçada , e ou- 
tros muitos feridos , e todos os mais enxo- 
valhados , e eícalavrados. Depois que Pêro 
Malcarenhas fe recolheo ao feu galeão , man- 
dou fazer autos de AíFonfo Mexia , e dos 
ir.oradores de Cochij , a quem mandou apre- 
goar por levantados , e traidores , moílran- 
do elíes naquelle aflo a maior lealdade , e 
inteireza que podia fer ; porque es que o 
mais feriam , por lho mandar leu Capitão 
da parte d'EIRey , eiam os que ornais de- 
fejavam de recolher , e obedecer. 

Aífoníò Mexia mandou logo Aires dii 
Cunha a Goa com cartas ao Governador 
íbbre o que paiTara com Pcro Mafcarenhas , 
o qual também efcrcvco pelo mefmo a Lo- 
po Vaz , c a muitos Fidalgos ^ pedindo-Uies 

qué 



Década IV. Liv. II. Cap. I. 131 

que dctermlnafleiTi quem havia de fer Go- 
vernador. Partido Aires da Cunha , mandou 
Affoníb Mexia requerer a Pcro Maícare- 
nhas que lhe entregaíle os galeões, c fazen- 
da d'EiRey que trazia , e íe quizeíTe ir a 
Goa , lhe daria huma caravella ; e como 
elle íe determinou de nao proíegulr íeu di- 
reito per força, fenao per juíliça, entregou 
os galeões , e a fazenda d^ElRey , e íe paf* 
íou com a íua á caravella que lhe foi da- 
da : e porque nao era capaz de muita gcn-- 
te , foram-ic muitos a terra , dos quaes Af- 
fonío Mexia prendeo alguns , e entre elles 
Jorge Maícarenhas ferido da chuçada que 
lhe deram , e prezo o mandou a Coulam. 
E porque Fero Maícarenhas era am.igo de 
D. Simão de Menezes , foi-íe a Cananor 
para eíperar alli a reípofta de Goa ; más Dom 
Simão tanto que íoube que elle eílava no 
porto, lho mandou dizer, que lhe pezava 
muito de o nao poder íervir como pediam 
as razoes da amizade que com elle tinha ; 
porque Lopo Vaz de Sampaio , a que to- 
dos obedeciam por Governador , lhe man- 
dara , que íe elle Pêro Maícarenhas chegai- 
fe áquella fortaleza como Fidalgo tão hon- 
rado , e de tanto merecimento como elle 
era , que o recolheííe com toda a honra, 
e cortezia poílivel ; mas que íe foíFe com 
nome de Governador , que o não coníentií- 

1 ii íe ; 



13^ ÁSIA DE JoÂo DE Barkos 

fe ; e que elle por o que cumpria á fua leal- 
dade náo podia fazer outra coufa fenao 
obedccer-lhe. Pcro Mafcarenhas lhe refpon- 
deo , que nao queria que quebraiíe fua fé, 
e lealdade , que o que delle queria era hum 
catiir em que foíTê a Goa , mais rafo que 
na caravella que lhe deixaria. D. Sim.áo lhe 
mandou logo o catiir , no qual fc partio 
para Goa , não levando comíigo mais que 
Simão Caeiro , e Lançarote de Sexas , e 
dous pages que o ferviffem , efperando que 
Lopo Vaz fe poria com elle em j adiça , e 
quando nao quizeíTe , que os Fidalgos que 
com elle eílavam lho fariam fazer. 

CAPITULO lí. 

Como lAjpo Va-z ãe Sampaio manãoti pren^ 

der a Fero Mafcarenhas per António da 

Silveira^ e prezo em ferros foi levado 

a Cananor , e do que fobre fua 

prizão fuccedeo, 

LOpo Vaz de Sampaio quando foube 
per Aires da Cunha o que AíFonfo Me- 
xia fizera a Pêro Mafcarenhas em Cochij , 
ficou defcançado, parecendo-lhe que eftava 
feguro na governança ; e por a boa nova 
deo a Aires da Cunha a Capitania de Cou- 
lam , que tirou a Henrique Figueira , por- 
que agazalhára Fero Mafcarenhas contra 

a or- 



Década IV. Liv. TL Cap. II. 13J 

a ordem que le lhe mandou. E communi- 
cando aquclíe cafo com Eitor da Silveira , 
e outros Fidalgos , lhe pcrfuadíram que lhe 
não cumpria entrar Pcro Maícarenhas em 
Goa ; porque como a mais da gente citava 
deícontente de fe abrir a nova fucceÍGao , 
e rinha para íi que Pêro Maícarenhas era 
o legitimo Governador , fe levantariam com 
elle le o lá viílem. Parecendo bem a Lopo 
Vaz eíle conlelho , efcreveo logo ao Capi- 
tão mor do mar per o melmo Aires da Cu- 
nha 5 que porque cumpria ao ferviço d'El- 
lley não ir Pêro Maícarenhas a Goa, pro- 
curaíTe de o encontrar no mar , e lhe re- 
quereíTe da fua parte que fe foííe metter na 
fortaleza de Cananor , donde não fahiria 
fcm lho elle mandar; e que não querendo 
obedecer , depois de lhe fazer todos os pro- 
teílos , e requerimentos ncceíllirics , o pren- 
defle , e prezo o entregaíle a D. Simão de 
Menezes, de. quem cobraria conhecimento 
como o recebia. Outra carta "■ efcreveo Lo- 
po Vaz a Pêro Maícarenhas em reípoíla das 
queixas que lhe elle efcreveo do máo tra- 
tamento que recebera em Cochij , em que 
Lopo Vaz lhe dava a clíe toda a culpa do 
que lhe fora feito , pois não quizera obe- 
decer á ordem, que o Veedor da Fazenda 

lhe 

a 4 (^(^pi^ ^^/<í carta ejcrevc Diogo do Couto na cap% 
í. do Uv. 2. 



T34 ÁSIA deJo.5[o de Barros 

lhe mandara notificar, e poriílb nao tinlia 
eJIe razáo de o cafcigar , do que lhe pcza- 
va inuito ; c que quanto a ver-íc com elle , 
e com os Fidalgos que com cJle citavam 
em Goa , todos eram de acordo que nao 
era íerviço d'ElRey por dcfaíTocegos que 
podia haver , que leriam de grande ellorvo 
ao apercebimento que íe fazia para a vinda 
dos Rumes ; e por tanro lhe pedia da fua 
parte, e requeria da d'ElRey leu Senhor, 
que elle fe foíTe á fortaleza de Cananor, 
como o Capitão mor do mar lhe diria , e 
dahi mandairc requerer o que quizclTe. 

Eftas cartas deo Aires da Cunha ao Ca- 
pitão mor do niar , o qual nunca pode to- 
par a PeroMafcarenhas ; o que receando o 
Covernador que poderia acontecer , per con- 
jèlho de Eitor da Silveira , que era o Fi- 
dalgo que elle mais grangcava , aíTi por lua 
peítoa 5 como por ter muitos parentes , que 
cfperava ícguiriam fua parte, e com pare- 
cer de outros feus amigos , mandou por 
maior feguridnde feu genro António da Sil- 
veira , que fofle aguardar a Pêro Mafcare- 
nhas d barra de Goa com huma gaié , c dous 
bargantijs para o prender , e da mefma ma- 
neira a Simão de Mello feu fobrinho , com 
outros tantos navios á barra de Goa a ve- 
lha. E como os bargantijs de António da 
Silveira andavam por atalaias , vendo o ca- 

túr 



Década IV. Liv. II. Cap. II. 135 

túr de Pcro Mafcarenhas , (que chegou á 
barra de Goa aos 16 de Março ,) Foram a 
clle , e o levaram a iVntonio da Silveira , 
o qual reccbco a Pcro Mafcarenhas com 
muita correzia , e lhe diíle , que o Gover- 
nador mandara que indo clle alli o nao dei- 
xalle paíTar, e lhe tomaíTe a homenagem, 
e o levaííe prezo a Cananor por íc eícufa- 
rem inquietações. Ao que Fero ívíaícarenhas 
refpondeo , que elle nao havia de dar ília 
homenagem , antes lhe requeria que o dei- ' 
xaile ir a Goa para fe ver com Lopo Vaz , 
c requerer fua juíliça. O que António da 
Silveira nao coníeniio , c o jirendeo em fer* 
ros , que lhe mandou lançar pelo Meirinh.o , 
pcdindo-lhe perdão , e defculpando-fe por 
liie íer aíTi mandado, e per Simão de Mel- 
lo foi levado a Cananor 5 e entregue a Dom. 
Simáo de Menezes. Foram também prezos 
com Fero Mafcarenhas Simão Caeiro , e 
Lançarote de Sexas , e levados a Goa , on* 
de efiiveram na cadeia carregados de ferros, 
como incitadores da revolta de Cochij , e 
confelheiros de Fero Mafcarenhas. 

Entre tanto que António da Silveira era 
ido a encontrar Fero Maícarenhas , os da lua 
facção vendo ajuntar tanta gente que fe cm.- 
barcava para o prender, em vozes altas fe. 
queixavam , e de noite o faziam em parte 
que o Governador ouviffe. Outros fe foram 

quçi- 



7^6 ASÍA DE JOAO DE BaRROS 

qucixrir ao Guardião de S. Francifco , que 
era homem letrado , Caílelliano de nação , 
pedindo-llic cílranhaíTc ao Governador o que 
ufava contra Pcro Mafcarenhas. OÍTuardiáo 
lhes refpondeo , que Lopo Vaz tinha a juf- 
tiça por 11 5 e que o provaria o dia feguin- 
te na pregação. Aíli o fez ao outro dia com 
muitas razões , depois de ler a Provisão de 
Lopo Vaz, dizendo mais, que além de lhe 
inipôrem falíb teílemunho , commcttiam des- 
lealdade a feu Rey , coufa tao defacoftuma- 
da de Portuguezes , cuja lealdade para feus 
Principes fora ícmpre maior que de todas 
outras Nações : fobre ifto fez requerimentos 
ao Vigário geral , que houveíTe por efcom- 
mungados aos que o contrario diziam. Aca- 
bada a prática , Pêro de Faria Capitão de 
Goa lhe pedio a fuccefsão , e a beijou , e 
poz na cabeça , dizendo , que a obedecia ; 
e perguntando a todos que eftavam prefen- 
tes fe faziam outro tanto , refpondéram que 
fí ; c deita approvaçao , e do parecer do 
Guardião mandou fazer hum auto , e per 
ordem do Governador o foi aílinar o Ou- 
vidor geral por os Fidalgos que íe acharam 
na pregação , c que diíTeram que obedeciam 
á Provisão. E por D. Vafco de Lima , e 
Jorge de Lima não quererem aílinar , e fe 
moltrarem parciaes de Pêro Mafcarenhas, 
foram prezos fobre fuás homenagens. 

Com 



Década IV. Liv. 11. Cap. II. 137 

Com eíla diligencia , e com a prizao 
(que a eJJa íe íeguio ) de Pcro Maícarenhas , 
fe houve Lopo Vaz por leguro , parecendo- 
UiQ que ie haviam quietado os vandos , e 
deílilTocegos em que a gente de Goa anda- 
va. Mas não o deixaram eílar muito tempo 
quieto j porque Chriílovao de SouHi Capi- 
tão de Chaul labendo como Lopo Vaz de 
Sampaio queria proceder com Fero Mafca- 
renhas , e que o mandava aguardar na bar- 
ra de Goa para o prenderem , com parecer 
do Feitor , Alcaide mór , e Oíticiaes da for- 
taleza , e dos Fidalgos que com elle efla- 
vam , que eram muitos , eícreveo huma car- 
ta " a Lopo Vaz, (que lhe deram depois 
da prizao de Fero Mafcarenhas , ) cm que 
lhe dizia , que para íe apagarem as diOen- 
soes , que começavam a naicer íobre a pre- 
ferencia da fuccersão do governo, cumpria 
pôr-fe em juíHça , por o perigo em que íe 
punha o eílado da índia , principalmente em 
tempo em que cada dia íe cíjxravam os 
Rumes , para o que era neccílario accreí- 
centar o poder, e não diminuillo , dividin- 
do- íe a gente , que em íi era pouca , cuja 
perdição cílava certa ; porque íe grandes 
Impérios feitos , c arraigados fe perderam 
por ferem divifos , que fe podia eíperar de 

hum 

íT A copia àejia carta efcreve Diogo do Couto no cap* 
7. ão lív. 2. 



13B ASlA DE JoÂo DE Barros 

hum que então começava , e que rinha as 
raizcs t ao pouco fundadas , eofoccorro cm 
lugar tao remoto: c que o defenganava , que 
clle nao havia de obedecer a quem fe nao 
puzelTe cm direito. Era Chriílovao de Sou- 
ia hum Fidalgo de muita qualidade , em 
iua peíToa mui esforçado , e mui hum.ano , 
de gentil converfaçao , c de condição ale- 
gre , e familiar com todos ; e nao fomente 
efplendido na contínua meza quedava, mas 
110 foccorro que do feu dinheiro fazia aos 
que o não tinham ; polo que em Chaul in- 
vernavam mais número de Fidalgos , que 
em nenhum,a outra parte da índia ^ e como 
elle rinha tanta authoridade , e tantos do 
feu bando , ficava muito de vantagem a par- 
te a que elle fe acoftaíle ; e aíTi a fua carta 
fez muito abalo no Governador quando a 
vio , entendendo perella que não cílava pa- 
cifico no cargo ; eperconfelho deíeus ami- 
gos 5 a que em fegredo moílrou aquella car- 
ta , efcreveo a Chriílovao de Soufa , com.o 
Pêro Mafcarenhas citava prezo", com ap- 
provação de todos os Fidalgos , e Capitães 
da índia, que a clle Lopo Vaz reconheciam 
por Governador; polo que lhe pedia qui- 
zeííe con forma r-fe com os mais , e obede- 
cello , pois que nao havia divisão , nem fe 
podia recear; eque lhe rogava quizeíTe ef- 
crever a Pêro Mafcarenhas , que defiftiíTe 

da 



Década IV. Liv. II. Cap. II. 139 

daprctcnção do governo. Como Chriílovao 
dcSouTa não pertendia mais que quietação , 
folgou de íe confeguir tíío pacificamente. 
Mas por parte de PeroMaícarcnhas pezou- 
Ihe muito fer com fua prizao , porque a 
não tinha porjuíla. Porém confiderando que 
delia reíultava damno particular a elle , e 
não ao público , e que quercndo-o emendar, 
era contra o bem commum , porque vindo 
os Rumes poderiam ganhar a índia , achan- 
do-a dividida ; de coníelho dos que com 
clle citavam refere veo "" a Lopo Vaz de Sam- 
paio , dizendo-lhe , que no que eftava feito 
não havia neceííidade de feu parecer , que 
fcmpre defejára ver quietação naquelles ne- 
gócios , e aíli eílava contente de fe acaba- 
rem tanto em paz , que clle o obedeceria 
como Governador que era , e efcrevia a 
Pêro Mafcarcnhas humxa carta , que manda- 
va aberta , para que a viííe , e mandaíTe fe 
quizeíle. Nella lhe dizia per muitas razoes , 
que era ferviço de Dcos , e d^EHley , c hon- 
ra fua eftar prezo 5 e que tivcíle muita pa- 
ciência na prizao , como de liomcm tão va- 
leroib , e esforçado fe efpcrava ; porque 
Deos o ordenava para que a índia fe não 
perdeífe com as fediçocs que começavam ha- 
ver , 

if As copies deflns duas cartns , (jue Clvijloiuio di: Sou- 
íti eftieveo a Lopo Vaz de. Sampaio , e a Fero Alnfcare* 
nhos y efcrevcm Fernão Lopes de Caftanheda no cap, 31» 
do liv. 7. e Diogo do Couto no cap. 7. do liv» 2. 



140 ÁSIA DE JoAO DE Barkos 

ver, que fora melhor ferem ambos mortos , 
que haver competências táo perigofas : que 
fe Jem.braíTe que L.opo Vaz de Sampaio cC- 
tava de poíTe de feu governo ; e que além 
de fer ap|)rovada pelo juizo de muitos ho- 
mens de sáo entendimento , dous Frades le- 
trados , e pregadores per juramento aftirmá- 
ram nos púlpitos , que a juftiça eftava per 
clle 5 e que não tornar neíle cafo per fua 
honra era maior honra , e náo fer Gover- 
nador era merecer ante ElRey , que lho ga- 
lardoaria. Também efcreveo a D. Simão 
de Menezes, e a outros Fidalgos fobre o 
mcfmo. 

Não pezou a Pêro Mafcarenhas com 
aquelía carta, porque porella entendia que 
Chriílováo de Soufa nao havia fua prizão 
por juíla , fenao por nao haver fcifma , e 
divisão nos Portuguezes ; e aíli não defcon- 
fiou de alcan^Mír que fe puzeíTe Lopo Vaz 
com elle em direito , fe D. Simão o foltaf- 
fe , em que via já. algumas moílras de o vir 
a fazer , além de lho prometter. Polo que 
fe atreveo a mandar ao Governador hum 
requerimento "" per hum público Tabellião 
de Cananor , perque \\\q pedia , que fe pu- 
zeíTe com qWq em juftiça, e lhe nao tomaf- 
fe feu oiício per força ^ proteftando pelas 

per- 

. a A copla d^jlc reqiierhmnto ejcreve Diogo do Cou- 
to no C(rp. 7. do íiv. 2. 



Década IV. Liv. II. Cap.'!!. i4r 

perdas , e damnos , e intercíTcs , e que lhe 
IblraíTe Simão Caeiro , e Lançarote de Sei- 
xas 5 que tinha prezos fem culpa para re- 
quererem fua julliça. Lido cíle requerimen- 
to , o Governador o rompeo com muita 
indignação , perque o Tabelliao íe foi fu- 
gindo a Cananor fem cfpcrar refpofta. E 
porque paífando Lopo Vaz pela cadeia , Si- 
mão Caeiro , e o Seixas com grande clamor 
lhe requereram os mandaífe foltar para re- 
querer a juíliça do Governador Pcro Mas- 
carenhas , os mandou carregar de maiores 
ferros , e mandou pregoar fobpena de mor- 
te , que ninguém chamaíTe a Pêro Mafcare- 
nhas Governador ; o qual fabendo como Lo- 
po Vaz de Sampaio rompera o requerimen- 
to , e não dera refpofta , pedio ao mefmo 
Tabelliao diíTo hum inftrum.ento ; e deíle 
fucceíTo fe efcandalizou tanto D. Simão , 
parecendo-lhe que Lopo Vaz tomava a go- 
vernança per força , que em feu animo de« 
terminou de lhe defobedecer. 



CA- 



i:\i ÁSIA DE João de Barros 

CAPITULO III. 

Como Lopo Vaz de Sampaio mandou pren- 
der a Eitor da Silveira , e outros Vi- 
dalgos fetfs parentes , e amigos ^ e a 
caufa que houve para ij]o. 

EPva tanta a authoridade de Chriftovao 
de Souía , c o rcípcito que todos lhe 
tinham , que como ellc não reprovou a pri- 
zao de Fero Mafcarcnhas , todas as diíTen- 
sões , e bandos que havia íbbre a preferen- 
cia dos Governadores celTáram * e começou 
Lopo Vaz , como homem que já eftava quie- 
to 3 empregar- íe todo no apercebimento para 
a vinda dos Rumes. Mas não tardou muito 
que lhe não fuccedeíTe outro novo fobreíai- 
to. Porque Eitor da Silveira, que era hum 
Fidalgo mui princJ pai por ília nobreza, peí- 
foa , e valor , que íèguia as partes de Lopo 
Vaz , lhe veio a pedir a capitania de Goa 
para feu primo Diogo da Silveira , a quaí 
rinha Pêro de Faria , que eftava provido de 
Malaca por ElRey. Ao que o Governador 
rcfpondco , que na cfcolha de Pêro de Faria 
eftava ter a capitania de Goa, ou deixalla , 

Í)olo que elle não o podia obrigar ir a Ma- 
aca contra fua vontade , mas que lhe falla-^ 
ria niíTo , e querendo ir a Malaca , \\\ç: da- 
rm a capitania de Goa. E dizendo que lhe 

fal- 



Década IV. Liv. II. Cap. IíI. 143 

fallára , refpondco a Eitor da Silveira , que 
Pcro de Faria iiao queria ir a Malaca, lílo 
náo crco Eitor da Silveira ; mas parecco-lhe 
que por a ncceílidade que Lopo Vaz tinha 
de gente , e de amigos , nao queria alongar 
de íi a Pêro de Faria , que era leu grande 
am.igo ; eeícandalizado da refpoíla , lhe pe- 
dio , que pois Fero de Faria nao queria ir 
a Malaca , lhe déíTe aquella fortaleza para 
feu primo , pois como Governador a podia 
dar , e cila cabia muito bem nos merecimen- 
tos de Diogo da Silveira ; do que íc efcu- 
ibu Lopo Vaz , dizendo , que folgara de lha 
poder dar, masque nao podia, porque Jor- 
ge Cabral a fervia por lha dar Fero Maí^ 
carenhas , fendo em Malaca jurado , e obe- 
decido por Governador , por o que Jorge 
Cabral a nao quereria largar fem Provisão 
dePeroMafcarenhas; e indo Diogo da Sil- 
veira fem cila , feria renovar fedições em Ma- 
laca , como havia na índia , e que lhe pe- 
zava muito de lhe pedir coufas que nao po- 
dia fazer com juíliça , a qual elle , na gover- 
nança em que eftava , determinava guardar em 
tudo a todos. Eitor da Silveira lhe diífe, 
que folgava muito de lhe ver tão bons pro- 
pofitos , bem diííerentes do que as más lín- 
guas andavam publicando , que elle não que- 
ria guardar juíliça a Pêro Mafcarenhas , a 
qual fc não guardava , daria occaíião á gen-» 

te 



144 ÁSIA DE João de Barro? 

te de cuidar que tomava o governo per for- 
ça ; c aíli que viílc bem o que fazia , por- 
que elle fempre havia de fcr cm favor dajuf- 
tiça. E depois de haver entre ambos alguns 
debates , e Lopo Vaz foltar algumas palavras 
com cólera , Eiror da Silveira fe foi anoja- 
do y e communicando com feus parentes , e 
amigos o que paíTdra com Lopo Vaz de Sam- 
paio 5 como alguns delles \\\t não tinham 
boa vontade , aílentáram todos que elle ti- 
nha ufurpado o cargo ao Governador , e que 
era razão que fe dctcrminaííe per juftiça a 
quem pertencia , e que nao era honra fua 
obedecerem a quem. commetria força , tendo 
elles jurado outro Governador. Para iílo con- 
vocaram outros Fidalgos , que tiveíTem fua 
opinião , de que foram eítcs os principaes , 
D. Trilião de Noronha , D. Jorge de Caf- 
tro 5 D. António da Silveira , D. Henrique 
Deça , Jorge da Silveira , Francifco deTaí- 
dc , D. Francifco de Caftro , Jorge de Mel- 
lo , Diogo de Miranda, Aires Cabral, Si- 
mão Sodré , Martim Vaz Pacheco , Vafco 
da Cunha , Nuno Fernandes Freire , e Si- 
inão Delgado Quadrilheiro mòr ; e como vi- 
ram eíles Fidalgos que os da Camará de Goa , 
e muitos Cidadãos eram de feu parecer, lo- 
go efcrevêram a Pêro Mafcarenhas per ter- 
ra , dizendo , que devia de trabalhar com 
D, Simão que o foltaííe , e fe vieíTe a Goa , 



c fcn- 



Década IV. Liv. 11. Cap. III. 14^ 

e fendo prefente requereriam ao Governador 
fe puzeíTe com elle a direito , e que nao que- 
rendo , o de (obedeceriam , e dariam a obe- 
diência a dle Pêro Maícarenhas. 

A carta fendo aílinada per todos , que 
faziam número de duzentos e feíTenta , cou- 
fa que Pêro Mafcarenhas nao efperava , el- 
le a moilrou a D. Simão de Menezes , e lhe 
deo tantas razoes , que D. Simão lhe pro- 
m.etteo , que o foltaria fe aquelles Fidalgos 
perfeveraíTem em feguir fua parte. Com ef- 
ta promeíía , e carta tomou Pêro Mafcare- 
nhas mais animo , e começou a frequentar 
requerimentos com o Governador , té que 
lhe refpondeo , que lhos nao mandaífe mais , 
que não fe havia de pôr em juíliça com el- 
le em coufa que nao tinha dúvida. Havida 
cila refpoíla , Pêro Mafcarenhas a mandou a 
Eitor da Silveira , efcrevendo-lhe , que pois 
Lopo Vaz fe nao queria pôr em juftiça com 
elle , lhe pedia que elle , e os da fua valia 
íizeífem o que lhe tinham efcrito , e oíFere- 
cido , o que fe com brevidade não eíFeituaf- 
fem , que , por o verão fe ir chegando , ve- 
riam as náos de Portugal , com que ficava 
Lopo Vaz de Sampaio com muito maior po- 
der ; porque os Capitães , e a mais gente del- 
ias não haviam de obedecer fenão ao Go- 
vernador que achaíFem de poífe ; e que ef« 
tava certo , que Lopo Vaz o mandaria pre- 
TomJF. F.L K zo 



146 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

zo nas mefmas náos ao Reyno , e aííi fica- 
riam fruílradas todas ílias eíperanças , e os 
favores que lhe queriam fazer na fua perten- 
ção. E porque o Governador Lopo Vaz fa- 
zia pouco cafo dos requerimentos de Pêro 
Malcarenhas , efcreveo elle á Gamara de 
Goa "" os fízeíTe em feu nome a Lopo Vaz , 
requcrendo-llie , que íe puzeíle com elle em 
juítiça ; o que fòzendo , e havendo per ref- 
pofta ameaços , Eitor da Silveira , e os Fi- 
dalgos de ília facção fizeram outro per eí^ 
crito , que mandaram ao Governador per 
Manuel de Macedo com hum Efcrivão , o 
qual acabando de o ler , Lopo Vaz com gran- 
de ira mandou prender na cadeia entre os 
homens baixos a Manuel de Macedo, len- 
do homem Fidalgo, e ao Efcrivão arrepe- 
lou , e efpancou. 

Ao efcandalo que Eitor da Silveira , e 
Diogo da Silveira tinham do Governador, 
fe ajuntou a violência de que ufava , não ibf- 
frendo que lhe pediíTem fizeíTe de íi juíliça , 
e fe puzeíTe a direito com Pêro Mafcarenhas. 
Polo que elles aíTentáram de o prender, e 
o fizeram faber aosOfficiaes da Gamara para 
lhe acudirem com armas quando cumpriíle. 
líto fe publicou logo ; e como o Governa- 
dor 

a EJles protejlos y e a refpojla que a eP.es ãeo Lopo Vnz, 
de Sampaio fe podem ver nos capítulos nove , e í/f:^ do 
fegunit livrg da Decad, 4. de Diogo do Couto. 



Década TV. Liv. II. Cap. TIL 147 

dor o foube , determinou de prender a Eitor 
d:i Silveira, e aos Fidalgos da fua valia, e 
aíll ao dia Icguinte mandou António da Sil- 
veira ícu gfenro , e Simão de Mello feu fo- 
brinho , c outros íècrctamcnte armados , cjue 
foíTem tomar as ruas , que hiam a cafa de 
Eiror da Silveira para dcrer os que lhe qui- 
zeíTem acudir ; e a Pêro de Faria , como Ca- 
pitão da Cidade , que os foíTe prender , c cl- 
Ic Je poz accivallo na rua direita para man- 
dar gente em feu Ibccorro , ou acudir elle 
cm peíToa , fecumprilTe. Como o rumor íin- 
dava já pelo povo , que o Governador que- 
ria prender Eitor da Silveira , aquella mia- 
nha fe foram os da liga a fua cafa, e muita 
gente á fua porta ; e chegando Pêro de Fa- 
ria a cila , Eitor da Silveira fahio á janel- 
la , e perguntando-lhe que queria , lhe diffe 
Pêro de Faria , que o vinha prender , que 
lhe déíTe a homenagem : ao que Eitor da Sil- 
veira refpondeo , que lha não queria dar , e 
que o fizera como máo Fidalgo em acceitar 
aquella commifsao. Sendo o Governador 
certificado diílo per recado de Pêro de Fa- 
ria , chegou a preíTa , e da rua lhes diíTe que 
fe deíTem á prizão ; elles refpondêram , que 
não dariam , que era feu inimigo capitnl , 
por lhe dizeremi que fizeífe juftiça de íi. E 
vendo o Governador que fe não queriam dar 
á prizão , apeando-fe do cavallo , tomou hu- 

K ii ma 



14S ÁSIA DE João de Barros 

ma lança , e huma adarga , e com muita ira 
quiz fubir acima onde aquellcs Fidalgos ef- 
tavam. Mas reprclentando-íe a Eitor da Sil- 
veira os grandes males que fc feguiriam da- 
quella refiliencia , c lembrando-lhc o fer vi- 
ço d'ElRey , movido mais da lealdade que 
lhe devia , que do ódio que tinha ao Go- 
vernador, fe deo á prizao, e fe deram os 
mais que com elle eílavam ; e Pcro de Fa- 
ria os levou á fortaleza , onde o Governa- 
dor os foi efperar , e lhes tomou as home- 
nagens. E porque via que alguns daquelles 
Fidalgos não tinham mais culpa que ferem 
amigos de Eitor da Silveira , c por os ter 
por amigos , mandou-os para fuás cafas ; fo- 
mente a Eitor da Silveira , Diogo da Sil- 
veira 5 D. António da Silveira , c D. Jorge 
de Caftro , por ferem os principaes daquci- 
la opinião 5 deixou eílar prezos na fortaleza ; 
e a Jorge de Mello , e Aires Cabral , por ho- 
mens íbltos de lingua , e inquietos mandou 
prezos em ferros á fortaleza de Benafterim, 
E no fim de Agoíío , querendo mandar a 
Eitor da Silveira , e aos feus três companhei- 
ros a Cochij 5 elles requereram com grande 
inílancia , e proclamaram , que o Governador 
os mandava em tempo tão afpero , e tempef- 
tuofo íò para morrerem no mar , polo que 
deixou de os mandar , e os teve a bom reca- 
do ^ ealfi dizem que o tinham elles fobre fi. 

CA- 



Década IV. Liv. II. 149 

CAPITULO IV. 

Coyno Pêro Mafcarenhas foi folto , e obede- 
cido por Governador per alguns Capitães, 

SAbendo Pêro Mafcarenhas da prizao de 
Eitor da Silveira , e dos mais Fidalgos 
da lua opinião , e do máo tratamento que 
fazia Lopo Vaz de Sampaio a quem lhe 
fallava em pôr cm juizo íua governança , re- 
quereo com grande inftancia a D. Simão de 
Menezes que o foltaíTe , e o reconheceíTe por 
legitimo Governador; o que nao foi muito 
de acabar com ellc pelo efcandalo que tinha 
da prizao daquelles Fidalgos ; e diíTe a Pê- 
ro Mafcarenhas , que náo tinha que era 
honra obedecer per violência a Lopo Vaz 
de Sampaio , e que a elle queria dar a obe- 
diência. Epara que naopareceíTe que fó per 
fua vontade íbltava Pêro Mafcarenhas , e lhe 
obedecia pela de todos , o foltou , e o le- 
vou á Igreja y e juntos os Officiaes da Juf- 
tiça , e Fazenda , Fidalgos , e toda a mais 
gente , hum Tabelliao em voz alta leo a fuc- 
cefsão de Pêro Mafcarenhas, que foi aber- 
ta ao tempo que D. Henrique de Menezes 
faleceo ; e o auto que fe fez da governança 
temporária a Lopo Vaz de Sampaio , cm 
quanto Pêro Mafcarenhas não vinha de Ma- 
laca ^ e a carta do Veedor da Fazenda , per- 

que 



ijo ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

que o mandou cliamar , c a fuccefsao de Lo- 
po Vaz , com todos os autos da reíiítencia , 
c]ue íe a Pêro Mafcarenlias fez cm Cochij. 
Depois de lidos , diíTe Pcro Mafcarenhas , 
que lhes mandara ler tudo aquiilo para que 
viíTem , que lendo clle eleito para Governa- 
dor da índia por ElRey , approvado per ieus 
Officiaes , e Capitães , e chamado delies , fo- 
ra íem razão deípojado da governança, af- 
frontado , ferido , e prezo em ferros como 
traidor , quando efperava mais favor de to- 
dos 5 vindo viíoriofo com a deílruiçao d'El- 
Rey de Bintam. E que para mais evidencia 
de Lopo Vaz de Sampaio fe levantar com 
a índia , prendera aos Fidalgos principaes 
delia com tanto rigor , por lhe requererem 
fe puzeíTe em juíliça , e caftigava todos os 
que tal lhe requeriam. Caufando tamanlia 
dlfcordia em tempo que o Eílado da índia 
eftava tão arrifcado com a vinda dos Pvumes , 
que lhes pedia fízeíTem. com Lopo Vaz que 
fe puzeíTe com dle em juizo , ou lhe tiraí^ 
fem a obediência , e a deíTem a elle , e não 
o fazendo , fez muitas proteílaçoes. Todos 
os que eílavam prefentes refpondêram , que 
não havia que requerer , nem que protcílar , 
que elies a huma voz o reconheciam por Go- 
vernador , e logo o juraram por tal com gran- 
de fcíla. Como eíla nova fe foube , muitos 
Fidalgos y Q outras peíToas , que lhe eram afei^ 

çoa- 



Década IV. Liv. 11. Cap. IV. 15'X 

coados 5 fe vieram para elle , affi de Cochij , 
como de outras capitanias por terem por mui 
juftificada a fua cauía. Quando Lopo Vaz 
Ibube que Pêro Malcarcnhas era Iblto , e obe- 
decido de alguns por Governador , fe teve 
por mal aconfelhado em o haver fíado de 
outrem , e tirado de Goa , ou de Cochij. 
Polo que receando-íe que elle fe vieíTe met- 
ter em Goa , mandou a Simão de Mello feu 
fobrinho, que foífe guardar a barra de Goa 
a velha com três navios , porque alli lhe pa- 
receo que vieíFe Pêro Maícarenhas , ao qual 
mandava que prendeíTe , e o levaífe a Goa. 
Neíta conjunção aportaram na barra de 
Goa em 16 de Àgoíto as duas náos "" da in- 
vernada do anno paíTado , de que eram Ca- 
pitães António de Abreu , e Vicente Gil , e 
cm Setembro chegaram três náos de viagem 
da companhia de cinco que partio de Por- 
tugal em Março daquelle anno de I5'27. Das 
duas que fakáram , hiam por Capitães Ma- 
nuel de la Cerda , e Aleixo de Abreu , que 
fe perderam na Ilha de S. Lourenço , de cujo 
naufrágio , e fucceíTo diremos adiante : e das 
trcs que chegaram a falvamento , eram Ca- 
pitães Chriftovão de Mendoça , irmão da 
Duqueza de Bragança D. Joanna de Men- 
doça filhos de Diogo de Mendoça Alcaide 
mor de Mourão , • que hia provido da for- 

ta- 

a Frota da índia do amo de 1527. 



I5'2 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

taleza de Ormuz na vagante de Diogo de 
Mello , e Balthazar da Silva , e Gaípar de 
Paiva ; e neftas náos foram embarcados Dom 
João Deça cunhado de Lopo Vaz de Sam- 
paio 5 que levava a capitania de Cananor , 
e Francifco Pereira deBerredo a de Cliaul. 
Aos quaes Capitães fez Lopo Vaz as mef- 
mas perguntas fobre ajuftificação dofeu go- 
verno 5 que fizera aos Capitães das náos do 
anno paliado , (como atrás diíTemos , ) e el- 
]es lhe deram a mefma refpofta que os ou- 
tros 5 approvando a fua poíTe. 

Pêro Mafcarenhas como fe vio favore- 
cido 5 mandou a Chaul Francifco Mendes de 
Vafconcellos pedir a Chriftovão de Soufa da 
iua parte , e da de D. Simão , e dos Oííi- 
ciacs da Camará , que requereííe a Lopo Vaz 
fe puzeíle em juíliça fobre a governança , 
porque não convinha ao ferviço d'ElRey ha- 
ver dous Governadores , e que fe não fucce- 
deíTe a iífo , que lhe tiraíTe a obediência : o 
mefmo mandaram requerer a Lopo Vaz , e 
efcrevêrara aos Fidalgos prezos , offerecen- 
do-lhes Pêro Mafcarenhas , que poria a vi- 
da fobre fua foltura. Chegou Francifco Men- 
des a Goa , e deo os requerimentos que le- 
vava ao Secretario , e as cartas aos Fidal- 
gos 5 e paíTou a Chaul , onde entregou os pa- 
peis que lhe deram em Cananor a Chriftovão 
de Soufa , pelos quaes conftando-lhe dos mui- 
tos 



Década IV. Liv. 11. Cap. IV. 15-3 

tos requerimentos que fc fizeram a Lopo Vaz 
de Sampaio per parte de Pcro Mafcarenhas , 
e o que tez a quem lhos aprefentou , e como 
Pêro Mafcarenhas eftava obedecido em Cana- 
nor por D. Simão , c o fora já de todos os Fi- 
dalgos 5 e Capitães da índia , quando fe abri- 
ra a fuccefsáo , propoz tudo aos Officiaes da 
fortaleza , e aos muitos Fidalgos , que por 
íua caufa invernáram cm Chaul , os quaes 
da prizao de Eitor da Silveira , e feus com.- 
panheiros eílavam mui efcand^lizados ; e de 
commum acordo fe aíTentou , que Chriílovao 
de Soufa obedeceffe a Pcro Mafcarenhas 
em quanto Lopo Vaz fe não quizeíTe pôr 
com elle a direito ; e que quando fe puzef- 
fe , daria a obediência a quem a juítiça de- 
claraíTe por legitimo Governador ; e que if- 
to fe fízeíTe logo , antes que Lopo Vaz ad- 
quiriíTe mais forças , ou fuccedeífe a vinda 
dos inimigos. O que Chriílovao de Soufa 
não recufou fazer per o perigo que podia cor- 
rer o eílado da índia havendo divisões ; po- 
lo que efcreveo a Lopo Vaz de Sampaio a 
razão porque dera a obediência a Pêro Maf- 
carenhas 5 e a condição com que o fizera. A 
cfta carta não refpondeo Lopo Vaz , e logo 
lhe quiz tirar a capitania , de que Francifco 
Pereira de Berredo vinha provido do Key- 
no. Para o que ordenou huma Armada , de 
que fez Capitão mor António da Silveira ^ 

e lhe 



I5'4 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

ç lhe mandou que folie a Chaul , e reque- 
reíTe a Chriftovão de Soufa que lhe cntre- 
galTe a elle a Armada que lá eíbva , e a ca- 
pitania a Francifco Pereira que com elle hia , 
por fer o tempo de Chriílovao de Soufa aca- 
bado. Chriftováo de Soufa refentido de Lo- 
po Vaz não refponder á fua carta , não dei- 
xou defembarcar a António da Silveira ; c 
ao que Lopo Vaz mandava refpondeo , que 
O não havia de fazer , porque tinha manda- 
do em contrario de Pêro Mafcarenhas feu 
Governador ; e feitos muitos requerimentos 
per António da Silveira , e proteílos per Fran- 
cifco Pereira 5 fe tornaram fem o eífeito da 
jornada. 

CAPITULO V. 

Do que António de Miranda de Azevedo^ 
e Chrijlovâo de Soufa ordenaram para 
Lopo Vaz de Sampaio , e Pêro Maf- 
carenhas defftirem do governo ^ efe 
porem em direito. 

DEpois de partido António da Silveira 
de Goa para Chaul , vindo António de 
Miranda de Azevedo Capitão mór do mar 
da índia de Cochij para Goa , foi de ca- 
minho ter a Cananor para fiber oeftadoda- 
quella fortaleza ; e eílando no mar , lhe man- 
dou dizer Pêro Mafcarenhas por D. Simão 

de 



Década IV. Liv. lí. Cap. V. 15-5: 

de Menezes , como elle eftava foi to , c obe- 
decido por Governador pelo mcfiriO D. Si- 
mão , e per Chriílovao de Soufa Capliao de 
Chaul , e pela inór parte dos Fidalgos , c 
Toldados que na índia andavam j que lhe re- 
queria que lhe déííe a elle também a obe- 
diência , pois Lopo Vaz de Sampaio nao que- 
ria que fe puzeíTe cmjuizo a preferencia da 
governança, ede feu abfoluto poder a ufur- 
pava ; e vendo-fe fem Armada , veria a fuc- 
ceder no que erajuíliça. António de Miran- 
da confiderando que a total ruina do Efia- 
do da índia feria haver nella fcifma de dous 
Governadores , e divisão da gente Portugue- 
za , que em* fi era pouca ^ e os inimigos na- 
turaes , e eílrangeiros fem número , refpon- 
deo a Pêro Mafcarenhas , que o não podia 
obedecer como Governador té fe não ver 
com Lopo Vaz , e faber delle fe fe queria 
fometter a juizo de árbitros ; e que não o 
querendo elle outorgar , em tal cafo obede- 
ceria a elle Pêro Mafcarenhas, de que lhe 
deo hum efcrito "* de fua mão , cm que lhe 
fazia preito , e homenagem de aíli o cumprir. 
Chegando António de Miranda a Goa, 
fabendo Lopo Vaz como dera aquelle efcri- 
to 5 lho eílranhou com muita afpereza , e 

amea- 

a A Copia d:'P,e efcrito referem I^erniío Lopes de Caí^ 
tinhedii no cap. 43. da liv.j. £ Dio^o dg Couto no cap, 
7. do Uv. 3. 



I5'6 ÁSIA DE João de Barros 

ameaços , que faria outro Capitão mor do 
mar , c clk fc iria para Pêro Mafcarenhas ; 
porém não oufou pornao accreícentar oef- 
candalo , e as diíTensoes que havia , e o man- 
dou logo a Chaul para ajudar a António da 
Silveira , que fora pedir a Armada a Chrif- 
tovao de Soufa , e depollo do cargo de Ca- 
pitão , c entregallo a Francifco Pereira. E 
quando chegou a Chaul , partia para Goa An- 
tónio da Silveira com a refpofta que acima 
dilTemos , a quem fez efperar té fe ver com 
Chriftovão de Soufa , ao qual mandou di- 
zer , que cumpria a ferviço d'ElRcy verem- 
fe ambos. Chriftovão de Soufa IhQ refpon- 
deo o mefmo que diíTera a António da Sil- 
veira ; e em feu nome , e dos Fidalgos que 
com elle invernavam , lhe mandou requerer , 
que acudiíTe á força que fe fazia a Pêro Maf- 
carenhas ; e que pois cílava em fua mão , íi- 
zeíTe com Lopo Vaz que outorgaíTe o que 
tantos lhe pediam, e pacifícaíTe a índia; c 
fobre ifto lhe mandou fazer tantas protefta- 
çÔes 5 que lhe pareceo António de Miranda 
que convinha ir á fortaleza a ver-fe com Chri- 
ftovão de Soufa , e aíFi o fez. E como eftes 
dous Fidalgos não procuravam outra coufa 
que o ferviço d'ElRey , e a paz , e união 
entre os Portuguezes , determináram-fe em 
obrigar a Lopo Vaz que defiftiíTe da gover- 
nança té fe julgar a quem pertencia. Polo 

que 



Década IV. Liv. IL Cap. V. i5'7 

que depois de muitos difcurfos , aíTentáram 
que aqueJla cauíli iéjulgaíTe per juizes árbi- 
tros , e que eíles foflem lete , hum delles o 
meíhio António de Miranda , e os outros 
D. João Deça , Francifco Pereira de Berre- 
do , Balthazar da Silva , Galpar de Paiva , 
Fr. Joáo de Alvim da Ordem de S. Fran- 
cifco , e Fr. Luiz da Vitoria da Ordem de 
S. Domingos. 

Aílinalados os Juizes, (os quaes ficaram 
em fegredo entre eíles dous Capitães com ju- 
ramento té fer tempo de fe declararem , para 
que os dous competidores o nao foubeílem , ) 
ordenaram humas Capitulações "" fobre fegu- 
rança das peflbas de Chriftovão de Soufa 
quando folTe a Goa , e de feus parentes , ami- 
gos , e criados , e de Lopo Vaz de Sampaio , 
e de Pêro Mafcarenhas. Que o que delles 
ficafle julgado por Governador , nao desfa- 
ria o que o outro tiveffe feito , nem enten- 
deria na peíToa , e fazenda do outro , nem 
de feus criados, parentes, e amigos. E que 
tanto que Chriftovão de Soufa , e António 
de Miranda chegaíTem a Goa , Eitor da Sil- 
veira , D.Jorge de Caftro , e D. António da 
Silveira , e todos os mais que por caufa de 
Pêro Mafcarenhas eftiveífem prezos , feriam 
foi tos ; e que aquella caufa fe havia de de« 

ter- 

a EJias Capitulações efcreve Fernão Lopes de Caíla* 
nheda no cip. 44. dQ Uv> 7. 



I5'8 ÁSIA DE João de Barkos 

terminar em Cochij , onde ambos os com- 
petidores íe ajuntariam , como peflbas pri- 
vadas , tendo deíiftido cada hum do officio 
de Governador té le determinar per fentcn- 
ça qual delles o feria. E que Lopo Vaz iria 
defde Goa entregue a António de Miranda , 
e em Cananor ih lhe entregaria Pêro Maf- 
carenhas ; e querendo-o elle levar no fcu ga- 
leão , fe entregaria Lopo Vaz a Chriftovao 
de Soufa , ou a D. Simão de Menezes para 
o levarem no navio em que foffem. Eftas , 
e outras muitas feí?^urancas , e cautehis fe ca- 
pituláram , as quaes ao outro dia juntos to- 
dos na Igreja moftrdram. , e leram ao Fei- 
tor , Alcaide mor da fortaleza, Officiaes , c 
Fidalgos que invernarami nella , dando-lhe 
relação da caufa porque as fizeram , e que 
vifiem o que lhes pareciam , e o que fe ha- 
via de accrefcentar , ou diminuir , requeren- 
do-lhes que lhe ajudaíTem a pôr em eíFeito 
aquella obra , os quaes todos a louvaram 
muito , e deram os agradecimentos a Chrif- 
tovao de Soufa , e a António de Miranda, 
de que fe fez auto público , que todos aíFi- 
náram. 

Chriftovao de Soufa deixando entregue 
a fortaleza a Álvaro Pinto Alcaide mór dei- 
la 5 fe partio com António de Miranda , c 
António da Silveira para Goa , onde chega- 
dos , dando conta António de Miranda ao 

Go' 



Década IV. Liv. II. Cap. V. 15'^ 

Governador Lopo Vaz de Sampaio diante 
do Ouvidor geral , e Secretario do aíTento 
que tinham tomado , e das Capitulações que 
tinham feitas , fe anojou muito ; porque co- 
mo elle era de animo lenhoril , e altivo , e eC- 
tava de poíTe do governo , a fcu parecer , juf- 
ramente per Provisões d'ElRey , parecia-lhe 
que fe lhe fazia violência , e defacato , fem 
cllc niflb intervir , fazerem contratos , e de- 
terminações fobrc fua pefToa ; polo que com 
moílras de muita cólera diffe , que não fe 
queixava fenao de íi mefmo , pois fe fiara 
delle António de Miranda , depois que dera 
o efcrito a Pêro Mafcarenhas , e que fizera 
mal de ordenar aquelle concerto para efcu- 
far fedições , e alvorotos , que per eífe mef- 
mo caminho fe fufcitariam maiores. Antó- 
nio de Miranda , que em cftremo defejava 
a quietação commum, e evitar perigos em 
que o Eílado da índia eílava , que fó de- 
pendia de abrandarem a dureza de Lopo Vaz , 
lhe defcubrio contra o juramento que fizera 
quem eram os Juizes que eftavam nomeados, 
com o que Lopo Vaz fe defanojou. E acon- 
felhado de feus amigos , vendo que de ne- 
ceílidade já fe não podia deixar de pôr em 
juizo , fem rifco de perder a governança , 
pelos juramentos que eftavam feitos de deC» 
obedecerem á parte que recufaíTe , diíTe a 
Antoiíio de Miranda , que confentia nas ca- 

pi- 



i6o ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

pitulaçocs , com condição , que os Juizes nao 
Iiaviam de fer mais de íete , nem outros fe- 
não os que citavam nomeados , de que lhe 
pedio hum aífinado , que elle lhe deo ; e 
que ficando Pêro Maícarenhas por Gover- 
nador, náo tiralTe a Affonlb Mexia nenhum 
dos oíticios que tinha , e o entregaria feguro 
ao Governador que foíTe de Portugal. Con- 
tente Chriftováo de Soufa de tudo , os Fi- 
dalgos prezos foram foltos , efe fizeram ju- 
ramentos de parte de Lopo Vaz , e de Pêro 
Mafcarenhas ; e tendo ambos defiftido do go- 
verno 5 vieram a Cochij , e no mar eítiveram. 
eftes dous competidores em arrefens té le dar 
fentença , Lopo Vaz entregue a António da 
Silveira na náo S. Roque, e Pêro Mafcarenhas 
a Diogo da Silveira*na náo Flor de la mar. 

CAPITULO VI. 

Das dijferenças que houve Jobre accrefcen- 

tarem à catifa de Lopo Vaz de Sampaio , 

e Pêro Mafcarenhas mais 'Juizes dos 

que foram nomeados a principio \ e 

comofe deo a fentença em favor 

de Lopo Vaz, 

NAo querendo Chriílovao de Soufa que 
Fr.Joáo de Alvim folie hum dos Jui- 
zes 5 e que em feu lugar fe accrefcentaífem 
cinco, que eram Lopo de Azevedo , que 

vie- 



Década IV. Liv. II. Cap. VI. i6i 

viera aqucUe anno de Portugal , António de 
Brito , que fora Capitão de Maluco , Nuno 
Vaz de Caílello-branco , Capitão que fora do 
navio do traro de Sofá la , Triíião de Cá, 
e Baíliao Pires Vigairo geral da índia , por 
quão fu {peitos tinha os kte nomeados em 
fa\^or de Lopo Vaz, arrilcou com efta in- 
novação o eiFeÍLO do que eílava aílentado , 
e ficar o negocio em peior eílado , e perigo 
que antes. Porque Lopo Vaz , quando lho 
diíTe António de Miranda , não confiando 
dos Juizes que fe accrefcentavam , fe indignou 
muito contra elle , queixando-fe que o trou- 
xera enganado de Goa , e o fizera defiftir 
do governo ; e fobre iíTo lhe diíTe outras 
palavras afperas , que António de Miranda 
prudentemente foíFreo por os defejos que ti- 
nha de ver paz na índia. Finalmente , de- 
pois de muitas altercações , que chegaram 
a termos de fe querer averiguar aquella cau- 
fa com as armas , Lopo Vaz veio a confen- 
íir nos Juizes 5 e reconciliado com António 
de Miranda , lhe pedio perdão das palavras 
que com elle paíTdra. 

Ao feguinte dia Chriíiovao de Soufa ^ 
e António de Miranda com o Ouvidor ge- 
ral , e o Secretario fe foram ao Moíleiro 
de Santo António de Religiofos de S. Fran- 
cifco , e alli diante dos mais dos Fidalgos 
que eftavam em Cochij , nomearam os onze 

TonulF.F.L L Juí^ 



102 ASTA DE João de Barros 

Juizes referidos. António de Miranda , que 
nao eílava feguro da íatisfação que Lopo 
Vaz teria delles , polo aquietar , lhe pare- 
ceo bem que fe accrefcentaílem mais dous 
Juizes , e que foffem Fr. Joao de Alvim , 
e Braz da Silva de Azevedo ; mas Chriílo- 
vao deSoufa vendo a defigualdade que ha- 
via nos votos conti-a Pêro Mafcarenhas , fen- 
do já a feu requerimento excliiido por fuf- 
peito Fr. João , não queria conlenrir na no- 
meação dos dous Juizes; porém canfado das 
novidades que cada dia naquelle negocio 
recrefciam , obrigado dos deíejos da paz , 
que fem.pre procurou , fem dar parte a Pê- 
ro Mafcarenhas , que eftava certo que não 
confentiria , deo o feu confentimento. Polo 
que dizendo-fe logo huma Miífa , foi dado 
juramento aos Juizes, que bem , e verdadei- 
ramente julgaílem aquella caiifa ; e recolhi- 
dos com o Secretario , que fervio de Efcri- 
vão do proceíTo , apparecêram ante elles 
D. VafcoDeça procurador de Lopo Vaz de 
Sampaio , e Simio Caeiro procurador de Pê- 
ro Mafcarenhas , que com as procurações 
que moílráram de ambos , oíFereceo cada 
hum as raz6es de Direito de feus coníHtuintes. 
Aprefentou-fe logo aos Juizes hum lon- 
go razoado '* de Affonfo Mexia , em que 

tra- 

rt A copia ãejle ra-^oaão efcreve Fernão Lopes deCaf- 
tunhedíi no cap, 49. do liv. 7. 



Década IV. Liv. II. Cap. VI. 163 

íratLivn os inconvenientes que na índia fe 
íeguiriam de Pcro Mafcarenhas governar; 
e nellcs ic conhecia ter tanto ódio contra 
Pêro Mafcarenhas , quanta amizade moftra- 
va ter a Lopo Vaz. Outros apontamentos 
fe oíiereceram por parte de Fero de Faria' 
Capitão de Goa , e outros pola do Licen- 
ciado João de Ofouro Ouvidor geral da 
índia 5 era que requeriam o mcfnío. Entrou 
também hum procurador da Gamara de Go- 
chij , que em nome da Cidade requereo aos 
juizes da parte de Deos , e d'E]Rey não 
julgalTem a governança a Fero Mafcarenhas , 
porque era feu inimigo capital , e como tal 
os tinha ameaçados ; pelo que fendo elle 
Governador, defpovoariam a Cidade , e fe 
iriam para os Mouros , porque com nenhu- 
mas promeíTas , e juramentos que fizeíle fe 
teriam por feguros. E aífi na noite antes 
daquelle dia , em que os Juizes entraram 
em defpacho , todos os moradores de Go- 
chij , por a oíFenfa , e refiftencia que fizeram 
a Fero Mafcai*enhas , e por as ameaças que 
eile lhes fez de os caíligar como traidores , 
fe vielTe a governar a índia , andaram com 
fuás mulheres , e filhos pelas Igrejas em pro- 
cifsáo defcalços , com muitas lagrimas , e 
devoção 5 pedindo a Deos infpiraíTe nos Jui- 
zes que não juígaífem a governança a Fe- 
ro Mafcarenhas. 

L ii Os 



104 ÁSIA DK João de Barros 

Os Juizes ouvidas as partes, deram feus 
votos ^ c fendo os mais em favor de Lopo 

Vaz , fc efcrevco a fcntença " , perque jul- 
garam Lopo Vaz de Sampaio governaflc a 
Índia , e Pêro Maícarenlias fe foíle para o 
Reyno, para onde lhe feria dada embarca- 
ção conforme a qualidade de fua peílba : c 
quanto aos ordenados do oílicio de Gover- 
nador ficaíTe refervado para ElRey o de- 
terminar no Rcyno , como lhe pareceffe , 
e tudo o mais que cada hum das partes qui- 
zeílc requerer. Eíla femença fe deo aos 21 
de Dezembro daquelle anno de 1527 ; e 
aílinada pelos Juizes António de Miranda , 
D.João Deça, Braz da Silva, e Triftão de 
Giy fe foram á náo , onde eftava Pêro Maí- 
carenhas , e entrados dentro , o Secretario 
lha publicou , a qual Pêro Mafcarenhas , co- 
mo magnânimo que era 5 ouvio comoroílo 
mui feguro, fem moftra de alguma altera- 
ção , o que feus amigos não fizeram , que 

to- 

a Traslado da fentenqa : Vi/ios por es Juizes ejles au- 
tos ^ e o (jiie per elles fe mojha , e vijios nofjos ojfmaãos , 
em que cada hum declarou fua tenção , julgamos por noffn 
definitiva fentença , que Lopo Vaz de Sampaio governe , e 
feja Oovernador nefias partes da índia -, e Pêro Mafca- 
i'enhas fe vã embora para o Reyno de Portugal , e lhe fe- 
ra dada embarcação feirando a qualidade de fua pefjoa, E 
tjuanto aos ordenados dos fohreditos , fique para E/Eey NoJ' 
fo Senhor o julgar como Jhehem parecer y e aí/í tudo ornais 
que cada hum delles quizer requerer no Keyno. Fevnão 
JLopes de Gâftaiiheda lap. jo, do liv, 7. 



Década IV. Liv. II. Cap. VI. 165' 

todos ficaram mui triftes. Depois foram os 
mefmos publicar a fentença a Lopo Vaz de 
Sampaio , que a ouvio com muito prazer ; 
e dando muitas grar:as aos Juizes , pedio 
outra vez perdão a António de Miranda do 
que paílara com eile. Os de Cochij , que 
eikvam Iblicitos fe le daria a fentença ao 
contrario , fizeram muitas feílas , o que aos 
da outra parte dava muita paixão , recean- 
do o tratamento que Lopo Vaz lhes faria 
ficando na índia. E por elle os aíTegurar 
deíla fufpeita , antes que defembarcaíTe , ao^-^ 
outro dia pela manha em^ hum catur correo 
toda a frota , pedindo a todos que fe ale- 
graíTem com elle , e creíTem que tinham nel- 
le hum grande amigo na índia , e no Rey- 
iio com Sua Alteza para lhe reprefentar feus 
ferviços ; e que aos que foram da facção de 
Pêro Mafcarenhas tinha em mui boa conta , 
por profeguirem com tanto valor o que lhes 
parecera que era jufíiça , que o mefmo ef- 
perava fizcíTem por elle quando cumpriíTe , 
e que ferviíTcm com elle a ElRey com aquel- 
le mefmo animo , e fe foliem a defcancar. Do 
que lhe todos deram as graças , e com elle 
foram a terra acompanhando-o , onde foi re- 
cebido com muita feda , e levado á Igreja de- 
baixo de pallio , e alli fez muitos cumprimen- 
tos aos Fidalgos que lhe foram contrários , 
com que fe íeguráram para ficar na índia, 

Nef. 



i66 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

Nefte tempo foram acabadas de carre- 
gar as ndos que haviam de vir a Portugal , 
e fe partiram , e em huma delias veio Pc- 
ro Maícarcnhas entregue a António de Bri- 
to 5 que vinlia por Capitão delia , e o Ibra 
de Maluco ; e primeiro que Pêro Mafcare- 
nhas partiíTe , mandou citar ao Governador 
Lopo Vaz para ante EIRey por o eivei, 
e crime que contra elle cfperava alcançar , 
e lhe efcreveo que ficavam Cartel hanos em 
Maluco 5 que íoccorreííe a D.Jorge de Me- 
nezes com gente , e munições para defensão 
daquella fortaleza. As nãos chegaram em 
falvo a Portugal , e Pêro Mafcarenhas foi 
d'ElRey bem recebido, e lhe deo a capi- 
tania de Azamor , onde efteve alguns annos , 
e vindo para Portugal fe perdeo no mar. '' 

CAPITULO VIT. 

De algumas Armadas que Lopo Vaz def- 
pachou ^ e como foccorreo a fortaleza de 
Ceilam , que eflava cercada , mandan- 
do a ella Martim Ajfonfo de Mello. 

VEndo-fe Lopo Vaz de Sampaio fora 
das inquietações , e difcordias cm que 
andava com Pêro Mafcarenhas , e dcfpacha- 

da 

a João de Barros efcreveo as differenqas entre Lofw 
Víi:( de Scitnpaio , e Pêro Mafcarenhas com tanta hrevi' 
ãade em dons yieijuenos capítulos , qtie fica fendo a noticia 
dcílas diminuta , poh que pareceo dal la inteira nosjeis ca- 



Década IV. Liv. II. Cap. VIL 167 

da a Armada para o Reyno , parcceo-Ihe 
ncceíTario ordenar outra para elle ir ao Ef- 
treito queimar as gales dos Rumes , que al- 
li eilavam , de cujas difíerenças , e poucas 
forças , e morte de Raez Soieimao elle já 
ílibia , como atrás diffemos. E pondo em 
conlelho eíb feu intento , lhe foi contraria- 
do como da outra vez , e fe aíTentou nclle , 
que náo convinha ir o Governador fora da 
índia em tempo que ElRey de Calecut ti- 
nha apreílados muitos paráos feus , e feita 
armação com muitos coíTarios , com que 
podia fazer muito grande damno em aufen- 
cia do Governador ; e que para queimar as 
poucas galés dos Rumes , que eílavam em 
Gamaram , bailava mandar Jiuma Armada 
ao Eftreito. Com eíla refolução apparelhou 
Lopo Vaz huma Armada , que entregou a 
António de Miranda de Azevedo Capitão 
mor do mar da índia , e defpachou Pêro 
de Faria para ir a Malaca fervir de Capi- 
tão daqueila fortaleza, (na vagante de Jor- 
ge Cabral , que tinha já acabado feu tem- 
po,) que partio em Abril de I5'28, e de 
que já começámos fallar no primeiro Livro , 
difcorrendo pelas coufas de Malaca , e Ma- 

lu- 

pitu^os paffados ; j)õrêm menos ãilatadamente do que as ef' 
crevh-am Fernão Lopes de Guftanheda no liv. 7. Diogo 
úo Couto nos liv. a. ^. e princípio do 4. e Franclfco de An- 
drade na 2. Parte de/de o cap. 11. tc o 28. ondd Je po* 
derãÕ Ur com mais particularidades. 



i68 ÁSIA DE João de Barros 

luco , para onde hia , em companhia do 
meímo Pero de Faria , Simáo de Sou ia Gal- 
vão 5 em huma galé , de cuja jornada adi- 
ante diremos. E aíli elpcdio a D. João De- 
Ç2L para ir tomar poíTe da capitania da for- 
taleza de Cananor , de que do Reyno viera 
provido 5 e para guardar a cofta aquelle ve^ 
rão 5 na qual andavam muitos paráos de Ma- 
lavares. "" 

Outra Armada ordenou a Martim Af- 
fonfo de Mello Ju farte para ir fazer a for- 
taleza de Sunda , que Francifco de Sá , (co-^ 
mo temos dito , ) por o máo fucceíFo que 
houve 5 não pudera fazer. E por o Governa-^ 
dor 5 e elle recearem que para aquella jor- 
nada não achariam gente que quizeííe ir por 
o que lá a Francifco de Sá acontecera , lan^ 
çáram farrla , que a Armada era para ir fa- 
zer prezas na cofta de Tanaçarij , e Pegú , 
por lá ferem lançados alguns navios de Tur- 
cos 5 e náos de Mouros , que per entre as 
Ilhas deMaldiva faziam fua viagem áquel- 
las partes 5 fugindo de noíTas Armadas. Co- 
mo efta nova fe foube , fe alvoroçou a gen- 
te 

a Apre fiou outra Armada de féis catares^ e jujlas ^ de 
que fex. Capitão Manue! da Silva para guardar a cojia de 
Goa té Ciiaul. E a João de Flores mandou com huma ca' 
rave lia , huma barcaça , e três falias arrecadar a renda 
da pef caria do aljôfar , a quem accommettèram vinte pa- 
rdos, de Mouros , não tendo João Flores comJip;o as fujlas , 
■e o mataram , e a todos os Portuguexes , c queimaram os 
navios. Francifco de Andrade cap. )o. ila '2. Parte» 



Década IV. Liv. II. Cap. VII. 169 

te com a efperança das prezas, pareccndo- 
Ihe que feria ncfta ida Marrim Aííbníb rao 
bem fortunado , como fora o anno pafiado 
na Armada cm que fora ás Ilhas de Aíal- 
diva , onde fe fez muito proveito. Na qual 
viagem abrio Marti m Afibnfo nova nave- 
gação das Ilhas de Maldiva para Goa , fa- 
zendo-fe na volta de Çocotorá , e depois 
de cfcorrcr todos os baixos das Ilhas arri- 
bando fobre Goa. 

Aprellada a Armada de oito velas groP 
ias '^ 5 e<ie alguns navios de remo , das quacs 
foram Capitães António Cardofo , Francis- 
co Ferreira , Duarte Mendes de VafconccI- 
los , Francifco Velho , João Lobato , Ma- 
nuel da Veiga , Alanuel Vieira , João Coe- 
lho , Vafco Rabello , e Thomé Rodrigues , 
nella fe embarcaram quatrocentos homens ; 
e cftando para partir , vieram novas ao Go- 
vernador como Boenegobago Pandar Rey 
da Cota em Ceilam eílava cercado de Pa- 
temarcar Capitão mor d^ElRey de Calecut, 
o qual pelos feus portos de mar lhe ftzia 
muito damno em ódio dos noflbs , e em fa- 
vor de Madune Pandar irmão do mefmo 
Rey da Cota ; polo que fendo neceífario 
foccorrer aquelle Rey , por fer valTallo d'Ei- 

Rey 

« Efía Armada era de onze véins de remo , das ijuaes 
h-.íma era galé, a entra galeota^ Dio^o do Couto cap. 5, 
ílo liv. 4. 



I70 ÁSIA DE João de Barros 

Rcy de Portugal , mandou o Governador a 
Mnrtim Aífonlb , que logo parriíTe , e paf- 
faílc por Ceilam , e Jbccorreíle a ElRey Boe- 
negobago Pandar. Martiai Aííbnfo fez a via- 
gem como íe lhe ordenou , e chegou a Co- 
lumbo , onde já náo achou Patemarcar, que 
tendo novas da noíla Armada , fe metrco 
pelos rios da Ilha em partes , que os nof- 
los navios por ferem grandes não podiam 
ir a elles , e o Madune Pandar levantou o 
cerco que tinha pofto ao irmão. "" 

Martim Aítonfo por não perder fua mon- 
ção , 

a Ejles dons irmTios , e outro , (juc jc chamava Rei- 
gam Víindar , eram fiihos de hum irmão de Dramapjacu' 
ra Mahago Rei de Ceilam , per cuja morte outro [eu ir- 
imio chamado Boeneç;aho Pandar lhe matou três filhos , que 
lhe ficaram de pouca idade , e nfurpou o Reyno ; e para 
O pojjnir fem contradicção , e Jer ahfoiuto fenhor delle , 
deter7ninou de matar a ejioutros três loirinhos , e enteados 
feus y poí que efiava cafado cem a mulher dejeu irmão ^ cu- 
jos filhos elies eram. Os moqos , que fã tin/iam idade para 
entenderem a intenção do tio , com ajuda de quem lhes maior 
iem queria que elle , o mataram , tom>lram-Ihe o Reyno , 
e o dividiram entre fi'. Boene(fohae;o Pandar ^ que era maior ^ 
f^cou com o titulo de Rey da Cota , Madune Pandar com 
o Ejiado de Ceitavaca , e Reinam Pandar com o de Rei- 
gam. Gozaram e/les três irmãos jeus E liados em amizade 
tíl^uns annos té d morte de Rei<ram Pandar , que ElRey 
tomou o que elle pofjuia , e Aladune dejejava , foh-e que 
fe começaram a dejavir efies dous irmãos , e a contender 
ahertamente , pertendendo Madune de fuhir ao fupremo do- 
mínio daquella Ilha , para o que intentava todos os meios 
■para o confe{ruir. E ejla era a cauia da guerra entre el- 
les , na qual fe ElRey ajudava dos Portuç^ue^^s em fua de- 
fensão , e Madune dos Malavares para feus intentos. Dio- 
go do Couto Decad. 5. liv. i. cap. 5. 



Dec.IV. Liv.II. Cap.VII. eVIIL 171 

çno , nao íe quiz deíer em Ceilam , e com 
muito proveito que fez de navios de Mou- 
ros que alli houve , partio , e foi rer a Ca- 
lecare , onde íe vio com o fenhor da terra , 
c aífcntou com elle o trato da pefcaria do 
nljofir , que fe pefca naquelles baixos de 
Ceilam , a irum preço cerro , e com obriga- 
v:io que pagaria cada anno três mil pa rd aos, 
com que o Governador da índia mandaílb 
dar guarda aos pefcadores do aljôfar no 
tempo da pefcaria , da qual então andava 
por Capitão Diogo Rebello com alguns na- 
vios. E porque os moradores de Carc , lu- 
gar vizinho de Calecare , onde também fe 
pefca o aljôfar, mataram a João Flores Ca- 
pitão da guarda daquclla pefcaria , Martini 
AfFonfo paílbu lá , e o deílruio , e dalli fe 
foi a Paleacate. 

CAPITULO VIII. 

Do que fticcecleo a Marthn Affonfo té fe 

perder na Ilha de Negarnale ^ e como 

foi cativo. 

DEteve-fe Martim Affonfo alguns dias 
em Paleacate , (onde ellava por Capi- 
tão Ambroíio do Rego , ) tomando roupas , 
e outra fazenda , que lhe era neceífaria pa- 
ra a Jornada que hia fazer ; e ao tempo que 
naquelle lugar fe cftava apercebendo ;, acer- 
ta- 



1'jz ÁSIA DE João de Barros 

taram de vir de CochiJ per terra alguns pa- 
tamares , que sáo correios de pé , ciue em 
leu modo andam tanto como cá os noíTos 
correios a cavallo , os quaes deram novas 
da Armada de Martim Áffoniò , que tanto 
que fe ç\\<:, partio de Cochij , fe publicou 
que elle hia fazer a fortaleza de Sunda , e 
não as prezas de Tanaçarij. E a caufa por 
que fe rompeo cíle fegredo , foi , que eílan- 
do Martim AiTonfo lendo entre fi o regi- 
mento que levava , ficava-lhe nas coílas dei- 
lehumacota que dizia: Regimento de Mar- 
tim Ajjonfo de Mello do que ha de fazer 
na jórnad.a de Sunda , aonde agora vai \ 
a qual cota lendo quem eílava junto delle , 
a divulgou , c alíi fe veio a publicar o lu- 
gar onde hia. Como o foube a gente da 
iiia companhia , e fe achou enganada , fe 
começou amotinar, e fugir alguma ; porque 
quanto foi o alvoroço com que partiram 
para as prezas de Tanaçarij , tanto foi o 
defgoílo de os levarem a Sunda. Poio que 
cumprio a Martim Affonfo desfazer alguma 
prata fua , e bufcar dinheiro empreftado com 
que fez algumas pagas aos foldados j por- 
que quando partira de Cocliij com a nova 
de irem ás prezas , nao lhe fora nada pa- 
go. E por mais os aquietar lhes prometteo 
Martim AfFonfo , que de caminho iriam 
pela coda de Tanaçarij , e faria as prezas 

que 



Década IV. Liv. II. Cap. VIII. 173 

que alii nchaííem. Com eíle propoíito le par- 
tio de Paleacate , tornando-íe dalli António 
Cardoib com huma gcilé por nao fervir pa- 
ra aquella navegação que havia de fazer; 
e por duas fuítas fazerem muita agua , fe 
tornaram também com feus Capitães para 
Cochij , os qunes parece que quiz Deos faí- 
var dos perigos que os outros haviam de 
paíTar. Porque fazendo eiles fua viagem, na 
traveíTa daquelie golfão, e enfeada de Ben- 
gala faltou com eiles hum tem.poral , que 
os efpaihou de maneira , que Marti m Af- 
fonfo fe achou fó com feu navio junto á 
Ilha que cliamam Negamale , que he fron- 
teira á Cidade de Sodoé , que eílá na ter- 
ra firme , onde em hum baixo fe veio a 
perder , ficando a maior parte da gente falva. 
"^ Vendo-fe Martim AíFonfo no batel do 
navio em que fe falvou com té cincoenta 
pclToas , e com a fortuna do tempo , que 
poderia perder os outros navios da fua Ar- 
mada , feguio a vontade dos mais compa- 
nheiros , e mandou remar contra a ponta 
de Negamale , parecendo-lhe que por fer 
parte que os noíTos navios geralmente vam 
demandar , quando navegam a Pegú , alli 

po- 

a Tudo ijio faítova ncs guadernos ds João de Barros, 
aiie parece lhe tiraram a folha em gue devia tjlar efcriíj. 
Diogo do Couto cap. 10. do //V. 4. Francifco de Andrade 
cap. 3Ó. da 2. Part. c Fernão Lopes de Caftanheda de^" 
i£ o cap. 7j. ti o çop. 79. do íiv. 7, 



174 ÁSIA DE João de Barros 

poderia achar algum remédio ; porque quan- 
do nao fblTc cm os navios que efpcravam 
de acliar , feria na gente da terra , por o 
muito conhecimento que tinha de nós ; mas 
cjuanras couías accommettia , nenhuma lhe 
liiccedia bem, porque tudo eram mudanças 
do tempo 5 que ora os lançava a huma par- 
te , ora a outra , íèm oufar de tomar terra , 
temendo ièrem oíFendidos dos Baibaros da 
cofta 5 por ícr gcniQ que não tinha commer- 
cio comnolco. Finalmente vencidos da fo- 
me , e da fede , tanto que defcubriram hu- 
ma pequena povoação , lançáram-fe alli duas 
peffoas aventuradas a morrer por dar vida 
a todas as outras , os quaes foram hum Fi- 
dalgo per nome Francifco da Cunha , filho 
de Ruy de Mello da Cunha do Algarve , 
e iium António Fialho , que foram logo 
tomados , e levados da viíla dos noíTos pa- 
ra o ferrão per muitos daquelles Bárbaros 
que fe ajuntaram. Quando Martim Aífonfo 
vio o procedimento que elles tiveram com 
aqiieiles dous foidados , (que nao correram 
perigo da vida , e paíTado algum tempo fo- 
ram refgatados , ) converteo-fe aos com.pa- 
nheiros , e com as melhores palavras que 
pode 5 os perfuadio tiveííem paciência na- 
quelles trabalhos , e os mudou de feu pro- 
pofito , que era quererem antes morrer em 
terra cativos daquella barbara gente , que 

an- 



Década IY. Liv. II. Cap. VIII. 17J 

nndar mortos de fome , e de fede , e ao ca- 
bo ferem comidos dos peixes. Polo que vol- 
rando ao baixo , onde íicou o navio perdi- 
do , parecendo-Jhe que o mar lançaria algu- 
ma couía delle , com que fe pudeííem re- 
parar , nem alli , nem a outra parte acharam 
icnao maiores trabalhos , e perigos , com 
os quaes navegaram cinco , ou fei? dias com 
grande fome , e fede , e ao cabo deilcs apor- 
taram a huma ilheta, onde defcubríram hu- 
mas tartarugas , com cuja carne , e ovos que 
cozeram em hum capacete 5 fedeo a vida a 
muitos enfermos , que comeram de humas 
favas peçonhentas, que alli acharam, e os 
sãos fe refrefcáram. 

PaíTados três dias , partiram daquella ilhe- 
ta , e atraveíTando a cofca , chegaram a hu- 
ma praia , onde achando boa agua , e pal- 
mitos , com elles , e com o que levavam 
das tartaruí^as eíHveram outros três dias': ao 
cabo delles vieram dar com os noílos duas 
almadias de pefcadores , os quaes dizendo 
que os levariam ac porto de Chatigam , que 
he de Bengala mui frequentado dos Portu- 
guezes , os mettêram em hum rio de huma 
Cidade cli amada Chacuriá , que era do fe- 
nhorio de Codavafcam vafiailo d^ElRey de 
Bengala j ao qual dando os pefcadores no- 
vas daquelles Portuguezes , que andavam 
perdidos , e que vinham defarmados , o Co- 
da- 



176 ÁSIA DE João de Barros ^ 

davarcam que lábia ferem os Portuguezes 
hoincns esforçados , e exercitados na guer- 
ra , determinou de ajudar-fe delles em hu- 
ma que tinha com iium feu vizinho, e aííi 
os mandou logo bufcar com fuás gentes , e 
os trouxe a fi com promcíTas de os aviar 
para fe tornarem á índia, e de outras cou- 
làs , que não cumprio. Porque havida vito- 
ria de feu inimigo com ajuda daquellesPor- 
tuguczcs 5 níío lhes quiz dar licença que fc 
foíTcm , mas os reteve como cativos , di- 
zcndo-ihes que fe refgataílem. O lugar on- 
de eíle tyranno os tinha era huma Cidade 
fua que fe chamava Soré , fituada ao longo 
de huma ribeira , que entra em hum rio , 
o qual fe vai metter no mar oito léguas da 
Cidade. 

Aconteceo que eílando Martim AíFonfo 
naquelle eftado , vieram ter á barra daquel- 
le rio huma galeota , e hum bargantij da fua 
Armada , de que eram Capitães Duarte Men- 
des de Vafconcellos , e João Coelho , aos 
quaes elle logo mandou avifar com.o cíla- 
vam alli , e que o Codavaícam lhe pedia 
refgate por fuás peíToas , que ajuntaíTem al- 
guma coufa do que traziam para os livrar 
daquelle tyranno; mas como elles traziam 
pouco , e o tyranno pedia muito , vendo 
que nãotinham outro remédio , determina- 
ram Martim AfFonfo, e fcus companheiros 

de 



Década IV. Liv. IT. Cap. VIII. 177 

de fugir , tendo concertado que duas alma- 
dias iriam de noite per o rio acima té hum 
certo lugar que iería da Cidade duas léguas , 
porque nao podiam lubirmais acim.a , eque 
alli os recolheriam , o que íè não pode fa- 
zer tão fecretamente , que não foíTem fenti- 
dos , e tomados antes de chegar ao lugar 
em que efperavam as almadias , eílando já 
todos embrenhados. E o que mais fentio 
Martim Aífonfo foi degollarem os Brame- 
lies diante de feus olhos a Gonçalo Vaz de 
Mello feu fobrinho , (mancebo mui gentil- 
homem , a que então começava a barba , ) 
em facrificio a feus idolos , porque lhes ti- 
nham feito voto , que deparando-lhes os Por- 
tuguezes , lhe facriíicariam o mais formofo 
delles ; e pofto que Martim Aífonfo promet- 
teo pelo fobrinho grande refgate , não o 
pode livrar da morte , que com grande conf- 
ia ncia Chriílã elle padeceo. Os que eftavam 
nos navios tanto que foram avifados doef- 
tado em que Martim Aífonfo íicava, parií- 
ram-fe caminho da índia a dar novas do 
fucceífo daquella Armada. Mas quiz Deos 
prover a tribulação daquelles homens , por- 
que dahi a pouco tempo foram refgatados 
por três mil cruzados , que por elles deo 
hum mercador Mouro que havia nome Co- 
ge Sabadim. 

Tom.IF.P.L M CA- 



J78 ÁSIA DE João de Barbos 

CAPITULO IX. 

Como D. João De ca desbaratou , e pren- 

deo a China Cuttale Capitão mór d''ElRey 

de Calecut ^ e do que mais lhe fuccedeo, 

DOmJoãoDeça, que atrás diíTemos que 
o Governador mandara com Armada á 
cofta de Calecut , poz nilTo tal diligencia , 
que náo fahia navio dos lugares daquella coi- 
ta que lhe eícapaíTe ; polo que naquelle ve- 
rão que nella andou , tomou cincoenta ve- 
las 5 as mais delias carregadas de pimenta de 
Mouros de Calecut , no que teve muitas pe- 
lejas com elles , nas quaes os Portuguezes 
o fizeram íempre mui esforçadamente. E náo 
fahindo já navios daquelles portos com te- 
mor de D. João , com confelho dos Capi- 
tães 5 que com eJIe hiam , defembarcou em 
Mangaior , por ter novas que eílavam alli 
recolhidos alguns paráos , os quaes queimou , 
eabrazou o lugar; e fem receber algum da- 
mno fe tornou a embarcar , e correndo a 
cofta , encontrou com China Cutiale Capi- 
tão mór da Armada d'ElRey de Calecut , 
que era de feííenta paráos. Era efte Mouro 
mui valente cavalleiro , e que fempre andava 
apercebido de grande número de velas , e 
gente limpa , e dcfta vez que íe topou , c 
pelejou com D.João , pofto que accommetto 
iv^ os 



Década TV. Liv. II. Cap. IX. 179 

os noíTos com iniiito animo , e durou hum 
bom eípaço no combate por fer o número 
dos Mouros mui dcligual , por derradeiro 
o paráo em que vinha Cutiale foi entrado 
dos noííos , e clle ferido de duas cutiladas 
pelo rofto , e duas arcabuzadas em huma 
perna ; e aíH ferido , vendo que não tinha 
outro remédio para fe falvar, fe deitou ao 
mar por não vir a poder dos Portuguezes ; 
porém não pode efcapar que não foíle to- 
mado , e a maior parte dos feus navios , com 
morte de mil e quinhentos Mouros , e quaíi 
outros tantos cativos ; dos noíTos houve mui- 
tos feridos , e vinte mortos. D. João havi- 
da efta vitoria , que foi mui grande , por fer 
já no fim do verão, fe recolheo aCananor, 
onde defarmou os navios , mandando a galé 
para Cochij , em que foi D. Simão de Me- 
zes 5 que lhe entregou a fortaleza. O Go- 
vernador que daquelle feito levou muito gof- 
to por quão defmandados andavam os Mou- 
ros daquella coda , efcreveo a D. João as 
graças , e lhe fez mercê da peíToa de China 
Cutiale , que curado , e são de luas feridas 
deo por feu refgate doze Portuguezes dos 
que eílavam cativos em poder do Çamorij , 
e quinhentos cruzados em dinheiro , e jurou 
em fua lei , e deo fiadores Mouros ricos de 
Cananor , de mais não fazer guerra aos Por- 
tuguezes, com que ficou livre, 

Mii CA^ 



i8o ÁSIA DE JoXo DE Barros 

CAPITULO X. 

Como António de Miranda Capitão niór do 

mar partio para o F.Jlreito , e do que 

pajjou naquella 'viagem té chegar ao 

porto da Cidade de Adem, 

ANtonio de Miranda de Azevedo Ca- 
pitão mor do mar , a quem Lopo Vaz 
de Sampaio entregou huma Armada de vin- 
te velas 5 com. mais de mil homens para o 
Eílreito do mar Roxo , da qual eram os prin- 
cipacs Capitães António da Silva filho de 
Triíláo da Silva , Lopo de Mefquita , Hen- 
jique de Macedo , Fernão Rodrigues Bar- 
ba 5 Ruy Pereira , D. Jorge de Noronha , 
Francifco de Vafconcellos , Ruy Gonçalves 
Capitão da Ordenança. Partio de Goa aos 
25 de Janeiro do anno de i^iS, e fazendo 
fua viagem, achou lium galeão de Rumes, 
que hia carregado de madeira para fazer ga- 
lés , e por fer veleiro não o puderam íe- 
guir fenâo alguns bargantijs , os quaes elle 
arredava de íi com a muita artiiheria que le- 
vava , té que havendo dous dias que o fe- 
guiam o perderam de viíla por o tempo fer 
tanto , que não podiam foíFrer vela. Che- 
gando António de Miranda a Çocotorá , de- 
teve-fe alli cinco dias para repairar alguns 
dos navios que levava^ e partio a cinco de 

Fe- 



Década IV. Liv. IL Cap. X. i8i 

Fevereiro ; e quando chegou ao Cabo de 
Gardafii , e coíla de Arábia , repartio as vél 
las que trazia cm rrcs partes , huma deo a 
António da Silva Capitão do galeão Reys 
Magos , outra deo a Fernão Rodrigues Bar- 
ba Capitão do galeão S. Rafael , e elle ficou 
no meio com quatro galeões , e dous bargan- 
tijs , porque não entraíTe , nem íahiíTe navio 
do Eílreito que lhes não vieíTe cahir nas mãos. 
Porém no tempo que alli andaram , que foi 
todo Fevereiro , tiveram tantas farraçoes , 
que paíláram muitos navios fem ferem vif- 
tos ; mas todavia alguns cahíram na rede aos 
noíTos bargantijs , como foi huma náo que 
mettêram no fundo por não querer amainar. 
E Henrique de Macedo apartando-fe com as 
íarraçóes ao mar , encontrou com hum ga- 
leão de Turcos mui poderofo ; e tanto ^que 
hum houve viíla do outro , trabalharam por 
fe ajuntar, té que fe aíFerráram , confiados 
os Turcos de virem bem providos de armas , 
e de muitos artifícios de fogo , dos quaes 
lançaram logo huma lança no noíTo galeão , 
a qual fe apegou na vela , que facudindo-fe 
com as lufadas do vento que acalmara , def- 
pedio defi com tanta força a mefma lança, 
que cahio no galeão dos Turcos ; e não fo- 
mente deixou ateado o fogo na vela do nof- 
fo galeão de maneira que a queimou toda , 
c poz em rifco ao galeão de fe queimar, 

mas 



i8z ÁSIA DE João de Barros 
mas ainda queimou os mefmos inventores do 
fcgo. Porque receando elles que os^ noíTos 
abalroaíTcm , c entraíTem no feu galeão , en- 
cheram a popa delle de pólvora • e efta lan- 
ça que lançaram para os noílbs por vir dar 
nella, lavrou de maneira que fe queimou o 
feu galeão , e todos os Turcos , tirando fe- 
te, ou oito que fe lançaram ao mar. E^a 
caufa do galeão de Henrique de Macedo não 
arder, eftando ambos tão travados, foi por 
chegar hum bargantim dos noífos , e Diogo 
de Mefquita em o batel do feu navio, e ás 
toas o defembaraçáram , livrando-o daquelle 
perigo ; e depois que o apartaram delle , tor- 
naram fobre os Rumes , que andavam nadan- 
do , e ás lançadas os mataram todos. 

A António da Silva coube-lhe em forte 
tomar huma náo grande de Dio , e huma co- 
tia com efpeciaria , e toda a gente delia mor- 
reo á efpada. Ruy Gonçalves Capicáo^ da ca- 
ravella Bicha abalroou hum bargantim , e 
lium zambuco. Fernão Rodrigues Barba to- 
mou dous zambucos carregados de eípecia- 
ria , e arroz ; os Capitães dos bargantijs to- 
maram outros dous. D. Jorge de Noronha 
encontrou huma náo mui groffa com que an- 
dou dous dias ás bombardadas , e por derra- 
deiro ella fe falvou com deixar a D. Jorge 
muita gente ferida , e depois foi elle^dar com 
hum z^ambuco carregado de algodões, que 

por 



Década IV. Liv. 11. Cap. X. i8 



por a fua galé os nao poder recolher , cari- 
vo\i os Mouros , e poz fogo ao zambuco. 
Finalmente cada hum dos Capitães teve fuás 
aventuras , té que le ajuntaram com António 
de Miranda no porto da Cidade de Caxem , 
qje he na coíla de Arábia , onde elle tinha 
dado regimento que fe ajuntaUem té 15* de 
Março. Dahi efpedio o Feitor da Armada 
com hum bargantim , e alguma gente com 
as náos tomadas que o foífem aguardar a 
Maicate , porque queria dar huma vifta á 
Cidade de Adem , por lhe dizerem os Mou- 
ros j que tomaram naquellas náos , ( que to- 
dos vinham de Judá , ) terem novas que os 
Rumes eftavam fobre Adem , e quando nao 
eftiveíTem , queria chegar ás portas do Eí- 
treito. 

Havendo quinze dias que António de Mi- 
randa eftava com toda Armada em Caxem , 
chegou alli hum navio a que os Mouros cha- 
mam Marruaz , de que affirmáram ao Capi- 
tão mór , que ainda fe cfperavam por mais 
náos que haviam de vir ao Eftreito. Eíla mef- 
ma nova certificaram alguns dos Mouros ca- 
tivos. Movido com eíla nova António de 
Miranda , havendo confelho com os feus 
Capitães , determinou-fe nelle que era ferviço 
d^ElRey embocar o Eftreito , e ao menos 
dar huma vifta á Cidade de Adem, quando 
outra coufa não fizeíTem , e favorecclla com 

tão 



184 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

tão groíTa Armada contra os Rumes , por 
naquelle tompo cftar a Cidade na noíTa ami- 
zade , e que alli poderiam ter certa informa- 
ção do lugar, e eftado em que eílavam 05 
Rumes. Partidc António de Miranda coa 
cila determinação cammho de Adem , de- 
xou em Caxem a Ruy Pereira com huma ga- 
lé 5 e huma galcota por ler Quadrilheiro mor 
das prezas , e ter por arrecadar o dinheiro 
de duas náos groífas de Mouros que alli íe 
venderam ; e deixou-lhe ordenado António 
de Miranda , que como folFe defpachado , 
le foíTe a via de Adem , e ahi o efperaíTe , 
o qual o cumprio aíTi j e chegando primei- 
ro que António de Miranda , achou no por- 
to duas náos groíTas com mercadoria , ás 
quaes não fez damno algum por honra dos 
de Adem , por lho alFi ter mandado Antó- 
nio de Miranda , e em íinal de paz falvoíi 
a Cidade com fua artilheria fegundo feu cof- 
tume. E como os Mouros por fuás obras 
nunca fe aííeguram , mandaram logo os Go- 
vernadores da Cidade vifitar o Capitão com 
algum refrefco , dizendo como aquella Ci- 
dade eftava preftes para o que iht neceíTario 
foíTe por fer amiga de Portuguezes , e El- 
Rey leu Senhor lho ter aííi mandado que o 
fizeíTem , vindo alli ter algumas náos nolTas. 
Ruy Pereira lhes refpondeo com boas pa- 
la vcas 3 e dcUes foube como ElRey eftava 

ÍQ* 



Década IV. Liv. II. Cap. X. 185' 

fora da Cidade , no Icrtao , para acudir a 
iiiim feii vizinho que lhe entrava pelo Key- 
no , e as novas que dos Rumes lhe deram , 
foram haver pouco que eíHveram alli'', e 
delles receberem damno por Jhes defenderem 
a terra , e que tinham ao prefente novas que 
ellavam em Gamaram. 

Dahi a dous dias chegou António de Mi- 
'/anda com toda a Armada, que poz na Ci- 
dade grande efpanto , depois que ouviram a 
lalva da artilheria que clle fez ; c logo os 
mefmos Mouros que vieram a Ruy Pereira 
fe foram ao galeão do Capitão mor com pre- 
fentes , e refrefco da terra , oiferecendo-lhe 
o que houveíTe miíler para aquella Armada , 
por aíli lho ter mandado ElRey ícu Senhor 
quando dalli partio. E depois que António 
de Miranda lhes agradeceo fua vifitaçáo , eí- 
teve inquirindo deiles novas dos Turcos , e 
aífi do Eftreito , para faber o fundamento 
que teria na mudança de fua Armada ; e por 
as coufas que foube delles , que concorda- 
vam com as que tinham dito a Ruy Perei- 
ra 5 poz em confelho o que fe faria. E por- 
que os mais eram de parecer que , antes que 
foíTe fobre os Rumes , manda íTe alguém que 
íomaííè informação do que paliava no Ef- 
treito 5 mandou a efte negocio o Piloto mor 

da 

a Ejics Rumes eram os da companhia àe Mii/lafáfe* 
ífriíihi) de Rtw^ Sokim<Í9, 



i86 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

da Armada contra voto de muitos que qui- 
zeram porfi fazer aquella jornada. Mas co- 
mo António de Miranda receava , que man- 
dando Jiomcm de maior forte, podia atra- 
veíTar-fe cm tomar algum navio , quiz antes 
efte 5 pois nao hia a mais que a ver os tempos 
que curíavam dentro doEftreito, e haver á 
máo alguma gelva para tomar lingua , e que 
iiiilo fe arrifcava pouco. Porém com.o o Pilo- 
to também defejava lia ver alguma boa preza , 
tanto que entrou dentro no Eítreito , e lhe 
vieram a mao dous marruazes que andavam 
defarmados , tornou-fe para Adem fem ir 
mais adiante , dizendo que curfavam já os 
tempos verdes , e que o não pudera fazer. 
Alguns diziam , que o temor o fez tornar ; 
e por fe ver gloriofo com a preza que fez , 
parecendo-ihe que bailava faber de alguns 
Mouros que tomou , como os Rumes eftavam 
em Gamaram , e que feriam té feiscentos ho- 
mens de peleja , e outra muita gente do mar , 
e huma Armada tão groíTa , que nao era a 
noíla que eílava em Adem para pelejar com 
ella. António de Miranda fe vio envergo- 
nhado com hum recado tão incerto , que nao 
concordava com o que os Mouros lhe ti- 
nham dito , e ficou anojado de confiar fua 
honra do Piloto , e não de peffoas de mais 
qualidade que lhe pediam aquella jornada , 
e eílevc quaíi determinado de entrar pelo Ef- 

trei- 



Década IV. Liv. II. Cap. X. 187 

treiro ; mas falrando-lhe mantimentos , receou 
que á tornada os Levantes o impediíTem • po- 
lo que fe refolveo de quebrar efta fúria cm 
Zeila ; pofto que outros lhe diziam quefoíTe 
cm Xael , onde elle dizia que efpcrava de 
dar quando tornaíTe , por lhe ficar cm ca- 
minho. 

AíTentado de ir á Cidade de Zeila , que 
]ie da parte de Africa na coíla do Abexim , 
paliou com toda a Armada da outra parte , 
e achou a Cidade defpejada de todo ; porque 
os moradores delia como foram avifados da 
Armada groíTa que per alli andava , mettê- 
ram logo fua fazenda pelo fertao , e eftavam 
preíles , como a Armada appareccíTe , aíle- 
gurarcm também fuás peflbas ; polo que nefta 
ida de Zeila nao fe fez m.ais que pór o fogo 
ás fuás cafas palhaças ; e querendo voltar para 
a cofta de Arábia , furgindo no Cabo de 
Guardafú , faltou com a Armada tal tempo- 
ral que os fez acolher a Malcate , íèm dar 
em Xael como defejavam. Aqui cíleve Antó- 
nio de Miranda com fua Armada , por fer 
Jium porto , em que as Armadas que os Por- 
ruguezes trazem no Eftreito de Meca vem 
invernar ; e deixando alli a Armada entregue 
a António da Silva de Menezes , fe foi a 
Ormuz no feu galeão S. Diniz com outros 
dous que levou em fua companhia para arre- 
cadar o dinheiro das náos das prezas que alli 

ti- 



i88 ÁSIA DE João de Barros 

tinha mandado para fe venderem , e de cinco 
paráos de Malavares carregados de pimenta , 
que tomou vindo clles ter a Adem , quando 
ahi cftava , que também mandou vender a 
Ormuz com as outras náos. 

CAPITULO XI. 

Como António de Miranda veio de Ormuzj 

a Dio , e do que aconteceo nejje caminho 

a Lopo de Mef quita , a Diogo de Mef- 

quita , e a Henrique de Macedo , 

e como chegou a Chaul toda a 

Armada, 

T Ornando António de Miranda de Or- 
muz 5 (onde era ido com Ruy Pereira 
fobre o dinheiro das prezas , ) a Mafcate , 
dahi partio a 22 de Agofto daquellc anno 
de i5'28 para Cambaia a efperar as náos que 
hiam a Dio , aonde chegou , e ancorou j e 
por o tempo fer ainda verde , e o feu galeão 
não poder foffrer amarra , mandou levar an- 
cora , e deo íinal á Armada , que aíli o fizel- 
fe , fe diífo tiveíTe neceííidade , o que todos 
fizeram , fenao António da Silva , e Henrique 
de Macedo comfcus galeões, e outras duas 
velas. O Capitão mor com o tempo que lhe 
deo foi parar a Chaul de maneira , que as 
prezas que fe houveram de fazer fobre Dio 
não houveram por eíTa caufa effcito. Corren- 
do 



Década IV. Liv. 11. Cap. XI. 189 

do com o mcfmo temporal Lopo de MeP- 
quita com o leu galeão Camorij , foi dar com 
luima náo de mercadores que hia para Dio , 
c andava com a mefma tormenta. Lopo de 
Meíquita a abalroou , e com alguns dos feus 
entrou nella com aílas trabalho , por a náo 
trazer duzentos homens bem armados , que 
pelejaram mui valentemente ; epoílo que os 
Portuguezes nao eram mais que trinta , da- 
vam-lhe bem que fazer. E andando aíTi os 
noílbs ncfte trabalho , lhes íbbreveio hum ca- 
fo mui perigofo , perque Ib houveram de per- 
der , porque as balroas com que o galeão eC- 
íava abalroado com a náo , quebraram , e íè 
apartaram ambos , ficando Lopo de Mefquita 
com os poucos que o feguiam dentro na náo 
entre aquelle grande número de Mouros ; e 
como fe viram naquelle eftado de defefpera- 
çáo das vidas , querendo vendellas caras 
áquelles inimigos, dobrando-lhes a neceífi- 
dade as forças , os accommettêram com tanto 
Ímpeto 5 e esforço , que mataram quaíi to- 
dos , poílo que com grande força , e reíiften- 
cia fe defenderam , e os outros vendo-fe feri- 
dos , fe renderam. E cuidando Lopo de Mef- 
quita , e os que com elle entraram na náo , 
que por alli íe acabavam feus trabalhos , fo- 
breveio-lhes outro de maior temor ; porque 
a náo dos Turcos quando efteve abalroada , 
dava com a tormenta tão grandes pancadas 

no 



ipo ÁSIA DE João de Babpos 

no galeão , que era mui forte , que ficou quaíí 
de todo aberta , e começou de fe encher de 
agua , e ir-íe ao fundo ; o que vendo Lopo 
de Melquita , ajuntou todo o dinheiro que 
na náo achou , e mandou a feu irmão Diogo 
de Mefquita que fe mctteíTe no batel com 
dezefeis homens , para que nao podendo a 
náo efcapar , falvaífe aquelle dinheiro no ga- 
leão , onde recolhido mandaífe pelos que fi- 
cavam na náo. 

Os do batel perdendo logo de vifta o ga- 
leão com o tempo , entendendo que a náo 
não poderia deixar de fe ir ao fundo , não 
quizeram tornar a cila , receando que os que 
nella ficavam fe quizeíTcm metter no batel , 
que por fer pequeno fe alagaria , e aííí deram 
á vela governando para Chaul , levando for- 
çado a Diogo de Mefquita , que lhes não po- 
de reíiftir ; e navegando foram encontrados 
da Armada de Dio , que os tomou , e cativos 
foram levados a ElPvey de Cambaia "*, que 
com grandes mimos , e promeílas os perfua- 
dio que íè fizeíTem Mouros ; e depois que com 
elles os não moveo de fua fortaleza Chrirra , 
vieram ás ameaças , e aos tormentos , que a 
nenhum delles mudaram. A Diogo de Mef- 
quita mandou ElRey metter dentro em huma 
groíla bombarda cevada , o qual com huma 

conf- 

o Drogo do Couto no cap. 9. ão Uv, 4. e Fernão 
Lo|)es de CallanheUa cap, 6S. do Uv. 7. 



Década IV. Liv. II. Cap. XT. 191 

vonílancia de martyr lhe diíTe , que tomara 
fora o tormento maior , e mais durável pa- 
ra padecer mais , e moílrar nclle o goílo com 
que o paíTava pela honra de Deos , e por 
fua Fé Santa. Admirado Soltam Badur da- 
quelle animo , o mandou tirar da bombar- 
da , e foram todos mettidos em huma afpera 
prizão , donde depois fahíram com muita 
honra. 

Lopo de Mefquita , que ficou na náo , fez 
tanta diligencia , que fe tomaram as aguas 
principaes , que eftorvavam o governo da náo , 
e nella com grande trabalho foi ter a Chaul , 
onde achou já o feu galeão , e António de 
Miranda com fua Armada. Apôs Lopo de 
Mefquita veio Henrique de Macedo em feu 
galeão Çamorij grande mui deftroçado com 
inaílos , e vergas quebradas , e roto o coitado 
per muitas partes ; porque em hum.a calmaria 
que teve de fronte de Dio , o inveftíram al- 
gumas cincoenta fuílas , e três galeotas , que 
o chegaram a tal cftado , que eíteve quafi de 
todo perdido , porque pelejou de pela manha 
té á tarde , e foi tal a peleja , que lhe mata- 
ram a maior parte da gente , e a outra foi 
ferida de maneira , que lhe não ficaram sãos 
mais que féis , ou fete homens ; e por a necef- 
fidade em que efteve de gente , huma mulher 
jervia de dar pólvora aos bombardeiros ; e 
cIIq foi tão queimado do rollo, que não o 

CO- . 



192 ÁSIA DE João de Barros 

conliccinm ^. E alli acabara, fe António da 
Silva 5 Capitão do gaJcao Reys Magos , lhe 
não acudira , que acalb veio ouvindo o eí^ 
trondo da artillicria com a viração , o qual 
o deíapreílbu daquclla aíFronta , c preíTa em 
que cílava , e tão valentemente pelejou com 
as furtas , que matou o Capitão delias , que 
era lium íiíiio de Xeque Gil Capitão das fuf- 
tas de Baçaim , que os noíTos mataram em 
Chaul em tempo de Diogo Lopes de Sequei- 
ra. E com a niorte de íeu Capitão as furtas 
fe puzeram em fugida *. António de Miran- 
da com a chegada deftes dous galeões , que 
lhe faltavam da fua Armada , fe deteve em 
Chaul alguns dias , repairando os navios do 
neceíTario ; e também mandou vender a não 
que tomou Lopo deMefquita, e repartio as 
prezas , de que á parte d'ElRey vieram cin- 
coenta mil pardaos. E acabado ifto , fe par- 
tio para Goa , aonde chegou a 17 de Outu- 
bro , e achou o Governador que invernára 
alli. 



CA- 

a Ejía iataVia ejlã ■plnlaãa nas varamlas ãà Igreja das 
Chagas de Goa , e cada anno fe renova jwr memoria de 
lium feito iuo affinalado, Diogo do Couto cap. g. do liv. 4» 

b O Capitão dejUis fujias diz. Diogo <Jo Couto , que 
era Alixiah , e ijiic o morto foi António da Silva de liU' 
ma homhardada. E o rjiefnu efçreve Fernão Lopes Ue Gaf» 
tanheda no cap, 69. d& iiv, 7. 



Década IV. Livro II. 193 

CAPITULO XIL 

Como o Governador Lopo Va% de Sampaio^ 
partia com buma grojjh Armada para 
Cochij , e pelejou com cento e trinta pa- 
rdos de Malavares , e os desbaratou. 

TAnío que António de Miranda chegou a 
Goa 5 determinou o Governador de ir a 
Cochij a dar carga ás náos que efperava , 
e de caminho vilitar Cananor , que não ef- 
tava muito fiel ; porque do tempo em que 
houve as diíFerenças fobre a governança , fi- 
caram os Mouros daquella coíla do Malavar 
algum tanto levantados , e inquietos por ve- 
rem que os noíTos traziam mais tento nos ne^ 
gocios daquellas differenças , que na guerra 
com elles. Haviam os do rio de Chatuá * 
morto ) e cativado todos os Portuguezes, 
que fe íalváram nclle de huma Armada de 
treze navios de remo , que com tormenta fe 
perderam naquella coita , a qual Armada fez 
AíFonfo Mexia para impedir a fahida de algu- 
mas náos , que o Çamorij mandava a Meca 
carregadas de pimenta. Com efta defgraça, 
e nolTas difcordias andavam os Mouros mui 
loltos por toda aquella coíla ^ e paliavam á 
TomAKP.L N vif- 

a Fernão Lopes de Caftanheda cap. %%. do liv. 7. 
Diogo do Couto Uv, ^,cap. j. Francirso de Andrade £ap>, 
39. (ia 2. ParíCx 



194 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

vifta de Cananor , fazendo-lhes muitas fo 
brancerias 5 femD.Joáo Deja Capitão delia 
oufar de pelejar com elles , por não ter na- 
vios para iílb. Publicavam também , que os 
Rumes eftavam em Gamaram , e que traziam 
huma groíTa Armada , e que a noíla não en- 
trara no Eftreito fabendo eílarem alli os Ru- 
mes , e que o deixaram de fazer com temor 
delles. Tudo iíto obrigou a Lopo Vaz ir em 
peíToa viíitar a ccíla , defpedindo diante Si- 
mão de Mello em hum galeão , e féis fuftas , 
e ellc o feguio com huma Armada de quatro 
velas groíTas , e fere paráos , porque eftes por 
fua ligeireza são os que fazem a guerra , dei- 
xando António de Miranda por Capitão de 
Goa. 

Sendo tanto avante como a Monte Delij , 
aquém de Cananor duas léguas , apparecê- 
ram muitas velas ao longo da coíla , as quaes 
muitos julgavam fer palm.eiras , por ir o ga- 
leão do Governador hum pouco largo da cof- 
ta , e fer já tarde , e o Sol ficar fobre o mar. 
Com efta pouca certeza fe eram velas , ou 
rião 5 Lopo Vaz mandou governar ao porto 
de Cananor , que tomaram já quaíi noite \ 
mas por o Capitão de Cananor lhe dizer, 
que aquelle dia paííáram per alli muitos pa- 
ráos de Malavares , contra a mefma parte on- 
de os noíTos os viram 5 teve por certo ferem 
navios : polo que o Governador , tanto que o 

fou- 



Década IV. Liv. II. Cap. XII. 195' 

foube, mandou efpiar por hum catur onde 
eílavam , e quantos eram , com determinação 
de os ir demandar ; o que foi efcufado , por- 
que elles houveram vifta da noíía Armada ; e 
como fabiam que a maior parte delia fem- 
pre são navios grandes , e não tão ligeiros 
como os feus , vieram demandar a Armada 
para ver fe podiam tomar alguma vela. E 
ainda vendo occaíião que lhe dava o tempo, 
confiados em o número de feus pardos , que 
eram cento e trinta , determinaram de affron- 
tar o Governador. Com efta confiança , e 
porque o tempo lhes deo para iíTo commo- 
didade por fer calmaria , e não fervir ao Go- 
vernador mais que para os pardos que le- 
vava , ao outro dia com grande feguridade 
paíTdram pela Armada do Governador , e 
lançaram-fe por diante entre elle , e a terra. 
O Governador quando vio tamanha oufadia , 
pofto que o número dos feus pardos era tan- 
to menor que o dos Mouros , determinou 
de os accommetter ^ e poz em confelho o 
modo que teria niíTo. A maior parte foi , que 
não pelejaífcm 5 viílo como fe não podiam 
aproveitar dos navios grandes por razão da 
calmaria ; porém elle com alguns que toma- 
ram por affronta o que aquelles Mouros fa- 
ziam , não a quiz diffimular ; e determina- 
do em pelejar com os pardos , e fuftas re- 
partidos pelas peíToas de que confiava, ac- 

N ii com- 



196 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

commetteo o cardume dos cento e trinta que 
eftavam juntos , e os rompeo da maneira 
que os ginetes rompem a gente de pé , tor- 
nando logo a virar fobre elles , e cada vez 
que paíTavam , lhes davam huma lalva de 
pelouros de efpingardaria , e artilheria , e os 
Malavares com fettas os íeguiam.. Nefte mo- 
do de peleja , vendo elles quanto damno lhe 
os noíTos faziam , e que as náos grandes fe 
faziam á véJa para vir íbbre elles , e que dos 
fcus paráos huns eram já mettidos no fun- 
do 5 e tinham gente morta , e muita ferida , 
e que com o Governador fe ajuntaram mais 
três paráos de Cananor de refrefco , come- 
çaram a fe retiran Lopo Vaz os feguio hum 
bom pedaço , indo tomando poucos , e pou- 
cos dos que não podiam ir avante canfados 
da continuação do remo ; e os outros , a 
que o temor dava melhores braços para po- 
derem continuar aquelle trabalho , fe pu- 
zeram em falvo. Durou eíla peleja de pela 
manhã té horas de vefpera , e foi hum dos 
honrados feitos que pelos Portuguezes fe ^- 
zeram. naquellas partes , por o número dos 
paráos fer tão deíigual , dos quaes lhe met- 
têram os noífos no fundo dezoito , e toma- 
ram vinte e dous com cincoenta peças de ar- 
tilheria. Morreram perto de oitocentos Ma- 
lavares , e foram muitos outros cativos. Os 
que efcapáram foram-íe a Calecut , donde 

d- 



DEc.IV.Lrv.II.CAP.XII.EXIII. 197 

elles vieram ; c com os paráos que o Go- 
vernador aqui houve , reformou huma Ar- 
mada de vinte velas , por ter muita falta def- 
tas de remo ; e recolhido aos galeões , foi 
caminho de Cochij , no qual achou alguns 
dos paráos que lhe fugiram , e outros que 
andavam pela cofta , os quaes tomou , e def- 
truio. 

CAPITULO XIIL 

Como o Governador Lopo Vaz de Sampaio 
partio de Cochij com toda a fua Arma- 
da , e deo no lugar de Porcd , e o 
desbaratou , e queimou com mor- 
te de muitos. 

DEfejava Lopo Vaz de dar algum cafti- 
go ao fenhor de Porca , (a que o vul- 
go chama Arei de Porca , ) porque fendo 
confederado com os Portuguezes , e feguin- 
do a fua bandeira em algumas emprezas , íè 
veio a inimizar com elles depois que Dom 
Henrique de Menezes o defpedio de íi com 
a perna quebrada , como na Década tercei- 
ra temos dito ^. E por as caufas que outros 
Mouros fe atreviam a nós , (que eram as re^ 
feridas , ) fe atrevia elíe também ; e como 
era homem poderofo , e tinha muitos navios , 
de cujas prezas vivia, mandava com alguns 



o 

cor- 



a Lív. 9. cap. 5. na tomada ds CouUte* 



198 ÁSIA DE João de Barros 

correr a cofta , e fezer muitos damnos ; e 
por ifto fer coufa , que para íe evitar havia 
miíter muita força , determinou Lopo Vaz 
de ir elle em peíFoa fobre a Cidade de Por- 
ca ; e aííi fendo tanto avante como Cochij , 
não fe quiz deter , e foi cori-endo a cofta , 
na qual Simão de Mello Capitão mor dos 
bargantijs queimou doze pardos que eftavam 
furtos , e fahio em Chatuá , e queimou qua- 
torze 5 e deftruio o lugar ; e mandando o 
Governador queimar quantas embarcações fe 
encontravam , chegou a Cranganor , onde 
eftava a noíía Armada, a qual ordenou que 
o feguiíTe , por já não fer alli neceíTaria , e 
queria dar a todos parte do contentamento 
que haviam de ter os que com. elle fe achaf- 
fem na tomada , e faço da Cidade de Por- 
ca , que cfperava fer grande. Para efta em- 
preza levava mil homens , os mais delles 
efpingardeiros , com os quaes deo no lugar 
huma manhã , não eftando o Arei nelle. Os 
Mouros 5 pofto que eftavam defcuidados da- 
quelle cafo , puzeram-fe em defensão , como 
quem. defendia a vida , mulheres , filhos , e 
fazenda ; -mas como os noíTos levavam boa 
vontade , os mettéram todos á efpada , e 
os derribavam com a efpingardaria de ma- 
neira 5 que os mortos impediam aos vivos 
defcnvolverem-fe também como no princí- 
pio. Finalmente foi tamanho o temor da 

mor- 



Década IV. Liv. II. Cap. XIII. 197 

morre nos que ficavam , que efquecidos dos 
fílJios j e das mulheres , fe puzeram em fu- 
gida. Entrada a Cidade , fe deo a facco , 
em que houve muito ouro , prata , pedraria , 
fedas , e pannos de algodão , e muitos cati- 
vos , e entre elles a mulher do Arei "* , e 
outras peíToas nobres , e muita artilheria , 
aíTi da ília , como da que tinham tomada 
aos Portuguezes , e treze navios de remo 
mui bons. Recolhido efte defpojo , fe poz 
fogo á Cidade , que toda ardeo , e alguns dos 
feus moradores que ficaram nella , e lhe de- 
ceparam as palmeiras , que he o principal 
mantimento daquella gente , com que fe em- 
barcou o Governador , fem morte de algum 
Portuguez , pofto que alguns houve feridos. 
Partido de Porca , chegou a Cochij a 
tempo que também chegavam duas náos , 
de que eram Capitães António de Saldanha , 
e Garcia de Sá^ que partiram aquelle anno 

do 

a Diogo do Couto efcreve no cap. 4. ão Uv. j. que a 

mulher do Arei fe não pode fahir da Cidade , quando lhe 
puderam fo^o , e foi nella queimada , e toda fua família, 
Fernão Lopes de Gaílanheda no cap. 90. do liv. 7. diz, ^ 
que ejia mulher do Arei y (^«ít Francifco de Andrade cha- 
ma Mãi , ) e hiima fua irml ficaram cativas , e foram de-' 
yois rejgatadas per muito dinheiro. E que o delpojo defa 
Cidade foi tão rico y que hum Francifco Mendes de Brap;a 
tomou hum caldeirão de cohre , que levaria Iw.m cântaro 
d''agua y cheio de pardâos de ouro , e muitos foldados hou- 
veram ã fua parte dex. , oito , e cinco mil pardãos ; e fen- 
do o número dos Portugue-j^ys mais de mil y nenhum houve 
que dejle facco lhe couhefjc menos de cem paridos. 



aoo ÁSIA DE João de Barros 

doReyno com Nuno da Cunha, que vinha 
por Governador da índia , de quem fe apar- 
taram, e deram nova como vinha com mui- 
tas velas 5 e grande poder de gente nobre ; 
o que deo grande contentamento a todos 
por a falta em que a índia eftava , e fizeram 
folemnes procifsócs , dando graças a Deos 
por em tal tempo lhe fobrevir tal foccorro. 
E porque Lopo Vaz de Sampaio delejava 
de entregar a índia limpa dos coíTairos , que 
infeftavam aquella cofta do Malavar , deter- 
minou de ir a Cananor com tenção de eí^ 
perar alli té que as náos da carga partiíTem 
para o Reyno "" , e defpachar algumas Ar- 
madas para diíFerentes partes. Polo que man- 
dou a António de Saldanha que ajuntaíTe 
gente em Cochij , e que com ella o foffe 
buícar para fe embarcarem em huma Arma-^ 
da de bargantijs , e huma galé , que Antó- 
nio de Miranda ahi fez em efpaço de dous 
mezes que fervio de Capitão , té que veio 
D. João Deça : e efta Armada fe havia de 
ajuntar á outra que fe fazia em Goa , para 
em hum corpo irem á cofta de Cambaia , 
e na do Malavar deixarem parte para de- 
fensão delia. 

Chegando o Governador a Cananor, 

man- 

a V ar tiram na entrada de Janeiro de 1529. "Eram as 
ãuas de António de Saldanha , e Garcia de Sá , das (juaes 
foram por Capitães Gonçalo de Soufa , e Lopo KaheUo. Frap- 
çifco de Andrade cap. 41. da 2. Farte» 



Década IV. Liv. II. Cap. XIII. 201 

mandou logo a feu fobrinho Simão de Mel- 
Jo com certas velas fobrc Mnrabia , lugar 
do Reyno de Cananor , c diílante de Ca- 
nanor perto de quatro léguas , onde Simão 
de Mello chegou em amanhecendo , e pele- 
jou com os paráos que guardavam o porto , 
dosquacs queimou doze, e os outros fe fal- 
váram á força de remo. E havida efta vitó- 
ria no mar , fahio em terra , que lhe os Mou- 
ros quizeram defender ; mas por fim da con- 
tenda que os noíTos com elles tiveram , os 
desbarataram 5 e lhes deílruíram, e queima- 
ram o lugar, e lhes cortaram muitas palmei- 
ras. E feito ifto em huma manha , fe tornou 
para o Governador , que logo o mandou 
com doze velas ao Monte Delij a queimar 
iiuns paráos , que alli andavam ás prezas. E 
fez outra Armada de dez velas , que deo a 
António da Silva de Menezes, mandando- 
lliQ que foíTe correr a coíla té Cochij , e da 
volta que vieíTe , troca íTe a Armada com Si- 
mão de Mello , e elle foíTe para cima , e 
Simão de Mello para baixo. E em todo ef- 
te tempo, que ambos andavam correndo a 
coíla , não toparam com os paráos , que cof- 
tumavam andar ao falto , porque o temor 
os fazia recolher para dentro dos rios ; mas 
porém lá onde eílavam os hiam bufcar ef- 
tes dous Capitães , faltando algumas vezes 
cm terra ^ onde fizeram muito damno ; e os 

pa- 



202 ÁSIA DE JOAO DE BaRROS 

paráos que Simão de Mello veio bufcar aa 
Monte Delij os queimou com morte de mui- 
tos Mouros. 

CAPITULO XIV, 

Como ElRey de Cambaia moveo guerra ao 
Nizamaluco , e o Governador Lopo Vaz 
de Sampaio pelejou com AUxiah Capi- 
tão das fuftas de Dio , e o desbara- 
tou ^ e das Armadas que fez, 

NEÍle tempo ElRey de Cambaia mo- 
__ veo guerra ao Nizamaluco fenhor de 
Chaul 5 a qual lhe fazia tanto per mar co- 
mo per terra , c não fomente a elle , mas 
a todos os Portuguezes que na fua terra ef- 
tavam. Para efta guerra trazia no m.ar oiten- 
ta furtas muito bem efquipadas de gente de 
guerra , e com muita artilheria , das quaes 
era Capitão mòr Aíixiah , que era hum va- 
lente , e valerofo Mouro "^ , com a qual Ar- 
mada corria toda a cofta. E receando Fran- 
cifco Pereira de Berredo Capitão de Chaul , 
que eftas fuítas o cercaíTem per mar , e El- 
Rey de Cambaia per terra, por ter toma- 
das 

a Aíixiah vinha nefla Armada por Tenente de Melique 
Aíicer Geral delia, filho de Camalmahico y que nefie tem' 
po ejiava por Capitão da Cidifde de Dio , fendo fugido del- 
ia para Jaquete Aleliçue Saca , como fe verá no cap. 6. 
do liv. e. onde João de Barros o efcreve , e ejia guerra 
^ue ElRey de Camhaia fex, ao Ní%ama!ucQ. 



Década IV. Liv. IL Cap. XIV. 203 

das as fortalezas de Caruela , e Sangaçá , 
que eram do Nizamaiuco , por a vizinhan- 
ça que tinham de Chaui , fez de tudo per 
luas cartas rehiçao ao Governador Lopo Vaz 
de Sampaio , pcdindo-lhe que foíTe com al- 
guma Armada , ou a mandaíTe contra aquel- 
la parte , para favorecer aquella fortaleza ; 
e para aquellas fuftas não fe atreverem a an- 
dar tão foltamente fazendo damno , porque 
não entrava , nem fahia de Chaul vela que 
não foíTe tomada. De todas eftas couías avi- 
fou também o Nizamaiuco per hum Embai- 
xador feu ao Governador , pedindo-lhe o 
foccorreíTe com alguns Portuguezes contra 
ElRey de Cambaia. Lopo Vaz defpachou 
logo o Embaixador com cartas para Fran- 
cilco Pereira Capitão de Chaul , ordenando- 
Ihe que apreftaíte a gente para aquelle foc- 
corro , que lhe pedia o Nizamaiuco. E com 
eiies avifos fe apercebeo para ir a Chaul , 
com fundamento de mandar dalli o foccor- 
ro ao Nizamaiuco ; e que não tendo a for- 
taleza neceífidade delle Governador , iria buf- 
car as fuílas onde quer que eíliveífem. E por- 
que elle ordenava que António de Miranda , 
que então eftava por Capitão em Goa , fícaC- 
fe na cofta do Malavar para a guardar , por 
fe haver de apartar tanto de Goa indo a 
Chaul 5 antes que fe partiíTe de Cananor, 
mandou a Goa o Capitão de Cananor , e 

a Si- 



204 ÁSIA deJoao de Barros 

a Simão de Mello a Chaiil com nove bar- 
gantijsmui. bem artilhados, eefquipados do 
neceínirio , os quaes havia de entregar a An- 
tónio de Miranda , quando ahi chegaífc para 
fazer corpo de groíTa Armada. E deixando 
ifto aíli ordenado , foi-fe para Goa a efpe- 
rar António de Saldanha com a gente que 
tinha mandado que fizeííe em Cochij , e eí- 
pedir António de Miranda com a lua Ar- 
mada para a cofta , na qual levava duzentos 
homes todos de gente limpa, efcolhida , e 
exercitada na guerra. E vindo António de 
Saldanha a Goa , onde o Governador cita- 
va , acabou de fe apreílar , e partio para 
Chaul em Janeiro de 1529 com huma Ar- 
mada de quarenta velas "" , e com elle hia to- 
da 

rt Era ejla Armada ãe cinco galeões , e duas gaUs , de 
^ne foram -por Capitães António de Saldanha , Garcia de 
Sd , António de Lemos , Lopo de Mefi/uita , Eiíor da Si/- 
veira , Simão de Mello , e Henrique de Macedo ; e de 
quarenta e quatro r.avlos de remo , de que lilnm por Capi- 
tães Diogo Coelho , Gafpar Paez , Francifco Alvares , Joã(} 
Rodrigues o Chatim , Pedralvares de Me/quita , António 
Corrêa y Lourenço Botelho, Chriffovão Lourenço Carracão ^ 
o Calafate de Chaul y Diogo Quarefma de alcunha o Ma- 
h'i y Pero Barriçra , António Colaço , Chriflovão Corrêa , Jor- 
ge Dias y António Fernandes , e outros. Nas fujlas, e ca-; 
ttires y qne pelejaram com os inimigos , íjue foram vinte e 
féis y fe emharcáram quatrocentos homens e (colhi dos , em que 
havia muitos Fidalgos , entre os quaes foram D. Francif- 
co de Cajiro , D. Eitor de Mello , Paio Rodrigues da 
Araújo , Manuel Rodrigues Coutinho , Chrijlovão de Mel- 
lo de Sampaio fohrinho do Governador , António Corrêa , 
Francifco de Barros de Faiva , Luix, de Paiva , Duarte Di* 



Década IV. Liv. II. Cap. XIV. 205- 

da a gente nobre que cntao andava na ín- 
dia , que leriam mais de mil homens Por- 
tiigiiezes 5 a fora a gente da terra, aíTi de 
peleja , como a do mar. E para boa ordem 
deíla fua viagem , fez a Eitor da Silveira 
Capitão dos navios de remo , a que mandou 
que todos íèguiíTem , e obedeceílem naquel- 
la jornada , o qual conforme ao regimento 
que levava, havia de ir ao longo da corta, 
porque lhe nao fícaíTe coufa que não viííe, 
onde as furtas fe pudefíem efconder ; porque 
tinha por nova certa que chegaram té Da- 
bul , que he abaixo de Chaul trinta léguas 
contra Goa , e não fabiam fe pafíariam mais 
para baixo. Mas elias como traziam fua vi- 
gia , e fouberam da vinda do Governador , 
começaram de fe ir recolhendo para os Ilheos 
queimados duas léguas de Chaul. 

Lopo Vaz chegou a Chaul , onde fe in- 
formou do Capitão da fortaleza do ertado 
da terra , e do que ElRey de Cambaia fa- 
zia per dentro do fertão. E fendo logo vi- 

íita- 

riz , Joíío de Mello , Garcia ãe Mello feti irmão , Fernão 
de Faria , António da Barbtiha , João da Silveira , Diogo 
iftí Silveira , Nuno Pereira , D. Ajjonfo de Meneses , Dom 
Pedro feu irmão , Henrique de Vafconcellos , Manuel de 
Macedo , Gairiel de Brito , Fernão Rodrigues Barita , Gar- 
cia de Brito , Pêro de Mefçuita , Go7nes de Azevedo , Aw 
ílré Cajco , Luiz Coutinho /Duarte Coelho ^ Manuel de Car- 
valhal , Lançarote de Al f o em , e outros , cujos nomes fç 
não faiem. Francifco de Andrade cap. 42. da 2. Part, fi 
Diogo do Couto cap» 5. dç liv, 4. 



io6 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

íitado da parte do Nizamaluco com muitos 
agradecimentos da fua vinda , e com hum 
grande prelente de vaccas , carneiros , arroz , 
e outros muitos refrefcos , mandou logo 
aperceber oitenta Portuguezes para enviar de 
foccorro ao Nizamaluco , e por Capitão del- 
les hum valente cavalleiro chamado Joáo de 
Avelar , a que encommendou o credito , e 
honra dos Portuguezes ; e com promeíTas 
de lhes fazer a todos muitas mercês, os en- 
tregou ao Embaixador do Nizamaluco , que 
fepartio comelies, fazendo-lhes pelo cami- 
nho o gafto com muita largueza. E proven- 
do-fe o Governador de ballimentos , fe de- 
teve alli em Chaul alguns áhs ; nos quaes 
fendo o tempo tal , que a ninguém dava lu- 
gar para poder fahir do rio , vieram treze 
fiiftas dar huma m.oílra , como que não te- 
miam aquella Armada , a qual de longe ef- 
bombardeáram. E pofto que o vento era 
contrario , quizera Eitor da Silveira fahir a 
ellas , por não irem fem caíligo por aquel- 
la fobrançaria ; mas Lopo Vaz o não con- 
fentio 5 dizendo que as deixaííem cevar , pa- 
ra as colher em m.elhor tempo. E porque 
fua tenção era deílruir eftas furtas , e as ir 
bufcar a Dio , e também dar huma Tifta á 
Cidade , teve fobre iíTo confelho , e nelle 
propoz 5 que bem fabiam que ElRey de 
Cambaia andava em guerra com o Nizama- 



Década IV. Liv. II. Cap. XIV. 207 

iiico , e com o Hidalcao , e com outros Prín- 
cipes 5 com que tinha aíTás em que entender ^ 
e que Dio ao prcíente nao tinha maior aju- 
da , e foccorro que aquella Armada que per 
alli andava , que lhe parecia ièría bom tra- 
balhar por desbaratar eílas velas , e que com 
a vitoria delias , que efperava em Deos lhe 
daria , poderia logo ir á Cidade de Dio , que 
porventura eílaria em^ tal eílado , que a po- 
deria tomar , e fegurar , por eftar o foccor- 
ro d'ElRey de Cambaia occupado nas guer- 
ras que tinha ; e que para fe poder confe- 
guir eílas duas coufas fe deviam de orde- 
nar os meios neceílarios naquelle confelho , 
porque as coufas providas com prudência , 
elle as regulava a bom fím , poílo que as 
mais vezes as da guerra não fe conform.a- 
vam com a tenção de quem as propunha em 
feu favor. Os mais , que no confelho cílavam, 
foram de opinião que o Governador fe não 
havia de fahir de Chaul , pois fua vinda al- 
li fora a chamado do Capitão , por razão 
da guerra que aquellas fuiías faziam , e por 
cerco que efperava m per terra , e que ifto 
lè aífegurava com fua preíènça. Todavia fe- 
guindo o Governador o parecer dos outros , 
principalmente deEitor da Silveira, quede- 
fejava ganhar honra com as velas que tra- 
zia a feu cargo , por ferem aquellas de que 
nefte feito das fuftas íb mais haviam de fer- 

vir. 



lo8 . A S I A DE J o A o DE B A K R O S 

vir , veio por derradeiro aíTentar no modo 
que teria nefta empreza , e determinou que 
elle le faria á vela com os navios groílbs 
ao mar largo , e que Eitor da Silveira foíTe 
ao longo da terra com os de remo. 

Aflentado alli iílo , partio o Governador 
de Chaul dia de Entrudo , e a outro dia 
amanheceo íbbre Bombaim , e houve vifta 
das fuftas do inimigo , queefíavam junto de 
huma ponta , detrás da qual fe puzeram , tan- 
to que deícubríram Eitor da Silveira. O 
Governador vendo que ellas tomavam aquel- 
le pofto 5 parecendo-lhe que o faziam , por- 
que fuccedendo-lhe mal , lhes íicava por re^ 
médio acoiherem-le pelo rio de Bandorá aci^ 
ma , que eltá diante meia légua, m.andou 
certos catiires que foflem cozer-íe com ter- 
ra , e que tomaííem a boca daquelle rio pa- 
ra lhe tomar a entrada defta retirada. O que 
foi grande ardil para os melhor acolher^ 
porque tanto que Eitor da Silveira fe foi 
chegando ás fuílas, o Capitão delias vendo 
liia determinação , fe fez á vela, e remo, 
recolhendO'fe contra a boca do rio , nao ou- 
fando experimentar a fortuna em mar largo ; 
mas Eitor da Silveira o começou a perfeguir 
-de maneira , que chegando elle ao rio de 
Bandorá , onde já achou o impedimento dos 
noíTos navios , que lhe tinham tomada a en- 
trada, antes que fe pudeíTe falvar pelo rio 

de 



Década IV. Liv. II. Cap. XIV. 209 

de Maim , onde fe os Mouros quizeram aco- 
Jiíer , foram cercados de muitos catúres , e 
a poder de fogo , c ferro foi deftruida a pri- 
meira , e principal fuíla , e apôs eíia come- 
çaram os noíTos entrar pelas outras, em que 
houve iium agradável cfpeLT:aculo para ver 
de fora j porque per Imma parte tudo eram 
fulijs de fogo 5 aíli da artilheria, como da 
eípingardaria , per outra as nuvens de fettas ; 
e nas fuftas , que já eram abalroadas , anda- 
va o ar cuberto de ferros das efpadas , ter- 
çados , finalmente tudo eram finaes de mor- 
te. A vifla deíla obra chegou o Governador 
de hirgo , e fe deixou eílar com o corpo da 
Arm^ada , animando com a prefença os fcus , 
como quem eílava vendo huma formofa mon- 
taria. A mortandade dos Mouros foi mui 
grande , aííi dos que pereceram no mar, 
que andava tinto em fangue , como dos que 
varavam em terra por falvar as vidas, on- 
de os noíTos catiires por ferem pequenos lhes 
hiam impedir a falvaçao. De todas as fuftas , 
que eram oitenta , efcapáram CclQ , em hu- 
ma das quaes fe acolheo Alixiah ^ Das reC- 
Tom, IK P.L O tan- 

o o Geral MeUçtie AUcer como vi o as nojjas fujlas ett" 
voltas com as fiias , Je mctteo em huma efquipada , e fs 
tornou á l/oca do rio , ãot7de fem pelejar fugio. Seu pai 
Camalmoluco , quando em Dio ofouhe , fei grandes demonf' 
t rações de feníiinenío pela deshonra do filho y e ofex. buscar 
com muita diligencia para o entregar a Soltam Badur , çue 
o cafiigaj/e como merecia fua covardia. ElRey fe houve por 
Jaíisjeiío dtjia dcmonjha<^ão de Camalmaluco , $ a elle por 



210 ÁSIA deJoao de Baríios 

tantcs 5 as trinta e três vieram a poder dos 
Portuguezes , e as outras ficaram táo deílro- 
çadas , que não fcrvíram mais que para o 
fogo, que os noflbs lhe puzcram. Odeípo- 
jo dcfta vitoria foi grande número de cati- 
vos 5 e muita artilheria , de que alguma fo- 
ra noíTa 5 que os Mouros tinham tomada cm 
alguns navios. Achou-le grande quantidade 
de pólvora , pelouros , e artifícios de fogo. 
Efta foi huma glorioía vitoria , porque os 
inimigos eram muitos , e gente mui efcolhi- 
da , e as velas muitas , e mui providas de 
artilheria , e munições , de que choviam pe- 
louros , e fcrtas ; e fendo grande o núm.ero 
dos Mouros , que neíla batalha morreram , 
dos noíTos nenhum morreo , alguns porém 
foram feridos , que logo guarecêram. 

João de Avelar , que hia com o Embai- 
xador do Nizamaluco * , fe foi informando 
pelo caminho do íitio da fortaleza , que El- 
Rey de Cambaya tinha tomada, e da guar- 
nição que nclla cflava. Chegando perto dei- 
la 5 deixando fcus companheiros em lugar 
feguro com a gente do Nizamaluco , fe dif- 
farçou em trajo de trabalhador , e guiado 
per hum homem da terra , foi reconhecer a 

for- 

fem culpa no erro do filho , e ãeo a copitanía de Dio a 
Melique Tocào , [Inncío de Meligtie Saca , cjue ejlava em 
Joguete y ) por lhe pedir Cavmlmaluco que o tirajje delia, 
Francifco de Andrade cap.4^. e ^'i- da í. Parte. 
a Francifco de Andrade cap. 41 . da 2» Farte* 



Década IV. Liv. II. Cap. XIV. iir 

fortaleza. Eftava ella afientada em hum ou- 
teiro alto , e tao Íngreme , que fó com pe- 
dras que deixaíTem cahir do muro fe pode- 
ria defender de hum exercito. João de Ave- 
lar reconhecido o fitio , voltou aos Portu- 
guezes , e com elles , e com mil homens do 
Nizamaluco foi demandar a fortaleza ante 
manhã com tanto filencio , que não foram 
fentidos dos inimigos íè não mui perto dei- 
la. Levavam os Mouros efcadas , e aos eC- 
pingardeiros Portuguezes mandou João de 
Avelar que tolheíTem chegar os inimigos ao 
muro a lançar pedras que nelle tinham poí^ 
tas; ecomefta ordem accommettêram a for- 
taleza , e a eícaláram , não oufando os ini- 
migos apparecer no muro , porque os noC» 
fos efpingardeiros mataram os que fe nelle 
dcfcubríram. O Capitão João de Avelar foi 
o primeiro que fubio per huma efcada 5 e 
apôs elle outros Portuguezes per outras ; e 
poílo que os inimigos fe defenderam dentro 
com muito esforço , foram todos mortos , 
e dos noíTos três fomente , e feridos muitos. 
Tomada a fortaleza , João de Avelar a en- 
tregou ao Capitão do Nizamaluco , o qual 
eílava dahi huma jornada ; e fabendo defte 
bom fucceíTo , mandou chamar João de Ave- 
lar , a que fez muita honra 5 e deo huma 
cabaia , e mil pardáos , e outros dous mil 
para repartir pelos Portuguezes , com que os 

O ii def-^. 



2IZ ÁSIA DE JoÂO DE BA.RROS 

dcfpedio , c os feridos rnandou levar em an- 
dores té Chaul para ferem curados á fua 
cufta. 

CAPITULO XVf 

Como havida a vitoria das fujlas , quize- 
ra o Governador ir a Dio , e lhe foi con- 
trariado : e de algumas Armadas que 
mandou a diverfas partes. 

H Ávida a vitoria das fuftas de Dio , o 
Governador fe recolheo com a Arma- 
da das náos groílas á enfeada de Bombaim , 
onde foi terEiror da Silveira cheio de glo- 
ria , e triunfo. Lopo Vaz o recebeo com 
muita feíla , e com palavras de muitos lou- 
vores engrandeceo o que fizera , de que con- 
feílava que lhe tinha muita inveja , e armou 
cavalleiros a muitos Fidalgos , e a outros 
que o quizeram fer , por fe acharem em fei- 
to tao lionrofo. E antes que dalli fe partii- 
fe , quiz o Governador ter confelho com to- 
dos aquelles Capitães fobre o que já em Chaul 
movera acerca da fua ida a Dio , perfuadin- 
do , e focilitando entáo o negocio mais que 
antes que desbarataíTem as fuftas , porque a 
força daquella Cidade toda confiftia naquel- 
la Armada , cuja perda não fomente enfra- 
quecia a Dio , mas ainda , por fer damno 
tão commum , havia de metter a todos em 

con- 



Década IV. Liv. II. Cap. XV. 2x3 

confusão , e definaio , e que nada fc aven- 
turava em dar liuma vifta á Cidade para fa- 
zer o mais que a difpoíiçao delia déíTe ; o 
que alli foi ao Governador mais contraria- 
do que em Chaul. Diziam huns que nao con- 
vinha á authoridade de hum Governador da 
índia emprender coufa que não acabaífe , 
porque Dio era tal , que requeria mais for- 
ça , e mais gente da que eile tinha j que o 
deixaíTe para outro tempo , em que com po- 
der igual á empreza a pudeíTe accommctter. 
António de Saldanha , e Garcia -de Sá "" , 
(que então haviam, vindo do Reyno com 
Nuno da Cunha , a que na chegada á índia 
fe anticipáram com o tempo que os apartou 
delle) o contrariavam com mais força , e 
liberdade ; dizendo Garcia de Sá ao Gover- 
nador 5 que não roubaíTe a honra a Nuno 
da Cunha , ao qual ElRey não mandava á 
índia a outra coufa fenao a tomar Dio . po- 
lo que o deixaíTe a quem eftava commetti- 
do. Vendo o Governador que nao tinha por 
fcu voto mais que a Eitor da Silveira , e 
que feu governo fe hia já acabando com a 
vinda de Nuno da Cunha, que cada dia ef- 
perava , nao oufou de ir contra os requeri- 
mentos que lhe faziam. Mas fegundo de- 
pois 

a Fernão Lopes de Gaílaiiheda cap. 95. do liv. 7. Diogo 
do Couto cnp. j. do Uv. 5. Franclfco de Andrade t^í?/!. 44, 
da 2. Parte, 



214 ÁSIA DE João de Barros 

pois fe vio pelo fucceíTo , o parecer de Lo- 
po Vaz de Sampaio era o melhor , porque 
íe entendeo que fe a Dio fora , fe lhe en- 
tregara , e fe efcufára o langue , e a defpe- 
za que depois cuílou. O Governador pedio 
hum inftrumento do que em Chaul , e alli 
propuzera para fe defculpar ante ElRey de 
le não tomar Dio , e mandou ao Secretario 
que guardaíTe huma carta que o Nizamalu- 
co lhe efcrevêra a Chaul , e delia lhe déíTe 
hum traslado para o mefmo effeito , na qual 
lhe dizia , que avifado ElRey de Cambaya , 
que qUq hia com Armada para Dio , levan- 
tara os cercos que tinha portos ás fuás for- 
talezas para foccorrer a Dio ; e que Camal- 
maluco fabendo o desbarato da fua Arma- 
da 5 fe fora da Cidade ; polo que lhe pare- 
cia que devia tornar a Dio ^ pois eílava em 
tempo de o poder tomar facilmente , para 
o que elle lhe daria todos os mantimentos , 
€ efquipaçoes neceíTarias pagas á fua cuíla, 
com que lhe déífeBaçaim quando o tomaf- 
íe, porque eílava dentro nas fuás terras. 

E porque no mefmo confelho fe aíFen- 
tou , que para alimpar aquella cofta dos fal-^ 
tos que os Mouros nella faziam , baftava 
que ficaífe alliEitor da Silveira com alguns 
navios de remo , o Governador o deixou 
com vinte bargantijs , e duas galeotas , e tre- 
zentos homens , com regimento que guerreaf- 

fe 



Década IV. Liv. II. Cap. XV. 215' 

ie aquella cofta da enfeada de Cambaya per 
todo aquelle verão , e que no inverno fe 
recolhelTe a Chaul. E o Governador fe par- 
tio para Goa a 20 de Março "" ; e como lá 
foi , defpachoLi a D. Fernando Deça feu cu- 
nhado para Ormuz , com três galeões car- 
regados de mercadorias d'ElRey5 em hum 
dos quaes hia D. Fernando por Capitão mor , 
e dos outros foram Capitães Lopo de Mef- 
quita , e António de Lemos , e lhes mandou 
que da vinda foííem fazer prezas aponta de 
Dio. Defpachou também a Garcia de Sá , 
que do Reyno vinha provido por Capitão 
de Malaca para fucceder a Pêro de Faria, 
a quem o Governador mandou encarregar 
a liberdade de Martim. AíFonfo de Mello 
Jufarte , que eftava cativo em Bengala , pa- 
ra que á vinda o refgataííe. Garcia de Sá 

par- 

a Em Goa teve Lopo Vax. de Sampaio recado de Me- 
li que Saca , i^íjue e flava em Jaqiiete , ) (jue fojje fohrc DJo , 
e elle iria per mar ajuntar-Je com o Governador , e per 
terra lhe levariam fcus cunhados i/tiitije mil de cavollo , e 
cincocnta mil de pé : c que de Lopo Va^^ não queria mais , 
fcnjo que tomando a Cidade , fir.ejje a elle Mellque Capiitio 
delia , como já fora , e fHndo[Je nella fortaleza , cem que 
o defende(Je d^ElRey de Camhaya , e daria ao Governador 
as rendas do mar , e elle iicaria cem os da terra. Para 
con/irmar , e ajjinar o que fe de/les apontamentos refolvcjje , 
iraria o menfa^eiro largos poderes. O Governador refjhvi- 
deo a Mclique Saca com efpe ranças de fazer o que lhe pC" 
dia , e oferecia ; mas que porfer então inverno fe não po~ 
dia concluir aquelle negocio y nc qual fe tomaria refo^.ução 
no verão fcgtiinte. Franclfco d« Andrade cap. 44. da Z, 
Parte, 



2l6 ÁSIA DE JOAO DE BaRROS 

partio em huma náo grande , c levava mais 
hum junco , que íe perdco ao faliir da bar- 
ra , e com a náo chegou a falvamento a Ma- 
laca , e lhe foi entregue a fortaleza per Pê- 
ro de Faria 5 que fe veio para a índia em 
Novembro feguinte. Outra Armada de féis 
bargantijs , e huma galé fez o Governador, 
em que hiam cem homens , de que era Ca- 
pitão Chriílovao de Mello feu fobrinho , com 
o qual foram muitos Fidalgos , c peílbas no- 
bres , para fc ir ajuntar com António de Mi- 
randa, que andava na coíla do Malavar, a 
quem mandava Lopo Vaz que feu fobrinho 
obedeceíTe , e andaíTe debaixo da fua ban- 
deira. António de Miranda tinha desbarata- 
do huns doze paráos ; e como chegou a cl- 
le Chriílovao de Mello , tomaram ambos 
huma náo d'ElRey de Calecut carregada de 
pimenta , que eílava no rio de Chalé para 
ir a Meca, cuja preza deo muito trabalho, 
por eftarem nella perto de oitocentos Alou- 
ros 5 com muitas armas , e artilheria. Depois 
toparam ao Monte formofo com huma Ar- 
mada d'ElRe7 de Calecut de cincoenta ve- 
las 5 a qual desbarataram , tomando-lhe tre- 
ze paráos com fua artilheria , e lhe cativa- 
ram muita gente , além da que foi morta ; 
e tornando a correr a corta , tomaram ou- 
tros paráos da mefma Armada , que haviam 
efcapado da primeira. Com que tendo a cof- 
ia 



Dec. IV. Liv.ir. Cap. XV. E XVI. 217 

ta limpa, íe recolheram a invernar Clirido- 
v:1o de Mello em Goa , e António de Mi- 
randa por mandado do Governador cm Co- 
diij. 

CAPITULO XVI. 

Como Eitor da Silveira ajjolou muitos lu^ 
gares na cojla de Camhaya , e pelejou com 
o Capitão Alixiah , e lhe tomou a for- 
taleza em que ejlava : e da dejirui- 
cão que fez em Bacaim, 

EItor da Silveira com a Armada que lhe 
o Governador deixou começou a correr 
a coíla de Cambaya na parte de Bacaim te che- 
gar ao rio Nagotana , que he de Bacaim oito 
léguas contra Goa. Por efte rio acima , pou- 
co mais de duas léguas , eílá huma fortale- 
za , que tem o nome do mefmo rio , na qual 
ElPvey de Cambaya tinha gente de guarni- 
ção , que faziam guerra a ElRey de Chaul. 
Defejando Eitor da Silveira de entrar no rio , 
mandou primeiro ao Piloto mor da frota que 
foíTe diante em hum catúr , e fondafe o rio ; 
o qual torníindo , Iho; diííe , que elle não po- 
deria chegar com os navios á fortaleza , por- 
que era tao baixo , que efcaíTamente poderia 
nadar hum catúr com gente. Vendo Eitor da 
Silveira que não podia fazer o que defejava , 
no próprio lugar onde eftava , que era junto 

de 



2i8 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

de huma povoação , faliio em terra com a 
fiia gente , e foi-fe a ella , e poz-lhe o fogo , 
e não fomente a eíle lugar , mas a outros cin- 
co , fem achar nelles gente alguma j porque 
os Mouros com temor , antes que dle clie- 
gaíTe , os defpejáram , como quem trazia os 
olhos em quantas voltas Eitor da Silveira da- 
va , de maneira , que tiveram tempo de Ic 
pôremfalvo: tao aflbmbrados andavam do 
desbarato das fuftas ; porém íempre acharam 
gente que cativar , ainda que não quizeílcm 
pelejar , nem defender-fe. A fora cfte damno 
■de lhe abrazarem fuás caííís , lhe faziam ou- 
tro maior , que lhe queimaram fuás novida- 
des de que fe fuílentavam , para que a nova 
deftas perdas incita íTe ao Capitão deNagota- 
na a vir pelejar com elles , e aíli o fez ; por- 
que vendo eftas tão contínuas injurias , e da- 
mnos 5 que com lagrimas lhe hiam contar os 
Mouros que efcapavam , determinou de pe- 
lejar com Eitor da Silveira , e tomar vingan- 
ça delle , e aíli o veio bufcar com muitos ho- 
mens de pé , e quinhentos de cavallo acuber- 
tados , e achou a Eitor da Silveira na derra- 
deira povoação que queimara. Eitor da Sil- 
veira vendo o grande número de gente que 
eíle Capitão trazia , que para cada hum dos 
iioílbs havia vinte , veio-fe recolhendo pela 
ribeira abaixo o melhor que pode ás fuíías ; 
porém quando veio ao em.barcar, os Mou- 
ros 






Década IV. Liv. II. Cap. XVL 219 

TOS de cavallo os quizeram impedir efcara- 
inuçando com elles para os entreter té que 
vieítc a gente de pé , com a qual ie poderiam 
melhor aproveitar dos noííos. Eitor da Sil- 
veira, que ficou na retaguarda , lhes fez voC- 
to com agente que eítava por embarcar, e 
lhe derribou três de cavallo ás efpingardadas. 
Nefte tempo hum íbldado digno de fama , 
que ie chamava Francilco Godinho "" , vendo 
que os Mouros apupavam, e alToberbavam 
aos que fe embarcavam , com hum.a lança , 
e huma rodela fe affaftou dos outros , e liuin 
Mouro de cavallo vendo-o fó , remetteo a 
elle para o ferir com hum zarguncho j o fol- 
dado o efperou , e chegando a elle , que al- 
çou o braço para o ferir , metteo-lhe a lança 
per baixo delle , e deo com o Mouro morto 
no chão ; e ainda não era cahido , quando o 
Toldado lhe tomou o zarguncho , e pondo-íc 
a cavallo no do Mouro , levou outro Mouro 
de encontro , que hia para o ferir , e paíTou-o 
pelos peitos com quanto o íaudel era forrado 
de malha ; e tomando o foldado o cavallo 
do fegundo Mouro pela rédea , fe foi com 
muito focego para Eitor da Silveira , pcdin- 
vio-lhe o armaífe cavalleiro quando foíTe tem- 
po. Com efte valerofo feito de Francifco Go- 

di- 

a Fernão Lopes de Caílanheda cap. <)6. do //i;. 7.DÍ0- 
^o do Couto liv. ^.cap. 6. Francifco de Andiade cap. 45. 



220 ÁSIA DE João de Barros 

dinho , merecedor de hum notável premio , 
voltou Eitor da Silveira aos inimigos , e com 
liuma grande lurriada de efpingardaria os tez 
aííalkr , e os noíTos íc acabaram de embarcar 
mui a feu falvo. 

Embarcado Eitor da Silveira , fe veio á 
boca do rio , e dahi foi correndo a cofta té 
o rio de Baçaim , aíii chamado por razáo da 
fortaleza que eílá fituada ao longo delle duas 
léguas da lua boca , e oito de Nagotana. E 
huma légua da barra em huma povoação pe- 
quena , entre ella , e o rio , onde íe fazia 
hum tefo de arca , tinham os Mouros fabri- 
cado hum.a tranqueira de madeira entulhada , 
em. que havia muita artilheria groíFa , e miú- 
da , e era o defembarcadouro , de maneira , 
que os que houveííem de dcíembarcar naquel- 
le poílo 5 haviam de pôr as barrigas nas bocas 
das bombardas. A fora efta defensão da en- 
trada do lugar , detrás delle eítava Alixiah , 
(o Capitão das fuftas , que foi desbaratado 
pelo Governador ^) com três mJl homens de 
pé , e quinhentos de cavallo. Chegando Ei- 
tor da Silveira a boca defte rio , tornaram a 
elle certos bargantijs , que mandou diante a 
defcubrir o lugar , e cftado delle , e diíTeram- 
-1 lie que acharam dentro doze naòs grandes , 
delias em terra poílas cm cílalciro , e delias 
no mar, e três ta forcas que carregavam ma- 
deira, eaíli lhe deram conta do baluarte , e 

fitio 



Década IV. Liv. II. Cap. XVL 221 

lírio da terra. E porque íegundo o que lhe 
a elle parecia , o calo requeria coiifelho , te- 
ve-o com os Capitães dos catiíres no modo 
que teriam de accommetter. Seu parecer era , 
que queimaíTem as nãos , poílo que todas ef- 
tiveíTem acima do baluarte ; e porque con- 
viniia paíTar por elle , ordenou que toda a 
artilheria foílè abatida ; porque fegundo os 
navios eram raios , e a artilheria dos inimi- 
gos eílava aíTeftada alta , por caufa do íitio 
ler eminente fobre a praia , lhe parecia que 
em a paliada delles pouco damno faria , lè- 
nao houveíle mais detença que paílar com o 
remo telb. E por os Mouros fe delcuidarem 
da paíTagem que dlc havia de fazer , tomou 
certos Canarijs dos que hi andavam fervindo , 
e entregou duzentos a hum Capitão delles , 
chamado Malú , e m.andou-lhe que commet- 
teíTem iahir em terra a huma ilharga do ba- 
luarte ; para que os Mouros acudiííem ahi , 
e fe defcuidaíTem do que elle havia de fazer 
cm. outra parte ; e em ordenar iflo gaitou qua- 
fi todo o dia. Quando veio a noite , poz-fe 
em caminho pelo rio acima , e a outro dia ás 
nove horas chegou á tranqueira , que difpa- 
rando toda fua artilheria , no tempo da fu- 
ma (Ta delia paíTou Eitor da Silveira comfeus 
bargantijs com menos perigo do que efpera- 
va ; e não fomente fahio em terra , e entrou 
a tranqueira , onde eílava a artilheria á força 

da 



223. ÁSIA DE João de Barros 

da efpada , matando aquelles que lha defen- 
diam , mas começou de entrar no lugar. 

Alixiah como vio que os noíTos em tão 
breve tempo eram dentro nelle , fahio com 
toda fua gente ao íbccorrer. E poílo que Ei- 
tor da Silveira não lábia que eíle Capitão alli 
eílava , e o impero da força de tanta gente , 
liibito , e não eíperado foíTe coufa mui te- 
merofa , não perdeo o tento do que lhe con- 
vinha fazer ; porque cerrando-fe todo em hum 
cfquadrão , por o não entrarem , delle come- 
çou a efpingardaria a ferir os cavallos , que 
como não eram coílumados ao tom dos tiros , 
níli de eípanto delles , como dos pelouros que 
levavam no corpo , fugiam com feus fenho- 
res 5 e com fúria davam na fua própria gente 
de pé , e a atropelavam ; e íiproveitando-fe 
os noíTos da occafião , arremettêram aos Mou- 
ros , e ferindo , e matando nelles , como cm 
gente vencida , os puzeram em fugida. Mas 
Eitor da Silveira não quiz que feguiíTem o 
alcance por a terra fer cuberta de palmares , 
em que os noíTos corriam rifco de ferema des- 
baratados. E por reprimir o impetp da vi- 
toria 3 e os recolher , mandou pôr fogo ao 
lugar, para que rodos acudiíTem ao roubo 
delle. Porém o fogo levou a maior parte do 
defpojo de Baçaim , porque como foi poílo 
primeiro em humas cafas grandes , que fer- 
viam de Armazém, e nellas havia pólvora, 

e fa- 



Deca.da IV. Liv. II. Cap. XVI. 225 

e ílilitrc , e coufas cm que o fogo lavra de 
improvilb , aíli ardeo todo o lugar, que em 
breve foi queimado , e nao deo cípaço a mais 
íaco. Como Eiror da Silveira deílruio Ba- 
çaim , foi-fe peio rio acima onde eftavam as 
ndos 5 e por ferem de mercadores de Ormuz , 
que eram vaflallos d'EJRey , e os termos co- 
mo naturaes , náo lhes foi feito damno ; mas 
trouxe as ndos , e as taforeas abaixo ao por- 
to , e tomou as três taforeas que carregavam 
de madeira , e mandou a Chriílovao Corrêa 
em hum catúr a queimar outras três náos , que 
eílavam em iium rio perto das Ilhas das Vac- 
cas , que carregavam de mantimentos , e ma- 
deira para levar a Dio , e fazerem navios , por 
aquella Comarca de Baçaim fer a mais fértil 
de mantimentos , e de arvoredo de todo o 
Rcyno de Cambaya. 

Sabendo o Xeque da Cidade de Taná , 
que eftá pelo rio de Baçaim acima quatro lé- 
guas, oqueEitor da Silveira fizera ^ eoque 
os Portuguezes lhe podiam fazer , por fer 
aquella Cidade povoada de gente , que vive 
por trato de pannos de íèda , que fe alli te- 
cem , de que ha muitos mil teares , temendo 
que fubindo Eitor da Silveira á fua Cidade 
licaria deftruida , mandou-lhe Embaixado- 
res , dizendo, que queria fer vaíTalIo , e tri- 
butário d'ElRey de Portugal , eque lhe que- 
ria dar de tributo cada anno quatro mil par- 

dáos 



224 ÁSIA DE João de Barros 

dáos por os deixarem cm paz , c feguridadc ; 
e porque ao prclènte a terra- por efteriiida- 
dcs paíladas , e guerra que os Portuguezes fa- 
ziam pelo mar , eílava Taná mui pobre , por- 
que não corriam as mercadorias como de an- 
tes , que daria aquelle primeiro anno três mil 
pardáos , e logo mandava dous mil cm come- 
ço de paga , e reféns , em quanto náo aíTen- 
tavam as pazes , e nao pagavam o reílo. Ei- 
tor da Silveira 5 porque não tinha gente para 
commctter tamanha coufa , como era aquella 
Cidade , aíii em íitio , como em grandeza , 
acceitou fcm réplica o que lhe oficreciam , e 
com iíTo deípedio os Embaixadores , dizen- 
do-lhcs , que elle hia para Chaul por ter reca- 
do do Governador que o chamava , que la 
podiam aíTcntar com elle feus contratos. Idos 
os Embaixadores , antes de elle partir , man- 
dou diante as taforeas de madeira , e dcfpa- 
chou as náos de Ormuz , mandando-lhes que 
foiTcm tomar carga a Chaul ; e rogou-lhes 
que cada humalevaíTehuma jangada per po- 
pa daquella madeira , que eílava cortada para 
carregar para fora , e elle levou a mais ma- 
deira por ferneceílaria para fazer navios. E 
em três dias que alli eíleve ficou o lugar de 
Baçaim tão deítruido , e abrazado , aíli as ca- 
ías , como as hortas , e pomares , que movia 
á piedade ; e foi lamentado dos Mouros , 
porque a terra de Baj aim era toda hum jar- 
dim 



Década IV. Liv. II. Cap. XVI. 225* 

dim mui deJeitofo. Chegando a Chaul, fo- 
ram Já ter os Embaixadores de Taná a cum- 
prir o que prometteram , e mandou Eitor d:i 
Silveira quatro bargantijs acorrer a terra de 
Baçaim , e impedir que os Mouros tornaííem 
a reformar alguma força , no qual tempo ca- 
tivaram muitos^, edeíiruíram a cofta de ma- 
neira , que nao fomente nao oufavam os 
Mouros navegar per ella , mas os que ha- 
bitavam os portos do mar defpejavam os 
lugares, e fe mettiam pela terra dentro. E 
bem fentiam todos efta perda pola muita que 
recebiam nos direitos das mercadorias, que 
nao acudiam , nem os mercadores oufavara 
navegar , nem queriam aventurar fuás fazen- 
das. 

Lopo Vaz de Sampaio , como deftas cou- 
fts era author , por as mandar cUe fazer , 
quando Eitor da Silveira o mandou avifir 
do que deixava feito , dava muitos louvores 
a Deos por em feu tempo lhe deixar acabar 
coufas de tanto feu ferviço , e d'ElRe7. E 
como os Mouros daquelks partes trazem os 
olhos nos feitos dos Governadores , e no que 
lhes bem , ou mal fuccede na guerra , por ve- 
rem que neítas em que Lopo Vaz tinha poíb 
mao fempre lhe fuccedéra bem , o Hidal- 
cao vizinho ás terras de Goa , lhe man- 
dou feus Embaixadores , commettendo-ilie 
quequena ter perpetua paz comcllc por de- 
To}^. IV. P. L P fe- 



120 ÁSIA DE João de Barros 

fejar ter amizade com EIRey de Portugal. O 
(Governador , depois de Jhe dar graças por íua 
viíitaçáo 5 e da vontade que moílrava áeerca 
da paz 5 diíTe , que para firmeza delia lhe ha- 
via de dar três Tanadarias das que eítavam 
nas terras firmes de Goa , quaes elle nomeaf- 
fe 5 eque com eíta condição faria paz , por- 
que fem ellas Eilley íèu Senhor haveria que 
o nao tinha fervido. Efpedidos eíles Embai- 
xadores 5 porque a refpofta do Hidalcao íe 
deteve , nao houve eíla paz eíFeito em tempo 
de Lopo Vaz por fe acabar feu governo. 

Sendo dez dias de Maio , Baíliáo Ferrei- 
ra , que Lopo Vaz de Sampaio tinha man- 
dado a faber novas de Nuno da Cunha , che- 
gou com cartas fuás para Lopo Vaz , pelas 
quaes elle foube que Nuno da Cunha inver- 
nára em Melinde , donde era já partido para 
Ormuz ; e das vitorias que houvera naquella 
cofta , e nas cartas lhe pedia que lhe tiveíTe 
as mais velas que pudeíle juntas , porque em 
chegando á Lídia efperava de as haver mifter, 
E deixadas agora as coufas da índia , dare- 
mos conta das de Maluco , de que fempn 
tratámos depois das da índia , ainda quu 
aconteceíTem antes. 



CA- 



Década IV. Livro II. 227 

CAPITULO XVII. 

Do que fucceãeo a Simão de Sou f a Galvão^ 

que bia por Capitão de Maluco. 

Q Abendo o Governador Lopo Vaz de 
O Sampaio per Pêro MaícarenJias ao tempo 
dejiia partida para o Reyiio , e per outras 
peiToas a neceíUdade de gente , e munições 
que tinha a fortaleza de Maluco , quercndo-a 
prover de Capitão , e tirar delia a D.Jorge , 
determinou m.andar lá huina peíToa , que ti- 
veíTe as qualidades que convinham para o re- 
médio daquella fortaleza , e foccorro do eí^ 
tado cm que então eftava ; c porque todas 
concorriam em Simão de Soufa Galvão , íi- 
Iho de Duarte Galvão , o m.andou em com^ 
panhia de Pêro de Faria , que hia fervir de 
Capitão de ?vlaíaca " , e Wiq deo huma gút , 
de que era Capitão Jorge de Abreu , e a ca-^ 
pitanía mor do m.ar de Maluco levava Dom 
António de Caftço , e a Feitoria António de 
Abreu Caldeira , que todos eram homens no- 
bres , e efcolhidos , como pedia a neceffida- 
de de Maluco. Na galé hiam fetenta folda- 
dos, e trinta lhe havia de dar Pêro de Faria 
em Malaca. Fazendo ambos fua viagem ^ 
antes de chegarem ao golfão , lhes íbbreveio 
Jium.a tormenta , com que huns , e outros k 

P 'ii per- 



c Çcmo fe dijjc atrás no cap. /^ 



^28 ÁSIA DE João de Barros 

perderam de vifta. Pêro de Faria foi ter a 
Malaca, onde lhe entregou a fortaleza Jorge 
Cabral , e Simão de Soufa correo a tormenta 
arvore fecca , e foi aportar á barra de Achem 
com os Toldados , que levava na galé rneios 
mortos dos grandes trabalhos que paiTáram 
ira tormenta , fem faber donde eílava.^ E de- 
pois que o foube , fe quizera fazer^á vela , 
fe o tempo o deixara , porque nao tinha 
aquelle porto por feguro , por fer de gente 
inimiga dos Portuguczes ; parece^ que o ei- 
pirito lhe revelava o que havia de fer. Porque 
tanto que ElRey foube que efta galé era che- 
gada aíli deítroçada com a tormenta , man- 
dou logo a ella huma elpia , com nome de 
vifitador, a faber que gente vinha nella , e 
com palavras diílimuladas oíFerecendo ao Ca- 
pitão o que houveíTe mifter , e pedindo-lhc 
que entraíTe para dentro , onde eílaria mais 
ieguro do tempo. Simão de Souíli lhe deo 
os devidos agradecimentos , e fe efcufou da 
entrada. Efpcdido eíle vifitador , ao outro 
dia veio aelle huma embarcação da terra a 
lhe pedir da parte d'ElRey que fe foffe para 
dentro, e que para lhe revocarem a galé lhe 
mandava aqiiellas lancharas que atrás vinham, 
que não tardaram muito emapparecer, atu- 
lhadas de gente de guerra, de armas, e de 
artifícios de fogo. As quaes chegadas á galé , 
Y€ndo os Mouros que Simão de Soufa nae 

que- 



DecadaIV. Liv.II. Cap. XVII. 229 

queria entrar, o accommettéram per tantas 
partes , que a galé foi entrada , travando-íè 
huina grande peleja. Era hum trifte cfpefta- 
culo , e calo que aos meímos inimigos pudera 
laílimar , ver aquellcs poucos homens tão 
maltratados dos trabalhos que paliaram , e 
tão rodeados de inimigos ; mas como todos 
elles eram esforçados , houveram- fe de ma- 
neira , que mais pareciam leóes que homens , 
e aíli faziam façanhas incríveis ; mas contra 
tantos inimigos pouco lhes aproveitava fua 
valentia , porque pofto que faziam grande ef- 
trago nos que achavam diante , entravam ou- 
tros de refrefco em feu lugar. Fazendo os 
Portuguezes maravilhas , durou a peleja tan- 
to tempo , que defefperados os Mouros de to- 
mar a galé , como lhes era mandado por El- 
Rey , receando já as mortes que os noífos lhes 
davam , fe apartaram , e aíTi desbaratados fe 
foram aprefentar aElRey, ficando dos Por- 
tuguezes menos os dous terços dos que eram 
entre mortos , e feridos. 

Defte fucceíTo ficou EIRey mui indignado 
contra os feus , porque fendo tantos lhe não 
levavam a galé ; pelo que mandou logo ao 
feu Capitão mor do mar , que fe fizeífe aquel- 
la noite preíles com toda a fua Armada , que 
cfcava no porto 5 e pela manha Ihefoífe buf- 
car a galé , com grandes ameaças de morte 
[c lha não trouxeííe. O Capitão fe foi pela 

ma- 



230 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

manha á galé , (que lhe não dco o tempo lu- 
gar para ie fahir da barra , ) e os Mouros , 
cjue o dia de antes com os noíTos pelejaram, 
receando de íe chegar, por cílarem já fan- 
grados do ferro Portuguez , aconiclháram ao 
leu Capitão que tcntalTe íc per manha podia 
tomar a galé, tendo por impoílivel havella 
de outro modo ; e aííi tanto que chegou d galé 
que o pudeíTem ouvir , mandou dizer a Si- 
mão de Soufa com muitas palavras , que El- 
Rey queria ter paz , e commercio com o Ca- 
pitão de Malaca , e com elle , e para iffo lhe 
mandava pedir quizeíTe ir para dentro. E 
porque alguns dos Portuguezcs eftavam já 
taes 5 que fc não atreviam a pelejar, lhes pa- 
receo que fe deviam de concertar , e come- 
çaram de praticar niíTo : o que fentindo Si- 
mão de Soufa , eílando á falia com os Mou- 
ros 5 refpondeo que queria haver confeiho 
com os feus j e por entender que alguns del- 
]es fe queriam entregar , por o eílado em que 
ie viam todos feridos , e íem efperança de 
foccorro , lhes fez huma falia , declarando- 
Ihes , com a brevidade que o tempo pedia , a 
falfidade , c tenção daquelles Mouros , per- 
fuadindo-os a morrerem antes com honra , 
con Fe fiando a Fé de Chriílo , que entregarem- 
fe áquelles inimigos delia , que com grande 
crueldade lhes haviam de tirar a vida , que 
çfperavam alcançar delles. Refpondêram to- 
dos 



Década IV. Liv.II. Cap. XVII. 231 

dos a huma voz , que o fegiiiriam , e morre- 
riam com elle. Os Mouros deíenganados , 
remettéram á galé com tanta braveza , que 
pareceo que do primeiro accommcttimento a 
levariam ; mas os iioíTos aíTi como eram pou- 
cos , e eftavam desflilecidos do íangue , e das 
forcas , lembrando-ihcs que morriam pola Fé 
de Chriito , e contra tao grandes inimigos 
delia , cobrando novos eíjpiritos , fizeram 
proezas quaes íe contam nos livros fabulo- 
Ibs 5 e que de homens que eftavam naquelle 
eftado íè não poderiam crer ; de maneira, 
que os Mouros íe afaftáram da galé, com 
morte , e deftruiçao de muitos , e com tenção 
de íe recolherem , não íabendo que os noíTos 
eram quafi todos mortos , e os vivos tao feri- 
dos que já não podiam pelejar. 

Nefte tempo íe deitou a nado hum Mou- 
ro dos forçados da galé , o qual deícubrio 
ao Capitão das lancharas o eftado em que 
a galé eft.ava , e que íe não foíTe , que a pou- 
co que perfeveraíTe os acabaria de confumir. 
O Capitão mor mandou efte Mouro a El- 
Rey 5 o qual a grande preíTa provêo os feus 
com mais gente de refrefco , e mais pólvora. 
Com efte íbccorro tom.áram atrevimento de 
entrar na galé , onde já não havia quem a pii- 
âQÍiQ defender , e começaram de novo a pe- 
lejar com eíTes poucos que nclla eftavam vi- 
vos , CS quaes vendo que aquelle era o ul- 

ti- 



232 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

timo de fiias vidas, por as venderem caras 
fizeram maravilhas , como fe de novo vieram 
a peleja , té que pregaram as inaos com fettas 
a D. António de Caí1:ro em a haftea de huma 
alabarda , que tinha nellas com que pelejava , 
e das muitas feridas que tinha efgottou todo 
o fangne té que cahio morto. A Simão de 
Soufa Galvão deram com hum zarguncho de 
arremeíTo com tanta força , que paíTando as 
couraças lhe pregou o coração , e defte modo 
acabou Simão de Soufa Galvão , hum dos 
quatro filhos "" , com que Duarte Galvão paC- 
ibu áquelJas partes \ e aíli acabaram os mais 
que na galé havia , e alguns poucos que com 
vida ficaram , (dos quaes eram António Cal- 
deira , e Jorge de Abreu , tão feridos , que 
mais fe podiam contar por mortos que por 
vivos 3 ) foram levados com a galé a ElRey , 
como cm triunfo de tamanha vitoria , e o cor- 
po de Simão de Soufa feito cm pedaços lan- 
çaram ao mar. Aos feridos fez ElRey muito 
gazalhado , c mandou curar por diíFunular 
íua maldade , moílrando que lhe pezava mui- 
to da morte de Simão de Soufa , e dos ou- 
tros Portuguezes , que qWq mandava chamar 
para lhes fazer gazalhado , e honra , como 
defejava fazer a todos ;» e lhes diíTe , que co- 
mo elles foíTcm sãos , efcolheílem entre íl 

ai- 

n Os outros três fe chamavam Jorge ^ Manuel ^ e Ruy 
Galvão. 



Dec.TV. Liv.II. Cap.XVII. eXVIII. 235 

algum , que foíTe dizer da fua parte ao Capi- 
tão de Malaca que mandallc por elles , e pela 
galé, e artilheria, e por o mais que lá ti- 
vcflem , efora dos Portuguezes , porque tu- 
do daria de boa vontade. Porém a tenção 
deíleRey infiel era tomar o navio, e gente 
que o Capitão de Malaca mandaíTe , como 
fez , e fe dirá adiante. E para mais enganar 
aos noflbs , mandou-lhes dar muito boas 
pouíadas , e todo o neceíTario com muita lar- 
gueza , como mui amigo. 

CAPITULO XVIIL 

Como D.Jorge de Menezes tomou a Cida- 
de de Tidore , e ajjentou pazes com os 
Cajlelhafws que nella ejlavam, 

EStando D. Jorge de Menezes Capitão 
de Maluco em tréguas com Fernando 
de la Torre Capitão dos Caftelhanos , que 
eílavamx em Tidore , vindo- fe acabar , e que- 
rendo-as renovar D. Jorge , não quiz Fer- 
nando de la Torre per coníéliio do Gover- 
nador de Geilolo ; c a caufa era , porque El- 
Rey de Tidore pertendia fer fenhor de to- 
:io oEílado do Moro. E porque elles efta- 
vam preftes , mandaram logo fua Armada , 
para que foíTe tomar os lugares que lá ti- 
nha EIRev de Ternate ; e poílo que Cacliil 
Daroez tinha os lugares bem providos , man- 
dou 



^34 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

dou também fua Armada em que hiam al- 
guns Portuguezcs , que foram desbaratados 
per Cachil Rade Governador de Tidore , 
que matou , e ferio muitos delles , e pren- 
deo hum Capitão dos Mouros , que depois 
mandou matar. Os Ternates , e Portugue- 
2es que efcapárara , acolhendo-fe em. terra , 
avifiiram a D. Jorge do feu desbarato , pe- 
dindo-lhe foccorro , porque os de Tidore 
eram muitos , e com elles Fernando de la 
Torre , e quarenta Caílellianos que comfigo 
tinha. D.Jorge, que eftava efcandalizado de 
Fernando de la Torre de não querer com 
elle paz , pareceo-lhe que tinha boa occafião 
de fe vingar dclle , e d'ElPvey de Tidore , 
para o que dííTe a Cachil Daroez , que era 
neceíTario deílruirem aquellas Arm.adas , e 
juntarem para iíTo feu poder, e dos amigos. 
Cachil Daroez mandou recado aos Sanga- 
gcs , e a ElRey de Bacham. , que acudiíTem 
com fua gente , o que logo fizeram. Dom 
Jorge não lhes manifeílando feu intento , 
mandou armar cento e vinte Portuguezes to- 
dos efcolhidos. E como as Armadas foram 
juntas , íè apartou com os officiaes da for- 
taleza , e com ElPvcy de Bacham , e Cachil 
Daroez , e lhes difle , que bem fabiam as 
offenfas que tinham recebido dos Tidores , 
podcrofos , e fortalecidos com a companhia 
dos Cafteihanos ^ e fua artilheria j e que para 

fua 



DecadaIV. Liv.II. Cap.XVIII. 235- 

fua dcílniição nunca houvera melhor tempo , 
nem mais difpoílo que o prefcntc , por mui- 
tos andarem na guerra do Moro, e ficar a 
Jlha com poucos, e aíli fendo pouca a de- 
fensão 3 os poderiam deílruir , com que fi- 
cariam em paz ; porque EIRey de Geilolo 
fem ajuda d'ElRe7 de Tidore , e dos Caí- 
telhanos não Jhes podia f:izer guerra. ElRey 
de Bacham primeiro , e depois Cachii Da- 
roez 5 e os Sangages , e Capitães dos Mou- 
ros , todos approváram o parecer de Dom 
Jorge. Os Portuguezes refpeitando mais fua 
quietação , e proveito da fua fazenda , de- 
ram muitas razoes 5 diíTuadindo aquclla em- 
preza ; mas replicando D. Jorge , confentí- 
ram nella , ainda que contra fuás vontades. 
Entregue a fortaleza ao Alcaide mor Go- 
mes Aires , pedio D.Jorge a ElB.ey de Ba- 
cham , e a Cachii Daroez , que le embar- 
caíiem logo com fua gente , porque haviam 
de partir aquella noite , antes que fe publi- 
caíTe aonde hiam , porque queria tomar os 
inimigos defcuidados. Embarca ram-fe to- 
dos paífadas algumas horas da noite , Dom 
Jorge cm hum batel grande bem. artilhado, 
c D.Jorge de Caílro em hum paráo Mala- 
var. Ao outro dia, que era da feíla dos San- 
tos Apoílolos Simão , e Judas , chegaram 
rompendo a manhã ao porto de Tidore , cu- 
ja Cidade he grande, cercada de Jiuma tran- 
queis 



235 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

queira de duas faces , e fica afaftada hum pou- 
co do mar. Como foram no porto , ordenou 
D.Jorge de Menezes 5 que D.Jorge de Caf- 
tro fícaíTe no paráo em que hia com quinze 
Portuguezes , e alguns Ternates , para com 
hum camelo que levava bater hum baluarte 
que alli eftava , e elle com a outra gente ha- 
via de ir dar na Cidade ; e porque o cami- 
nho era per entre arvoredo , mandou diante 
defcubrir a terra per Vafco Lourenço , que 
era mui esforçado cavalleiro , com doze Por- 
tuguezes 5 e nas fuás cortas Diniz Botelho 
com outros tantos , e elle abalou com toda 
a gente para a Cidade , onde aíli nos Mou- 
ros 5 como nos Caftelhanos houve grande fo- 
brefalto , e medo , porque ElRcy nao tinha 
idade para pelejar ; e Cachil Rade feu Go- 
vernador, que era mui esforçado Capitão, 
e experimentado na guerra, andava no Mo- 
ro com a principal gente de Tidore. Fer- 
nando de la Torre mandou com prefteza af- 
fentar alguns berços fobre o muro , e portos 
nelle os Cartelhanos com fuás efpingardas, 
começaram a defender com cilas , e com a 
artilheria a tranqueira animofamente. Dom 
Jorge conhecendo o damno que poderia re- 
ceber tardando , arremetteo com fua gente 
a hum portal da tranqueira per onde os de 
dentro fe ferviam , e animando os feus , fu- 
bio elie dos primeiros pela tranqueira , e aju- 
dou 



Década IV. Liv.II. Cap. XVIII. 237 

dou a fubir a outros. Os Caftelhanos , e Ti- 
dores vendo que os entravam , fe puzeram 
cm defeníci com valor ; porém nao puderam 
refiílir á fúria com que foram accommettidos 
dos Portuguezes , e Tcrnates ; e aíTi dcfam- 
pnradas as tranqueiras , fe retiraram os Caí- 
tolhanos ao fcu forte, quafi todos feridos, 
dous mortos , e quatro prezos , e os Tido- 
res á Cidade, os quaes feguio D. Jorge té 
os lançar fora delia , matando , e ferindo 
muitos , e da volta com elles fe foi fcu Rey , 
iem em toda eíla peleja haver dos Portugue- 
zes mais que três feridos. Tom.ada a Cida- 
de , mandou D. Jorge de Menezes vir Dom 
Jorge de Caftro , e os Portuguezes , que 
ficaram com clle , para que todos juntos fa- 
queaíTem a Cidade , a qual faqueada a man- 
dou queimar. Ficava por combater a Torre 
dos Caftelhanos''; e primeiro que D.Jorge 
a commetteíle , efcreveo huma carta ao Ca- 
pitão Fernando de la Torre , na qual lhe ro- 
gava da lua parte , e requeria da do Empe- 
rador , que confiderando com prudência , e 
fem. paixão o eílado em que eftava , e pou- 
ca defensão que tinha , fe entregaífe a elle , 
e não déíFe occalião de fe matarem huns Chri- 
ttãos com outros. A efta carta refpondeo de 

pa» 

</ FsrnSo Lopes de Caílanheda cap. 6. do Uv. S, Dio- 
go do Couto liv. 6. cap» n, FrançifwO Ue AnJi-adí cap, 
59. da 2. Farte, 



238 ÁSIA DE João de Barros 

palavra Fernando de la Torre, que não £0 
iiavia de entregar por mais íegurança que lhe 
déíTc, mas que lhe entregaria a galeota que 
fora tomada a Fernão Balda ia com toda lua 
artiiheria, ca Ilha de Maquiem, e que não 
ajudaria mais aos Reys de l^idore , e Gilo- 
lo contra Portuguezes , nem lhes faria guer- 
ra. D. Jorge lhe replicou , que não fora a 
Tidore por tão pouco , e pois aíTi queria , 
que fcu foíTe o damno. Partido o menfagei- 
ro , D. Jorge foi apôs elle com fua gente , 
e diante algumas peças de artilheria , e mui- 
tas pancllas de pólvora , e efcadas. Temen- 
do Fernando de la Torre tanto apparato , 
havendo íeguro de D. Jorge , lhe íahio a 
fallar com a gente que tinha ; e apartado hum 
pouco delia , e D. Jorge da fua , fe fallá- 
ram , e aíTentáram , que Fernando de la Tor- 
re fe foíTe para a Cidade de Camafo com 
os Caftelhanos que o quizeiTem feguir , e alii 
eílariam fem fazer guerra aos Portuguezes , 
nem aos Reys de Ternate , e Bacham feus 
amigos , contra os quaes não ajudariam a El- 
Rey de Geilolo , e reftituiriam a Ilha de Ma- 
quiem a ElRey de Ternate, e que não fa- 
riam cravo , nem iriam a alguma das Ilhas 
em que o havia j e para fua embarcação lhes 
daria D. Jorge o bargantim que fora d'El- 
Rey de Geilolo , e três coracòras para o 
acompanharem té Camafo^ e que D.Jorge 

lhes 



Década IV. Liv. II. Cap.XVIIL 239 

lhes nao faria mais guerra , nem aos Rcys 
de Tidore , e Geiloio ; e ifto fc guardaria 
té ElRey de Portugal , c o Emperador man- 
darem o contrario. E depois de cada hum 
deftes Capitães dar conta aos feus , do que 
todos foram contentes , aílentáram as referi- 
das Capitulações de pazes , que juraram de 
cumprir , e guardar , e as aílináram com al- 
gumas pelToas principaes. Dos Caílelhanos , 
que com Fernando de la l'orre eílavam , dez- 
oito que diíTeram que queriam ficar com 
D. Jorge 5 Fernando de la Torre lhos en- 
tregou , e com os que lhe ficaram, fe tornou 
á lua Torre , e ao outro dia partio para Ca- 
mafo. Donde per perfuasão dos Caílelhanos , 
que andavam em Geiloio , deixando Cama- 
f o 5 quebrando apromeíla que fizera, fe foi 
para elles. O que lhe D. Jorge mandou eC- 
t ranhar ; ao que elle refpondeo , que força- 
do o fizera , porém que em o mais guarda- 
ria as Capitulações , e afii o fez. 

D. Jorge 5 antes de fe partir para Ter- 
nate , fez paz com ElRey de Tidore , com 
condição que elle pagaria de páreas a ElRey 
de Portugal cada anno certos bahares de cra- 
vo , e que em Tidore haviam de eftar al- 
guns Portuguezes para enfinarem feus coílu- 
nies aos Tidorcs , e nao havia mais de aju- 
dar aos Caílelhanos , nem a Mouros contra 
Portuguezes. 



240 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

^ Eftando ainda D.Jorge em Tidore, vier 
ao mar hum junco que vinha de Banda , e 
de Araboino , em que vinham cincoenta 
Alouros com mercadorias para levar cravo 
de Tidore , cuidando que eílava em fua prof- 
peridadc. Sabendo D.Jorge donde era , man- 
dou a D. Jorge deCaíiroquc o foíTe tomar ;"~\^ 
e entendendo os Mouros da deftruiçao de Ti- 
dore 5 e a ida dos Caítelhanos , náo ouilm- 
do de pelejar , fe entregaram. Deite junco 
fez D. Jorge de Menezes mercê em nome 
d'ElRey de Portugal a D.Jorge de Caftro , 
porque havia de ficar em Tidore para co- 
brar o cravo d'ElRey ; e deixando com elle 
quarenta Portuguezes , e Cachil Daroez com 
a Armada, fe partio paraTernate, levando 
comfigo duas galeotas dos Caftelhanos , e a 
galeota que elles tomaram ao Baldaia , com 
fua artilhcria com muita pólvora , e muni- 
ções , e fatisfeito das oíFenfas paíTadas , en- 
trou vitoriofo emTcrnate. Os Caftelhanos, 
que aTernate foram com D.Jorge de Me- 
nezes , fe embarcaram com D. Jorge de Caf- 
tro no Janeiro feguinte para a índia. 



CA- 

a Fernão Lopes de Cnílanheda Uv, 8. Co^p. 7. Franciíc*» 
de Andrade cap. 59. da 2. Ifuríe, 



Década IV. Liv. IIL Cap. L 25'/ 

Ia muitas náos á véla ; porem depois que 
entram para dentro da terra , vai-le fazen- 
do liuma maneira de feio , e no fim dclle 
]iuma concha cheia de muitos aifaques , aííi 
alcantilados , que eftá a popa da náo em 
oitenta braças , e a proa em doze. Toda ef- 
ta concha he cercada de huma terra alta , 
e foberba , e fomente em huma parte faz 
hum efcampado , per meio do qual corre 
hum rio de agua doce , o qual fe faz de 
dous , que vem de dentro da terra de partes 
diverías , e efte ajuntamento he mui perto 
donde fe elle mette no mar ^ e traz tanta 
agua , que podem bateis grandes ir per elle 
acima hum bom efpaço. 

Surto Nuno da Cunha , porque aquella 
terra era mui povoada de Negros de cabel- 
jo retorcido com.o os de Moçambique , co- 
meçaram logo defcer á ribeira muitos del- 
les , trazendo carneiros , gallinhas , grãos , 
lentilhas , e outros mantimentos , que davam 
aos noílbs a troco de pedaços de ferro , e 
de outras coufas de pouco preço. Com efte 
coíjimercio ^ e bom tratamento que lhes os 
noíTos fizeram , ficaram tão contentes , que 
dahi a dous dias trouxeram hum Portuguez 3 
o qual vinha tão deforme , com a grenha 
que trazia de cabellos , e cortimento dos 
couros deípidos , que era mui mais feio á 
viíla que os próprios Negros. O prazer dei> 
Tom.ir.P.L K te 



258 ÁSIA DE João de Barros 

te homem foi tamanho , quando fe vio den- 
tro na náo , que cftava diante de Nuno da 
Cunha como pafmado , fem lhe poder dar 
razáo do que IriQ perguntava. Depois que 
entrou mais em íi , contou como alli fe per- 
deram Manuel de la Cerda , e Aleixo de 
Abreu , dando de noite cm fecco , e eílive- 
ram té o outro dia pela manhã , que fe fal- 
váram em. jangadas com alguma pouca fa- 
zenda , e que a gente de Manuel de la Cer- 
da 5 fegundo foubera dos Negros , fe met- 
têra pela terra dentro ; mas que lhe não fa- 
biam dar razão onde pararam , porque os 
Negros não coftumavam fahir das comarcas 
donde eram naturaes ; e que a gente de Alei- 
xo de Abreu , fegundo elles diziam , anda- 
va pela Ilha ; e a caufa de elle ficar alli, 
fora, porque quando Aleixo de Abreu (com 
quem elle vinha) determinou de ir per ter- 
ra, com a gente que fe falvãra , bufcar al- 
gum porto , donde com jangadas , ou com 
algum outro modo fe paíTaííe a Moçam- 
bique, ejleeílava tão doente, e manco , que 
não podia dar hum paíTo ; e que em quan- 
to tev^e alguma coufa fobre fi , os Negros 
entre quem íicou lhe foram contrários , e 
não fe fiavam delle ; mas que depois que o 
viram defpido , e de todo nú com elles , e 
não tinham que cubicar, ficaram feus ami- 
gos , e o trataram mui bem ^ por fer gente 

pa- 



Dec. IV. Liv. IIL Cap. I. E IL 25-9 

pacífica , e que vive a modo de communi- 
dades , íem terem fenlior a quem obedeçam. 
Eílas, e outras couías dos coftumes daquel- 
les Cafres contava eíle iiomem , o qual íe- 
gundo dizia era criado de D. António de 
Noronha Conde de Linhares ; e eícapando 
de tantos trabalhos , veio a morrer dahi a 
poucos dias em Mombaça de fua enfermi- 
dade "" , onde morreo muita gente outra ^ co- 
mo adiante fe verá. 

CAPITULO n. 

Ba perdição das duas nãos de Manuel de 

la Cerda , e Aleixo de Ahreu : e do que 

aconteceo aos que delias fe faháram, 

AS duas náos ^ de que fe falvou efte 
Portuguez , que levaram a Nuno da Cu- 
nha , eram da companhia de cinco , que par- 
tiram de Portugal no anno de I5'27, da qual 
Armada hia porCapicão mòr Manuel de la 
Cerda , e das outras quatro náos foram os 
Capitães Aleixo de Abreu , Chriftovao de 
Mendoça , Balthazar da Silva , e Gafpar de 
Paiva. Eftas três ultimas chegaram a falva- 
mento á índia em Setembro , (como fe atrás 
efcreveo%) e as duas de Manuel delaCer- 

R ii da , 

a ECci-eve Diogo do Couto , çue efle homem viveo de- 
fcis nitútos anuQs cafnd» em Goa , e foi nelía Meirinho. 

h Diogo do Couto caip. j. ão Uv. j. e cap. 2. do Uv» 
5. da 4. Década. c No cap. 4. do Uv. 2. 



200 ÁSIA deJoao de Barros 

da , e de Aleixo de Abreu fe pcrdéríím na 
coíía Occidental da Iliia de S. Lourenço , 
nos baixos da Bahia de Sant-Iago , (na qual 
eílava Nuno da Cunha , ) onde fahio eir ter- 
ra toda a gente deílas duas náos ; e feitas 
humns tranqueiras , dentro delia fe recolhe- 
ram com as armas que cfcapáram do nau- 
frágio , e outras coufas , que commutando 
per mantimentos , ( de que aquella parte da 
Ilha nao he mui abundante , ) com os natu- 
raes da terra , fe foram fuftentando mifera- 
vclmente , efpcrando que pafíaíTe alguma 
náo 5 que com fmaes que lhe fizeflcm os vief- 
fe tomar. Eitiveram naquella Bahia hum 
arino ^ no fim do qual chegou aquella para- 
gem António de Saldanha na fua náo , que 
era da companhia da Armada do Governa- 
dor Nuno da Cunha , a qual viíla por eíla 
gente perdida , como foi noite , fizeram 
grandes fogos em cruzes , para per elles mof- 
trarem aos da náo que eílavam alli Portu- 
guezes perdidos. Viílos os fogos , mandou 
António de Saldanha tomar os traquetes , e 
puzeram-fe á trinca , e como amanheceo fo- 
ram na volta da terra , a que nao ouíavam 
chegar , por nao fer fabida , efperando que 
delia vieíTe em. alguma almadia quem lhes 
diíTeíTe que gente era aquella ; e aíli afflaílan- 
do-fe de noite da terra , e voltando a ella 
de dia, andou aili António de Saldanha oi- 
to 



Década IV. Lrv. III. Cap. II. 261 

to dias , e no cabo delles , dando-lhe hum 
temporal rijo , deíapparcceo , continuando 
fua viagem. Os Portugueses perdidos , ven- 
do-fe fem o remédio que efperavam da náo , 
fe determinaram de palTar á outra banda da 
Ilha , onde poderiam achar alguma embar- 
cação da terra , em que paíTaílem a Çofala , 
ou a Moçambique , e divididos em duas ef- 
quadras , fe mettêram pelo fcrtao , onde def- 
apparecéram , ficando alli doente aquelle ho- 
mem que achou Nuno da Cunha , de quem 
ibube o lucceíTo da perdição daquellas náos. 
"" Per cartas de Nuno da Cunha teve El- 
ReyD.João noticia da perdição deftas duas 
náos , e mandou bufcar a gente delias no 
anno de 1530 com dous navios , de que eram 
Capitães dous irmãos , Duarte da Fonfeca , 
e Diogo da Fonfeca. Chegaram ambos á 
Ilha de S. Lourenço , Duarte da Fonfeca 
entrou em huma grande Bahia , onde fe af- 
fogou com dez homens que levava no ba- 
tel do feu navio ; e Diogo da Fonfeca cor- 
rendo a coíla , íurgio em hum porto , onde 
vio grandes fumos ; e mandando o batel a 
terra a faber a caufa delles , acharam qua- 
tro Portuguezes que os faziam, três da náo 
de Manuel de la Cerda , hum de Aleixo da 
Abreu , e hum Francez de huma náo Fran- 
ceza 3 que alli fora parar , de três , que os 

an- 
il Fraiicifco de Andrade cap, 64. da cl. Parte, 



102 ÁSIA DE João de Barros 

annos atrás paflaram á índia. Eílcs liomcns 
recolhidos no navio , diíTcram que havia mui- 
tos vivos da fua companhia , mas que an- 
davam tao efpalhados pela terra dentro da- 
quella Ilha , que feria impoílivel achallos ; 
pelo que Diogo da Fonfeca fe foi com el- 
Ics a Moçambique , levando o navio de feu 
irmáo ; e deixando alli hum delles por fa- 
zer muita agua , partio para a índia cm Abril 
de i5'3i. E na paragem de Çocotorá fede- 
ria de perder com algum temporal , o que 
fe depois foube por alguma fiizenda , e ar- 
cas que foram dar a cofta daqueila Ilha ; e 
pelos papeis que nellas fe acharam , fe en- 
tendeo que eram defte navio de Diogo da 
Fonfeca, e o fucceífo de fua viagem. 

* Da gente deftas mefmas náos de Ma- 
nuel de la Cerda , e Aleixo de Abreu de- 
vem de proceder os Portuguezes , que huns 
Hollandezes acharam nefta Ilha de S. Lou- 
renço 5 onde fe perderam na ponta de Santa 
Lúcia , vindo da Jaíia em huma náo carre- 
gada de drogas ; os quaes andando cortan- 
do madeira para fazer alguma embarcação 
em que voItaíFcm a Bantam , foram viílos 
da gente da terra , a qual parecendo-lhe que 
eram Portuguezes , fe vieram a elles com 

mui- 

a Fr. António de Gouvea , ora Bifpo âe Sirene y no 
ultimo capitulo do j. liv. da reiaçiío das gUirras de Fer- 
Jla j e tranjmigracjio dos Arménios. 



Década IV. Liv. IIÍ. Cap. IL 263 

muito alvoroço , e abraçando-os , e fal lau- 
do Portuguez , IhediíTeram que também el- 
les eram netos de Portuguezes , ( pofto que 
o não pareciam nas cores , e trajos , ) e com 
muita inftancia perguntavam íe traziam com- 
íigo Padres. E delenganados que nao eram 
Portuguezes , fenáo Hollandezes , de que el- 
Ics não tinham noticia , lhes contaram como 
cm tempos paíTados huma nao tao grande 
como aquella fua alli fe perdera ^ falvando- 
íe a gente , e o Capitão delia conquiílára 
parte d^quella Ilha , de que fe fizera fenhor , 
e que os mais fe cafáram com as mulheres, 
da terra , de que tiveram grande geração ^ 
da qual elles defcendiam ; e que aíTi como 
feus pais 5 e avós defejáram Icmprè ter Pa- 
dres que os doutrinaíTem , aíli elles viviam 
nos rneímos defejos. Feita a embarcação , 
voltaram cíles Hollandezes para Bantam , 
onde relataram efte fucceíTo aos companhei- 
ros , e a Fr. Athanafio dejefus Frade AgoC- 
tinho Portuguez , que eílava cativo entre el- 
les , accrefcentando como notaram naquella 
gente erros intoleráveis na Fé por falta de 
doutrina , nos quaes fe pareciam mais áquei- 
les bárbaros com que fe creáram , que aos 
Portuguezes de que procediam. Fr. x4thana- 
fio avifou de todas eílas coufas a D. Frei 
Aleixo de Menezes Arcebifpo que então era 
de Goa , e governava a índia , e agora he 

Ar- 



204 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

Arcebifpo de Braga , e Vifo-Rey de Portu- 
gal 5 o qual com a vigilância , e cuidado 
que coíluma ter em ícmelhantcs calos , c 
grande zelo na conversão das almas , (como 
o moftrou na reducçao dos antigos Cliriftaos 
de S. Thomé á Fé Catholica , e obediên- 
cia da Santa Igreja Romana , da qual ha- 
via mais de mil annos que eftavam aparta- 
dos 5 em que efte Illuílriflimo Arcebifpo com 
perigos contínuos , e incanfaveis trabalhos 
imitou os Prelados da primitiva Igreja , ) en- 
commendou aos Padres da Companhia de 
Jeíus 5 que foram com D. Eílevao de Taí- 
de á conquiíta de Monomotapa , de Mo- 
çambique y ou de outro algum porto vizi- 
nho 5 trabalhaíTem por alcançar mais clara 
noticia defta gente para a poder foccorrer 
como a fua neceíTidadc pede. 

CAPITULO III. 

Como a não de Nuno da Cu7iha fe perdeo 

com hum 'vento travefsao , falvando-Je el- 

le y e fua gente : e do que lhe aconte- 

ceo té chegar à Ilha de Zanzibar. 

NUno da Cunha por fe melhor infor- 
__ mar do íitio , e qualidades da terra , 
em quanto a gente do mar fazia fua agua- 
da , deo licença a D. Pedro Lobo , a Luiz 
Falcão, e a Manuel Lobato, e a algumas 

ou- 



Década IV. Liv. III. Cap. III. 265- 

outra? pclToas nobres, que com alguns íbl- 
dados ã bom recado foiFcm té a povoação 
dos Negros , mas que nao entraílem nelJa , 
fomente viííem o que lhes parecia do luio , 
e dilpoliyao da terra , c levaíTem moftras de 
cravo , canella , e de toda outra eípeciaria , 
ouro, e prata para íaber íe entre os Negros 
jiavia alguma daquellas coufas, e íe era del- 
les eílimada. Idos eíles Fidalgos , porque o 
tempo que lhes Nuno da Cunha limitou era 
mui eílrcito para o que haviam de fazer , tor- 
naram logo á tarde mui contentes da difpofi- 
çáo , e fertilidade da terra , e aíTi de feus mo- 
radores , por fer gente pacifica , fcm caute- 
las , e fera aquella malicia própria dos Ne- 
gros de Guiné , e trouxeram dos mantimen- 
tos , que entre elles havia , a troco de algu- 
mas coufas que levaram ; e quanto ás mof- 
trás de ouro , e prata , e efpeciaria , não da- 
vam razão , como gente que nao fabia mais 
da terra que té onde chegava o termo dafua 
aldeã. 

Havendo três dias que Nuno da Cunha 
allieílava provendo-fe do neceíTario , eefpe- 
rando tempo para íahirem daquella angra , fo- 
bi^eveio vento do mar , que ficava em travef- 
são na cofta ; e como o porto era cheio de 
alfaqucs , aíli defcompaíTados em partes (ca- 
mo diiTemos ) começou a náo de Nuno da 
Cunha falujar de maneira , que trincou logo 

duas 



idd ÁSIA DE João de Barros 

duas amarras ; e vindo logo outras duas , ou 
três novas , apcna foram lanhadas ao mar , 
quando le fizeram cm pedaços j e a caufa de 
durarem tão pouco , náo foi tanto por razão 
dos íaluços da náo , como por eílarem re- 
cozidas da quentura , e humidade dos paioes 
onde vinham , com a qual falta a náo foi 
levada aterra do Ímpeto do mar, e a poz 
em três braças , onde com três , ou quatro 
pancadas abrio de todo , aíTentando-fe no 
fundo da arêa , quando já o vento não era 
tão rijo. E pofto que a náo foi logo cheia 
de agua , ficou tão perto da terra , que na- 
dando fahíram muitos homens , e chamaram 
todos os batéis que eram na aguada , que lhes 
vieíTem foccorrer , fem as outras náos , que ef- 
tavam mais ao mar, o poderem fazer. Por- 
que na primeira eftrupada de vento também 
eilas tiveram aíTás trabalho, prmcipalmente 
a náo Santa Catharina de Pêro Vaz da Cunha, 
que caçou hum grande pedaço , e Deos mi- 
lagrofamente a íalvou para recolhimento de 
tanta gente , como hia com Nuno da Cunha , 
a qual como vio a náo cheia d' agua, fem 
efperar que vieíTem os bateis que diílemos , 
começou de fe lançar ao mar, havendo ifto 
por menos perigo , que eílar nella. Ao que 
Nuno da Cunha acudio não o confentindo , 
econfolando a todos , prom.ettendo-ihes que 
falvaria primeiro as pcílbas delles , que a lua 

pro- 



Década IV. Liv. III. Cap. IÍI. 267 

própria , como vicíTem os batéis , e aíli o 
fez ; porque vindo clles ícm prefili , ncin def- 
ordein , mandou pdílar toda a gente a terra , 
e algum fato que fobre a cubcrra fc pode 
falvar , dcixando-fe eílar na náo té o outro 
dia ás dez horas , que toda a gente delem- 
barcou , a qual rcpartio pelas duas náos que 
com elle eram naqucl^e trabalho. A de fcu 
irmão Pêro Vaz , onde fe qWq recolheo , fe 
ajuntaram fetecentas peíToas , e a de D. Fer- 
nando de Lima quinhentas. Terça feira á 
noite , que foram 3 de Setembro , mandou 
Nuno da Cunha pôr fogo á náo , a qual ar- 
deo té a agua defender oqueeftava debaixo 
delia 5 onde fe perdeo muita fízenda d'E!- 
Rey , e de partes , e com a artilheria hum 
baíilifco de metal , que Nuno da Cunha mui- 
to fendo , e as arm.as de que os homens ti- 
nham neceíFidade , por íer coufa que tao cedo 
fe náo podia reformar. 

Ao dia feguinte partio dalli com deter- 
minação de ir a Meiinde a fe prover de al- 
gumas coufas , e ver fe por aquclla coíla a- 
portára alguma das náos da fua Armada , ou 
fe achava navio do trato de Çofala para 
baldear da g^nit que levava. Mas ainda a 
fortuna oquiz nefte tao curto caminho ten- 
tar , porque Joáo de Lisboa Piloto mor o 
foi metter entre muitas Ilhas , que eram as 
que commummente chamam do Coaimo- 

ro. 



268 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

ro'', dizendo elle ferem novamente achadas. 
As quaes paííadas com aílas perigo, por ra- 
zão das grandes correntes, foi metter a náo 
em huns baixos pegados na Ilha de Zanzibar , 
onde correo muito maior rifco , não indo já 
com Nuno da Cunha a náo de D. Fernan- 
do de Lima , por fe apartar da fua eíleira nas 
correntes das Ilhas do Commoro. Nuno da 
Cunha vendo a náo mettida em hum facco , 
donde não podia fahir, e que o Piloto não 
conhecia a terra , nem havia peífoa na náo , 
que foubeííe dizer onde eílava , mandou a 
fcu irmão Pêro Vaz , que no batel com al- 
guma gente armada faíúíTe em terra, e com 
todo o refguardo viíTe fe podia achar algum 
povoado de que pudeíTe faber onde eílavam. 
Pariido Pêro Vaz da Cunha , como aquella 
terra era a Ilha de Zanzibar ^ , a efpaço de 

cin- 

a A principal , e maior Ilha de fias , cjut fe chama do 
Commoro , jaz, entre a Ilha de S. Lourenço , e a terra fir- 
me da Ethiopia ; tem o meio delia orne grãos , e três (jnar- 
ios de altura Áujlral , e dex.efeis léguas de comprimento , 
e oito }ta maior largura. He povoada de Cafres Gentios , 
e Mo\uos Baços , íjue fam os principaes fenhores delia ; e 
os do Ejlreito de Meca , e da cofia de Melinde commer- 
ceam nefia Ilha , na qual ha muita creação de vaccas , car- 
neiros , e cahras. He terra montuofa , e de ferras altas , 
entre as quaes huma o he tanto , que pajja a altura das 
nuvens , das quaes a maior parte do anno fe v9 cuherto o 
feu cume f e de lie baxam muitos arroios de agua y que rC' 
gando CS vades de fia Ilha , a fatem frefca , e fértil. 

h A Ilha de Zaniioar he adjacente ã Ethiopia , tem 
de altura Adir ai peis e>'áos , e fica no meio das Ilhas de 
Feha , e Monfia , e todas Ires mui arrimadas ãqnclla ccf 



Década IV. Liv. III. Cap. III. 269 

cinco Icguas foi dar com a povoação , don- 
de por íer de hiim Rey amigo dos Portu- 
giiezes trouxe dolis Zam.biicos , e Pilotos da 
terra , que levaram a náo á Cidade ^. Ellley 
recebeo a Nuno da Cunha com grande pra- 
zer , mandando-o logo prover de m.uitos 
mantimentos , com que deo a vida a todos 
por trazer já muita gente doente. E vendo 
Nuno da Cunha que efíava em parte tao fegu- 
ra , e abaílada , ordenou , por lhe nao mor- 
rer aquella gente enferma 5 deixar alii té du- 

zen- 

t^ , entre Momiaça , e Quilca. Sam toãns três povoadas 
de Motivos Baíjos y e Cafres Centics. Refgatam-fe neUas am- 
lar , tartaruga , marfim , cera , milho , e arroc , de que 
iam mui abundantes. Fa:;^emje nelías muito cairo , e hons 
pannos de leda , e aíçrodao- Cada Ilha dejias tem Rey , e 
todos fam vaffuJíos d''E/Rey de Portui^al. Fr. João dos San- 
tos no Jeit livro da Ethiopia Orienta!. A Ilha de Zanzibar 
defeubrio Ruy Loítrenço Ravafco Capitão de huma não de- 
viacrem no anno de 1^0} , e fez tributário ao Rey delia em 
cem miticaes de ouro , e trinta carneiros cada anno , como 
escreve João cie Barros na primeira Becaãa liv. j, cap. ^. 
a Francifco de Andrade no cap. 47. da 2. Farte , e 
Diogo do Couto no cap. i. do Uv. 6. da 4. Década ^ e 
Caílanheda no cap. %6. do Uv. 7. efcrevem , <jue mandou, 
Nuno da Cunha defcubrir a terra em hum batel a Manuel 
Machado feu Capitão da guarda ; e por os Negros lhe de- 
fenderem a defembarcação ^ mandou a Fero Vaz da Cunha 
ft'.i irmão com cincoenta foldados , (jue vi /tos dos Negros, 
delpeiada a povoação y fugiram para ornato . e para toma- 
rem algum , fcáram em terra efcondidos deus Fidalgos ir- 
mãos , Diogo de Mello , e Trilião , ou João de Mello , f- 
llios do Abbade de Fombeiro , os <juaes toma' ain hum Mouro , 
íjue por boa forte era Filoto daquelles canaes , e delles ti- 
rou a náo , e a levou ao porto da Cidade de Zanzibar. 



270 ÁSIA DE João de Barros 

zcntos homens , e por Capitão dellcs Aleixo 
de Soula Chicliorro , e por Feitor Manuel 
Macjiado criado d'*EÍRcy , que íabiabem o 
trato , e o modo da terra , e alguma coufa 
da Jingua delia , porque havendo eftado em 
Moçambique quatro , ou cinco annos, viera 
alli negociar aigumas vezes. Deixou também 
Nuno da Cunha dinheiro, e fazenda a eíle 
Feitor 5 e ordem a Aleixo de Soufa , que 
como a gente efliveíTe cm difpoíiçao , fe fol- 
ie com eiia a Melinde em Zambucos da ter- 
ra 5 porque alli acharia recado feu do mais 
que havia de fazer. 

Partido Nuno da Cunha de Zanzibar , a 
8 de Outubro chegou a Melinde , onde 
achou D. Fernando de Lim.a com cento e íef- 
fcnta peíToas doentes , e aíli a Diogo Bote- 
lho Pereira filho de João Gago com hum na- 
vio, c hum^a caravella , ao qual oanno paf- 
fado ElRey mandara de Lisboa a correr 
aquella corta dcfde o Cabo de Boa Efperan- 
ça té o das Correntes , e aíTi a Ilha de S. Lou- 
jenço em bulca de D. Luiz de Menezes '" , 

e de 

íT D. Luiz. dâ Mene-res vindo da índia ewharcado na 
não Soma Catharina de Monte Sinai em companhia do Go- 
vernador D. Duarte de Menezes feu inruio , aparíou-fe 
de He na Aguada de Siiídanha ; e porque nella de o ao Go- 
vernador htima tormenta com qv.e ejieve perdido , e D. Luii 
não appartceo mais t teve-fe prefumpção y que comamefma 
tormenta fe perderia naquella para<^em. Porém elle pairou , 
£ chegou ã cofia de Portugal , onde foi tomado per hum 
£oJJairo Francei , que deQ a morte a todos os Porlu^ue';,es > 



Dec.IV. Ltv. IIL Ca?. III. e IV. 271 

e de João de Mello da Silva , os qiiaes fe 
perderam vindo da índia , e havia prefump- 
çao c]ue podiam andar naqiiellas paragens en- 
tre os Negros ; e por os ventos lhe ferem 
contrários , tinha Diogo Botelho arribado 
alli da Ilha de S. Lourenço , e eílava efpe- 
rando tempo. 

CAPITULO IV. 

Do que Nuno da Cunha fez em Melinãe. 

DEpois que Nuno da Cunha foi viíitado 
d'ElRey de Melinde , e provido do ne- 
ceíTario , houve confelho com os Pilotos , e 
gente do mar fe paliaria á índia ; e poílo que 
a muitos pareceo que não podia, por ferjá 
paíTada a monção , todavia determinou de 
pôr o peito ao mar , c tentar o tempo ; e 
porque não tinha comíigo mais que D. Fer- 
nando , quiz levar Diogo Botelho Pereira , 
por a neceííidade que podia ter de feus na- 
vios em qualquer porto a que chegíiíTe , pois 
hia fora de tempo , fazendo fundamento de 
tanto que foíTe na índia, o tornar a enviar 

ao 

e queimou a não , porçue fe não viefjc <i faher. "Depois no 
tíwio de 1 5 } 6 , andando Diogo da Silveira por Capitão mór 
da Armada da cofia , toínoii hum navio de outro cojjairo 
F rancei , de ctija companhia defciihríram alguns a Dioga 
da Silveira , que aquelle feu Capitão era irmão do cofjalro , 
ijue tomara a não de D. Luiz de Meníx,es* Francifco ^ie 
Audrade uq cop, 67. da i. Farie, 



272 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

;io negocio a que hia , pois naquelle tempo 
cm nenhuma couía podia mais íervir a Ei- 
Rcy , que em ir comeile. E antes que Nuno 
da Ciniha partilTe daqueile porto de Melin- 
dc , que foi a 14 de Outubro , mandou a Or- 
iviuz Duarte da Fonleca em hum navio de 
Diogo Botelho , aviíando de fua vinda a 
Clinílovao de Mendoça Capitão daquella 
fortaleza , e que poderia fcr invernar em Me- 
ii nde 5 onde deixou té cento e cincoenta 
doentes , e por feu Capitão Jordão de Frei- 
tas , ]]um homem Fidalgo da Ilha da Ma- 
deira , filho de João de Freitas, e com clle 
]ium Feitor para provimento , e defpeza do 
que haviam de fazer. Mas aquella partida 
que Nuno da Cunha daliifez, não foi mais 
que forçar o tempo , e aventurar- fe a muito 
perigo para paíTar á índia. E quando vio que 
não podia lurdir mais avante que inim gráo 
e meio da linha Equinocciai da parte do 
Norte , a 6 de Novembro arribou a Melin- 
de , com determinação de invernar naquella 
coíla , onde o melhor pudeíTe fazer. E do 
caminho mandou Diogo Botelho que foíTe 
ao lugar do Jubo , que corta a linha Equi- 
nocciai , dezefeis léguas quaíi aquém da Ci- 
dade de Brava , onde , fegundo lhe dilTe- 
ram , eftava hum bargantim , em que anda- 
vam Portuguezes alevantados , que da índia , 
no tempo das diíFerenças de Lopo Vaz de 

Sam- 



Década IV. Liv. III. Cap. IV. 273 

Sampaio , e Pêro Mafcarenlias partiram para 
andarem ás prezas per aqiiella coíla de Mc- 
lindc. Aos quaes mandou ieguro para que fe 
vieílem a elle para ler vir a EiRey , e não 
querendo , que por força os obrigaíle a vir. 
Diogo Botelho os nao acliou , e tornou a 
Meiinde com hum navio que dalli partira ha- 
via quinze dias , de que era Capitão Bartho- 
lomeu Freire , que António da Silveira Ca- 
pitão de Moçambique mandava em bufca do 
Capitão Leonel de Taide , que também indo 
para a índia arribou por caufa do tempo ; 
e eíle deo por nova que pelejara com liuma 
lúo Franceza em fahindo de Quiloa , de que 
era Meílre hum Portuguez de alcunha Brigas , 
o qual hia com pcnfamento de paíTar á índia , 
que de feito foi , como adiante diremos. 

Nuno da Cunha vendo que Meiinde nao 
era lugar para paíTar nelle o inverno , nem 
o poder manter, porfer lugar falto de man- 
timentos 5 teve confelho fobre o que fariam ; 
e aíTentou-fe , que déíTe na Cidade de Mom- 
baça , e a deílruiffe. E o que obrigou a Nu- 
no da Cunha accommetter eíle feito , foram 
algumas palavras que foltou publicamente 
contra o Rey de Mombaça , dizendo , que 
folgara de ir devagar, enão tão de preíía , 
por paliar á índia aquellc anno para o cafti- 
í^ar ; porque quando paíTou por Zanzibar, o 
Rey daquella Ilha lhe fez queixume da má 
fonuIK P.L S vi- 



274 ÁSIA DE João de Barros 
vizinhança que recebia d'ElRey de Momba- 
ça , fazendo-lhe muitos damnos , fomente 
porelle ier fervidor d'EIP.e7 de Portugal. E 
por contentar a ElRey de Zanzibar , e não 
moílrar fraqueza ao de Melinde , fe deter- 
minou ncíla empreza ". E poíto que ElRey 
de Melinde offereceo a Nuno da Cunha oito- 
centos homens, elle os não quiz acceitar, 
porque na detença de os ajuntar perdia tem- 
po , e dava efpaço a ElRev de Mombaça 
que fe apercebeííe melhor; acceitou porém 
cento e cincoenta homens , que tinham juntos 
dous Mouros principaes da terra , a hum cha- 
mavam Sacoeja , e ao outro Cide Bnbac , pa- 
ra os levar por guias naquella viagem , e 
também porque de hum delles tinha neceíTi- 
dade. Porque quando aíTentou de tomar a- 
quella Cidade de Mombaça, logo com os 
Fidalgos , e Capitães com que teve confeiho 
fe determinou , que dando-lhe Deos vitoria , 
e tomando a Cidade, a déíTe a hum Mouro 
por nome Munho Mahamed , filho de Sa- 
coeja Rey de Melinde , que reinava no tem- 
po 

a Diogo do Couto cap. r. do íiv. 6. e Caftnnheda no 
cap. 8 6. do liv. 7. ditem y que o que olnçcu a Nuno da 
Cunha Ir Jobre Mombaça , foi haver mandado recado a El- 
Key delia, fedindo-lhe licença para ir invernar nofeu por^ 
io \ e ElRey parccendo~lhe que era invenção do Governa- 
dor para lhe /ornar a Cidade , mandou- fc-lhe efcufar , de que 
fe refentio Nuno da Cunha , e determinou de o cajligar , 
como fei. 



Década IV. Liv. líl. Cap. IV. 275- 

po que D. Vafco da Gama Conde Almirante 
per alli paíTou , em remuneração do gazalha- 
do que nelle achou, e níli per outras coufas 
cm que clle moílrava a Iciíldadc que tinha 
com CS Portuguezes. E como as boas novas 
todos folgam de as dar , foi revelado a Mu- 
nho MaJKimed efta determinação j pelo que 
fe foi logo a Nuno da Cunha a lhe dar as 
graças do que ordenava delle por os fervi- 
cos de feu pai , dizendo mais , que dle ten- 
do mais reipcito ao lerviço d'EÍRey de Por- 
tugal , que á mercê , e honra que lhe queria 
dar 5 UiQ manifeftava que elle era pouco apa- 
rentado 5 porque ElRey feu pai o houvera 
em huma de fuás efcravas , de geração Ca- 
fre , e que feu irmão Cide Bubac , e fobri- 
nho d'ElRcy que então reinava , ainda que 
era mais moço , era do fangue dos Reys de 
Oiiiloa , que a elle devia dar o Reyno de 
Mombaça , porque per fua peílba , e poíTe 
poderia fer mais obedecido ; e que fe a dle 
quizeffe fazer alguma mercê , foffe em lhe 
dar o ofiicio de Governador do Reyno , no 
qual cargo cUq confiava que havia de mere- 
cer a EIRey de Portugal a m.ercê que lhe fí- 
zeíTe. Nuno da Cunha efpantado da pouca 
cubica , e menos ambição defte Fidalgo 
Mouro , fendo dos aífcdcs que traílornani 
os mais dos homens , e fua muita prudência , 
perque lhe pareceo digno de outro Reyno ^ 
S ii o lou- 



276 ÁSIA DE João de Barros 

o louvou muito , e deixou a determinação 
daquclle negocio para quando foííe fenhor da 
Cidade. Elle Mahamed foi com elle com 
fcíTcnta homens em hum zambuco , e afli Ci- 
de .Bubac em outro zambuco com outros 
tantos homens. Dos noíTos era a gente da náo 
de Fero Vaz da Cunha , e a de D. Fernando 
de Lima , e a dos dous navios de Diogo Bo- 
telho Pereira , e a do navio de Lioncl de 
Taide , c a do bargantim de Bartholomeu 
Freire , e a que levava Jordão de Freitas em 
hum zambuco da terra com parte da gente 
enferma que lhe ficara , por eílar já conva- 
leícida , que por todos faziam oitocentos 
homens , com que partio Nuno da Cunha 
de Melinde a 14 de Novembro. 

CAPITULO V. 

Como Nuno da Ct/nha foi fohre a Cidade de 
Mombaça , e a tomou, 

T Uno da Cunha chegado de fronte de 
Mombaça em Jiuma Ilheta que tem de 
fora a barra , huma feíla feira ao meio dia 
17 de Novembro , veio ter com elle hum 
Mouro honrado em hum zambuco bem 
acompanhado de gente , o qual era fenhor 
de hum lugar chamado Tondo , vizinho 
de Mombaça , e vinha-fe oíferecer a Nuno 
da Cunha para o acompanhar naquella em- 

pre- 



Década IV. Liv. III. Cap. V. 177 

preza. E porque elle feefciirou de o levar, 
dizendo que bailava a gente Portugueza que 
tinha 5 e que íc levava de Melinde a que elle 
via , era por lerem oífendidos d'ElRey de 
Mombaça , por caufa de lerem fervidores 
d'ElRey de Portugal. Ao que reipondeo elle 
lenhor do Tondo , que também por eíTas 
mefmas razoes elle podia ir no conto dos ou- 
tros ; porque vaíTallo d'ElRey de Portugal 
elle o era no animo , mas que fora de tao 
humilde fortuna , que nunca os Portuguezes 
de íua terra fe quizeram fervir : e fe por ra- 
zão de oíFenías recebidas d'ElRey de Mom- 
baça , por deíejar fervir ElPvey de Portugal , 
admittia outros , ninguém as tinha recebido 
por efla caufa mais que elle : e que nao 
podia ler maior oífenia , que ir ElRey de 
Mombaça fobre dk ; e depois que vio que 
per armas o nao podia vencer, aífentára paz 
com elle , e eftando feguro por as condi- 
ções, e juramento da paz, á traição o pren- 
dera , indo elle a fua caía viíitallo , onde o 
teve muito tempo em prizao , té que os po- 
vos Sopangas por razão de parentefco , e 
amizade que com elle tinham , fizeram por 
feu refpeito guerra a ElRey de Mombaça : 
e por condição de pazes , que com elle af- 
fentáram , fora elle folto da prizao , e fe tor- 
nara para feu Senhorio : e por memoria da 
injúria que d'EiRey de Mombaça recebera 

em 



278 ÁSIA DE João de Barros 

em o ter prezo em ferros , elle trazia aquel- 
la cadeia de prata , que lhe elle Nuno da 
Cunha via nos pés , a qual não havia de ti- 
rar té que prendeííe a ElRey de Mombaça 
em outra tal prizao como elle o tivera , e 
que por eftas razões de fervidor d'ElRey 
de Portugal , e como tal ofFendido d'ElRcy 
de Mombaça, o podia levar comfigo. Nu- 
no da Cunha lho concedeo , vendo a dor , 
e mágoa com que lhe contava eíta fua of- 
fenfa. 

A Cidade de Mombaça, como diíTemos 
na primeira Década'', quando o Viíb-Rey 
D. Francifco de Almeida a deftruio , tinha 
hum baluarte em huma das bocas do eílei- 
ro , o qual agora neíle tempo eftava muito 
mais forte , e melhor provido de artilhe- 
ria 5 por ElRey ter recolhido toda a que fe 
pode haver de náos noíTas que fe perderam 
naquella paragem , de que eram Capitães 
D. Fernando de Monroy , e Francifco de 
Soufa Maneias , e aífi de muitas munições , 
porque ElRey de Mombaça era já avifado 
per Mouros de Melinde como Nuno da 
Cunha hia fobre elle. A qual novajiao fo- 
mente o fez prover de toda defensão nefta 
entrada , onde elle tinha toda fua força , mas 
ainda da terra firme tinha mettido na Cida- 
de cinco , ou féis mil frecheiros dos Ne- 



gros 



a No cap, 7. do Uv. S. 



Década IV. Liv. III. Cap. V. 279 

gros , a que elles chamam Cafres gente fol- 
ta , eleve na maneira de leu pelejar, e ou- 
lada em com rn et ter. 

Depois que Nuno da Cunha furgio na 
barra defte rio , pofto que trazia comíigo 
Mouros de Melinde, que fabiani mui bem 
a entrada , por não confiar delles tamanho 
negocio , mandou primeiro a Pêro Vaz da 
Cunha feu irmão em hum batel grande , e 
Diogo Botelho Pereira no leu com os Pi- 
lotos da Armada , e alguns dos Mouros , 
que entraíTem pelo rio , e foíTem fondando 
té o furgidouro ante a Cidade , onde efpe- 
rava entrar com as náos por ferem gran- 
des , dando-lhe avifo que era o fundo para 
iíTo 5 e para não haver muita detença na 
tornada , logo de dentro lhe fizeíTem íinal 
para dcfirir as vélas , e entrar. O que elles 
fizeram com aíTás perigo de luas peiToas , 
porque á entrada , e á íahida foram bem fer- 
vidos de artilheria , que eftava fobre o rio 
no baluarte que diíTemos ; mas aprouve a 
Deos que não receberam damno algum. Fei- 
to o íinal que Nuno da Cunha efperava 5 
poz-fe em caminho , dando ás trombetas , e 
a todo outro género de inílrumentos , e de 
envolta com grandes gritas , como que da- 
vam Sant-lago , com.mettendo os inimigos. 
Os navios hiam nefta ordem , Jordão de Frei- 
tas hia diante em hum zambuco ^ . que lo- 
go 



28o ÁSIA DE João de Barros 

go reccbco do baluarte duas bombardadas , 
das quaes huma levou a perna a hum An- 
tónio Dias natural do Crato , de que logo 
morrco. Atrás Jordão de Freitas feguia Lio- 
iiel de Taíde em leu navio ; e poílo que as 
obras mortas lhe foram desfeitas com pe- 
louros , não perigou alguém. A Diogo Bo- 
telho Pereira , que hia apôs elle , matáram- 
Ihe o feu difpenfeiro , e quebráram-lhe hu- 
ina peça da ília artilheria. E no zambuco 
em que hiam os Mouros , quebraram a mão 
direita a CidcBubac, fobrinho d'ElRey de 
Melinde. E as náos em que hiam Nuno da 
Cunha , e D. Fernando de Lima , como fa- 
ziam maior pontaria , e delias ao baluarte 
não havia mais diftancia que hum tiro de 
pedra , foram bem varejadas da artilheria j 
e fe não acontecera quebrar hum tko da náo 
de Nuno da Cunha huma peça groíTa do 
baluarte , que embaraçou os Mouros , com 
que fe detiveram hum pouco , em quanto 
as náos paíTáram , fempre houveram de re- 
ceber maior damno , porque elles eram pref- 
íes, e certos no tirar per induftria de dous 
renegados que com elles citavam. Finalmen- 
te não ficou alguma das noíTas velas fem ncl- 
la haver lenha , e fangue , que fez efte ba- 
luarte. E porém a feu pezar Nuno da Cu- 
nha foi tomar o poufo de fronte da Cida- 
de já quaíi Sol poílo em oito braças de fun- 
do. 



Década IV. Liv. III. Cap. V. 281 

do. E por o cípaço do dia fer pequeno , 
lúo houve mais tempo , que em quanto ti- 
nha luz, metter-íe cllelogo cm hum cíquifc 
com algumas pelToas que para iílb chamou , 
c andou rodeando a Cidade para ver per que 
parte a podia commetter. Chegado a hu- 
ma ponta , onde os Mouros tinham huns 
zambucos varados , que era per onde o Vi- 
ib-Rey D. Franciíco entrou , quando dcf- 
truio aquella Cidade , achou alli por ref- 
guardo de huma porta do muro que era bai- 
xo , feitos huns andaimos de madeira , com 
algumas defensões para que os nofibs nao 
fizeíTem per alli entrada. E perquc Nuno da 
Cunha nao ficou fatisfeito de todo do que 
vira por fer já boca de noite , como fahio 
o Luar, mandou D. Fernando de Lima no 
íeu efquife , que lhe foífe ao redor da Ci- 
dade ver o fitio delia y e viíTe fe os Mou- 
ros faziam alguma obra nos lugares que el- 
le notou , na qual ida lhe feriram o feu Mcf- 
tre em huma ma o com huma frecha herva- 
da 5 e a outro homem com outra , e fegun- 
do a força da herva de que ufam , foi ven- 
tura efcaparem. E porque os Mouros , alem 
de terem vigia no que os noífos faziam , 
fcntíram a ida do batel , toda a noite lan- 
çavam fettas perdidas fobre as náos , que 
parecia que clioviam , tantas , e táo conti- 
nuas eram. E o que fazia pontaria aos Mou- 
ros , 



282 ÁSIA DE João de Barbos 

ros , era , que das mefmas náos para terror 
tiravam á Cidade aos lugares onde viam 
luzir candeas , e com o fuzilar dos noflbs 
tiros frechavam os Mouros melhor, e mais 
direito. Tornando D. Fernando , teve logo 
Nuno da Cunha confelho , e aíTentou-fe nel- 
Ic o modo que fe havia de ter para ante 
manhã fahirem em terra , e aquelle efpaço 
da noire que ficava 5 huns o defpendêram cm 
concertar fuás armas , outros em fazer con- 
fifsocs , e teftamentos , e outros em foliar , e 
cantar , moílrando o alvoroço que tinh^am 
para vir o dia. 

Em rompendo a manhã eftava já Nuno 
da Cunha pofto em terra afaliado hum pou- 
co do rofto da Cidade , havendo fer aquel- 
le lugar a melhor parte , perque a podia 
combater "■, Seria a gente com que elle com- 
metteo eílaempreza quatrocentos e cincocn- 
ta homens , em que haveria feíTenta efpin- 
gardeiros ; e deíla gente , tanto que fe vio 
em terra , apartou cento ecincoenta- homens 
Fidalgos 5 e Nobres , e trinta efpingardei- 
ros , com os quaes mandou a feu irmão Pê- 
ro Vaz da Cunha diante caminho do muro 

da 

a Efcreve Franclfco de Andrade , que Nuno ãa Cunha 
ãepmbarcoa iunto de Iiuma mejquitn , pouco abaixo ia Ci- 
dade y onde havia bom de jamba rcadonro , o qual lhe mojlroii 
hum Mouro Piloto , çue viera com Jordão de Freitas. E 
Diogo do Couto diz., (jue ejle Mouro veio da Cidade fU' 
gido a nado -. e o mejmo dix Caftanheda- 



Década IV. Liv. III. Cap. V. 283 

da Cidade , que diftaria daquclle lugar mil 
pafibs , c Nuno da Cunha nas luas coílas 
com o reílo da gente o começou a íeguir. 
Pêro Vaz , como quem deíejava ganhar a 
honra da dianteira que lhe fora dada , poí- 
to que topou aJguns Mouros fora das por- 
tas da Cidade , que per entre huns vallos , 
c fepulturas dos feiís , de que alli havia mui- 
tas , Ilie fréchaíTem a gente , nao curou de 
fe embaraçar com elJes , fenáo ir avante té 
topar com o muro , e alli deo Sant-Jago , 
onde já os Mouros eram muitos , e tinham 
feridos dos noíTos alguns com frechas d'er- 
va. Os Mouros quando fenríram a dos nof- 
fos que lavrava mais de improvifo , que 
eram as cfpingardadas , e lançadas com que 
logo ficavam eílirados , encommendavam a 
vida aos pés , e afaftavam-íe do perigo o 
mais que podiam ; eoque os fez retirar mais 
fem tento foi , que como efperavam por Nu- 
no da Cunha , por ferem avifados de Me- 
linde que hia fobreelles, tinham poíto fuás 
mulheres , e filhos , e a melhor fazenda em 
falvo entre o arvoredo da Ilha , e fomente 
ficou alguma gente frécheira , com que tra- 
balharam o que puderam por entreter os nof- 
ios. Mas quando os viram fubir per cima 
dos muros como aves , largaram a Cidade 
de maneira , que Pêro Vaz por final que já 
era dentro , mandou em huma cafa alta ar- 

vo- 



284 ASlA DE JoÂo DE Barros 

vorar huma bandeira , para que a viíTc íèu 
irmão , e alli a gente que ficava nas náos , 
os quaes tanto que houveram vida delia , 
logo rclpondêram a efte final de vitoria com 
grandes gritas , e tiros de artilheria para 
maior terror dos Mouros : e afii alvoroçou 
os noíTos que citavam cm terra , que vendo 
Nuno da Cunha que os nao podia ter , em 
chegando onde Pcro Vaz o efperou , deo 
lugar a D. Fernando que com a gente da 
lua ndo tomaíTe outra rua , e Pêro Vaz fe- 
guiffe a que levava, celle caminhou direito 
ííos paços d'ElRey , que eílavam no alto , 
onde todos fe haviam de ajuntar, mandan- 
do também abrir as portas da ribeira á gen- 
te do mar , que cnrraíle na ordenança que 
cIIq tinha aíTentado. 

E porto que a Noflb Senhor aprouve 
que cila Cidade fe entrou tao levernente , c 
a quiz dar aos noíTos íem íangue aquelle pri- 
meiro dia 5 não fomente da herva , mas de 
alguns votos que os Mouros tinham feitos , 
que nao fe haviam de fahir da Cidade , cor- 
reo alguma gente noíTa grande perigo , en- 
tre os quaes foi D. Fernando de Lima com 
hum Mouro homem mancebo, filho de Mu- 
nho Mototo parente d'ElRey , e leu Rege- 
dor. Eíle mancebo era bem difpoílo , e an- 
dava de amores com huma íbbrinha d'El- 
Rej j e o dia de antes que os noíTos che- 

gaf- 



Década IV. Liv. III. Cap. V. 285- 

gaiTem , quando a Cidade le defpejava , fahin- 
do-ie efta donzclla com outras mulheres , 
acertou citar o teu íervidor em companhia de 
outros homens mancebos , c nobres ; e per- 
paíllíndo per elles , diííe elhi : Qtie fraque- 
za he efta , cavalJeiros de Mombaça , que 
confentis que nós- outras mulheres fejamos 
a dl lançadas de noffas cafas , e repoifo , e 
%os vamos me t ter em poder dos Negros Ca- 
fres ? Elias palavras aíFi envergonharam o 
ièu fervidor , que chegando-le a eila , em 
voz altadilTe: Pois que a jfi me afrontas em 
viinha face , eu juro por o amor que te te- 
72 h o , que antes de dous dias me chorem 
muitos que me querem bem \ e tu fe mo qui- 
seres ^ não meterás para me dar o galar- 
dão delle. Eíle ajuramentado , com outros 
mancebos , fizeram voto de morrerem per 
gloria de algum honrado feito , e cada 
hum fe ajuntou com parceiros de que fe aju- 
daíTe ; e o ardil que aquelle mancebo teve , 
foi metter-fc em huma caía , e acertou de 
fer per onde hia D. Fernando de Lima ; e 
quando nas armas , e companhia que leva- 
va conheceo fer peíToa notável , em Dom 
Fernando paíTando pela porta , fahio de den- 
tro como hum leão , que eílá efperando a 
preá para fazer aíTalto , e remetteo em dous 
pulos , e o levou nos braços , e o derri- 
bou no chão. D. Fernando , poílo que era 

ho- 



2o6 ÁSIA DE João de Barros 

homem de boa eílatura , e forço íb , e mnn- 
ccbo , foi eíle fobreliilto de maneira, que 
no iiiítante delie nao pode mais fazer , que 
abraçar- fe bem com o Mouro por lhe atar 
as mãos , no qual rcmpo por parte de cada 
hum acudiram muitos valcdores , e ninguém 
naquelle coniiiíro o fez melhor , que hum 
criado do mefmo D. Fernando , com cuja 
ajuda o Mouro foi morto , e aíli o foram 
outros em outras partes , que com o mef- 
mo propofiro commcttêram íemelhantes ca- 
fos para morrer. 

Finalmente a Cidade foi de todo def- 
•pejada dos vivos , porque os m.ortos fica- 
ram pelas ruas ; e quiz Deos que dos Por- 
tnguezes , poílo que foram mais de vinte e 
cinco feridos , nao houve algum morto , nem 
que correííe perigo de morte , fenao Luiz 
Falcão filho de João Falcão , e António da 
Foníèca filho de João da Fonfeca Efcrivão 
da Fazenda d'EiRev por caufa da herva. E 
quem vira a grandeza deíla Cidade , a mul- 
tidão do povo delia , o agro íitio em que 
eftá íituada , a eílreiteza das ruas , que as 
mulheres ás pedradas a podiam defender das 
janeilas , e dos terrados , e matar os noflbs , 
parecer-ihe-ha que milagrofim^ente Deos a 
quiz dar nas noíTas mãos , e cegar aquellcs 
Mouros para a deípejarem tão levemente. 

CA^ 



Década IV. Liv. ITT. 287 

CAPITULO VI. 

Do que Nuno da Cunha fez depois de to- 
mar a Cidade de Mombaça com alguns Mou- 
ros que tornaram a ella : e das no-oas que 
lhe vieram de Simão da Cunha , e de ou- 
tros Capitães da Jua Armada, 



T 



Anto que Nuno da Cunha fc vio em 
poíTe de Mombaça , mandou arvorar a 
bandeira da Cruz de Chriílo na mais alia 
torre das cafas d'ElRey , que eram grandes , 
e fortes a modo de caílello , e dahi deo li- 
cença aos Capitães quefoílem dar huma ce- 
va d ura á gente d'àrmas no esbulho da Ci- 
dade , o qual de couías ricas foi pequeno, 
por os Mouros terem o principal pofto em 
íúvo , fomente de mantimentos eftava abaf- 
rada , que foi a vida a muitos por a neceC- 
fidade em que eílavam delles , com a per- 
dição da náo de Nuno da Cunha \ e fatif- 
feita a gente aquelle dia , como a Cidade 
era grande , e derramada , ficou Nuno da 
Cunha recolhido naquellas cafas d'ElRey , 
pondo os Capitães em fuás cftancias em ca- 
da huma das bocas das ruas , que aili vi- 
nliam dar, e aíTi nos lugares de fufpeita per 
onde os Mouros podiam commetter. 

Quando veio ao outro dia , que era 
Domingo , mandou a D. Fernando de Li- 
ma 



^88 ASLV deJoâo de Barros 

ma "" com té duzentos homens que foíTe ao 
baluarte da entrada do rio a lhe trazer as pe- 
ças de artillieria com que os Mouros lhe ti- 
raram , as quaes elles já tinham enterradas , 
de que algumas nao apparecéram ; e entre 
ellas , e outras peças que fe acliáram na Ci- 
dade aíTentadas em partes per onde aos Mou- 
ros parecia que os ncílbs haviam de entrar , 
que era per onde entrou o Viíb-Rey Dom 
Franciíco d'Ahrieida , feriam por todas vin- 
te , de que a maior parte eram de metal , 
em que havia algumas groíTas , e com as 
armas Reaes de Portugal , por ferem das 
náos perdidas que atrás diíTemos. A torna- 
da delia ida que D. Fernando fez , vindo 
per fora da Cidade entre inins hervaçaes , e 
lugares encubertos demoutas, em que bem 
poderiam eílar mil homens , lhe fahio hum 
grande golpe de Mouros ás frechadas ; e 
como o lugar era para elles defenfavel , por 
ferem mui leves no faltar , e os noíTos vi- 
nham muito armados , e defpeados do ca- 
miniio , por a grande calma que fazia , fré- 
chavam-os a feu prazer , em que D. Fer- 
nando houve três frechadas , e feu irmão 

D. 

a Franclfco <Je Andrade , e Diogo do Couto , e Caf- 
tnnheda di-^evi , tjue era D. Kodrigo de Lima ^ irmão de 
JD. Fernando , e <jne mj^a entrada do baluarte foi ferido 
de htima frechada , de que morreo. E João de Barros diz 
no fim do cap. 7 , que foi ferido na peleja da náo de Mé* 
ca y de (jtic morreo em Caíayate. 



Década IV. Liv. III. Cap. VI. 289 

D. Rodrigo de Lima outra , e aíli outros , 
qwe foram mais de vinte , de que logo alli 
ficou morto hum João Ribeiro, criado do 
Cardeal Infante D. x\íFonro , e depois fale- 
ceram alguns de peçonha da herva que os 
Mouros ufam. Ao repique defta revolta Nu- 
no da Cunha m^andou íeu irmíío Pêro Vaz ; 
e poílo que ao tempo que elle chegou , Dom 
Fernando era já dentro dos muros da Ci- 
dade , andavam os Mouros tão oufados por 
aquelle damno que thiham feito , que em 
vendo a Pêro Vaz , o foram demandar fem 
temor , e lhe feriram logo muitos homens ; 
mas como os noíTos efpingardeiros acudi- 
ram , refpondendo ás fuás frechadas , com.e- 
çiram derribar alguns, com que os outros 
íe puzeram em filvo. 

Ao outro dia feguinte , pela oufadia do 
paíTado , chegáram-fe tanto ás cafas onde 
Nuno da Cunha eílava apofentado , que co- 
meçaram de as frechar , como quem provo- 
cava aos noílos que fahilTem a campo ; mas 
cuílou-lhe efte atrevimento fangue , e vidas , 
e aos noíTos que os fizeram retirar dous mor- 
tos, e ficar Pêro Vaz da Cunha com huma 
perna atraveíTada de parte a parte , e ferido 
D. Simão filho de D. Diogo de Lima , e 
outros homens de forte. Por efta caufa man- 
dou Nuno da Cunha a Lionei de Ta ide 
com gente queimar algumas cafas pela Ilha 
Tom. IK P. /. T poí 



290 ÁSIA DE JoÂO DE BaRPvOS 

por a defpejar dos Mouros , que cada dia 
vinham dar rebates , nos quaes os noíTos pa- 
deciam muito dnmno por o grande hcrva- 
çal 5 c arvoredo , que aíTi de fora , como de 
dentro da Cidade havia , que peava muito 
os Portuguezes , e encubria os Mouros pa- 
ra mais a ícu íalvo os ferirem. Polo que 
Nuno da Cunha mandou decepar algum ar- 
voredo , que fazia eílas cncubertas , e nao 
confentio que a gente foííe fora da Cidade. 
Os Mouros como fentíram efte receio dos 
noíTos , com mais algum atrevimento , por 
a Cidade fer grande , em magotes faltavam 
dentro , c hiam a algumas cafas a furtar man- 
timento ; e o que fabiam ficar efcondido 
nellas , e em três , ou quatro dias que iílo 
continuaram , fempre hiam diminuidos , fi- 
cando alguns monos peias ruas do ferro 
dos noíTos. 

Nefte tempo veio Aleixo de Soufa ^ , 
que Nuno da Cunha deixara com a gente 
doente em Zanzibar , ao qual mandara cha- 
mar , para que com a gente sa fe achaííe na 
tomada daquella Cidade , o que elle nao 
pode fazer antes por tempos contrários que 
teve ; com tudo ainda veio em conjunção 
que ganhou muita honra. Porque fahindo 
Nuno da Cunha a cortar huns laranjaes , on- 
de 

a Diogo do Couto efcreve , que quando Simão da Ca- 
nha clidgou a Momhi^a^ vinha com elU Aleixo de Soufa, 



Década IV. Liv. III. Cap. VL 291 

de fe vinham mcrter os Mouros , e eílando 
já com os machados aos pés dcJles , deram- 
Ihe rebate , que pehi outra parte da Cidade 
entravam muitos Mouros a roubar, contra 
os quaes elJe mandou Aleixo deSoufa com 
alguma gente da lua , e D. Rodrigo de Li- 
ma , que hia ainda ferido da frechada do 
dia atrás , e Diogo Botelho , os quaes ma- 
taram alguns Mouros , e feriram muitos, 
que Já foram morrer entre os feus , fegun- 
do fe depois foube , por cuja caufa houve 
grande pranto entre todos , principahr.ente 
por hum delles , que era dos principaes , o 
qual de propoíito fe veio oíFerecer á morte 
por fizer alguma boa forte , havendo que 
fc neíle commettimento morreíTe , que fal- 
vava fua alma ; e a forte que fez foi che- 
gar-fe tanto a Aleixo de Soufa , que lhe deo 
huma cutilada per hum braço, e outra aci- 
ma da fobrancelha , por o qual atrevimen- 
to elle ficou morto ás eilocadas aos pés de 
Aleixo de Soufa por fua mao com ajuda de 
Luiz Dória , que acudio a eíla revolta. A 
morte deíle Mouro caufou tanta trifteza , e 
terror entre os feus , que afloxáram aos nof- 
fos , fem mais vir á Cidade , e principal- 
mente por lhes Nuno da Cunha mzandar 
queimar quantos barcos havia ao redor da 
Ilha , por os quaes elles da terra firme íe 
paíTavam á Ilha ^ e aííi mandou vedar hum 

T ii paf. 



2C}z ÁSIA DE João de Barros 

paflb , pcrque de maré vazia paíTava miii- 
la gente. 

Eítando as coufas neíle eftado , foiíbe 
Nuno da Cunha per lium zambuco que veio 
de Moçambique com cartas de Simão da 
Cunha leu irmão , com.o fora alli ter a 9 
de Setembro , e como depois vieram ter 
ao mefmo porto Francifco de Mendoça , 
c D. Francifco Deça Capitães de duas náos , 
e que o navio , de que era Capitão AíFon- 
fo Vaz Azambujo , fe perdera em huma 
Ilha , a que os mareantes chamam eie João 
da Nova , que diíla de Moçambique qua- 
renta e féis léguas , na qual toda a gente 
fe falvou 5 e tirados alguns mantimentos do 
navio y fe fuftentáram com elles , e com 
grajaos , rolas , e codornizes , de que a Ilha 
he muito cheia , e tão m.anfas que as to- 
mam á mão. Defta gente logo foi huma 
batelada para Moçambique, em que hia o 
Piloto 5 c Meílre do navio ; e Simão da Cu- 
nha 3 tanto que eftes chegaram , mandou a 
Nicolao Jufarte , hum Fidalgo mui prático 
na arte de navegar , que trouxeíFe a outra 
gente que lá eftava havia cincoenta e dous 
■dias , mantendo-fe da maneira fobredita. E 
aíli foube mais Nuno da Cunha que o ga- 
leão de Bernardim da Silveira per indícios 
entendiam fer perdido no parcel de Cofala , 
como de feito fe perdeo , mas não fe fou- 
be 



Dec.IV. Liv.III. Cap. vi. eVII. 293 

be onde. Nuno da Cunha ficou algum tan- 
to coníblado com eftas novas , preiumindo 
que as náos de António de Saldanha , e 
Cí areia de Sá , por clles terem mais expe- 
riência da navegação , e levarem Ipons Pi- 
lotos 5 e Officiaes , iriam per fóra da Ilha 
de S. Lourenço á índia , dos quaes depois 
teve nova ler aíli. 

CAPITULO VIL 

Como Nuno da Cunha mandou câhvidar cer- 
tos fenhores Mouros , que mandajjem gen- 
te para povoar Mombaça : e como o 
Rcy delia fefez vajfallo ófElRey de 
Portugal com lhe pagar páreas. 

VEndo Nuno da Cunha como Mom- 
baça era huma Cidade mui grande , e 
a pouca gente que tinha , e os rel3ates que 
os Mouros lhe davam cada dia, e como os 
naturaes da terra nos pés eram mais leves 
em commetter , e fugir , e ufavam da her- 
va em fuás frechas , com que faziam tanto 
damno, determinou de mandar vir gente da 
terra leve , e folta , e coílumada áquelle feu 
modo de pelejar, para com os noÂbs faze- 
rem mais eífeito , lançando os Mouros de 
roda a Ilha. Sobre iífo efcreveo a ElRey 
de Melinde , o qual logo mandou hum feu 
íobrinho irmão do Príncipe herdeiro^ com 

mui- 



294 ÁSIA DE JoÂo DE Barbos 

muitos Mouros honrados , e té quinhentos 
homens , que foi para elJes huma nova de 
muito contentamento. Porque aílí por razão 
de competência que tinham , como por fa- 
berem que a Cidade ficava ainda com mui- 
ta fazenda , vinham mui alvoroçados para 
fe vingarem , e fazerem proveito. Nuno da 
Cunha os recebeo com muita feíla , e gran- 
de eftrondo de trombetas , e atabalcs para 
entriftecer aos moradores de Mombaça. E 
como a Cidade eílava defpejada , foram-fe 
eftes novos hofpedes apofentar á fua von- 
tade 5 e mui contentes por acharem esbulho , 
que para elJes era boa fazenda , da qual 
mandaram logo carregados os navios em 
que vieram. Da m.efma maneira, e com a 
mefma boa vontade veio per recado de Nu- 
no da Cunha ElRey de Montangane , que 
he huma pequena terra vizinha a Momba- 
ça , e mui vexada da vizinhança deila por 
a amizade que comnofco tinha , com té du- 
zentos homens , por elle fer mui fraco , e 
desbaratado por ElRey de Mombaça. E 
por a mefma caufa ElRey da Ilha de Pem- 
ba , que he fronteira a Mombaça , por fer 
mui abaílada de carnes , e refrefco da terra , 
mandou grandes prefentes a Nuno da Cu- 
nha ; e outro tanto fez ElRey de Zanzi- 
bar, e todo o contorno de Mombaça , por 
todos eílarem oífcndidos d'ElRey , como 

de 



Década IV. Liv. III. Cap. VII. 295- 

de hum tyranno poderoíb , que os queria 
fobjugar , c todos por cfta cauía íe moílra- 
vam contentes da ília deftruiçao , e noílbs 
amigos. 

Com eftes vizinhos coftumados a pele- 
jar , e aos ares da terra , em companhia 
dos Portuguezcs , que lhes davam animo , 
os Mouros de Momb:iça defpejáram a Ilha , 
paíTando-íe á terra firme , defronte de hum 
paíTo 5 que de maré vazia o podiam paílar 
a váo 5 e náo mais longe delle , que diílan- 
cia de hum tiro de bombarda , pelo qual 
como era de noite , faziam entradas alguns 
del!es a vir bufcar a luas cafas do que lhes 
ficara nellas , e mantimentos , porque mor- 
riam de fome. A efte lugar , que tinha for- 
ma de arraial , mandou Nuno da Cunha 
Lionel de Taíde , e D. Fernando de Lima ; 
c como os Mouros tinham boa vigia , fo- 
ram fentidos , e fizeram menos do que ef- 
peravam ; todavia de caminho queimaram 
na Ilha algumas cafas á maneira de quin- 
táas que eftavam ermas. Neílas entradas , que 
os Aíouros faziam mais com fome , que 
com vontade de pelejar , vieram a defaver- 
gonhar-fe tanto por entrarem na Cidade , 
que fahio a ilTo Pêro Vaz da Cunha ; e 
pofto que no campo ficaram eílirados vinte 
e cinco Mouros , foi Fero Vaz ferido de 
huma frecha , que lhe atravcíTou huma per- 
na 



'•^c^ô x\SIA DE JoXo DE Barros 

na abaixo do giolho , c quiz Dcos que nao 
perigou 3 fomente morreo da herva hum Fi- 
gueiredo criado de D. Luiz da Silveira Con- 
de da Sortelha. Nuno da Cunha , além da 
ordem de pelejar , e faquear a Cidade , que 
deo aos Mouros que vieram de Melinde, 
e aos outros que diíTemos , também lhes 
mandou que derribaíTem as cafas , e deftruif- 
fem tudo , porque íua tenção era não dei- 
xar coufa em pé , pois tanto damno recebia 
daquella terra. 

Quando ElRey de Mombaça entendeo 
que Nuno da Cunha determinava invernar 
relia , e que os Mouros feus vizinhos der- 
ribavam as caías , e cortavam feus palma- 
res 5 que era parte de fua vida , por ler feu 
mantimento , mandou dizer a Nuno da Cu- 
nha que lhe pedia , que folgaííe antes de o 
haver por vaííallo d'ElRey de Portugal , 
que deílruir-lhe aquella cafa de fua vivenda , 
e berço de feus filhos , e lhe déíTc licença , 
e feguro para huma pcíToa de qualidade, 
que elle mandaria a faliar-lhe em pazes. E 
paíTcidos alguns recados , primeiro veio a 
Nuno da Cunha hum. Mouro honrado por 
nome Munho Mototo , que era parente 
d'ElRey , e aíTentou com Nuno da Cunha , 
queElRey fe fazia vaíTallo d'EiRev de Por- 
tugal 5 com tributo de mil e quinhentos mi- 
dcaes de ouro cada anno , (vale cada mitical 

de 



Decaua IV. Liv. m. Cap. vil 107 

de ouro trezentos e ícíTcnta rcacs,) c Jogo 
pagaria três annos ; e por refgate da (Zlida- 
de , por a nao queimarem, e dcílruirem, 
daria doze mil miticaes , e ficaria obrigado 
fervir a ElRcy de Portugal , e de nao re- 
colher Turco , nem inimigo de Portuguczes 
em Juas terras ^ tornando o Mouro com ef~ 
te conferto , em final c]uc EiRey era con- 
tente , veio com mil e quinhentos miticaes 
em prata , e oiyo , dizendo, que o mais 
veria logo , por quanto fe Juntava por to- 
dos os moradores da Cidade , pois todos 
participavam defta mercê , e beneficio. 

Nefte tempo veio alli ter hum André 
Coelho , que andava levantado cm hum 
bargantij '' , com dezefete Portuguezes , que 
Nuno da Cunha recolheo , com lhe dar per- 
dão da culpa do levantamento, viílo como 
íe elle viera ofFerecer ao fervip d'ElRe)r. 
E defpachou a Diogo Botelho Pereira pa- 
ra Portugal com recado a ElRey do que 
paílara em fua viagem , e o eftado em que 
ficava 5 e como determinava ir invernar a 
Ormuz, o qual Diogo Botelho partio a 27 
de Dezembro de 1529, e chegou a Lisboa 

em 

d De outro levantada fax. menção Francifco de An- 
drade no cap. 48. da i. Parte y o (jiuil fe chamava Pêro 
Peixoto , que indo Nuno da Cunha de Melínde fará Mom- 
laca y o achou com çuaiorze Portugtie:(es em htuna fujla 
recolhido em liuma enfeada dacjueUa cojla , e perdoados , 
ris levou comjigo* 



29S ÁSIA DE João de Barros 

em Junho de 1)29, de quem ElRey foube 
íis novas da índia , e da jornada de Nuno 
da Cunha. 

CAPITULO VIII. 

Do que fizeram os Mouros de Mombaça 

nos dias que fe tratava a paz : e como 

Nuno da Cunha , ainda que dos Por- 

tuguezes morriam muitos , fe não 

quiz ir da Cidade , e a defi 

truio 5 e queimou, 

NAquelIes primeiros dias , em que fe 
_ tratava da paz , confiados os Mouros 
na prática delia , vinham á Cidade com al- 
gumas coufas da terra firme a vender aos 
noíTos , c converfavam os Mouros , que de 
fora alli eram vindos ; mas depois que Nu- 
no da Cunha apertou com elles , que cum- 
priíTem o que tinham promettido , apartá- 
ram-fe da communicaçao dos Portuguezes \ 
e paíTados alguns recados entre Nuno da 
Cunha , e EIRey fobre efte cafo , tornou a 
mandar-Ihe huma correição per toda a Ilha ^ 
derribando-Ihe cafas , e queimando pahna- 
res ; e porque elles acudiram logo a efte 
damno , em recompenfa delle houve Nuno 
da Cunha por bem de lhe abater o preço 
dos doze mil miticaes em fete , de que lo- 
go ElRcy mandou quinhentos j e para pa- 
ga- 



Década IV. Liv.III. Cap. VIIL 299 

garem efte dinheiro , mandou alguns ho- 
ir.cns principaes á Cidade , que viiTem as 
cnílis nobres que eílavnm em pé, para per 
feus donos fazerem o lançamento do que 
haviam de pagar ; e acharam que eílavara 
ainda por derribar mais de novecentas ca- 
ías principaes , lamentando com muitas la- 
grimas a ruina das outras. Mas com a com- 
municação que tiveram com os Mouros, 
per os quaes foiíberam que a maior parte 
dos Portuguezes eftavam doentes , esfriaram 
do negocio a que vinham , fazendo conta 
que Nuno da Cunha por fugir o perigo da 
doença defpejaria a Cidade. 

E na verdade os noíTos eftavam em ef- 
tado para clles terem eíla efperança. Porque 
homens que de dia , e de noite nunca dei- 
xavam as armas , e dormiam pouco , e co- 
miam fomente os mantimentos da terra , que 
era arroz , e milho ; e fendo o lugar na- 
quelles mezes doentio aos naturaes , quanto 
m.ais aos eftrangeiros , e mais vindo já a 
maior parte delles doentes do mar , nâo 
podiam deixar de cahir em grandes^ enfer- 
midades : e o que peior era , que fó a na- 
tureza tinham por mezinha, carecendo dos 
remédios , a que eram acoftumados em íaes 
tempos. E aífi morreram, de doença mais 
de duzentas peíToas , de que os principaes 
foram Pêro Vaz da Cunha , irmão de Nu- 
no 



300 ÁSIA DE João de Barros 

no da Cunha , e o menor de fcus irmãos , 
mancebo de grandes cíperanças , muito es- 
forçado , humano , e ordenado de outras 
muitas virtudes , D. Pedro da Silva filho 
de D. Fiiippe Lobo , Henrique Furtado de 
Mendoca filho de Affonfo Furtado , Dom 
Rodrigo de Noronha filho de D. Sancho , 
Gonçalo Pereira , Jorge Brandão filho de 
Duarte Brandão , Álvaro Peílana Eícrivão 
da Moeda de Lisboa , que por amizade 
que tinha com Nuno da Cunha fe foi com 
elle á Índia , Gafpar Moreira eftribeiro pe- 
queno que fora d'ElRey , e hum irmão 
feu 5 e outros homens deíla qualidade cria- 
dos d'ElRey , com asquacs mortes que aí- 
fombráram a gente , foi Nuno da Cunha 
por vezes requerido pelos Fidalgos que com 
eíle eílavam , que a vida delle importava 
mais ao ferviço d'ElPvey , que a de todos , 
que lhe pediam que puzeíTe lua peíToa em 
lugar menos enfermo , e eiles ficariam alii 
com a ordem que elle mandafife. Ao que 
Nuno da Cunha refpondeo , que Deos per 
elles' lhe dera aquella Cidade , que a não 
havia de defamparar , que apercebido eíla- 
va para o que Deos delle difpuzeííe ; e que 
conta daria elle a Deos , e a ElRey , e á 
fua honra , pondo-fe elle em íalvo , deixan- 
do-os a ellcs no perigo ? e aííi com muito 
animo ^ e conílancia eíperou todos os fuc- 

cef- 



DecadaIV. Liv.llí. Cap. VIII. 301 

ccíTos do tempo. E porque os Mouros per 
aviíb dos que vieram íòbre as pazes que 
cílavam na Cidade , lábia m dcíles requeri- 
mentos que Ic faziam a Nuno da Cunha, 
tinham eiperança que o poderiam mover 
algum dia , e não tomavam conclusão. E 
para os cfpertar , mandou Nuno da Cunha 
commetter a cílancia de Munlio Alototo , 
que eftava mais per todo palTo da Ilha para 
a terra firme. Ao que foi D. Fernando de 
Lima 5 que já era são das feridas que hou- 
vera , com duzentos homens ^ porque a mais 
gente toda andava enferma , e hcava em 
guarda da Cidade. Porem porque os Mou- 
ros foram avifados per hum cfcravo da ter- 
ra , não houve eíFeito efta fua ida ; mas de 
outra vez que elle foi ter a outra parte con- 
tra a terra deMelinde, de que os Mouros 
eílavam defcuidados , deo em hum lugar , 
onde matou muitos , e trouxe alguns cati- 
vos. 

Chegado o fim de Janeiro do anno de 
I5'29 5 veio ter a Mombaça hum Portuguez 
per nome Pantalião Pinto , que veio da ín- 
dia emhuma atalaia com mercadoria a Me- 
linde 5 o qual deo relação a Nuno da Cu- 
nha das diôerenças entre Lopo Vaz de Sam- 
paio , e Pêro Mafcarenhas. Apôs efte veio 
Baftião Ferreira Alcaide mór de Goa em 
hum navio , que lhe deo nova como Au- 
to- 



302 ÁSIA DE João de Bauros 

tonio de Saldanha , c Garcia de Sá paíTá- 
ram ambos á índia , pelos quaes Lopo Vaz 
de Sampaio , e Affonib Mexia Vcedor da 
Fazenda Ibubcram da íua vinda , e com fuf- 
peita que podia invernar naquella coda , o 
mandavam a clle com cartas , que lhe deo. 
Dahi a poucos dias veio de Ormuz huma 
caravella , de que era Capitão humi Pedral- 
vares do Soveral , o qual mandava Chrillo- 
vrio de Mendoça Capitão daquella Cidade 
a vifirar Nuno da Cunha com refrefco , e 
coulas para doentes , que deo vida a m.ul- 
tos 5 que das febres andavam mui maltrata- 
dos , fendo mortos quaíi no mefmo tempo 
de hum. deíaftre mais de vinte e cinco ho- 
mens , em que entrava Lioncl de Taíde , de 
huma frechada 5 e D. Rodrigo ficou ferido 
de outra , de que morreo depois em Calaya- 
te. E o cafo foi , que fendo Nuno da Cu- 
nha avifado , que os Mouros efperavnm 
ndos de Cambava , que com. mercadorias 
vinham fazer refgate a Mombaça , por que- 
rer haver á mão huma náo que alli veio 
ter , mandou lá dous batéis grandes com 
efpingardeiros , em hum dellcs hia D. Ro- 
drigo de Lima , e no outro Lionel de Taí- 
de. Efra náo com temor delies , e de hum 
bargantij que foi diante , de que era Capi- 
tão André Coelho , fe metteo em hum ef- 
treito , que caufou a morte a eftes dous Fi- 
da!- 



Década IV. Liv.IIL Cap. VIII. 303 

dalgos , e aos que com ellcs hiam. E aíll 
aos do bargantij , por fer o cftrcito tao eC- 
treito , que os Mouros das ribanceiras da 
terra os frechavam , principalm.ente de hu- 
ina tranqueira que fizeram de pés de pal- 
meiras , onde puzeram certas peças de arti- 
Iheria. E vendo os noíTos que nao podiam 
tirar dalii a náo , nem menos ardia com o 
fogo que duas vezes lhe puzeram , a deixa- 
ram ^'. E indo já os batéis bem frechados , 
para maior defaílre com a maré vafia ficou 
o bargantim atraveíTado , onde toda a gen- 
te pcreceo ás frechadas , efcapando fomente 
hum remeiro do bargantim , que veio dar 
nova da defgraça. 

Paliados eftes trabalhos , teve Nuno da 
Cunha confelho fobre o que firia daquella 
Cidade , por ter já dito , que dando-lha 
Deos, a havia de entregar a Munho Maha- 
med fobrinho d'ElRey de Melinde , por 
gratificar os méritos de feu pai na lealda- 
de que fempre tivera ; e por as razoes que 

com 

a EJla náo foi entrnãa dos noífos com morte de mui- 
tos Mouros , (jue a defenderam esforçadamente , na íjnat 
acharam muita fazenda , <jue com a prefa de a recolherem 
jl- defcuidárnm da maré que vajava , com que os latéis , e 
largantim ficaram em fecco , fohre os cjuaes acudiram tan- 
t:s Mouros , que ás frechadas mataram todos os do bar- 
gantim , íjue ficou mais perto de terra. Os hatéis não rece- 
í)2ram tanto damno por eflarem mais af afiados , c com a 
enchente da maré fe fahí/am com alguns mortos , e mui" 
tos feridos. Fiancifco de Andrade i. Farte y cap. 4S. 



304 ASlA DE JoAO DE Barros 
com ellc paíToii , que a cntregaíTe antes a 
Cicie Bubac feu irmão. E porque eíle pedia 
a Nuno da Cunha cento e cincoenta^ ho- 
mens Portuguezes , porque fem elles nao fe 
atrevia a dcíendelhi , aíTentouNuno da Cu- 
nha de a queimar antes , viílo quanto dam- 
no lhe podia cau&r efta gente. Chegado o 
tempo da monção para poder partir , man- 
dou repartir a Cidade entre todos os Mou- 
ros , que eram vindos em ódio d^ElRey 
delia , os quaes como eftavam magoados 
dos feus moradores , para deítruir tudo en- 
chiam os vãos das cafas de madeira , e pa- 
lha das outras calas da gente pobre , e pu- 
iiham-lhes o fogo de maneira , que com a 
força delle , cahindo a maior parte da Cida- 
de ' ficou toda feita cinza. 

- Na entrada de Março , porque o re- 
queria já o tempo , mandou Nuno da Cu- 
nha a João de Freitas em hum batel gran- 
de das ndos com peças de artilheria ao paj- 
ío da Ilha a entreter os Mouros , que nao 
paíTalíem a ella , a dar nas cortas dos nof- 
fos quando quizeíTem em.barcar, cem quan- 
to la efteve João de Freitas , mandou met- 
ter muita lenha nas cafas d'ElRe7 , onde 
ellepoufava, edar-lhe fogo, c aíli permui- 



á D.' 1 5 d^ Mcirqo V^r dUnte comeqam nefla cofia a 
ventar os Ponentes y cjuc he a mon<iao para J^/ur dilla, ç 
7iavígar a OnniiT,^ 



Década IV. Liv.III. Cap. VIIL 30? 

tas outras da Cidade , onde ainda não che- 
gara , cujo ruido , fumaça , e eílrondo da 
ruina dos edifícios íiniiam huma ícmelhan- 
ca do inferno. Neíla conjunção fe embar- 
cou Nuno da Cuniia para Mclinde , fem 
contraíle , nem impedimento algum , com 
os Portuguezes que efcapdnim da guerra, 
e das enfermidades de Mombaça, e cem. a 
gente de Zanzibar , de Pemba , e dos ou- 
tros lugares , que alli eram vindos. Outros 
da melma cofta o vieram ver , dizendo, 
que todos queriam fer vaíTalIos d'ElRcy de 
Portugal ; e o mefmo fizeram os moradores 
da Cidade de Brava , os quaes , tanto que 
Nuno da Cunha chegou a Melindc , lhe 
mandaram Embaixadores de fuás Cabildas , 
com ferecentos e cincoenta miticaes de ou- 
ro em pagamento de páreas de três annos , 
e que cada anno \\\Q pagariam duzentos e 
cincoenta , com mais outras obrigações , o 
que lhes Nuno da Cunha folgou de accei- 
rar por razáo de já ferem deílruidos do tem^- 
po que feu paiTriíláo da Cunha peraquel- 
la Cidade paíTou , de que Nuno da Cunha 
que com elle hia foi teílemunha''. Aqui em 
Tom, IF. P. L V Me- 

a Simão da Cunha , "D. Francifco Deça , e Fi'ancif- 
CO de Menâoqa y Capitei es de três nãos da Armada de Nu- 
no da Cunha , que invernáran} em Moqamhique , -partiram 
dalli com a moneão dos Ponentes com quatrocentos ho* 
•iiuns menos que Ihemorêrram naquella Ci^de, JE^/z Dio- 
go do Couto i que cheg4ram em fim de Marqo a Mcmh* 



3o6 ÁSIA DE João de Barros 

Mciinde veio ter fcu irniao Simão da Cu- 
nlvã 5 que invcrnára em Moçambique . "" 

CAPITULO IX. 

ComoNu?2o da Cmíha ajjentou de ir a Or- 
muz y e do que fez antes que partijje 
de Melinde : e do que ordenou em Ca- 
layate , e Mafcate té chegar 
a Ormuz, 

EMTvIelinde teve Nuno da Cunha con- 
felho com os Capitães , Meílres , e Pi- 
lotos íe faria lua viagem em direitura á cof- 
ta da índia , por o tempo ainda parecer al- 
gum tanto verde ; e foi alTentado per to- 
dos 5 que era couia mui perigo ia commet- 
ter aquclla coíla naquelie tempo com tama- 
nhas nãos , que a mais fegura viagem era 
ir invernar a Ormuz. AíTentada aííi a jor- 
nada 5 deípedio dalli Baíliao Ferreira com 
cartas para Lopo Vaz de Sampaio , e Af- 
fonib Mexia , cm que lhes dava conta da 
fua partida para Ormuz , donde logo como 
a monção vicííe íe partiria , e que fua ten- 
ção era naquelie mefmo anno ir a Dio , que 
iiies pedia , quetiveflem feito todos os aper- 
cebimentos 5 aíli de navios de remo ^ como 

de 

f i7 , cnãc achãraiv. a Nunr da Ctinlia de caminho •para Or- 
mtq. E o meinio cfcreve Caílaniieda ?iv. 7. cap. loi. 

a A dt'Jiru:cííO dcjia Cidade eji-reveo João de Barros 
jw cap. 3. do liv. I, da 2. Década. 



Década IV. Liv. III. Cap. IX. 307 

de munições , e mantimentos por fc nao de- 
ter niíTo , qnnndo foíTc com outras coufas que 
importavam áquelle negocio^ Baftiao Fer- 
reira chegou a Goa em Maio com aquel- 
las cartas , e Nuno da Cunha partio de Me- 
linde a 3 de Abril , deixando primeiro pof- 
ta a terra em paz , e prezos dous homens 
que andavam levantados a roubar , com or- 
dem que os enforcaíTem ; porém elles íe aco- 
lheram antes da fua partida para os Mou- 
ros. E a Luiz de Andrade mandou em hu- 
ma caravella , de que era Capitão , a hum lu- 
gar perto dalli , que fe chamava Jubo , em 
bufca de hum galeão de Rumes , que viera 
ter áquelle porto com tempo , o qual fez 
Luiz de Andrade dar á coíb pelejando com 
elie , e lhe tomou muita pimenta que tra- 
zia de Jaíia , e levava para o Eííreito , e 
lhe mar ou gente , não fem fangue da fua. 

Deixou também o Governador emMe-^ 
linde Triíiâo Homem , filho de Pedro Ho- 
mem. , Eftribeiro mór que fora d'ElRey Dom 
Manuel , com oitenta homens enfermos , e 
que como vieíle Setembro fe embarcaíTe com 
elles para a índia , os quaes defenderam a 
ElRey de Melinde nao fer deftruido por El- 
Rey de Mombaça , que logo partido Nuno 
da Cunha , veio contra ElRey de Melinde, 
E neíla fua defensão fe acharam entre os Por- 
tuguezes com Triftão Homem eílas peflbas 
V ii prin- 



3o8 ÁSIA DE João de Barros 

principacs , Jordão de Freitas , Duarte de 
Miranda , Baftifio Monteiro , Bartholomcu 
Freire Feitor , e João de Mattos. 

Partido Nuno da Cunlia de Melinde, 
paflbu pela Ilha de Çocotorá , onde fez íua 
aguada , e deo provisões ao Xeque dalli pa- 
ra a navegação de íèus navios, por elle íer 
íiel amigo dos Portuguezes. Paliados três 
dias, que fe deteve naqueiia Ilha , com bom 
tempo chegou a lo dias de Maio a Calaya- 
Tc , que he o primeiro lugar do Rcyno de 
Ormuz na coita de Arábia , onde ibube o 
desbarato das fuílas , que fez Lopo Vaz de 
Sampaio naenfeada deCambaya, que atrás 
cfcrevemos , c achou Aires de Soufa de Ma- 
galhães , fobrinho de Lopo Vaz , que per 
ieii mandado , como Capitão mór do mar 
deOrm.uz, andava com huma fiiíla , e dous 
barganíijs , guardando aquella coiia infeíta- 
da dos Nautaques , que ás vezes falteavam 
iielia os navios que vinham da índia. Efta- 
•va também em Calayate por Feitor Gom.es 
Ferreira criado do Duque de Bragança , o 
qual tombava as fianças aos Mouros, que car- 
regavam de cavallos para Goa. E porque 
o Guazil j e os Mouros da terra fe vieram 
queixar a Nuno da Cunha , que recebiam 
delle alguns aggravos , mandou dk lançar 
pregão , que qualquer pcílca que tiveíTe re- 
cebido aggravo algum de Portuguezes , fe 

vief- 



Década IV. Liv. III. Cap. IX. 309 

vieíTe a ellc , que o mandaria defaggravnr , 
como fez , mandando pagar a muitos cou- 
ías que tinham mal levadas , e aos que eram 
officiaes d'ElRey luípendeo de feus officios , 
e os levou prezos a Ormuz , o que fez gran- 
de eípanto nos Mouros por não terem vif- 
to aquelle caíligo , no que deo efpcrança a 
todos , que á feita de juílica não haviam de 
receber mal , e damno , e niílo fe deteve 
três 5 ou quatro dias. 

Ao mefmo lugar veio ter D. Fernando 
Deça , que hia para Ormuz por Capitão mor 
dos navios , que andam naquclle trato para 
a índia , os quaes Nuno da Cunha levou 
comfigo a Maicate , onde chegando a 19 
de Maio , foi logo viíitado do Guazil da- 
quella Villa , que fe chamava Xech Raxit , 
que era o que no tempo do levantamento 
de Ormuz ergueo bandeira por EiRey de 
Portugal , e livrou muitos dos noíibs. E 
porque elle tinha morto Raez Delamixá , 
irmão de Raez Xarafo , pela maneira que 
atrás contámos "' , defde então té a chegada 
de Nuno da Cunha trabalhava Xarafo por 
o haver em Ormuz , e vingar-fe delle ; e 
quando per fuás manhas não pode, diíle a 
ElRey , que eíle lhe devia mais de vinte 
mil xerafijs , por não haver dado conta ha- 
via muito tempo j que per qualquer via que 

foí- 

u Dec, j. Uv. 7. cap. 6. 



3IO ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

foílc o fízcffe vir a Ormuz , o que não quiz 
Xech Raxit fazer , e fe difpoz a padecer 
tudo o que lhe vielíe , antes que ir lá ; por- 
que íabia que indo , náo havia de viver mui- 
tos dias. Difto , e de outras couías dco el- 
le conta a Nuno da Cunha , dizendo , que 
fe vinha inetter prezo em fuás mãos , e af- 
íi a feus filhos , e fazenda. E que debaixo 
de feu amparo iria a Ormuz , e daria fua 
conta , a quai elle fempre diíTe que queria 
dar 5 e não queria que a déíTe outrem por 
elle ; mas porque queriam mais tirar-lhe a 
vida , que tomar-lhe conta , havia deixado 
de ir a Ormuz ; e que como Deos fabia ília 
innocencia , e não fer elle merecedor de mor- 
te 5 o provera com Sua Senhoria vir por 
alli para o livrar de feus inimigos , e gra- 
tificar os ferviços que tinha feitos a EiRey 
de Portugal. Nuno da Cunha por já eftar 
informado da lealdade defte Xech Raxit , o 
confolou , e fegurou de feus temores , pro- 
mettendo-lhe de lhe guardar juftiça , e fa- 
zer mercê em nome d'ElRe7 feu Senhor 
por os ferviços que lhe fizera. 

E porque lhe pareceo melhoi; não ir a 
Ormuz com tantas náos groífas , entrcgou-as 
a D. Fernando de Lima com mil homens 
que nellas podiam ficar , que mais ferviriam 
alli onde eílavam para favor daquella cofta ; 
e elle fe foi caminho de Ormuz com todos 

os 



Década IV. Liv. III. Cap. IX. 311 

os Fidalgas , e Capitães , que não tinham 
cargo das náos que ficavam. Sua cliegada 
foi mui fcílejada , e celebrada , porque en- 
trou com mais pompa na Cidade do que 
té então entrara Governador , com fua guar- 
da de alabardeiros diante , vertidos de fua 
libré 5 com trombetas , atabales , e charamel- 
las , no que deo muito contento a ElRey , 
e á gente da Cidade. Os Fidalgos que le- 
vava hiam vertidos de varias fedas , e tão 
bem ornados de efpadas , punhaes , cadeas , 
pontas , e arreos de ouro , que parecia que 
iiiam mais para dar áquelles Perfas , que pa- 
ra tomar delles , o que em tanta abundân- 
cia elles não tinham virto. E como em che- 
gando fuccedeo cafo , perque lhe foi necef- 
fario pôr em effeito algumas coufas mais pref- 
tes do que elle levava em regimento , con- 
vém fazermos hum pequeno dilcurfo das cou- 
fas que eram paíTadas em Ormuz depois do 
levantamento delle , e do eftado em que ef- 
tavam. , para fe melhor entender o que Nu- 
no da Cunha fez. 



CA- 



512 .ÁSIA DE João de Barros 

CAPITULO X. 

Do que era p a [fado com Xarafo Guazil 
de Ormuz , e como foi prezo per cartas 
d'ElRey D. João , que Manuel de Macedo 
levou de fie Reyno : e do que Nuno da Cu- 
nha paffou com ElRey de Ormuz. 

DEpois que Lopo Vaz de Sampaio dei- 
xou em Ormuz a Raez Xarafo rel- 
tituido no feu officio de Guazil , è amigo 
-com Diogo de Mello Capitão daquclla for- 
taleza 5 como atrás diíTemos "" , comrnetteo 
Xarafo tacs coufas na adminiftraçao do feu 
Guazilado y que por ellas mandou Lopo Vaz 
a Ormuz a Manuel de Macedo com Pro- 
visões para o prender , e dar o GuaziJndo 
a Raez Hamed. Manuel de Macedo che- 
gou a Ormuz , prendeo Xarafo , e o levou 
a Goa , onde o Governador o mandou met- 
ter na torre de homenagem , e depois lhe 
deo a Cidade por prizao. Mas Xarafo ufan- 
do de íuas cautelofas manhas , fe livrou de 
todas as culpas , e Lopo Vaz o tornou a 
mandar a Ormuz , confirmando-lhe de novo 
o cargo de Guazil em companhia de Chrif- 
tovão de Mendoça , que hia a fervir de Ca- 
pitão daquella Cidade na vagante de Dio- 
go de Mello. Nefta viagem de maneira gran- 

ge- 

« Liv» I. cap, 4é 



Década IV. Liv. líl. Cap. X. 313 

geou Xarafo a amizade de Chriftovao de 
Mendoça , que chegando a Calayarc , uíau- 
do de íeus poderes em favor de Xarafo^ 
mandou hum recado a EiRey de Ormuz 
ordenado per Xarafo , de que refultou o 
niefmo dia que Chriftovao de Alcndoça che- 
gou ao porto de Ormuz , matar Eiílcy Raez 
Hamed feu Guazil , que o fervia em aufen- 
cia de Xarafo , fendo hum homem de quem 
fe elle havia por bem fervido por fua Jeaí- 
dade , e inteireza , e de quem todos os Por- 
tuguezes recebiam mui boas obras. A cau- 
ia defta morte dizem que foi Xarafo ; por- 
que tal foi o recado que á fua inílancia man- 
dou Chriftovao de Mendoça a EiRej , que 
para elle viver, lhe foi forçado matar a Ha- 
med. Porém ElRey calando efta caufa , da- 
va por razão da morte de Hamed defcor- 
tezias que lhe diífcra , e que o quizera ma- 
tar quando ouvio dizer que Raez Xara- 
fo defembarcava, e que havia de fervir de 
Guazil. 

Sabendo ElRey D. João eftas coufas que 
em Ormuz paftavam , e outras que contra 
Chriftovao de Mendoça , e Xarafo fe pu- 
nham , encommendou a Nuno da Cunha , 
quando defte Reyno foi , que tirafle de to- 
das devaíTa. E querendo-o elle fazer, ha- 
''cndo quatro dias que a Ormuz chegara^ 
ihe deo hum homem huma carta de Ma- 



314 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

niicl de Macedo , dizendo , que ficava cm 
cafa d'EiRcy , e lhe manifcftoii de palavra 
o fegredo que vinha na carra , que era ir 
prender ao paço d'EiRey a Raez Xarafo , 
que lhe mandaíTe genic de Ibccorro para o 
fazer. Da nova , e vinda de Manuel de Ma- 
cedo ficou íobrefaltado Nuno da Cunha ; e 
a grande preíTa, por nao acontecer alguma 
deíbrdem , entrou na fortaleza , e mandou 
a Chriftovão de Mendoça (Capitão delia , que 
de fua parte foííe ás caías cfElRey , e lhe 
chamaffe P^aez Xarafo , e que em toda ma- 
neira não vieíTe fem elle ; e havendo algum 
impedimento por parte d'ElRey , que íe- 
cretamente lho avifaire , e para iíTo miandou 
com elle o Secretario Simão Ferreira , e al- 
guma gente. Xarafo fomente pe> palavra do 
Secretario fefoi com elle, fem nenhum af- 
fombramcnto , ficando Chriftovão de Men- 
doça , e Manuel de Macedo fali ando com 
ElRcv. Efta novidade de Manuel de Ma- 
cedo vir prender Raez Xarafo procedeo de 
elic o trazer prezo de Orm.uz á índia , co- 
mo atrás diíTemos " ^ e parece que naquella 
viagem veio Xarafo contando a Manuel de 
Macedo , e confePiando culpas aiheias , e 
nao as fuás. E quando Manuel de Macedo 
veio a Portugal o anuo de 15' 2 8 com Pêro 
Mafcarenhas , porque el!e fc achara preien- 

te 

a Liv. I. cap 7. 



Década ÍV. Liv. III. Cap. X. 315- 

te ás differcnças , que Pêro Mafcarenhas ti- 
vera com Lopo Vaz de Sampaio , chegan- 
do ás ilhas Terceiras, foi eleito para vir a 
ElRcy diante das náos com as novas de ci- 
las alli lerem cliegadas , por ainda a Ar- 
mada , que as havia de ir bufcar, não íer 
lá, e para dar conta aElRey do eftado das 
coLifas da índia , porque tinha elle muitas 
qualidades para ilTo , e laber bem as couíás 
daquellas partes por haver andado muito 
tempo nclias. E além dilTo tinha huma Ibl- 
tura em as contar , fegundo elle queria , e 
com fer bom cavalleiro , nao tinha no que 
dizia primor de fegredo , nem rcfguardo da 
honra alheia , de maneira , que por dk fi- 
cou ElRey cheio de coufas de Ormuz : e 
prometteo a Sua Alteza que iiie traria pre- 
zo a Raez Xarafo , e delle poderia ter in- 
formação de todas as coulas que Capitães 
cubiçofos tinham feito , e lhe deo efperan- 
ças que per o mefmo Xarafo podia haver 
huma grande fomma de dinheiro. Cheio def- 
ras informações , mandou ElPvcy a Manuel 
de Macedo em Setembro com grandes po- 
deres 5 exempto do Governador da índia , e 
do Capitão de Ormuz , a fazer aquella obra , 
não parecendo a ElRey que Nuno da Cu- 
nha nefte tempo podia eílar em Ormuz. Ef- 
te favor , que Manuel de Macedo levou d'Sl- 
Rey , como elle era homem folro , e def- 

cu- 



316 xlSIA DE JoAO DE Barros 

cuberto, c nao muito attcntado , indo mui 
encarregado de nao revelar o fegredo da íua 
jornada , primeiro que parriíle publicou ao 
que iiia ; e chegado a Moçambi'.|ue foubc 
como Nuno da Cunha hia caminlio de Or- 
muz. Dalli foi fezer lua aguada a Çocoto- 
rá 3 c no cabo de Rofalgate , que he na coi- 
ta de Arábia , deixou o navio eícoiidido , 
e em numa ter rada da terra fe embarcou , 
e em hum dia , e huma noite chegou a Or- 
muz a 7 de Junho , e fe metreo em caía de 
hum criado íeu , e dahi fahio a outro dia 
pela Cidade, íem dar coiua a Nuno da Cu- 
nha , e foi a caíli d'EiRey fazer o que aci- 
ma diílemos. E poílo que a muitos pareceo 
que o Governador o devera caíligar , por 
commctter aquelie negocio fem jhe dar con- 
ta , deixou o caítigo paraEiPvey lho dar em 
Portugal , e fomente lhe diíTe algumas pa- 
lavras de reprehensao. 

Entrando Raez Xarafo na fortaleza , foi 
metrido em huma torre " , e entregue a Ma- 
nuel de Macedo, e Nuno da Cunha foi vi- 
fuar a EIRey com fua guarda de alabardei- 
ros , e Fidalgos , todos vcílídos de feíla. El- 
Rey também fe poz de fcíhi em huma íaia 
grande alcatiíicada de riquiílim.as alcatifas , 
ícgundo o ufo dos Rcys Mouros da Per- 

fia, 

a A prh/io ãe Raez yiamfo efcreve iiv.ti particular' 
mente Fiancilco Ue AndraUe r.o ciip. 50. da 2. Farte. 



Década IV. Liv. ITI. Cap. X. 317 

Jía , porcíb ícr a ília tapcccria. E tanto que 
Nuno da Cunha chegou á porta , cllc fe 
levantou de huma cadeira lavrada de madre 
pérola , cm que eftava aíícntado , e o veio 
tomar a porra. Feitas liias cortezias , ambos 
inão por mão fe foram aíTentar , ElRey em 
uia cadeira , e Nuno da Cunha em outra , 
que para elie eíiava poíla junto d'EiRey. 
Por fefta tinha ElRey huma cabaia de bea- 
rijha mui delgada , por terem fer eíla mais 
nobre veíle para os Reys , que fe foíTe de 
brocado, e cingido com hum cinto de ou- 
ro 3 e pedraria , e hum terçado da mefma 
forre mui rico , e os dedos cheios de an- 
neis com ricas pedras , na cabcja tinha hum 
carapução dos da divifa do Xiah límael 
com hum penacho de pennas dos paíTaros 
de Maluco, com muitas perdas ; os pulibs 
dos braços , e do? pés , fegundo leu ulb , 
tinha cubertos de bracclíetes de ouro , e 
pedraria , e os pés defcalços fobre hum co- 
xim de vclludo de Meca. Depois que am- 
bos foram aíTejuados , mandou Nuno da 
Cunha aílénrar em huns bancos , que para 
iilb eftavam ordenados , a Chriílovao de 
Mendoça Capitão da fortaleza , e a feu ir- 
mão Simão da Cunha por Capitão mor do 
mar , e aífi outros Fidalgos principaes , iè- 
gundo fuás qualidades. PaiTadas as primei- 
f as palavras de fe verem hum ao outro ., Nu- 
no 



3i8 ÁSIA DE João de Barros 

no da Cunha lhe deo as cartas, que levava 
d'ElRey D.João, perque lhe notificava Nu- 
no da Cunha áquclias partes por Governa- 
dor delias. E alli lhe deo outras, que le- 
vava Manuel de Macedo , em que lhe fa- 
zia a faber , que por cumprir a feu fer vi- 
ço , e ao bem daquelle Reyno de Ormuz , 
ciic mandava vir a Portugal Raez Xarafo 
feu Guazil. E que além de Nuno da Cu- 
niia , por bem de feu ofiicio , íer a iífo obri- 
gado , elle particularmente lhe encommen- 
dava as coufns delle Rey de Ormuz , e que 
írataíFe fua pcífoa , e o contentaífe em tudo 
como a feu filho , porque teria diíTb muito 
prazer ; c que com eíla coníiança elle Ma- 
mud Xiah o podia requerer a Nuno da Cu- 
nha , porque ellc o faria aíH por feu conten- 
tamento , bem , paz , e aíTocego do Reyno. 

CAPITULO XI. 

/ Do que Ntmo da Cunha pajfou com ElRey 

de Ormuz , e cordo pezadamente accettou 

o que lhe deo , e o maizdou entregar ao 

Feitor dCElKey de Portugal, 

J"^ Idas cfas cartas d'ElRev de Portugal 
.^ pelo Secretario Simão Ferreira , e in- 
terpretadas per Francifco Munhoz lingua , 
Nuno da Cunlia pelos termos delias fe co- 
meçou oííerecer aEIRey a tudo o que fof- 

fe 



Década IV. Liv. líl. Cap. XI. 319 

fe bem , e íerviço feii , e lhe pedio nao ti- 
ve iTe pejo de lhe dizer le tiniia recebido def- 
prazer , ou efcandalo de alguma peíToa , 
porque elle proveria niíTo como ElPvCy íèu 
Senhor lhe mandava. E que quanto á vin- 
da de Raez Xarafo a Portugal o nao de- 
via ter por cílranho , nem lhe déíle íaípei- 
ta alguma , que era em damno , e oíFenía 
deíle Mamud Xiah , antes era por íeu bem, 
e accrefcentamento de feu Eílado , e aíTo- 
cego daquelle Reyno , por ter ElRey feu 
Seiíhor informação quão inquieto , e tyran- 
nizado citava. Com eílas palavras de esfor- 
ço , e ccnfolaçáo também lhe diíTe , como 
tinha fibido que dk matara a Raez Ha- 
med feu Guazil , e Governador daquelle 
Ileyno per authoridade d'ElPvey de Portu- 
gal íeu Senhor, a qual morte nao fendo per 
via judicial , como coílumam fazer os Prín- 
cipes , e Reys Chriftaos , fe tem entre elles 
por coufa mui criminofa , a que sâo obri- 
gados dar conta , nao fomente a Deos , mas 
no Mundo , e a algum Senhor , fe o ha na 
terra fobre elles. È por aquelia morte fer 
mui pública, e de que eftava o Mundo ef- 
perando a punição delia , elle como Gover- 
nador da índia , que provia em todos os 
bens , e males áéla , em peíToa d'ElPvey feu 
Senhor, como Miniftro de fua juftiça , ha- 
via a elle Rey Mamud Xiah por condem- 

na- 



320 ÁSIA deJoÂo de Barros 

nado por matador daquelle Governador do 
Reyno de Ormuz , que era d^EIRey Dom 
João íeu Senhor ; que fe elle riveíTe algu- 
mas caufas juílas , c manifcítas , que as moí^ 
rraíTe , porque dianre daquelles Capitães , e 
Fidalgos que eram preíentes , elle proveria 
liiíib , como cumpria a bem da julliça , e 
fcrviço d'EiRcy , polo que íèm temor po- 
dia dizer o que quizeíTe. ElRey lhe refpon- 
dco , que quanto ás oítertas que lhe fazia 
ter carta d'EiRey leu Senhor , elle as rece- 
bia como de íeu Rey , e Senhor ; e que 
quanto á morte de Raez Hamcd , elle o ma- 
tara , porque o quizera matar a elle , e pois 
tivera tão jufta cauía , não fe lhe devia ef- 
tranhar defender fua vida com morte de 
quem lha queria tirar , e mais fendo feu vaf- 
fálio, e official , cujo officio era olhar por 
liia pcíToa , e não procurar fua morte , e 
per ílias mãos. Nuno da Cunha por o não 
aílrontar muito , lhe diífe , que elle tinha 
fabido , que ao tempo que Raez Hamed fo-l 
ra morco , não tinha outra arma mais que[ 
huma faca , que coftuma todo homem tra- 
zer para cortar o Betei * , e que elle Rcyl 

ef- 



rt o Beteis , fi cue es Mnlavares chamam Beire , osí 
Gin.jro!es ^ c Dccant/s Pam y os Ma /aios Ciriy e os Ara-\ 
lios Tarnbul , he hwna arvore , que arrimada a outras 
trepa por eílas cqmo a Era , cujas folhas fam mais com- 
pidas , e ma':s dl v citas na ponta cjue as da Laran<i:eira]^ 
He o rumo dcjias fcDus aronuHico ; cordiaí ^ conjertotivç 



Década IV. Liv. IIL Cap. XI. pt 

eftava armado , e apercebido , como couía 
que fora cuidada , e nao aecidental. E que 
por quanto as mortes dos homens são para 
leibbreelJas fazer todo exame, ElRey não 
houvefle por mal proceder ríiíío com de- 
vaíTas , e teftemunhas íegundo as leis d'El- 
Rey feu Senhor. Nuno da Cunha , poílo 
que ElRey dizia que ellé fora author deP- 
ta morte , e que a não fizera conílrangido 
per outrem , fenao per fua própria vontade j 
bem entendeo iielle , poílo que Xarafo ef- 
tava prezo , que temia dizer quem o mo- 
vera a iíTo. 

Mudada a prática em outras coufas, 
querendo-fe Nuno da Cunha defpedit* , man- 
dou ElRey trazer hum cinto de ouro , e 
pedraria ^ e hum ter^-ado , e adaga da mef- 
ma íbrte , e algumas peças de brocado , e 
pannos ricos de feda, e os deo a Nuno da 
Cunha , pedindo-lhe que tomaffe aquella 
pouquidade por feu amor , por nao perder 
o coftume dos Reys daquellas partes. E por- 
que Nuno da Cunha fe efcufava com boas 
TomAF.PJ. X pa- 

do ejlonwgo , refohtivo das ventojíãaães , rejlaurativo dos 
doentes y (jue fí bolem , e fa<;^ iom anheíito. Ufom das fa* 
lhas do Bete le todas as cientes Orientaes , com Áreca ^ [quê 
he hum fnitê femelkante á Nó:^ mofcada , ) € pouca quatt- 
tidade de cal feita de cafcas de Ojiras , e os ricos lhe 
mijluram Cânfora de Borneo , e alguns Calamlac , e Al- 
núfcar , ou Amlar. Garcia d'Orta nO Jivfo dos Jimpks :, 
e árffgas da índia. 



321 ÁSIA deJoÂo de Barros 

palavras , ellc íe houve por injuriado dif- 
io , com que lhe convcio acccitar as peças? 
e a rodos os Fidalgos dco ElRey as fuás , 
fegundo as qualidades das peflbas. Com ifto 
ie defpedíram delle , e á porta achou Nu- 
410 da Cunha hum formofo cavallo fella- 
ào 5 e enfreado , ornado ao ufo dos Perlas , 
que lhe também ElRey mandou aprefentar, 
o qual cavallo 5 caíTi iodas as outras peças, 
elle mandou entregar na Feitoria , e carre- 
gar em receita íobre o Feitor, fegundo o 
feu regimento , que era não tomar para li 
os preíèntes que lhe dcíTem. 

CAPITULO XII. 

Como Nuno da Cunha entendeo na devajja 
contra Raez Xarafo : e do que fez fo- 
bre fua vinda a Portugal , e condem- 
nou a ElRey de Ormuz por a mor- 
te de Raez liamed, 

FEita aquclla primeira vifitação a El- 
Rey 5 começou Nuno da Cunha enten- 
der nas coufas do governo da terra. E por- 
que Raez Xarafo fc havia de vir para eíle 
Pvcyno , quiz logo entender na devaíTa que 
ElRey mandava tirar para a mandar per 
Manuel de Macedo, como mandou. E co- 
ino com cila devaíTa também tirou a da mor- 
te de Raez Hamed , em que achou ElRey 

o ma- 



Década IV. Liv. III. Cap. XII. 323 

o matar fem cauía juíla , Ibmente induzido , 
e por comprazer a outros que iíTo ordena- 
ram , em modo de íentença o condemnou 
em pena de dinheiro te a mercê d'ElRey 
de Portugal. A pena foi acere fcentar-lhe que 
pagaííe mais em cada hum anno de páreas 
quarenta mil xerafíjs, além dos ieííenta que 
pagava , e a taxação deíle accrefcentamento 
Jiia de cá doReyno por as informações que 
EIRey tinha de quanto aquelle Reyno ren- 
dia , e que tudo o que fobejava das defpe- 
zas ordinárias , que EIRey tinha , lhe rouba- 
vam feus Guazijs. Mas Nuno da Cunha , 
como prudente , por menos efcandalo , quiz 
dar a entender que o fazia per via de pe- 
na daquelle exceíTo que EIRey fizera. E ií^ 
to té que EIRey feu Senhor proveíTe niíTo , 
viílo como a pena daquelle crime de mor- 
te per outra via fe nao podia executar na 
peíToa d'ElR.ey de Ormuz : o que elle fof- 
freo por mais nao poder , e conhecendo que 
o exceíTo merecia muito caíligo. O que dos 
Mouros foi mui louvado , vendo que entre 
Portuguezes havia tanta juftiça , que nem os 
Reys ficavam fem pena dos crimes que com- 
mettiam contra feus vaífallos. Além diílo 
começou de entender nos aggravos , que 
eram feitos a Diogo de Mello de algumas 
fentenças em que o condemnáram mal , fen- 
do aecufado per Xarafo , o qual tanto que 
X ii yíq 



324 ÁSIA DE João de Barros 

vio Diogo de Mello fora do cargo de Ca- 
pitão , entre outras coufas juftas , demanda- 
va outras injuílas , com que lhe tinham to- 
mado muita fazenda. Quando os Mouros 
viram que Nuno da Cunha adminiftrava juí- 
tiça , fem refpeito de peílbas, e que logo 
dava á execução os damnos , e perdas que 
algum tinha recebido , oufadamente come- 
çou cada hum requerer contra aquelles de 
que tinham recebido aggravos. Com que 
Ormuz ficou tão acreditado , que per mar , 
e per terra corriam as mercadorias mais fe- 
giiramente, e os moradores houveram que 
podiam eftar feguros de muitos roubos , e 
oíFenfas que nos annos atrás recebiam , o 
que fe vio logo no rendimento das alfan- 
degas , e outros direitos da terra. 

ElRey de Ormuz quando vio tanta in- 
teireza 5 e prudência de Nuno da Cunha , 
aíli na adminiftraçao da juftiça , como no 
governo da terra , e que nelle não havia 
cubica , tomou ouladia de lhe requerer que 
lhe fizeíTe juftiça de Raez Xarafo, porque 
rendendo leu Reyno mais de trezentos mil 
xerafijs , tirados os feíTenta mil que pagava 
de páreas , e que ás vezes fe ficavam de- 
vendo dé hum anno para outro , tudo con- 
fumia em peitar a quem lhe foífria feus rou- 
bos , que o obrigaíTe a dar razão dos ren- 
dimentos do feu Reyno. Ao que Nuno da 

Cu- 



Década IV. Liv. III. Cap. XII. 325' 

Cunha refpondeo , que efta era huma das 
principaes caufas , por que ElRey feu Se- 
nhor o mandava ir a Portugal , onde Sua 
Alteza lhe mandaria dar o caftigo que me- 
receíTe ; e que por Manuel de Macedo po- 
dia mandar as queixas que delle tinha , por- 
que elle Nuno da Cunha náo havia de en- 
tender em mais que em tirar devaíTa das 
coufas daquella Cidade , e que pertenciam 
aos Capitães , e Officiaes d'ElRey feu Se- 
nhor , e caíligar aquelles que o mereceíTem. 
E quanto ás que pertenciam a elle Rey Ma- 
mud Xiah , que também as podia requerer 
contra elle , porque entend-eria nellas , fo- 
mente as de Xarafo remettia a ElRey feu 
Senhor. 

E porque Nuno da Cunha , (como atrás 
diíTemos,) mandou ao Guazil de Mafcatç 
Xech Raxit , que fe vieíTe logo trás elle 
para o negocio da fua conta , de que fe 
ElRey queixava delle , e era chegado a Or- 
muz , deo Nuno da Cunha conta a ElRey 
como fizera vir aquelle homem , o qual eC- 
tava alli para dar razão de fi , que mandaC- 
fe ajuntar os officiaes que lhe haviam de 
tomar conta , para logo o fazer pagar , fe 
deveíTe. ElRey mandou ao feu Thefourei- 
ro Coge Abrahem que eftiveíTe á conta com 
elle ; e vindo cada hum com feus papeis , 
ícndo prefente o Secretario Simão Ferreira , 

CQv 



326 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

como teftcmunlia , e arbitro das dúvidas, 
quando as houveffe , achou- fe que Xcch Ra- 
xit tinha entregue tudo quanto recebera das 
rendas d'ElRey , íèm ficar devendo couía 
alguma, e houve fua quitação aílinada por 
ElRey nas coftas de hum auto , que Nuno 
da Cunha deíla conta mandou fazer. Ven- 
do ElRey que Nuno da Cunha dava logo 
á execução o que juílamente lhe requeria , 
lhe fez queixumes do mefmo Coge Abra- 
hem 5 dizendo , que fora Hiefoureiro de 
dous Reys paflados ^ e tivera toda a fazen- 
da 5 e jóias d'EiRey Torum Xiah que ma- 
taram , de que não appareceo mais que hum 
terçado , e huma cinta , e huns barcelletes , 
e huma adaga , fendo eíle Rey rico de di- 
nheiro , e jóias 5 por fer muito acquiridor , 
e confervador do que lhe cahia na mao, 
e que nunca em tempo deite Rey dera con- 
ta. Antes que Abrahem fizefle alguma cou- 
fa de íi 5 Nuno da Cunha o mandou pren- 
der 5 fomente por faber , que fendo filho de 
hum homem muito pobre , e de parentes 
pobres , e baxos , depois que entrou na Al- 
fandega por Efcrivão , e fervio de Thefou- 
reiro , tinha acquirido muita fazenda , e fei- 
tas humas cafas as mais fumptuofas , e no- 
bres da Cidade. Coge Abraliem como íè 
vio prezo , começou de fe contratar com 
ElRey , dizendo ^ que lhe requeria dar vin- 
te 



Década IV. Liv. III. Cap. XII. 327 

Ce mil xerafijs ; mas como Nuno da Cunha 
eftava informado da groíTura defte Mouro , 
não conlentio niíTo , té que deo a ElRey 
quarenta mil , com que ElRey pagou di- 
vidas que devia , e aíli as páreas ^ e elle fi- 
cou íem officio. 

Também lhe pedio ElRey , que lhe 
mandaíTe entregar a renda da cafa das Or- 
racas , que poderia render dous , ou três 
mil xerafijs , a qual elle tinha dada contra 
lua vontade ao Capitão da fortaleza , por 
eílar já tanto em coílume darem os Reys 
cila renda aos Capitães poios contentar , que 
faziam elles difto huma obrigação ordinária , 
a qual renda , depois que Nuno da Cunha 
fe foi para a índia , ElRey tornou a dar ao 
Capitão rnais por temor que por vontade. 
Pedio-lhe mais ElPvey , que lhe tiraíTe o 
Guarda mòr que lhe punham Portuguez , 
porque recebia niflb grandes opprefsóes , e 
eílava como cativo, de maneira, que nao 
tinha vida , nem podia dar hum paíTo , que 
logo não foííe moleftado , ou havia de com- 
prar a liberdade por muito , porque nunca 
ceifavam os taes officiaes de tirar delle. Eí^ 
te officio levava de Portugal Manuel d'Al- 
boquerque , filho de Lopo d'Alboquerque , 
homem que no que depois fez , (como no 
dccurfo deíla hiíloria fe verá , ) moftrou que 
por fuá cavalleria , e peíToa era para maiores 

cou- 



5^8 ÁSIA DE João de Barkos 

couías que para Guarda mor d'ElRey de 
Ormuz. E como era homem virtuofo ^ e 
bem coftumado , e que fabia ElRcy era man- 
cebo viciofo , e que entrando elle naqucJle 
cargo, para ter vida lhe cumpria conícntir 
ufar elle de feus vícios , diíTe a Nuno da 
Cunha , que elle não queria tal officio ^ pe- 
lo que havendo Nuno da Cunha refpeito 
a muitas coufas , por então lhe pareceo eí^ 
cufado aquelle officio , e o fatisfez a Ma- 
nuel d'Alboquerque. 

Requereo mais EIRey a Nuno da Cu- 
nha , que lhe mandaíTe entregar a Ilha de 
Baharem , na qual eftava havia já féis , ou 
íète annos hum Raez Barbadim , fobrinho 
de Raez Xarafo , da qual Ilha o mefmo 
Xarafo lhe tinha dado o Guazilado , e am- 
bos a comiam, fem delia haver rendimen- 
to, antes todos os annos lhe contavam muir 
tas defpezas de mantimento , de arroz , que 
ília de Ormuz para manter a gente que lá 
eftava , fendo certo que rendia cada anno 
quinze mil xerafijs , affi por razão da pcfca- 
ria do aljôfar que fe nella fazia , como da 
grande novidade que nella havia de tâma- 
ras , de que havia carregação para muitas 
partes '^ . E como iílo era coufa de Raez 
Xarafo, apertava ElRev muito a Nuno da 

Cu- 

tt Ejla Ilha ãe Baharem dcfcreve João de Barros na 
3. Dec, Uv. 6. cap, 4. 



Década IV. Liv. III. Cap. XII. 329 

Cuiihci que lha mandaíTe entregar , o que 
para Manuel de Macedo era grande enfa- 
damento , porque tinha promettido a ElRey 
D. João , que elle ordenaria com que Xa- 
rafo vieíTe de Ormuz com muita riqueza : 
polo que mandando Nuno da Cunha , quan- 
do prendeo Raez Xarafo , efcrever-lhe a 
fazenda toda , Manuel de Macedo clamou , 
que o não efcandalizaíTe , porque cumpria 
levallo mimofo ; e ao mefmo Xarafo fazia 
crer , que levando bem que peitar , tudo 
acabaria , de que já tinha experiência. E 
aconfelhava a ÉlRey de Ormuz, que man- 
daíTe o feu terçado a ElRcy de Portugal , 
porque por elle lhe quitaria ElRey os qua- 
renta mil xerafijs , que Nuno da Cunha lhe 
accrefcentára. O que Nuno da Cunha dif- 
íimulou per honefto modo , por não infa- 
mar a nação Portugueza mais do que efta- 
va infamada em Ormuz pelas coufas paíTa- 
das. Mas Xarafo era tão fabedor , que deo 
pouco pelos confelhos que lhe dava Ma- 
nuel de Macedo , e levou o que tinha , que 
era já bem pouco por as creílas que lhe 
davam a miude ; e a maior fubílancia de 
fua fazenda era hum pouco de património 
de palmares , e terras em. Babarem , que lhe 
grangeava feu fobrinho Raez Barbadim , que 
podiam render oito , ou dez mil xerafijs , 
e hum.as çafas honradas em Ormuz , e tão 

pou- 



330 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

pouco movei , como devia ter hum homem 
que fe vigiava , parecendo a Manuel de Ma- 
cedo que trazia elle muitas couías para cí^ 
te Reyno. Polo que Nuno da Cunha por 
alguns inconvenientes , mandou a Manuel 
de Macedo fahir de Ormuz , e que vieíTe 
efperar a Raez Xarafo a Maícate. 

Alli fe embarcaram ambos para eíle Rey- 
no ; e porque ao tempo da partida fe ácí^- 
cubríram no navio algumas aguas , que fe 
abriram com a carga das drogas que lhe 
mettêram , e aos ofRciaes pareceo que nao 
podia chegar a Portugal , mandou o Go- 
vernador que foífe Manuel de Macedo á 
índia , e lá tomaíTe qualquer embarcação 
que quizeíTc ; pelo que chegado a Cochij , 
Affonfo Mexia lhe deo outro navio , em 
que Manuel de Macedo trouxe a Xarafo a 
eíle Reyno , onde elle eílevc alguns annos , 
fem fua vinda trazer mais fruto que deícu- 
brir culpas alheias , as quaes Nuno da Cu- 
nha per devalfa que em Ormuz tirou per 
apontamentos que o mefmo Manuel de Ma- 
cedo levava , mandou mais na verdade , do 
que Raez Xarafo podia dizer , por ferem 
teílemunhadas per os principaes Mires , c 
peífoas notáveis que ElRey de Ormuz te- 
ve. E no fim deíles annos tornou Xarafo 
á índia , como da índia a Ormuz , quando 
a outra vez foi prezo , c fervio feu officio , 

fal- 



Dec.IV. Liv.III. Cap. XII. eXIII. 331 

falvando-fe per as leis da índia , como to- 
dos os culpados fe faJvam quando fazem 
o que elle fazia ; porque a natureza dos 
homens , podo que mudem o clima , nao 
mudam a inclinação , principalmente em ca- 
fos de proveito. 

CAPITULO XIII. 

Como Belchior deSoufa Tavares foi a Baf- 

corá : e do fitio daquella Cidade , e 

da Ilha de Gizaira, 

r7 StandoNuno da Cunha fazendo o que 
il, diíTemos em Ormuz , chegou de Baí- 
çorá Belchior de Souía Tavares , que o Ca- 
pitão Chriftováo de Mendoça tinha lá man- 
dado com dous bargantijs , e quarenta ho- 
mens de peleja a requerimento de Ale Alo- 
gemez Rey daquella Cidade , para o aju- 
dar a defender d'ElRe7 de Gizaira feu vi- 
zinho , que lhe fazia guerra. E porque Bel- 
chior deSoufa foi o primeiro Capitão , que 
com mão armada entrou pelos dous rios Ti- 
gris 5 e Eufrates , onde não entrou o poder 
dos Gregos , e Romanos com feus exérci- 
tos , quando contendiam com os Reys de 
Babylonia , e de Períia , não he fora do in- 
tento da nolTa hiftoria eícrevermos da jor- 
nada de Belchior de Soufa , em que aííen- 
tou paz entre eíles dous Reys , e depois fez 

guer- 



332. ÁSIA DE JOAO DE Barros 

guerra ao de Bafçorá , por nao cumprir com 
eJle o que lhe promerteo. Tão temido era 
o nome Portuguez naquellas partes , que 
lium Capitão de dous bargantijs , com qua- 
renta homens , fez o que adiante veremos ; 
c não na cofta de Guiné entre Negros bár- 
baros , mas na mais celebrada terra, de que 
as Eícrituras fazem menção , que he nas cor- 
rentes dos dous illuftres rios Eufrates , e Ti- 
gris , onde clles dam de beber aos povos 
Babylonios , c Chaldeos , e onde hoje os 
Mouros tem fua célebre Cidade de Baga- 
dad , e as fepulturas de AIí'^, e de alguns 
filhos feus , que são a cabeça de fua feita. 
E para mais clareza do que hemos de di- 
zer, fera neceíTario tratar primeiro dafitua- 
jão de Bafçorã. 

Difta efta Cidade quaíl trinta léguas da 
barra dos rios Eufrates , e Tigris , quando 
ambos juntos femettem no marParfeo, não 
ao longo da corrente delles , mas afaftada 
huma légua no íim de hum eílreito feito á 

mão , 

fl Ali foi filho de Ahiltaíeph , com cujo confetho , e ajw 
ãa proma/fToti Mafumaile a fua maldita feita , e o cafoti 
com Jua filha Fátima , e fiomeou por fuccejjor no Reyno , 
e CaUphado , a <jiial diçrnidade tfurpoti como mais poderofo 
Ahubecher outro Confelneiro , e companheiro de Ahfameile, 
Foi Ali (juinto Calipha , e author de outra nova feita , (jue 
profejam os Perfas. Teve por contrario a Aloavia y com 
o (fual pelejou com varia fortuna. E ultimamente per or- 
dem de Mcavia foi morto perto de Cufá Cidade de Ara- 
iia y entrando em liuma Mefyuita no a fino de 66o. 



Década IV. Liv.III. Cap. XIII. 333 

inao , que para fcrviço da mefma Cidade 
íè abrio , em que podem entrar navios de 
remo ''. Efta povoação , fegundo fe diz , lè 
fundou ha poucos annos , e ora a tem os 
1\ircos mui forte com temor de noíTas Ar- 
madas. Ptolomeu nas fuás Taboas de Aíia 
íltua naquella parte de Babylonia ao lon- 
go das ribeiras daquelles dous rios duas 
povoações , a huma chama Thalatha , e á 
outra Batracharta * . Seja qualquer que for j 
o que podemos affirmar he , que efta , que 
eftá em pé , neftes tempos próximos a nós 
íè fundou ; e junto delia , mettida mais no 
fertão efpaço de oito léguas , eftá huma Ci- 
dade defpovoada , cujo circuito tem anda- 
dura de mais de hum dia ; e hum Turco 
nafural do Cairo , que fe tomou , quando 
D. Fernando de Noronha houve vitoria do 
Capitão dos Turcos , que eram lançados 
em Bafçorá , o qual hoje he meu cativo , 
homem prudente , e de grande juizo , e 
memoria , me contou, que o feu Capitão 
íè puzera a cavallo hum dia , e elle em fua 
companhia, e foram ver eíía antiguidade, 

co- 

a Tem per tradição os vizinhos de Bafçorá, çue Vies 

i alli pregar a Fé , e converteo muitos o Evangelijia 

-. João. O P. João <Je Lucena na vida do F. Francifi 

;\i Xavier, Uv. i. cap, i j. 

b Ptolomeu 7io Uv. 5. da fua Geografia cap. 20, pÕe 

Thalatha em 52. grãos ^ e 10. min. de altura; e Batrachar. 

ta em 52. frrrfVí , e/^^. min. c Bafçorá ejiá em }i. ^rdos» 



334 ÁSIA DE João de Barros 

como cm romena , por eftar alli huma mes- 
quita íumptuofa de Ali ; c para verem a 
grandeza da Cidade fe fubíram em huma 
lorre , e que nao podiam fahir com a vifta 
fora das cafas ; e jurava por fua lei , que 
lhe parecera duas vezes maior que o Cairo , 
a qual dizia que era toda defpo voada , fem 
haver nella mais que hum» Mouro na mcf- 
quita com três filhos, e três fiJhas , que ti- 
nha cargo de duas alampadas que ardiam 
nella , lèm naquelia grande povoação , que 
não era cercada , haver outro morador. As 
cafas todas eram térreas , de pedra , e cal , 
as pedras mui grandes , todas engatadas com 
ferro , e cobre , o que diziam íer por o tre- 
mor da terra , que naquelia parte muitas ve- 
zes havia ;- e os telhados (por alii chover 
raramente ) eram eirados ladrilhados , e 
jnuiias das caias ricamente fabricadas , e la- 
drilhadas com azulejos \ e que contava aquel- 
le Mouro que alli cílava , que áquella Ci- 
dade chamavam Bafçorá a velha. Da gran- 
deza deíla Cidade andam pela terra contos 
incríveis. Hum Geógrafo Parfeo efcreve , 
que eíla Bafçorá a velha foi fundada em 
tempo de Ali , tio , e genro de Mafamcde , 
per hum Mouro cham.ado Atabad , filho de 
Garvan ; e que no tempo de Bibal filho de 
Abibardaá havia nella cento e vinte mil eílei- 
ros , que fe derivavam dos rios Eufrates , 

e Ti- 



Década IV. Liv.III. Cap. XIII. 335- 

e Tigris , por virem ambos alli corxorrer. 
E que fendo tamanha le defpo voara , por- 
que a terra era muito falgada , e não tinha 
agua que beber , c lhe vinha de mui lon- 
ge , e os poços que tinha eram mui falo- 
bros ; e por a terra íer mui calm.ofa no tem- 
po do verão , que não íe podia foffrer o 
fervor do Sol , e no inverno o rigor do 
frio 5 por os ventos que vinham per aquel- 
las campinas que matavam a gente , e por 
carecerem delenjia com que fe aquentar. E 
que antigamente , quando aquclla Cidade 
profperava , traziam a agua per valias do 
rio Eufrates , as quaes depois fe taparam 
com as cheias , e aguas do mar no tempo 
das marés , perque aquelle fitio fe veio to- 
do falgar , e aííi fe defpovoou ; e que os 
moradores daquella Cidade fe paíTãram huns 
a Bagadad , e outros a Bafçorá a nova. E 
porque Ptolomeu afaftado do rio Eufrates 
quaíi naquella diftancia fitua huma Cidade 
per nome Beththana "" , já pode fer que fof- 
fe efta , que fendo-o , feria reedificada , e 
povoada por Atabad. 

A Ilha de Gizaira fazem os dous fa- 
mofos rios Eufrates , e Tigris. Nafceo o 
Eufrates na Turcomania , e o Tigris em 

Adil- 

a Em altura de J2. gráos ^ ^ J2. min. no Ih. 5. cap. 
20. e na TaVoa 4. de Afia, 



33<^ ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

Adilbegiam "" ; e fazendo ambos aquclle grãa 
cerco, a que os Geógrafos chamam Mcfo- 
potamia , que quer dizer , terra entre dous 
rios 5 quando o Eufrates vem dar na Pro- 
vincia, a que Ptolomeu chama Babylonia, 

lan- 

a O rio Eufrates najce naquelta parte ãa Annenio maior , 
^tie fe ch(ima Turcowania , do monte Pariades , do qual 
tem tamhem feu nafcimento o rio Âraxes. Ejie corre a 
Levante , e entra no mar Cafpio , e o Eufrates fíi^ feu 
£urJo per hum efpa^o a Ponente , donde volta a Melodia > 
(itravejfando o nomeado monte Tauro para fe ajuntar com o 
Tii^ris. Antes de paffar aquelk célebre monte , fe chama* 
va antigamente Pyxirato , e depois de pajjado , Omira , co-^ 
mo ejcreve Plinio no cap. 24. do liv. ^. E no cap. 26. 
do liv. 6. diz y que os Afjyrios lhe chamavam Armalchar , 
ou mais propriamente Naarmalcha y como lhe chama Am. 
Marcellino , que fignifica rio Real y que he o mefmo que 
JBaJilio y nome , que pela melma cuufa lhe dá Ptolomeu na 
4. Taboa da Ajia -, e por ella confa fer hum hraqo do mef 
wo Eufrates , que rega a Provinda , e Cidade de Baby- 
lonia , pe/a qual paíja. O nome Hebreo , que tem tia Sa- 
grada Efcritura , he Pharath , que quer dizer Fortifcati' 
vo i e Joftfo no cap. 2, do liv. i. das Antiguidades lhe 
chama Phora , e hoje os Arménios Frat , e os Turcos Mu- 
rat. O rio Tigris nafce em numa Provinda da Arménia 
maior , que Ptolomeu chama Gordene y e hoje Curdi-, o feu 
fiome antigo foi Sollox , como afirma Plutarco o Moço 
no tratado dos Rios. No feu nafcimento , onde corre va- 
garcfamente , fe chamou Diglito , como ejcreve Plinio no 
*''np. 27. do liv. 6. E quando fe apreffa , e correm com 
Ímpeto fuás aguas , por razão delle lhe puzeram os Me- 
dos o nome de Tigris , que entre elles quer di^er Setta-, 
e por a mefna caufa , e fignif cação tem na Sagrada Ef 
critura o nome de HideKely que he Siriaco. Diglath lhe 
chama Jofefo , e os nomes modernos são vários , fegundo 
</5 Provindas per que pajja , porque lhe chamam Hide- 
cel y T>erghele , Sir , e Set» 



DecadaIV. Liv.III. Cap. XIII. 337 

lança-íc do Sul para o Norte , e faz hum 
agudo cotovello defronte da Cidade Ba- 
gadad , per que paíla o Tigris ; e entre 
hum , e outro rio não fíca mais efpaço que 
fete léguas , as quaes nas grandes creícen- 
tcs dclles todas fe cobrem de agua. Defte 
cotovello volta Eufrates ao Sul , e rom- 
pendo com grande Ímpeto , fe parte em 
dous braços , hum fe vai metter no Tigris , 
e o ourro correndo com o mefmo curfo , 
alaga toda a terra de Bafçorá té fe juntar 
com as outras aguas fuás , e do Tigris em 
Corna , que he huma fortaleza , que os Tur- 
cos fizeram no canto da terra deíle ajunta- 
mento. Daqui vam ambos os rios em hum 
corpo té entrar no mar Parfeo per duas bo- 
cas que fazem huma Ilha , a que os Parfeos 
chamam Murzique , e Ptolomeu , e Plinio 
fituam nella o lugar Teredon''. Nefta Ilha 
vivem alguns pefcadores, por fer toda cu- 
berta de canaveaes , e tão baixa , que eftam 
quafi fobre a barra defte rio quando vem 
do mar, enao a vem, nem fe tom.a fenão 
per Pilotos 5 que eftam alli perto em outra 
Ilha chamada Cargue j e porque o Eufra- 
Tom.IF.P.L Y tes, 

a Ejle lugar tjuerem Mercotor , e Ortelio que feja 
Bafçorã , em que fe enganam , porque Teredon fitua Pto^ 
iometi no meio da Ilha , e Bafqorá não ejtá nella , fenão 
trinta léguas das iocas do rio , e fica á mão direita da 
fua corrente , e não â ef quer da , comQ ejiís Authores a f»Ç 
émfuas Taioas Geográficas, 



338 ÁSIA DE João de Barros 

tes , depois que a primeira vez fe junta com 
oTigris, ambos retalham toda aquella ter- 
ra. A que he aífi cercada , e cortada dos 
rios , chamam os Perfas Gizera , e os Ára- 
bes Leziras , vocábulo que entre muitos ou- 
tros nos ficou delles do tempo que lenho- 
reárnm Hcfpanha. E a principal , e maior 
delias , a que os naturaes chamam Vacet , 
e nós Ilha de Gizaira , que he vizinha de 
Baíçorá , e a ultima que eíles rios fazem , 
onde eftá a fortaleza de Corna , terá de cir- 
cuito mais de quarenta léguas , e toda cheia 
de caftellos , pola maior parte de madeira , 
cm que cada hum vive fobre íi , e de den- 
tro de fuás abertas tem fua fazenda , onde 
ninguém lha vai devaíTar. Eílas povoações , 
c|ue todas eftam pela terra dentro afaitadas 
de agua , mais são para fe defenderem huns 
dos outros , que dos eítrangeiros , por elles 
ferem tao beilicofos , que em fuás conten- 
das tem que fazer toda a vida. O Rey hc 
pouco obedecido, eporiíTo quem mais po- 
de tem m,ais juftiça no que quer , e não 
ha outra entre elles. He gente bem difpof- 
ta , e ligeira, não tem ulo de cavallos, fo- 
mente ElRey os tem para fua pcíToa ; polo 
que fuás guerras são fempre a pé , fuás ar- 
jnas principaes são frechas , e aííi havia na- 
quella Ilha Gizaira quarenta mil frecheiros. 
Antigamente obedeciam todos ao Senhor de 

Ba- 



Década IV. Lrv.III. Cap.XIIL 339 

Bagadnd ; mas depois que o Turco come- 
çou a contender com o Xiah límael , hum 
iMouro podcrofo que ai li prcíidia , naquel- 
las difíerenças íe intitulou por Rev , fobre 
o qual o Xiah Tamas quizera vir ; e fa- 
bcndo que toda a Ilha era retalhada de es- 
teiros , e que cada vez que queriam feus 
moradores , alagavam toda a terra , o dei- 
xou de fazer. Eíle Mouro, que fe levantou 
por Rev , que era Pai do que neíle tem- 
po vivia , e contendia com o Senhor de 
Bafçorá , tinha poílo de fua mão a efte Ale 
Mogemez naquclle lugar , como Feitor feu » 
para lhe recadar os direitos das coufas que 
per alli paíTavam ; e qUq em quanto aqucl- 
le Senhor de Gizaira contendia com o Se- 
nhor de Bagadad , fez-fe forte ; e como era 
Arábio da feita de Mahamed , e inimigo 
dos da opinião de Ali , que são aquelles 
de Gizaira , Icvantando-lhe de todo a obe- 
diência , fe intitulou Rey , como elle de 
Gizaira fez ao Senhor de Bagadad. E com 
tudo por obediência pagava eíle Ale Mo- 
gemez ao Rey de Gizaira paíTado certas 
parcas em final de fubjeição , e vaíTallagem. 
E a caufa por que o de Gizaira lhe fazia 
agora guerra , era , que havendo annos 
que Ale Mogemez não queria pagar efte 
tributo , além defta rebellião , lhe mandou 
matar hum filho , andando á caja na terra: 

Y ii fir- 



340 ASTA DE João de Barros 

firme da parte da Arábia , onde elle tinha 
tomado dous lugares a Ale Mogemez : po- 
lo que por medo d'ElRey de Gizaira man- 
dou Ale Mogemez pedir ajuda a Chrifto- 
vão de Mendoça. E porque os Capitães de 
Ormuz tem muita neccílidade da amizade 
do Senhor de Bafçorá , e nella tem fempre 
hum Feitor, que lhes adminiftra fua fazen- 
da , e ordinariamente cada anno vam dalii 
fetccentos , e oitocentos cavailos a Ormuz , 
e dahi para a índia , que dam muito ren- 
dimento a ElRey de Portugal nos direitos 
que pagam , favorecem muito as coufas da- 
quelle Mouro. 

CAPITULO XIV. 

Como Belchior de Soufa foi recebido d^El- 

Rey de Bafçord , e foi com elle contra 

ÊlRey de Gizaira. 

AO tempo aue Belchior de Soufa che- 
gou a Baíçorá , andava ElRey no 
campo a caça , e em dous dias que elle tar- 
dou 5 deixou-fe eílar Belchior de Soufa no 
bargantim meia légua da Cidade , fendo vi- 
íitado do feu Governador com muito refref- 
co 5 e frutas de noíTa Europa. Vindo El- 
Rey , mandou ao feu Governador , e aos 
principaes de fua cafa , que foUem acom- 
panhar a Belchior de Soufa ^ e elle foi com 

par- 



DecadaIV. Liv. III. Cap. XIV. 341 

parte de fua gente a mais luzida , fem ar- 
mas , fó dous homens levou armados com 
efpadas de ambas as mãos para dar moílra 
a ElRey , o qual por lhe fazer honra o es- 
tava eíperando em hum terreiro grande an- 
te luas cafas , que feria de quarenta braças 
em quadra , com as coftas em huma pare- 
de , aíTentado em hum coxim de feda fo- 
bre huma alcatifa de ouro , e junto com 
cllecftava outra dela para Belchior deSou- 
fa. De longo das paredes do pateo era tu- 
do eíleirado , em que eftavam aíTentados em 
cocaras mais de dous mil homens. No meio 
do terreiro andava hum Eílribeiro d'ElRe}r 
em cima de hum formofo cavallo , paílean- 
do ; e dez , ou doze homens a pé traziam 
outros tantos cavallos pela rédea , por efta 
fer a maior honra com que elles recebem 
os Embaixadores , dando-lhes moílra dos ca- 
vallos de fuás peflbas. Além deites andavam 
outros homens a huma parte do terreiro eC- 
grimindo com lanças de c anna , e cofos por 
eftado ; e tudo ifto era ao fom de humas 
doçainas ao feu modo , que aos noUos pa- 
receram bem. Junto d'ElRey eftavam fete, 
ou oito muíicos , cantan do per livros com 
vozes acordadas per arte , que foi aos noC- 
fos coufa nova ; porque os Árabes da nof- 
fa Barberia não ufam delia , o que parece 
eftes de Bafcorá aprenderam dos Perfas. El- 



342^ ÁSIA DE João de Barros 

Rey alTentado naquella almofada , com fuás 
pernas cruzadas , tinha veitida huma camifa 
de linho tinta de azul , e fobre elia huma 
algerevia de Ja , e na cabeça huma grande , 
e nâo mui delgada touca , fem mais outro 
arreo , moílrando-fe mui Árabe no trajo , 
de que fe elles muito prezam. Entrando 
Belchior de Soufa acompanhado do Gua- 
zil 5 foi té onde ElRey eftava , o qual fa- 
hio fora da alcatifa , e o levou pela mão a 
aífentar na que eftava pofta para elle. Pai- 
fada a primeira prática de feus cumprimen- 
tos 5 mandou ElRey chegar para íi os dous 
homens , que Belchior de Soufa levava ar- 
mados , e apalpou todas as armas , e cha- 
mando a hum feu armeiro , lhe perguntou 
fe lhe faria outras daquella maneira , por- 
que lhe pareciam bem , e pedio a Belchior 
de Soufa que os mandaíTe jogar das efpa- 
das 5 o que elles fizeram mui bem , e El- 
Rey folgou muito de os ver, 

Defpedido Belchior de Soufa d'ElRey 
para ir a repoufar , ao outro dia o mandou 
vir per o próprio Guazil , e lhe deo conta 
de feus trabalhos , e guerra , que havia dez 
annos que lhe ElRcy de Gizaira fazia ; e 
que quanto á morte de feu filho , de que 
fe elle mais fentia , jurava em verdade que 
elle lho náo mandara matar , e que a mor- 
te fora per defaftre , e não per outra via ; 

que 



DecadaIV. Liv.III. Cap. XIV. 345 

que verdade era que elle mandara aquelle 
ieu Capitão , que trabalhaíTe de o cativar , 
para fobre feu relgate fazer alguma paz. 
Belchior de Soufa como trazia inftrucção 
do que havia de requerer a ElRey de Baf- 
çorá , depois de o coníblar em feus traba- 
lhos , e dizer que para lhe valer neilcs , o 
mandara o Capitão de Ormuz , começou 
de o culpar em ter comíigo Turcos inimi- 
gos dos Portuguezes , e os recolher , la- 
bendo que nos offendia , e tinha fuftas , que 
hiam ao mar de Perfia fazer algumas pre- 
zas em os navios que levavam mantimen- 
tos , e mercadorias a Ormuz. Ultimamente 
defta prática , e de outras coufas que lhe 
Belchior de Soufa propoz fobre amizades , 
e boa vizinhança , que comnofco lhe cum- 
pria ter em Ormuz , de que tanto bem , e 
proveito recebia , elle Ale Mogemez pro- 
metteo 5 que em fatisfaçao daquella ajuda, 
que lhe vinha dar , lhe entregaria as fuftas 
que tinha , que feriam fete , pois dizia def- 
contentar-fe o Capitão de Ormuz de as dlè 
ter. E que na fua terra não confentiria Ru- 
mes , que os que ao prefente alli eftavam , 
paíTada aquella neceíTidade , os defpediria. 
Mas que o que delle Belchior de Soufa fo- 
mente queria , era fazer com ElRey de Gi- 
zaira foíTe feu amigo , ou o ajudaíTe a co- 
brar duas fortalezas, que lhe tinha tomadas 

na 



344 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

na terra da Arábia ao longo do rio Eufra- 
tes. 

Concertado que foíTem contra ElRey 
de Giza ira , fe fez prcítes o de Bafçorá em 
efpaço de quinze dias , e partio com duzen- 
tas dalaças , que são humas barcas grandes 
ladas , e rafas , em que levou cinco mil ho- 
mens de pé , feiscentos delles efpingardei- 
ros , e as fete fuftas mui bem* artilhadas , de 
que a rncnor levava fete bombardas , e nel- 
las hiam cincocnta Rumes veílidos todos de 
vermelho , e outros tantos homens da terra , 
dos mais principaes , nas quaes hia ElRey. 
Per terra ao longo do rio mandou hum fo- 
brinho feu com té três mil homens encaval- 
gados em éguas , (porque os cavallos ven- 
dem elles para Ormuz , ) dos quaes os quatro- 
centos eram acubertados ao modo da Períia , 
armados com faias de malha , todos mui bem 
concertados , fegundo feu uíb. E porque ao 
longo do rio ventou Noroefte , que íemprc 
alli curfa , fe detiveram no caminho três 
dias em chegar ao lugar aonde hiam , fendo 
poucas as léguas. Aífentando ElRey feu ar- 
raial na terra firme da banda da Arábia , 
defronte donde ElRey de Gizaira tinha alTen- 
tado o feu, em que dizem que havia doze 
mil homens os mais delles frecheiros , eftive- 
ram efpaço de nove dias em filencio , fem 
travarem efcaramuça huns com os outfos. 

Bel- 



DecadaIV. Liv.IIL Cap. XIV. 345- 

Belchior de Souía vendo efta dilação , 
c que iieftes dias fe nao fizera mais que ir 
dar moftra a ElRey de Gizaira , e csbom- 
bardear pelos ares , apertou com EIRey Ale 
Mogemez , que nao deixalTe palTar mais 
tempo , porque fe perdia conjunção ; ao 
que elle refpondeo , que fe nao agaílaíle , e 
o deixaíTe fazer , porque elle fabia como as 
coufas daquella terra queriam fer tratadas ; 
té que hum dia veio á fufta de Belchior de 
Souia 5 e diíle-lhe , que era neceílario ef- 
crever elle Belchior de Soufa a EIRey de 
Gizaira, e que elle daria a forma da carta 
para o negocio vir a bom eíFeito. A carta 
fe efcreveo em lingua Arábiga , e fe man- 
dou a ElRev de Gizaira , cuja fubílancia 
era , que Belchior de Soufa viera alli per 
mandado do Capitão de Ormuz , por faber 
que elle , e EIRey de Bafçorá andavam em 
guerra fobre as diíFerenças que tinham. E 
por ambos ferem vizinhos de Ormuz , elle 
queria ufar officio de bom vizinho , e aííl 
mandava a elle Belchior de Soufa para es 
metter em paz , e amizade , e que aquelle 
que a recufaífe o tiveífe por inimigo ^ e lhe 
fizeíTe o mal , e damno que pudeífe , e a 
todos feus naturaes ; e que para eíta paz fe 
cífeituar , trouxera logo comfigo a EIRey 
de Bafçorá , o qual era contente de eftar 
por o que elle Belchior de Soufa niífo fi- 

zef- 



34^ ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

zeíTe, tendo informação do cafo. Mandada 
efta carta per hum Mouro mercador, veio 
logo a refpofta delia , em que dizia ElRey 
de Gizaira , que pois elle era o oíFendido , 
que razão fora de ir primeiro faliar com 
elle , que com Ale Mogcmez , que o po- 
deria informar como convinha a feu propo- 
iito. Porém por elle fer o primeiro Portu- 
guez que fora áquelle feu Reyno , e tal pef- 
iba 5 e também por fer aquellc o primeiro 
requerimento do Capitão de Ormuz , com 
quem defejava ter amizade , elle era coii- 
tente de fazer paz com Ale Mogemez , e 
que para iífo mandaria logo dous criados 
ieus para a aíTentarem , e que tudo o que 
fizeíTem elle o aífinaria. 

CAPITULO XV. 

Co?no Belchior de Sonfa afjcntou pazes en- 
tre os Reys de Bafçord , e de Gizai- 
ra : e como do de Bafçord veio defa- 
vindo por lhe faltar da promejja 
que lhe fez. 

NO fim de quatro , ou cinco dias , que 
__ os procuradores d'ElRe7 de Gizaira 
eftiveram com ElRey de Bafçorá , aíTentá- 
ram com elle pazes , com cilas condições : 
QiieEIRey de Gizaira entregaííe ao de Baf- 
çorá as duas fortalezas , que Uic tinha to- 
ma- 



Década IV. Liv. III. Cap. XV. 347 

macias na terra firme , e por ellas lhe daria 
logo o de Bafçorá cinco mil cruzados , e 
cincoenra covados de velludo preto , e do- 
ze cavallos , e que cada anno lhe pagaíTe 
o tributo que lhe foia pagar. E porque Bel- 
chior de Soufa , quando íoube do concer- 
to da paz , diíTe a ElRey de Bafçorá , que 
elle não viera alli para fazer pazes per tan- 
to preço , fenão francamente , e com hon- 
ra lua , e fc moítrava diíTo defcontente ; El- 
Rey de Bafçorá fe agaftava , como quem 
defejava ver-fe feguro no Reyno que ufur- 
pára , e pedia a Belchior de Soufa com gran- 
de encarecimento fe contentaífe , porque o 
partido lhe vinha muito bem , e nunca cui- 
dara que EIRey de Gizaira viqÍTí^ a concer- 
to com dk, E porque lábia que EIRey de 
Gizaira aguardava que elle Belchior de Sou- 
fa lhe mandaíTe os agradecimentos do que 
fizera , lhe pedia lhe déíTe hum Portuguez 
para ir com os feus , que havia de mandar 
a afílnar o que tinham aílèntado : pelo que 
Belchior de Soufa mandou a hum Gafpar 
do Gafai com o fobrinho d'ElRey de Baf- 
çorá , que foi a efle negocio. 

Acabadas de confirmar eílas pazes , e 
EIRey Ale Mogemez pofto em fua cafa , 
determinou- fe em não cumprir a promeíTa 
que fizera a Belchior de Soufa de lhe dar 
is fuftas que tinha ^ e temendo que lhas to- 

maf- 



348 ÁSIA DE João de Barros 

maíTe per força , quando lhas negaíTe , man- 
dou-as metter pelos eíleiros em parte on- 
de os Portuguezes não pudeflem ir , nem 
Belchior de Soufa Ibube parte delias ; e re- 
querendo aElRey que cumpriflc com clle , 
cfcufava-fe , dizendo fer coufa mui afronto- 
fa para elle dar fuás fuílas , que lhe daria 
em lugar delias mil xerafíjs , que podiam 
valer. Belchior de Soufa vendo que per ne- 
nhum modo lhas podia tirar da mão , dif- 
limuladamente mandou recolher hum Fer- 
não Mendes , que lá eftava feitorizando fa- 
zenda do Capitão de Ormuz , e aíli outros 
Portuguezes ; e como os teve comíigo , là- 
hio-fe fora do eftreito da Cidade , e veio- 
fe ao rio , onde tomou huma dalaça , e fem 
fazer nojo á gente , per hum dos marinhei- 
ros delia mandou dizer a ElRey , que pois 
lhe quebrava fua palavra , e lhe não cum- 
pria apromefia, elle lhe havia por quebra- 
da a paz que tinha com Ormuz , e que 
mandaíTe guardar fua terra , porque lhe ha- 
via de fazer quanto mal , e damno pudeíTe. 
Denunciada efta inimizade, fem lhe ElRey 
mandar refpofta , veio-fe pelo rio abaixo , 
e deo em hum lugar , que feria de trezen- 
tos vizinhos , em que haveria cincoenta de 
cavallo , os quaes vieram receber aos nof- 
fos á praia ; mas como elles viram três , 
ou quatro derribados , recolhêram-fe ao lu- 
gar 



Década IV. Liv. III. Cap. XV. 349 

gar entre a gente de pé. E como a tenção 
de Belchior de Soufa era queimar efte lu- 
gar , foi dar ainda nelles , onde também 
derribou com as efpingardas cinco, ou íeis, 
com que o lugar foi defpejado , e com bom- 
bas de fogo o mandou queimar , por fe não 
derramar a gente , fendo os que fó tinham 
comfigo trinta e cinco homens , que os mais 
ficavam nos bargantijs. Qiieimado eíle lu- 
gar , paíTou-fe da banda da Períia , e foi dar 
em outro de cem vizinhos , que também 
queimou. O que feito , tornou dar vifta a 
Bafçorá , e andou na boca do feu eíleiro 
tre? , ou quatro dias , por não dizerem os 
Mouros que fugia ds fuás fuílas , que po- 
diam mandar fobrc elle Armadas com .os 
Turcos. 

E vendo que ifto bailava , e que não 
tinha já pólvora para alli andar mais tem- 
po , partio-fe via de Ormuz ao longo da 
cofta de Períia , por dar huma vifta á Vil- 
h de Rexet , que feria de dous mil vizi- 
nhos 5 cercada de muros de pedra , e cal , 
e de cafas mui nobres , como na Perfia coC- 
tumam. O Senhor que então era defta ter- 
ra , havia pouco que por fer Senhor delia , 
não efperando o que o tempo lhe poderia 
dar , matara a feu pai ás frechadas. Com 
eíle concertou Belchior de Soufa em ódio 
d'ElRey de Bafçorá , que dalli mandaífe os 

ca- 



35'o ÁSIA DE João de Barros 

cavallos a Ormuz , que hiam per via de 
Bafçorá , porque lhos tomariam lá de me- 
lhor vontade j o que ellc acceitou por o 
muito proveito que dahi lhe vinha , c aquel- 
Je anno foram per Tua ordem mais de tre- 
zentos cavallos a Ormuz. Mas ifto durou 
pouco , porque dous irmãos deíle parrici- 
da , a que eile quizera matar como a íèu 
pai , o mataram a elle ás punhaladas per 
juizo de Deos, que he juftiça univerfal de 
todas as gentes. 

CAPITULO XVL 

Como Belchior de Soufa veio a Ormuz , e 

provendo'0 o Governador da capitania 

viór do mar , o mandou a Babarem , 

e do que lá fez, 

EM chegando Belchior de Soufa a Or- 
muz , deo razão a Nuno da Cunha do 
que deixava feito , do que elle ficou mui 
contente , por ver quão bem cumprio o que 
\\\Q. Chriílovão de Mendoça mandara j e aííl 
por aquelle ferviço , como por as qualida- 
des de Belchior de Soufa , o fez Capitão 
mor do mar de Ormuz. Deik capitania hia 
do Reyno provido por ElRey Manuel de 
Soufa filho de Gonçalo de Soufa de Évo- 
ra , que cftava alli com Nuno da Cunha, 
e elle a renunciou em fuás mãos, para del- 
ia 



Década IV. Liv.III. Cap. XVL sst 

la prover a quem lhe pareceffe ; porque co- 
mo efperavatn de ir aquelle anno íobre a 
Cidade de Dio , e ellc era homem de maio- 
res pen lamentos , que de fer Capitão mór 
do mar de Ormuz , quiz a ventura do que 
o Governador lhe podia lá fazer , e a hon- 
ra que cfperava g?.nhar naquella em preza , 
antes que ficar aili. Parece que o chamava 
o lugar 5 e a hora em que havia de acabar, 
como depois acabou na meíma Cidade de 
Dio , com tanta fua honra , como veremos 
em íeu lugar. 

Nuno da Cunha por cumprir o requeri- 
mento d'ElRey de Ormuz, que era dar-lhe 
a poíTc da Ilha de Babarem , determinou de 
mandar lá Belchior de Soufa com quatro 
bargantijs , e alguma gente a prender Raez 
Barbadim , e deixar por Guazil naquella 
fortaleza, per ordem d^ElRey de Ormuz, 
hum Mouro chamado Mir Abcruz , por fer 
peífoa de que dh confiava. A ordem que 
levava para o poder fazer , era chegar ao 
porto de Babarem com fama que tornava 
a Bafçorá fazer guerra a ElRey por o que 
linha paíTado com elle , c alli fingir eftar 
mal defpofto , e mandar chamar da parte 
d'ElRey , e de Nuno da Cunha a Raez 
Barbadim , que lhe queria dizer algumas 
coufas da fua parte ; que lhe pedia: pois 
elle com fua doença não podia fahir em 

ter- 



35'2 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

terra , que lhe quizeíTe alli vir fallar. Che- 
gado Belchior de Soufa a Baharem , foi lo- 
go mandado vifitar per Raez Barbadim com 
refreíco de carneiros , e frutas j ao que dle 
refpondeo com agradecimentos , e que mui- 
to mais folgara de os ir comer em terra 
com elle , mas por vir doente o não fazia. 
Eque porclle trazer recados para elle d'El- 
Rey de Ormuz , e do Governador da ín- 
dia Nuno da Cunha , e ferem coufas que 
fe não podiam, communicar per terceira peC- 
foa , lhe pedia vieíTe ao bargantij para lhos 
dar. Raez Barbadim como já eftava avifado 
de tudo o que paíTava em Ormuz , refpon- 
deo a eíte recado , que não curaíle de arti- 
fícios com elle , que fallaífe claro , que bem 
fabia ao que era vindo , que fe trazia com- 
íigo Mir Aberuz , que o mandaíTe fahir em 
terra , que éle lhe entregaria a fortaleza. 
Belchior de Soufa quando neftas palavras , 
e em outras claramente entendeo que elle 
era fabedor da caufa da fua vinda , mandou 
vir Mir Aberuz , que eftava em outro bar- 
gantij , e com elle João PeíToa , e António 
Dias , ambos criados d'ElRcy , per os quacs 
mandou huma carta de Nuno da Cunha a 
Raez Barbadim, em que lhe dizia, que El- 
Rey D. João feu Senhor mandara ir Raez 
Xarafo a Portugal , para delle faber algu- 
mas coufas de leu fervijo, e bem^ e aífo- 

ce* 



DecadaIV. Liv.III. Cap. XVI. 35-3 

cego daqucllc Reyno de Ormuz \ e íaben- 
do o parenteíco , e razão que ambos ti- 
nham , havia por bem que eílc Raez Bar- 
badim fícaíTe em Ormuz com EIRey por 
leu Governador , em quanto Raez Xarafo 
and afie em Portugal. E que para fe poder 
vir com Belchior de Soula , entregaíTe a 
fortaleza a Mir Abcruz ; pedindo-lhe elle 
Belchior de Soufa por razão de hum regi- 
mento que levava do Governador Nuno da 
Cunha , e aíH d'ElRey de Ormuz , que íe 
\íq[í^ embarcar com elle , e não o queren- 
do fazer , o havia por traidor , e levantado ^ 
e quantos eftavam com elle , fe lho. obedc- 
ceíTem. Ao que refpondeo Barbadim , que 
elle via feu cunhado prezo , e levado a 
Portugal 5 e por tanto não oufava entregar 
fua peífoa em poder alheio , e muito me- 
nos dos que queriam mal a feu cunhado. 
E quanto ao deípejar da fortaleza, que fe 
foíTe elle Belchior de Soufa era boa hora ^ 
e Iht defpejaíTe o porto , para elle livre- 
mente fe paíTar a viver á banda de além da 
Períia, que a Ormuz nunca o Deos levaíTe , 
pois nelle tudo eram revoltas , e inquieta- 
ções. Belchior de Soufa , pofto que o fe- 
gurava deftes receios , nunca o pode trazer 
a conclusão , fomente dizia , que fe o ha- 
viam por dizer que devia dinheiro a EIRey, 
fem embargo de não fer affi , por viver em 
Tom.IKP.L Z paz. 



354 ÁSIA DE João de Barros 

paz , e Jem fobreíliltos , daria a ElRey trin- 
ta mil xerafijs. Depois que Belchior de Sou- 
fa provou todos os incios fem fruto , cí- 
crevco a Nuno da CunJia o que paíTava , e 
que Raez Barbadim eílava poílo em Ic de- 
fender , porque tinha comíigo oitocentos ho- 
mens Paríeos em huma fortaleza , que do 
mar lhe parecia mui bem : Qiie lhe enviava 
João PeíToa , e António Dias , que elle per 
vezes lá mandara com recados , os quaes 
lhe poderiam dar larga relação de tudo , 
porque o viram , e trataram ; e que elle 
ie deixara ficar naquelle porto , defendendo 
o ibccorro de mantimentos , e gente dacof- 
ta de Perfia , donde fe elle provia , e que 
os pefcadores não foííem peícar , que fe lhe 
bem pareceífe mandaífe mais gente , e as 
munições neceíTarias , que eUc commetteria 
a fortaleza. A efta carta refpondeo logo 
Nuno da Cunha per João Peílba , dando- 
Ihe as graças do que fizera , e encommen- 
dando-lhc que defendeíle a entrada daquel- 
Je porto , como fazia , porque atrás ifto lhe 
iria recado do que fe havia de fazer. 

Pofto efte cafo em confelho , e dadas 
muitas razoes pordiverfos refpeitos , foram 
todos de parecer , que para aquella empre- 
za íe havia mifter muita gente : pelo que 
ordenou Nuno da Cunha , que feu irmão 
Simão da Cunliwa ^ que havia de fervir de 

Ca- 



Dec. IV. I.tv. IIÍ. Cap. XVI. E XVII. 35'5' 

Capitão mor do mar da índia , fizeíTe aqucl- 
la jornada. Para cila lhe mandou Nuno da 
Cunha fazer preftes oito véJas com quatro- 
centos homens , de que eri^m Capitães Dom 
Fernando De<^c^ , D. Franciico Deça , Alei- 
xo de Sou ia Chichorro , Lopo de Melqui- 
ta , Manuel dWlboquerque , Franciico de 
Mendonça , c Triílao de Taíde , e mais al- 
gumas terradas d'ElRey de Ormuz , em que 
ília gente para ferviço , mais que para pelejan 

CAPITULO XVIL 

Como Nímo da Cunha fe partio para a In* 
dia com a gente que tinha comfigo em 
Ormuz da Jua Armada: e de algumas 
coufas que deixou feitas para quie- 
tação do Reyno. 

DEpois da partida de Simão da Cunha 
para a Ilha de Baharem , que foi aos 
8 dias de Setembro , quando fe celebra o 
Naícimento de N. Senhora , começou Nu- 
no da Cunha entender em fua viagem pa- 
ra a índia. E porque temia que por ElRey 
de Ormuz fer moço , e inclinado a vicios , 
e que depois de elle partido , como já fi- 
cava mais fenhor de íi , podia commetter 
algumas coufas contra o ferviço d^ElRey 
de Portugal , determinou de o refrear , e 
tirar-lhe antes que partiíTe algumas occaíioeso 
Z ii A pri- 



gjó ÁSIA DE JoAo DE Barros 

A primeira foi , que por clle ter Jium fcu 
irmão prezo , dizendo que o quizera matar , 
não o quiz deixar em leu poder; mas por 
boas razoes o mandou levar á fortaleza , e 
o entregou ao Capiráo Chriftovão de Men- 
doça com guarda nelle , porque com cíle 
inoço em noíío poder temeííe ElRey , que 
fazendo alguma couía que não deveíTe , o 
poderiam os Portuguezes levantar porRey, 
por fer moço bem inclinado , e noíTo ami- 
go. Também mandou deílerrar de Ormuz 
Jium irmão de Raez Barbadim , homem que 
era perjudicial na Cidade. Aíli meímo lhe 
tirou de cafa outro fobrinho de Raez Xa- 
rafo , que lhe fervia de Guarda mor , a que 
ElRcy era inclinado por lhe confentir em 
algumas defordens , e deixar cumprir feus 
appetites. E poílo que clle confentio perder 
a conver facão defíe homem , era já tama- 
nho o ódio que tinha ás coufas de Raez 
Xarafo , que o foífreo bem. Ultimamente 
Nuno da Cunha não deixou em Ormuz ho- 
mem , de que fe pudeíTe prefumir que acon- 
felharia a ElRey alguma maldade. PorGua- 
2Í1 lhe deixou aquelle fel , e leal a noíTas 
coufas Xech Raxit, que eftava em Mafca- 
te , coufa que os Mires , que são os Fidal- 
gos d'ElRey , íbfFréram mal por fer Ara- 
Idío , a que os Pcrfas não tem boa vontade. 
E pofto que ElRey poz eílc inconveniente 

a Nu- 



DecadaIV.Liv.TíI. Cap.XVII. 35-7 

a Nuno da Cunha , movido per algumas 
peíToas que diílb íe defcontcntavam , toda- 
via como em Ormuz não havia homem de 
tanta qualidade como aquclle, e os que ha- 
via todos eram parentes , c chegados a Raez 
Xarafo , que era gente rulpcitoía , houve 
Nuno da Cunha por mais ícguro ficar Xech 
Raxit por Guazil. E porque o officio era 
tao cubicado , e o maior que Raxit podia 
delejar , cllç o não queria acceitar , e fallou 
nilTo a Nuno da Cunha em fcgredo , dizen- 
do que o pejo que tinha a íervir aquclle 
cargo era ter dk morto Raez Delamixá , 
irmão de Raez Xarafo , pela maneira que 
clle fabia , por fervir niíTo aElRey de Por- 
tugal , e que ficando naquelle cargo tao hon- 
rado 5 e invejado entre os parentes de Xa- 
rafo , fempre haviam de embicar nelle , co- 
mo gente magoada , que elle queria antes 
hum repouíb , que vida tão temida. Nuno 
da Cunha viílas as razoes de Xech Raxit, 
e que não eram fingidas , o houve por ho- 
mem para muito , e digno de maiores car- 
gos ; e não lhe acceitando as efcufas , com 
grande foiemnidade o entregou a ElRey , 
dando-lhe juramento , que bem , e verda- 
deiramente íèrviffe aquclle ofiicio , e foíTe 
leal a ElRey. Defte modo de entrega ficou 
ElRey contente , e dahi em diante não deo 
cargo algum fem aquelle juramento. E lo- 



35'8 ÁSIA DE João de Barros 

go mandou vir huma cabaia de brocado , 
e leu carapuçáo , e fora a ícu uíb , que he 
o ttajo dos Keys , e Governadores daquel- 
las partes , com que veftio a Xecii Raxit , 
como em poíTe , e inveftidura do officio de 
que folgava de o encarregar. Vendo ElRey 
quantas coufas Nuno da Cunha fizera em 
táo pouco tempo , e que todas eram em 
proveito do Reyno , e que o tratava como 
a filho , e fem nenhuma moflra de cubica , 
hum dia eftando já em vefpcras de partida , 
lhe metteo na mao hum fio de pérolas , pe- 
dindo-lhe que por amor deilc o tomaíTe. 
Nuno da Cunha o tomou por o nao efcan- 
dalizar , e porém clle as mandou a Portu- 
gal a ElPvey per Manuel de Macedo. 

Acabadas eíias coufas, a 15' de Setem- 
bro fe partio de Ormuz , e dahi veio ter a 
Mafcate , onde tinha deixado as náos que 
atrás diíTemos. De Mafcate partio com aquel- 
las véías , de que hiam per Capitães Antó- 
nio da Silveira de Menezes , que viera de 
Moçambique 5 deixando de fcrvir a capita- 
nia de Çofala , por fe vir á índia com el- 
le por ferem cunhados , e D. Fernando de 
Lima , António de Lemos , e Luiz de An- 
drade , com a qual frota com tempos con- 
trários nao podendo tomar Chaul , foi ter 
junto de Dabul, onde achou Fernão Mar- 
tins Evangelho , que o andava alli efperan- 

do 



Década IV. Liv. III. Cap.XVII. 35-9 

do com huma galcora , e quatro bargantijs 
que fizera á íua cufta para fervir ElRey. 
Com erta companhia chegou Nuno da Cu- 
nha á barra de Goa a 22 dias de Outubro, 
onde logo vieram a elle Francilco de Sá , 
Lopo de Azevedo , e outros Fidalgos , per 
os quaes loube como Lopo Vaz de Sam- 
paio eftava em Cananor flizendo-fe preftes 
para íc vir ao Reyno "^ , e levara dahi com- 
íigo António de Miranda de Azevedo Ca- 
pitão mòr do mar com toda a Armada que 
trazia para andar na coíla do Malavar. E 
que do Pveyno eram vindas quatro náos ^ 
da carreira , de que viera por Capitão mor 
Diogo da Silveira , filho de Martim da Sil- 
veira cunliado delle Nuno da Cunha , ir- 
mão de D. Maria da Cunha fua primeira 
mulher. Das outras três náos eram Capitães 
Henrique Moniz , Ruy Gomes da Gram , 
e Ruy Mendes de Meíquita , e aífi foube 
como Eitor da Silveira eftava em Chaul , 
onde invcrnára. Nuno da Cunha antes que 
dcíembarcaíTe , per navios de remo provêo 
logo no que cumpria. A Diogo da Silvei- 
ra 

a Frota ãa índia do anno de 1529. 

h Efías quatro 7íáos chegaram á Varra d^ Goa dia de 
S. Bartho!o'men. Henrique Moniz Capitão de humo d.'"as 
viorreo no mar. Levava com/igo dons Jilhos de pouca ida- 
de y Aires Moniz y e António Monij^ Burt-eto, gu^ de- 
rols foi Governador da índia. Diogo do Couto Dec, 4. 
íiv. 6. cap. 6. 



360 ÁSIA DE JoXo DE Bakros 

ra efcreveo que íe vieíTe a ellc com as car- 
tas que d'EiRe7 trazia. A Lopo Vaz de 
Sampaio , que lhe mandaííe o galeão Sáo 
Diniz para ir nelle , porque em Goa náo 
faria detença por fer já tarde. A António 
de Miranda mandou que trouxeíTe toda a 
Armada ; e o meímo efcreveo a Eitor da 
Silveira , deixando fomente a ordenada da 
fortaleza de Chaul. Defpedidos eítes reca- 
dos 5 ao outro dia quantos navios de re- 
mo havia na Cidade fe vieram a elle, que 
hia na galeota de Ferníio Martins Evange- 
lho. A feíla do mar foi grande de artillie- 
ria , mufica , e bandeiras ; e com eíle appa- 
rato 5 e eílrondo chegou ás portas da Ci- 
dade 5 que eílavam cerradas , e fe abriram , 
fendo prefente D. João Deça Capitão da 
Cidade , e os Vereadores , e Oííiciaes delia , 
os quaes Jhe aprefentáram feus privilégios 
dados por ElRey D. Manuel , e confirma- 
dos porElRey D.João, pedindo-llie juraf- 
fe de os cumprir , e guardar ; o que Nuno 
da Cunha jurando , fegundo coftume , lhe 
foram entregues as chaves das portas da 
Cidade per D. João Deça , a quem as elle 
logo entregou. E mettido debaixo de hum 
palleo de brocado , foi levado por os mais 
principaes OíHciaes da Cidade , e per o Vi- 
gairo com toda a Clerizia em procifsâo á 
Sé com o canto de Te Deum laudamus ^ 

com 



Década IV. Liv.IIL Cap.XVII. 361 

com tanta fplcmnidnde , como fe pudera fa- 
zer á peíToa d^ElPvey. Feita fua oração , 
fe foi apofentar as cafas do Sabaio , por 
fer o apofento dos Governadores. PaíTados 
cinco dias de fua chegada a Goa , chegou 
António de Saldanha de Cochij , íèm íaber 
da vinda de Nuno da Cunha. E porque de 
Mombaça (como atrás diífemos ) tinha Nu- 
no da Cunha efcrito a Lopo Vaz de Sam- 
paio , e a Affonfo Alexia , que lhe tiveííem 
feitos grandes apercebimentos para a ida de 
Dio "" 5 de que não achou coufa que lhe déC- 
fe efperança para aquelle anno poder lá ir , 
fallou fobre iífo com António de Saldanha , 
por vir de Cochij , onde algumas coufas 
daquellas fe apercebiam , e com alguns Ca- 
pitães 5 e peíToas notáveis , e OíKciaes de 
Goa, eaílentou que fe devia elle partir pa- 
ra Cochij 5 aíli a iíTo , como a dar ordem 
á carga das náos , que haviam de partir pa- 
ra o Rejno. E antes que partiífe. chegou 
Diogo da Silveira com as cartas que lhe 
ElRey efcrevia , nas quaes Wiq dizia , que 

fe 

a Lopo Vaz de Sampaio tinha aprejiado hiima Arma- 
da para Nuno da Cunha de (jtiatorze (raleoes , oito ga- 
les , dez galeoías , féis caravelas , duzentas fujias , e 
largantijs , dos quaes navios elle fez de novo no tempo 
^^ fi^^ governo íeis galeões, huma taforea de quinhentos 
toneis y féis galés, oito galeotas , quatro caravelas, cin- 
ccenta hargantijs , e fujias, que fe fizeram dos pardos que 
fe tomaram aos Malavares nas Armadas que fe lhe des- 
lar ataram. Francifco de Andrade L^art. 2. cap. 46, 



362 ÁSIA DE João de Barros 

fe o negocio de Dio não era acabado , lhe 
tornava a encommendar , que o não com- 
mettcíle íenão mui provido de tudo , para 
que por falta de alguma coula fe não dei- 
xaíTe de acabar com todo o refguardo , e 
fegurança da gente. Com eíla lembrança que 
ElRey fez , fe poz em mais dúvida de ir 
aquelle anno , e com efte penfamento fe par- 
do para Cochij. 

CAPITULO XVIII. 

Do que Simão da Cunha pafjou em a Ilha 

de Baharem , e depois de a combater 

fe recolheo por a doença geral que 

veio a todos, 

Simão da Cunha partindo (como atrás 
diífemos ) de Ormuz a 8 dias de Setem- 
bro para ir a Ilha de Baharem , por razão 
dos tempos contrários chegou a 20 do mef- 
mo mez , fendo o caminho no mais que de 
cento e vinte léguas ; e antes de chegar ao 
porto fe veio a elie Belchior de Soufa , que 
o andava guardando , para Raez Barbadim. 
fe não prover de gQnic da Períia ; pofto que 
em quarenta dias que alli andou té Simão 
da Cunha chegar , Raez Barbadim reco- 
lheo , além dos que já dantes tinlia , fcis- 
contos homens , que lhe entraram per ou- 
tros por:os que a Ilha tem. A fortaleza em 

que 



Década IV. Li V. III. C a p. XVIIL 3^63 

que Barbadim eílava era fituada cm hum 
teiò Ibbre o porro , o qual tinha por abri- 
go huma Ilheta pequena , em que íe reco- 
liiiam pefcadores. No circuito deita forta- 
leza havia dezelete cubellos com íua cerca 
de pedra , e cal , e barbacá , e per tudo 
llias ameas , e feteiras, e huma torre de ho- 
menagem mui formoía ; c em hum dos cu- 
bellos eítava a porta da entrada da torre 
mui bem requeílada. A barbacá era tornea- 
da de huma grande cava cora fua ponte 
levadiííli. E porque em modo de arrabalde 
haviam neíle circuito algumas cafas de gen- 
te pobre 5 Raez Barbadim as mandou der- 
ribar , e queimar , antes que Simão da Cunha 
vieíTe , como homem que efperava ter cerco : 
e eílava tão determinado de fe defender, 
que té huns Arábios principacs , com fuás 
mulheres , e filhos , dos quaes fe temia por 
ns tyrannias que lhes fazia , recolheo com- 
ligo , receando que fe/ levantaíTem centra 
elle com a outra gente com mu m , e eílan- 
do dentro , os tinha em modo de reféns. E 
tanto que Simão da Cunha furgio , o Bar- 
badim mandou arvorar na torre da home- 
nagem huma bandeira vermelha " , que nao 

era 

n A primeira bandeira , ^ne Bardadlm arvorou na for- 
.■■'dii7, foi hranca y e com o refrefco mandou dizer a Si- 
mão da Cunha , que elle fe fizera forte naaiielle crJieHo 
por cnufa da priyio de Jeu cunlmdo Racz Xarafo ; 7nas /d 
^uc ElRey de Porlitçal o mandara fax,er , ^ue <lte , com9 



364 ÁSIA DE João de Barros 

era íinal de paz ; e fem embargo diíTo , man- 
dou Jogo vifitar Simão da Cunha com car- 
neiros , e refreíco da terra , c dizer-Ihc , 
que lua vinda foííe boa , que ellc era vaf- 
Ihllo d^EIPvey de Portugal , e d'ElRe7 de 
Ormuz , e que como tal , que era o que 
mandava delle ? que lhe pedia que mandaf- 
fe lá a praticar com ell^ huma peíToa de 
qualidade , porque elle faria tudo o que fof- 
fe razão. Simão da Cunha lhe mandou os 
agradecimentos de fua viíitaçao , e que para 
iá mandar huma peíToa tal como pedia , era 
neceílario que mandalTe elie outra , que fi- 
caíTe em reféns ; e que prazeria a Deos que 

tu- 

vnjjatlo íeat , queria ejlar â ohediencia ão feu Govenindor 
da índia ; (jiie fe elle Capitão mar queria aqueíla fortalc' 
Xa , elle íha largaria livremente , e fe iria cotn fua mu- 
2/ier , e família para outra parte. SimTio da Cunha , co- 
mo prudente , i/uizera acceitar o oíferecimcnto ; porém os 
Capitães , e Fidalgos , levados da cubica da fazenda de 
Barbadim , o contrariaram ; o qual vendo que fe lhe enfei- 
tara o partido , que elle não movia de medo , po^^ a han^ 
ãeira vermelha , e fe defendeo ; e continuando o cerco , 
mandou dizer a Simão da Cunha , que lhe aconfe/hava que 
fc fojif daquella terra , porque era chegada a monção das 
febres , de que todos haviam de adoecer , e morrer. E 
depois quando com multo trabalho fe embarcou a gente, 
e a artilherla , lhe mandou outro recado , que fe emhar- 
caffe embora y e muito ã fua vontade, porque lhe não da- 
na nenhum efiorvo. E ajji por fe não acceitar o offereci* 
mento de Barbadim , e por falta de pólvora , foi tão def- 
graciado o fuccefjo dejla empreza. Fernão Lopes de Gat- 
tanlieda no cnp. 102. do liv. 7. Diogo do Couto cap. 4. 
iív. 6. e Fíancifco de Andrade cap. ji. da 2. Parte. 



DecadaIV.Liv.III.Cap.XVIII. 365- 

tudo Ic acabaria bem , como íe confiava de 
peíToa tão leal como elJe era. Simão da Cii- 
jiha deteve- fe aquelle dia , eíperando que 
Racz Barbndim lhe mandaíTe a refpoíla pe- 
lo feu viiitador j c vendo que não vinha , 
nem recado feu , deíèmbarcou ao dia fe- 
guinte com duas peças de artilhcria grof- 
ias , que entregou a Franciico de Mendoça 
com todos os bombardeiros. Na avanguar- 
da hiam Belchior de Sou ia , e Triílao de 
Taíde com oitenta homens , c éle com a 
bandeira Real levava toda a mais gente , 
deixando boa guarda nos navios. Com eíla 
ordem fe paíTou da outra banda da forta- 
leza , por lhe dizerem que per aquella par- 
te eram os muros mais fracos para liie da- 
rem bateria. 

Tinha Simão da Cunha em fua com- 
panhia dous Mouros honrados , hum delles 
era Arábio de nação . chamado Barnegaez , 
e Xeque de muita gente , a quem efte Raez 
Barbadim tinha defterrado de Babarem ; e 
fabendo como Nuno da Cunha mandava fo- 
bre elle , veio-fe a Ormuz com alguma gen- 
te , pedindo-] h« por mercê , que para fe 
vingar da ofFenía que tinha recebido daquel- 
le tyranno , lhe déíte licença que elle fe fof- 
fe para Simão da Cunha. O Governador lha 
concedeo , e lhe deo as orracas do oíFereci- 
mento , fazendo-lhe por iífo honra , porque 

além 



366 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

além cieíle ódio, era muito amigo dos Por- 
tuguezes ; c lendo Simão da Cunha partido 
havia três , ou quatro dias diante , tanta 
preíla íe deo , que eftava já com elle antes 
que íahiíTe em terra. O outro Mouro era 
hum Capitão de nação Baluche. Efte citan- 
do na fortaleza corn cem homens a íbldo 
d^EUley de Ormuz , quando vio que Raez 
Barbadim nao ie queria entregar per man- 
dado d'EIRey , fahio-fe da fortaleza , di- 
zendo 3 que nao era elle homem que havia 
de fer traidor ao Príncipe de que recebia 
foldo 5 e paííbu-fe á Ilheta , que eftá de 
fronte da fortaleza , onde efteve com favor 
de Belchior de Soufa té a chegada de noi^ 
fa Armada. 

Simão da Cunha por o recado que Raez 
Barbadim lhe mandara , ainda com elle quiz 
ufar de mais cortezia para ver fe podia 
]evallo per modo de concerto ; e aíTi man- 
dou lançar hum pregão fob graves penas , 
que ninguém tiraíTe á fortaleza com fetta , 
ou efpingarda , nem moftraíTe em algum au- 
to que a queria oíFender. Mas quando vio 
que na fua defembarcaçao tiraram da forta- 
leza tiros de bombardas, e de efpingardas , 
com que lhe feriram dous homens 5 entendeo 
que era neceíTario refponder-lhes ao mefmo 
tom , e logo mandou a grande preíTa deí- 
embarcar mais cinco tiros groíTos , com 

que 



Década IV. Liv.IIÍ.Cap. XVIII. 3^7 

v]iic le começou a bater a fortaleza , c íe 
continuou três dias ; e querendo prolcguir 
a bateria , c mudalla a outra parte , onde 
o muro era mais fraco , achou-fe fcm pól- 
vora , de que ficou em cftrcmo fentido , por 
ter muita obra feita com ella-; e fe outra 
tanta tivera , fora entrada a fortaleza. Nef- 
to mcfmo tempo tinha elle mandado fazer 
eícadas de maftos , e vergas de navios , que 
Belchior de Soufa alli tinha tomado , por- 
que de Ormuz partio fem efte apercebimen- 
to , que táo pouco era de eífeito , fairando 
a pólvora para defpejar o muro , quando 
a gente fubiíTe per ellas. Detcrmânou porem 
de entrar per aquelie rompimento do m.u- 
ro ; e para o poder fazer com a gente da 
terra , e Mouros que ajudavam , mandou 
entulhar a cava de palmeiras , e terra , na 
qual obra lhe frecharam de cima do muro 
muita gente , em que entraram eftes Fidal- 
gos Belchior de Soufa Tavares, Francifco 
de Mendoça , Martim de Freitas , Francif- 
co Gomes Pinheiro , António de Noronha , 
c outros homens honrados , e criados d'EI- 
P.ey, porque dentro da fortaleza Raez Bar- 
badim tinha mais de feiscentos frecheiros 
Perfas , e alguns efpingardeiros , e fua arti- 
Iheria pofta no m.uro nos lugares de fufpei- 
ra. Dem.aneira, que entrar á efcala viíla per 
cima da cava, fem ter com que defpejar o 

mu- 



368 ASIx\ deJoao de Barros 

muro , era matar toda aquella gente , de 
que a maior parte eram homens nobres , que 
neíles cafos sao os primeiros. Finalmente 
poílo o ealb em conielho com os Capitães , 
e peíToas principacs , foi aíTentado , que o 
cerco íe continuaíle , e que a grão preíTa 
mandaíTem a Ormuz bulcar pólvora para 
acabar aquella empreza. Quando a pólvora 
chegou 5 em dczeíêis dias que Álvaro Sar- 
dinha poz em ir , e vir á força de remo em 
huma terrada , nao fervio ; porque naquel- 
les dous mezes de Setembro, e Outubro são 
os ares daquella Ilha tão peílilenciaes , que 
os próprios moradores naturaes fe fahem del- 
ia ; e aíli em três dias adoeceram duzentos 
homens , e vinha a febre tão furiofa, que 
não dava muito efpaço ao enfermo , e eram 
mortos cem homens , e os mais doentes. E 
accnteceo que dando o mal a hum homem, 
que tinha vertida huma faia de malha , def- 
pindo-a fubitamente , cahio morto. Toda- 
via vindo a pólvora , Simão da Cunha man- 
dou bater a fortaleza , e derribou hum bom 
lanço do muro , mas agente ertavatal, que 
nem com paz havia quem tomaíTe poíTe da 
fortaleza , quando fe lho entregara , quanto 
mais havendo quem tanto a defendia com 
pólvora 5 e frechas , porque em pé nao ha- 
via feífenta homens Portuguezes , e duzen- 
tos frecheiros Perfas ^ que andavam todos 

com 



Dec. IV. Liv. III. Cap. XVIII. e XIX. 369 

com as forças tão relaxadas , que fe não po- 
diam ter nas pernas. Pelo que determinou 
Simão da Cunha de fc recolher , e aíTi o fez 
de noite ; e por encubrir feus trabalhos , com 
muitas folias , e tangeres fez recolher toda 
aartilheria, e amais da gente por os Mou- 
ros o não fentirem , e elle fe embarcou de 
dia com Belchior de Soufi , Martim de Frei- 
tas 5 TriRão de Taíde , e outros que foram 
os derradeiros , que ainda andavam em pé ; 
e neftc recolhimento lhe fez honra Raez Bar- 
badim em os deixar embarcar fem rebate , 
que fegundo todos andavam tocados daquel- 
le mal, qualquer impedimento os acabara. 

CAPITULO XIX. 

Como Simão da Cunha aàoeceo do mal ge- 
ral , e morre o delle , e alguns Fidalgos , 
e o vieram enterrar a Ormuz. 

F) Ecolhido Simão da Cunha ao mar, 
V achou outro tal trabalho nos marean- 
tes 5 por ferem tantos mortos , e doentes , 
que não havia quem pudelTe marear os na- 
vios ; polo que lhe conveio tomar os ma- 
reantes das terradas que andavam a pefcar 
per confelho de Belchior de Soufa 5 que fa- 
bia bem onde ellas andavam , e com elles 
fez também fua aguada , de que tinha mui- 
ta neceífidade. E porque em os navios por 
TomAV, P. L Aa o gran- 



N 



370 ÁSIA DE JoAO DE Barbos 

o grande número dos doentes , não havia 
cjiie lhes dar , e muitos pereciam á falta , 
diíTe Belchior de Soula a Simáo da Cunha 
que Mir Aberuz lhe diíTera , que fe elle 
quizeíTe mandaria hum recado a Raez Bar- 
badim , porque elle fe ofFereceo a dar o que 
folTe neceíTario para os doentes j e per efta 
via houveram muitas paíTas , amêndoas , gal- 
linhas , farinha , e arroz , que confolou a 
gente em alguma maneira. Mas ao terceiro 
dia da fua partida fobreveio huma tão gran- 
de calmaria , que durou nove dias , em que 
os doentes morreram , e dos sãos adoece- 
ram muitos. Entre os mortos foram o m.ef- 
mo Capitão Simão da Cunha , Affonío Tel- 
les filho de Triílão da Silva , Francifco Go- 
mes Pinheiro , Diogo de Mefquita . D. Si- 
mão de Lima ; e a Ormuz foram morrer 
D. Francifco Deça , Francifco de Mendo- 
ça , Diogo Soares , D. Aífonfo de Soto- 
maior , e outros homens nobres. E fegundo 
as calmarias duraram , e a gente mareante 
andava fraca , fe Chriílovão de Mendoça 
Capitão de Ormuz não mandara ao cami- 
nho muitas terradas para marearem os na- 
vios , e muitos mantimentos para enfermos , 
e sãos 5 por ventura todos ficaram naquelle 
eílreito ; porque a provisão que mandou lhes 
deo força , e vida para chegarem a Ormuz , 
onde foram do Capitão agazalhados , e cu- 
ra-- 



Década IV. Liv.m. Cap. XIX. 371 

rados , como íc cada hum delles fora feu 
irmão. Simão da Cunha foi enterrado em 
Ormuz "" com muitas lagrimas , não fomen- 
te dos Portuguezes , que o conheciam , e 
convcrfáram mais tempo , mas daquelles 
Arábios que andavam em fua companhia. 
Porque era Simão da Cunha fobre mui ef- 
forçado , e prudente , brando , e cortez , e 
para todos mui humano , e mui alheio de 
em obras , ou palavras efcandalizar a al- 
guém. Com a nova de fua morte , que Nu- 
no da Cunha teve na índia , ficou em ef- 
tremo anojado por perder taes dous irmãos , 
como Pêro Vaz da Cunha em Mombaça, 
e Simão da Cunha em Babarem ; porque 
ainda que morreram com tanta honra , aeha- 
va-fe defamparado delles , principalmente 
de Simão da Cunha , que era de mais ida- 
de 5 e maduro confelho , e de que fe efpera- 
va ajudar no trabalho do governo da índia , 
onde já perdera feu irmão Manuel da Cu- 
nha 5 de que no princípio deíla hiftoria fi- 
zemos menção. 

Aa ii DE- 

a Diogo do Couto efcreve no cap. 4, do liv 6. qut 
Nuno da Cunha ejiava ainda em Ormuz guando chegou 
ejla Armada de Baharem , em que vinha o corpo de Si" 
mão da Cunha , e <}ue o Uvára o Governador á índia , 
onde o enterrara em huma Capeíla , que lhe mandara fax.er 
na Sé de Goa. O que não pôde fer ^ partindo Nuno da Cu» 
rtha de Ormuz para a índia em 1 ^ de Setemhro , e Simão 
da Cunha chegando a Baharem aos 20 , como dil João de 
Barros nos capituíof paj/ados 17. e l8. 



DÉCADA (QUARTA. 
LIVRO IV. 

Governava a índia Nuno da Cunha. 

CAPITULO I. 

Do que Nuno da Cunha fez no primeiro 

anno de feu governo : e o que pajfou 

com Lopo Vaz de Sampaio quajt- 

do lho entregou. 

VEndo Nuno da Cunha , que para o 
muito que tinha que fazer era o tem- 
po breve , partio de Goa para Co- 
chij , e paíTou per Baticalá , onde eíleve dous 
dias provendo algumas coufas ; e proíeguin- 
do fua viagem tanto avante como a Mon- 
te Deli , cinco léguas antes de chegar a Ca- 
nanor encontrou António de Miranda de 
Azevedo Capitão mor do mar da índia, 
que andava guardando aquella cofta com 
huma galé baftarda , e vinte bargantijs, c 
catúres , o qual , tirada fua bandeira da ga- 
vea , como quem eílava perante o Gover- 
na- 



Década IV. Liy. IV. Cap. I. 373 

nador da índia , o falvoíi com fua artilhe- 
ria , a que foi refpondido com outra , e o 
veio ver á náo , do qual foi recebido com 
muita honra , aífi por o cargo que tinha , 
como por as qualidades de fua peíToa , e 
grandes fer viços que naqucllas partes tinha 
feitos ; com cuja companhia Nuno da Cu- 
nha chegou aCananor a 18 de Novembro , 
onde achou Lopo Vaz de Sampaio , que fe 
eítava fazendo preftes , efperando por elle 
para fe vir a eftc Reyno. Nuno da Cunha 
o mandou vilitar , fazendo-lhe faber que hia 
muito de preíTa a dar aviamento ás coufas 
que tinha para fazer ; e que fe fahiíTe em 
terra , per força ElRey de Cananor o ha- 
via de deter com fua vifitação , que elle 
guardava para tempo mais commodo , e de 
mais vagar ; que lhe pedia que ao mar lhe 
vieíle fazer a entrega da índia , ou fe em- 
barcaíTe , e lha faria em Cochij. Lopo Vaz ^ 
poílo que replicou a iíTo , todavia por a 
preíTa que Nuno da Cunha levava , veio á 
fua náo em três bargantijs embandeirados , 
e em hum delles a bandeira alta como Go- 
vernador. Depois que fe receberam hum a 
outro , Lopo Vaz , poílo que no mar fof- 
fe , fendo prefentes todos os Fidalgos que 
com elles vinham, lhe fez a entrega da ín- 
dia com as folemnidades coftumadas. Aca- 
bada a feíla , que a artilheria nos taes tem- 
pos 



574 ÁSIA DE João de Barros 

pos foe fazer , Lopo Vaz fe embarcou com 
ieii genro António da Silveira de Menezes 
na náo Caftello , por Nuno da Cunha o 
obrigar que foffc a Cochij a hum negocio , 
que lhe ÉlRcy mandava que fizeíTe com el- 
le. E Nuno da Cunha , antes que dalli par- 
tiíTe , mandou vifitar a ElRey de Cananor 
pelo Ouvidor Pêro Barreto, defculpando-fe 
de não fahir em terra para o ver por a 
grande prefla que levava por cauía do def- 
pacho das náos que haviam de partir para 
Portugal , que defpachadas ellas , havia de 
tornar a Goa , e então o vifitaria , e que en- 
tretanto viíTe aquclla carta d'ElRey feu Se- 
nhor. ElRey lhe rcfpondeo com palavras 
de muito contentamento de fua vinda , def- 
culpando-fe também de o não ir ver ao mar 
por a má difpoíição que tinha. Atrás efte 
recado d'ElRey veio feu Guazil , que era 
hum Mouro mui conhecido , e mui leal fer- 
vidor d'ElRey de Portugal , e bom ho- 
mem , e fe ofFereceo a Nuno da Cunha , e 
lhe pedio , que o houveíTe de baixo de feu 
amparo , c protecção , porque andava ator- 
mentado por os defmanchos d'ElRey , o 
qual por fer Gentio eftava entregue a Bra- 
menes , com os quaes , e com feus Pagodes 
gaftava mais do que tinha, e queria que el- 
le lhe fuppriíTe as neceíFidades em que o 
mettiam feus appetites. Eílando nefta práti- 
ca. 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. I. E II. 375* 

ca , fingio que lhe queria fallar coufas de 
fegredo á parte ; e como fe vio fó com el- 
Ic , rirou do feio hum rico collar de ouro , 
e pedraria , dizendo a Nuno da Cunha , 
que aquillo era tão coftumado ofFerecer-fe 
aos Governadores , que nao devia haver por 
eílranho fazer-lhe aqueile lerviço ; que lhe 
jurava por lua lei, que nunca a peílba do 
Mundo o diria. Nuno da Cunha fazendo 
que o nao entendia , chamou a lingua , e 
diiFe-lhe , que diíTeíTe ao Guazil , que os 
collares que dclie queria , era fervir com 
muita lealdade a ElRey de Portugal feu Se- 
nhor , do qual havia de receber maiores cou- 
fas que ouro , e pedraria ; que quanto ao 
que lhe pedia do amparo , confiaíFe delle , 
que em tudo lhe guardaria fua juftiça , por 
elie ter fama entre os Portuguezes de quão 
lealmente fe havia nas coufas do ferviço de 
ElRey feu Senhor. 

CAPITULO 11. 

Como Nuno da Cunha partia de Cananor , 

e foi a Co chi j : e do recebimento que lhe 

fizeram : e como prendeo Lopo Vaz 

de Sampaio ^ comandou a Portugal. 

NUno da Cunha partido de Cananor, 
_ chegou a Cochij aos 25' de Novem- 
bro , onde logo na náo foi vifitado de Af- 

fon- 



376 ÁSIA DE João de Barros 

fonfo Mexia Veedor da Fazenda , e de Jor- 
ge Cabral , que era chegado de Malaca , e 
de outros Capitães , e Fidalgos que prcíen- 
tes fe acharam. Ao outro dia foi recebido 
da Cidade em terra com todo o modo de 
feíla 5 que fe pode fazer , e alTi foi levado 
á Sc 5 e dahi fe foi apofentar no caílello , 
que para elle citava deípejado. E porque o 
penfamento que trazia nas coufas de Dio 
o não deixava aquietar, logo ao outro dia 
quiz faber de Aííbnfo Mexia . e dos Offi- 
ciaes a que o negocio competia , o eílado 
dos apercebimentos que mandara fazer pa- 
ra a empreza de Dio , que lhe ElRey tanto 
encommendára ; e achou que aíli as muni- 
ções 5 como os mantimentos , e tudo o mais 
que lhe era necelfario para aquelia jorna- 
da , eftava mui devagar. E por lhe cum- 
prir dar deitas coufas razão a EIRey pelas 
iiáos que citavam para vir a eíte Reyno , 
teve confeiho com os Capitães , e Officiaes 
da Fazenda , e foi aíTentado , depois que fe 
vio o pouco que eítava feito , e o muito 
que fe havia miíter , que de nenhuma ma- 
neira podia naquelle anno ir a Dio com o 
poder que EIRey mandava que levaíTe. E 
que para o outro fe podia mais levemente , 
e a menos cuíto aperceber ; e que bailava 
naquelle anno prover na coita de Malavar 
com alguma Armada , e na carga da pi- 

men- 



Década IV. Liv. IV. Cap. II. 377 

menta , que cílava devagar, fe EIRcy de 
Cochij náo fizera muita diligencia cm ami- 
zade de Nuno da Cunlia ; porque nas vifi- 
tacões que entre ambos houve , fe achou 
clle diíFerentemente tratado do que fora nas 
diiícrenças de Lopo Vaz de Sampaio , e 
Pêro Maícarenhas , de que eílava éfcanda- 
lizado. E com Nuno da Cunha lhe pare- 
ceo que era Rey , por a muita authorida- 
de com que o tratou , como adiante vere- 
mos. 

Em quanto as náos eílavam a carga , a 
primeira couía em que Nuno da Cunha en- 
tcndeo , foi mandar Diogo da Silveira , (que 
deílc Reyno fora com a capitania mór das 
quatro náos que diíTemos , ) por Capitão de 
liuma Armada de trinta velas para andar na 
coíla do Malavar ; e aííi fez outra para a 
coíla de Cambaya , que tinha ordenada pa- 
ri Simáo da Cunha feu irmão , como Ca- 
pitão mór do mar , a qual entregou a An- 
tónio da Silveira de Menezes feu cunhado. 
Outra mandou ao eílreito do mar Roxo , 
cuja capitania deo a Eitor da Silveira , pof- 
to que andava bem canfado das armadas 
paíTadas "", E no meio do fervor deílas cou- 

fas 

a A Armada de Diogo da Silveira era de hum na- 
vio em que elle hia , de duas galeotas , e liuma caravcU 
hl , de que eram Capitães Nuno Fernandes Freire , Ma- 
yiiiel de Vafconcellos y e João da Silveira y e de féis /af- 
tas. A Armada de António da Silveira era de cincoenta 



378 ÁSIA DE João de Barros 

fas teve Nuno da Cunha outra que o mais 
atormentou , que foi prender a Lopo Vaz 
de Sampaio per huma Provisão que ElRey 
de cá mandou , não fomente por culpas de 
Ormuz , de que Manuel de Macedo levou 
a devaíTa , mas ainda por outra que elle ti- 
rou alli cm Cochij. O qual prezo fobre fua 
homenagem , veio com D. Lopo de Almei- 
da , que eftava na índia efperando embar- 
cação para fe vir para eíte Reyno. E em 
fua companhia corn a carga da pimenta vie- 
ram outras duas náos fomente "* , de que 

eram 
e três fuJJns , em que hiam novecentos fo/iíados. A Ar- 
mada de Eitor da Silveira era de çuatro galeões , duas 
caravellas , e çaatro ftijias. Diogo do Couto liv. 6. cap. 
6. e Francifco de Andrade cap. 54. da 2. Parte, 

a Elias três nãos eram da Armada de Nuno da Cu- 
nha , tfne por ejiarem gajladas , e no Reyno poderiam ter 
o concerto necefjario , que não podiam ter na índia , o 
Govc'rnador as mandou com a carga da pimenta , e or- 
denou que ficajjem as quatro nãos da Armada de Diogo 
da Silveira , aj/i porque não havia carga para ellas , co- 
1)70 porque podiam paflar fem concerto , e iriam invernar 
a Ormuz carregadas de fazendas , polo que aprejiaâas fez, 
Capiiues delias Ruy Vaz Pereira , Lopo de Azevedo , Pê- 
ro Gomes da Grã , e D. Fernando de Lima , que Je fo- 
ram a Baticalâ carregar de mercadorias , em que fe de- 
tiveram tanto , que quando partiram para Ormui era já 
em Fevereiro do anno de ijjo ; e como a monção era já 
gajlada , acharam tantas calmarias , que as três delias 
àefapparecíram , de cuja perdição devia fer caufa a fede : 
e jó a de Ruy Vaz Pereira , por andar menos , fcou atrás , 
e chegou-Je mais para a cojta da Índia , com que lhe não 
durou tanto a calmaria , e com muito trabalho de fede 
chegou a Ormuz. Francifco de Andrade 2. Parte y cap, 
54' e Caílíinheda cap, 27. do iiv. S. 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. II. E III. 379 

oram C-^pitaes António de Miranda de Aze- 
vedo , e Ruy Mendes de Melquita , que 
também trouxe comíigo prezo a Diogo de 
Mello , Capitão que fora de Ormuz por cul- 
pas do officio 5 os quaes todos vieram a 
Portugal a íalvamento , onde depois foram 
livres das culpas , com íeus encargos dejuf- 
tiça '' . E náo pode aquelle anno vir mais 
carga de efpeciaria , que aquelia que occu- 
pou as três náos , por muitas caulas proce- 
didas dascoufas paíTadas , que Nuno da Cu- 
nha não pode emendar em chegando ^ co- 
mo fez depois. 

CAPITULO ílí. 

Do muito danino que Diogo da Silveira fez 
fia cofia de Calecut , pelo que Çamorij 
ynandou pedir paz a Nuno da Cunha , 
a qual lhe concedeo coyn taes condi- 
ções que elle a não acceitou, 

EM quanto as náos , que haviam de vir 
ao Reyno , eílavam á carga da pimen- 
ta 3 foube o Governador que na coíla de 

Ca- 

o Lopo Vaz ^^ Sampaio ejleve prezo dous annos , e foi 
condeiunado gue iperdejje os ordenados do tempo que gover- 
nou a Índia , e que pagajje de^ mil cruzados de pena , e 
fo^e defrradado por certos annos para os lufares de Afri~ 
ca. Porém E/Rey D. João havendo rejpeito aos muitos ^ 
c bons fcrvicos de Lopo Vaz., lhe fez mercê de lhe perdoar 
toda ejla condemnaqão. Ajji efcreve Francifco de Andra* 



380 ÁSIA DE João de Barros 

Calecut dous galeões de Rumes fe carrega- 
vam de pimenta para o cílreito do mar Ro- 
xo ; pelo que mandou avifar a Diogo da 
Silveira , que andava em guarda daquella 
cofia j que tiveíTe grande vigia não lhe eí^ 
capaííem ; porque fegundo a informação que 
tinha per Mala vares de Cochij , que vi- 
nham de dentro da terra , o fundamento 
daquelles Rumes era na Lua de Janeiro , ou 
Fevereiro partirem , por não perderem fua 
monção. Mas Diogo da Silveira, além da 
vigia ordinária que niíTo tinha , fez tanto 
mais , que té os barcos de pefcar não dei- 
xava ir ao mar. E vendo o Çamorij quão 
eftreitamente a iua coita era guardada , e 
vigiada , e que a gente dos portos de Ca- 
lecut 5 Cale , e Capocate , que são dos mais 
notáveis de ieu Reyno , fe lhe impedia o 
commercio , e o .povo clamava , não vendo 

ou- 

de tia vida (CElRey D. João na 2. Part. cap. 54, JE 
Diogo do Couto na 4. Decaãa liv. 6. cap. y. e %. re- 
fere huma falia y çtie Lopo Vax, fez a E/Rey em ReJaçTio, 
e os cargos que lhe ptiz^ram , e a fua rejpojla ,. e def car- 
go a elles , onde huma coufa , e outra fe pode ver , e affi 
entras particularidades que efles Authores efcrevem da 
priuio de Lopo K?:^ de Sainpaio , o qual foi muito esfor- 
çadê y confiante najujiiqay rigor ofo no cajligo dos malfei- 
tores , cajlo , córtex. , e afabil. Aos Fidalgos , em quan- 
to governou , fez muitas mercês , e aos foldados mandou 
pagar feus foldos , e mantimentos : e com todas e/ias hoas 
partes , e hoas ohras foi malquiflo de todos pola mã von* 
tade que lhe tomaram por caufa das diferenças que teve 
com Fero Alafcarenhas foítve a governança da índia. 



Década IV. Liv. IV. Cap. III. 381 

outro remédio para tirar-fe daquella oppreí^ 
sao , dcterminoLi-fe em mandar pedir pazes 
a Nuno da Cunha. A cíie negocio mandou 
rres Naires , que sao dos mais nobres da 
terra , que trouxeram fua carta de crença 
a Nuno da Cunha , e outras taes cartas de 
dous eftados da gente que naquella terra lia , 
que sao Mouros , e Chatijs. Eftes sao hum 
género de mercadores Gentios differente do 
outro commum do Malavar , que he me- 
cânico. Dando os Naires eílas cartas a Nu- 
no da Cunha , foram per elle bem recebi- 
dos , e ao outro dia os ouvio. A fubllan- 
cia da embaixada era : Que no tempo dos 
Governadores paíTados , principalmente de 
D. Duarte de Menezes , eílando eiles de 
paz , receberam muitos aggravos , e fem-ra- 
zôes dos Portuguezes , aíTi em fua terra , 
por caufa da fortaleza que nella tinham , 
como no mar em luas náos , e zambucos 
que levavam cartas defeguros, os quaes lhe 
quebravam tomando-lhes fuás fazendas. E 
pedindo elles juíliça , e boa confervaçao da 
paz , tal como a eiles guardavam , a nenhu- 
ma coufa deftas lhes refpondéram com obras , 
nem com palavras. Os quaes males , e da- 
mnos nao podendo elles foíFrer , fe levan- 
taram contra a fortaleza , fendo os n^efmos 
Portuguezes autliores dilto , tomando por 
remédio antes defcuberta guerra , que íimu- 

la- 



382 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

lada paz. E querendo , antes de D. Henri- 
que derribar a fortaleza , aíTentar paz com 
elle , mais em favor , e fcrviço d'ElRey de 
Portugal 5 que em honra do Çamorij , Dom 
Henrique a não quiz acceitar , donde pro- 
cedeo buíbarem elles todo o modo de vi- 
da , pois lhe queriam tirar a fua , tolhendo- 
Ihes dar fahida a fuás novidades. E que pof- 
to que per Lopo Vaz de Sampaio lhes fo- 
ra commettida paz por feu fobrinho Simão 
de Mello , que eftava por Capitão em Ca- 
nanor , não lha quizeram conceder, fendo 
as condições delia mais honeftas das que el- 
les oíFcrcciam a D. Henrique. E que a cau- 
fa diíTo foi , por terem fabido que o tempo 
de fua governança não fe eftendia a mais , 
que té a vinda delle Nuno da Cunha , de 
que já tinham nova , e da tomada de Mom- 
baça. E pois elle era prefente , e tinham fa- 
bido quanta juíliça a todo género de gente 
adminiílrava , e que a guerra que fez per 
onde veio era jufta , e não voluntária , fe 
demoveram alíiepedir paz, fendo com juf- 
tas , e honeftas condições , a qual inteira- 
mente guardariam. E que lhe lembravam , 
que a guerra do Malavar , ainda que aos 
naturaes foíTe perigofa , e cuftofa , tudo re- 
dundava em não ter fahida fuás novidades , 
e que também não era folgada aos Portu- 
guezes , nem cuftava pouco á fazenda de 

feu 



Década IV. Liv. IV. Cap. III. 383 

leu Rey. Por tanto lhe pediam confideraíTe 
huma coLifa , e outra , e conformando-fe 
com o bem , e mal de ambas as partes , 
lhes refpondeíTe o que havia por bem que 
le fízeíle. 

Nuno da Cunha lhes diíTe , que ElRey 
D. João feu Senhor eílava tao elcandaliza- 
do de quantas vezes o Çamorij lhe tinha 
quebradas as pazes , que com feus Gover- 
nadores tinha aíTentado , que huma das prin- 
cipaes couías que lhe encommendou foi a 
guerra do Malavar ; e que oíFerecendo-lhe 
o Çamorij alguma paz , lha não concedef- 
fe 5 pois a não guardava mais que em quan- 
to os Mouros queriam , por fer governado 
per elles , aos quaes dava mui pouco das 
m.ortes , e perdas que o povo Gentio rece- 
bia , por não pretenderem a paz , e repoufo 
do Rey no alheio , fenão feu particular in- 
rereíTe ; mas que todavia elle proporia efta 
lua pretencão em confelho das principaes 
peíToas , e Capitães que eram prefentes, 
com quem lhe ElRey feu Senhor mandava 
confultar as coufas de tanta importância co- 
mo eram paz , e guerra ; e tomando feu 
parecer , lhes refponderia ao dia feguinte. 
E aíTi o fez , rcfpondendo , conforme ao 
que no confelho fe aíTentou , que lhe con- 
cederia a paz, e amizade com eftas condi- 
ções : Que o Çamorij entregaíTe toda a ar- 

ti- 



384 ÁSIA DE João de Barros 

tiihcria que tinha dos Porruguezes , que el- 
le houvera os annos paliados , e aíTi todos 
os pardos de guerra , e pagaffe a perda que 
dera aos Portuguezes, e que déffe em íuas 
terras lugar conveniente para fazer hu ma for- 
taleza , e toda a efpeciaria que houveíTe cm 
fcu Reyno por os preços que valia quan- 
do a noíTa fortaleza citava em pé. E que 
entregaíTe dous galeões dos Rumes que ef- 
tavam em feus portos ; e não havia mais 
de confcntir em feu Reyno Rumes, por fe- 
rem inimigos dos Portuguezes j e mais que 
per nenhum modo havia o Camorij inno- 
var coufas a ElRey de Cochij que foíTcm 
caufa de gueri-a , porque logo a paz com 
os Portuguezes leria quebrada. E que com 
eftas condições elle Governador mandaria 
ceflar a guerra ; e que para o anno feguin- 
te , pelas náos que foíTem a Portugal , m.an- 
daria a EJRey feu Senhor a relação deíla 
paz que com clle Camorij fizera , c as cou- 
fas que a iíTo o moveram , mandando-lhe 
elle o contrario em feu regimento , e que 
elle eíperava que Sua Alteza houveíTe tudo 
por bem. Ella refpofta houveram osNaires 
efcrita per apontamentos , os quaes Nuno 
da Cunha mandou a Diogo da Silveira , c 
recado a Duarte Barbofa Efcrivão da Fei- 
toria de Cananor , que fe foíTe para Diogo 
da Silveira para entreyir nefle negocio com 

cl- 



Década IV. Liv. IV. Cap. III. 385' 

clle , por íer mui vcríado nos modos , e 
coílumes dos Malavares , e laber bem fua 
Jingiia. Diogo da Silveira fe foi ao rio de 
Challc , que diíla de Calecut três Jeguas , 
onde vindas algumas peíToas notáveis per 
mandado do Çamorij , depois de irem , e 
virem recados , foi a conclusão , que elles 
dariam as efpeciarias por o preço, e modo 
paíTado , e das outras condições fe efcufá- 
ram "". 

Diogo da Silveira por refpofta defte feu 
concerto faltou três , ou quatro vezes em 
terra de fronte de Calecut em diíFerentes lu- 
Tom. IF. P. L " Bb ga- 

a D/z Francifco de Andrade no cíip.6$. da i. Par~ 
ie , (jtie fe fixeram as -pa^es , rejlituindo EíRey de CaU' 
cut toda a artilheria nojja , qtie tinha em feu poder , e 
CS Porttifrneies , e efcravos çue foram cativos na guerra» 
E que dejias paxes fe fentio muito ElRey de Cochij , por 
fe alentarem /etn íhe dar o Governador conta deV.as , con- 
tra huma Provisão d^ElRey de Portugal , em que man- 
dava , que nenhum Governador da Jndia fiej/e paz com o 
Çamorij fem confentimento d^ ElRey de Cochij. E queixan- 
do fe a António de Saldanha de íhe quehrar o Governador 
ejla Provisão , veio JSuno da Cunha a Cochij , e defcuU 
Jioufe com tão hoas razões , que ElRey fe mojlrou conten- 
te das pazes , e concedeo ao Governador licença para Z^-. 
vantar gente em Cochij para a jornada de Dio. Diogo 
do Couto no cap. 9. do liv. 6. efcreve , que ejla pai, fc 
conchiio quando o Governador fez a fortaleza de Challe ^ 
como fe dirá adiante no cap. ij. e que não fe efetuando 
dejla vez , Diogo da Silveira mandou per alguns marinhei-' 
ros pôr fogo á Cidade de Calecut , de que queimou mais 
de duzentas cafas , e do mar fe-^ com a artilheria hum 
grande ejirago na gente que acudia ao fogo* O tnefm» af^ 
firma Gaílanheda no cap. 12. do liv, 8, 



3S6 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

gares , e queimou algumas Macuarias , (co- 
mo ilies elles chamam , ) que sao habita- 
ções de pefcadores ; e cortou muitos pal- 
mares 5 que elles tem por grande mal. Os 
Mouros 5 e Gentios indignados defte fegun- 
do damno 5 ceíTliram por então de fallar na 
paz ; polo que cahíram cm tanta neceíTida- 
de 5 por a muita guerra que lhe Diogo da 
Silveira fazia , que morriam á fome : por- 
que o arroz , que he fcu ordinário manti- 
mento , e lhes vinha de fora , chegou a va- 
ler o fardo a féis , e fete tangas , que da 
KOÍTa moeda sao quatrocentos e vinte reaes , 
valendo ordinariamente huma tanga , com 
que a gente pobre perecia , e não podiam 
ir ao mar a pefcar , de que vivem , nem os 
galeões , que eftavam carregados para o cf- 
treito de Meca , oufáram fahir donde eíla- 
vam. E para mais perfeverarem em fua con- 
tumácia 5 e obPiinação de não concederem a 
paz com as condições que Jhes pedia o Go- 
vernador , fuccedéram duas coufas em feu 
favor. A primeira foi fobrevir hum tempo- 
ral tão rijo , e travefsão na coíla ^ que def- 
amarrou alguns bargantijs noíTos , hum dos 
quaes , de que era Capitão iium mancebo 
Fidalgo por nome Simão de Soufa natural 
de Guimarães , foi ter junto da terra ; o 
qual ficando fó naquelle lugar , paíTada a 
tormenta , vieram a clle alguns paráos de 

Mou- 



Década IV. Liv. IV. Cap. III. 387 

Mouros da terra , com os quaes andando 
ás bombardadas , lhe faltou per dcíaftre o 
fogo na pólvora , com que a cuberta do 
bnrgantim voou para o ar , e o Capitão 
com os mais foram queimados , e outros 
com o cafco do bargantim deram em terra 
com grande prazer dos Mouros. A outra 
caufa 5 e mais principal foi , que fabendo 
os Mouros de Cananor eíla fome de Cale- 
cut , por os foccorrer, e também por faze- 
rem feu proveito , os proviam de arroz , e 
de todo mantimento per o rio Tramapa- 
tam , que divide o Reyno de Calecut do 
de Cananor ; de maneira , que Diogo da 
Silveira andava guardando que não foíTcm 
providos de outros rios , e elles o eram deC- 
te. Efta provisão durou té que Nuno da 
Cunha vindo em Fevereiro de Cochij in- 
vernar a Goa , paíTou per Cananor , e fa- 
bendo como Calecut era provido dalli , a- 
meaçou aos Mouros com grande caíligo íè 
o mais fizelTem. O que também ElRey de 
Cananor defendeo com penas de perdimen- 
to de todos os bens , e caftigo nas peíToas , 
com a qual defeza os de Calecut tornaram 
á mefma neceííidade de fome. 



Bb ii C A- 



388 ÁSIA DE João de Barros 

CAPITULO IV. 

Como o Governador mandou Gafpar Paes 

a Melique Saca a feu requerimento , e 

do que com elle pajjou, 

NEfte tempo cllava Melique Saca , ^'' 
__ lho de Melique Az Capitão de Dio , 
na terra dos Rcsburos em cafa de feu fogro 
com temor d'ElRey de Cambaya , e dalli 
tinha já per vezes mandado recado a Lopo 
Vaz de Sampaio antes que Nuno da Cu- 
nha vieíle. Do que Lopo Vaz fazia pouca 
conta , por caufa das mentiras que a Eitor 
da Silveira tinha ditas quando o entreteve 
na barra de Dio para fábrica de feus arti- 
fícios com ElRey de Cambaya , té que a 
coufa parou em elle fugir para feu fogro. 
E como eíle Mouro nas malícias , e aílu- 
cias parecia bem fer filho de feu pai , tanto 
que teve nova de Nuno da Cunha , e do 
que fizera em Ormuz , e que todo feu in- 
tento era ir tomar Dio 5 pareceo-lhe que 
aquelle era o Governador que elle havia 
miíler para feus negócios com ElRey de 
Cambaya : polo que quando Nuno da Cu- 
nha chegou a Goa , já achou hum feu mef- 
fageiro "" com cartas para elle , nas quaes 

lhe 

a Francifco de Andrade efcreve no cap. Ç2. da i 
Tarte , Qtu ejle. mejjageiro ãa Meliçue Saca era o ^nc 



Década IV. Liv. IV. CaW IV. 389 

lhe dava a boa hora de fua chegada. E que 
porque deíejava faUar com elle coufas que 
importavam muito ao lerviço d'ElRey de 
Portugal , e Eftado da índia , mandara lo- 
go a elle, antes que comcçaíTe de ordenar 
algumas coufas , que per ventura , depois que 
o ouvilTe , veria fer efcufada a defpeza del- 
ias. E que havendo elle por bem de fe ve- 
rem , lhe mandaíTe feguro Real para fua 
pcíToa , e familia , e alguma pelToa que o 
rrouxefle , e levaíTe navios , e larga embar- 
cação para fua fazenda ; e que folgaria que 
eíTa peíToa que lá houve íTe de ir foífe Gaf- 
par Paes , que já eílivera em Dio por Fei- 
tor , por fer íeu amigo , e homem com 
quem fe podia melhor entender , que com 
outro algum. Nuno da Cunha o ordenou 
alíi , e mandou o meíTageiro de Melique 
com Gafpar Paes em huma galé fua , em 
que andava , e lhe deo mais quatro bargan- 
tes 

éliâ tinha enviado a Lopo Vaz de Sampaio , como fe ãif- 
fe atrás na nota do cap. i^. do Jiv. i. £ Diogo do Cou- 
to no cap. 6. do liv. 6. diiy Que por chegar ejte meffa" 
^eiro de Melique a tempo que Lopo Vaz aguardava por 
Nuno da Cunha , não fe determinou na propojla de Meli- 
que , deixando a refolução delia para Nuno da Cunha , 
que mandou o Enviado de Melique mui contente com pe- 
ças em huma galé , a qual chegada a Jaquete , o Capitão 
delia fe vio com Melique , e lhe deo huma carta do Go- 
vernador , em que lhe pedia que naquella gale fe foffe ver 
com elle a Goa. Ao que refpondeo Melique Saca , que fa 
iornajje elle Capitão emhora , e dijjefje ao Governador ^ 
<}ue não queria que Jhe Jix,ejfem o qus a Raex, Xarafo. 



390 ÁSIA DE João de Barros 

tijs com boa artilheria , e muitos cfpingar- 
deiros com todo o mais provimento neceí- 
jiírio. E a Meliquc Saca efcreveo palavras 
mimofas , doendo-fe de quão mal ElRey 
de Cambaya o tratava , tendo tantos mere- 
cimentos por feus fervidos , e por os de leu 
pai 3 pai'^ Jhe fazer mercê ; e também liie 
fez ofrerecimentos de o tornar a fcu eftado , 
e outras palavras lemelhantes , a fim de o 
provocar mais ao que elle dava a entender 
no que lhe efcreveo de fua vinda a Goa. 
E porque Gafpar Paes tornou defta ida na 
entrada de Janeiro de 1530 , que era no tem- 
po em que fe praticava nas pazes de Cale- 
cut, iremos continuando com elle té o tra- 
zer com a refpofta que achou. 

Partido pois Gafpar Paes a 12 de No- 
vembro , chegou a Chaul , onde houve Pi- 
lotos que foubeíTem bem a enfeada de Ja- 
quete , onde Melique eílava , que he aquel- 
la 5 em que o rio Indo vem deícarregar 
todas fuás aguas no mar ''. E por não fer 

viflo 
a Os Geógrafos modernos erram em feiís mappas , c 
Tahoas Geo(rrafícas na fituacjio da for. do rio Indo , des- 
crevendo na enfeada de Camhaya -, e os qne menos erram , 
mettem hum braço dejie rio na enfeada de Camboya , e ou- 
tro na de Jacjiiete , fendo ajfi q:ie fomente na de Jaqnete 
entram as fuás aguas no mar per muitas bocas , çue Pto- 
lomeu atjirma ferem fete fituadas por eík no feno Canthi , 
^ue he o dejaijuete , chamando á enfada de Cambaya feno 
Barigazen-o , no qual mettc os rios Goari , e Binda , que 
jiarece ferem os de Baroche , e Siirat , a que os naturaes 
£hamam l^arbanda , ç Tapij^ 



Década IV. Liv. IV. Cap. IV. 391 

viílo da coda de Dio , atraveíTou a enícada 
de Cambaya bem largo ao mar , e paíTada 
a ponta de Dio algumas dez léguas, foi rer 
entre Patane , e Mangalor Cidades princi- 
paes daquella cofta , onde tomou huma náo 
que vinha de Goga Cidade da enfeada de 
Cambaya carregada de algodão , que lua 
para o Sinde. Delia tomou fomente a gen- 
te , e a náo metteo no fundo , por fer mer- 
cadoria de grande volume , e pouca valia , 
e a gente mandou dalli em lium dos bar- 
gantijs para Chaul. Tornando a feu cami- 
nho mais largo da coíla , achou quatorze 
fuftas de hum Senhor delia , que andavam 
alli efperando as náos que vinham de Or- 
muz , com as quaes pelejou , e fez recolher 
ao rio Pormeane. Paífada a ponta dejaque- 
te 5 que he aquelle nomeado templo dos 
Resbutos , fez aguada em huma Ilheta cha- 
mada Bette 5 que em outro tempo fora bem 
povoada de Gentios , e Melique a deftruio, 
AtraveíTando dalli , em dous dias , e huma 
noite foi ter a huma enfeada , onde eftava 
Melique Saca mxeitido per hum rio dentro 
em hum lugar chamado Cinguilim , onde 
logo acudio gente á praia faber quem era , 
e diíTeram-lhe que aquelle lugar era de Me- 
liqie Saca , o qual não eftava ahi , mas 
dentro pela terra firme mais de féis léguas 
de caminho j e que elle deixara dito , que 

vin- 



39- ÁSIA DE João de Barhos 

vindo alJi algum recado do Governador 
da índia , lho IcvaíTem logo. E pofto que 
Gafpar Paes quizera lá mandar hum ho- 
mem 5 eíles de Meiique lho não conícntí- 
ram , e lhe levaram elles o recado , fendo 
tudo artificio de Meiique por o entreter. E 
tornando dahi a dous dias, pormoílrar que 
cftava em outra parte , encaminharam a Caí- 
par Paes pelo rio acima em hum catúr , (dei- 
xando os navios em baixo a bom recado,) 
onde achou Meiique Saca. Gafpar Paes lhe 
deo as cartas do Governandor , e lhe apre- 
fentou o feguro Real , que levava fellado 
com as Armas de Portugal , como fe coftu- 
ma em coufas de femelhante importância. 
Meiique , depois de dar graças a Gafpar 
Paes daquelle trabalho que levara por elle , 
perguntou por o Governador que homem 
era , e que valia tinha em Portugal ; ao que 
elle refpondeo como convinha na verdade , 
e á honra de Nuno da Cunha , por fer feu 
parente , porque Gafpar Paes era neto de 
João Rodrigues Paes Contador mor que fo- 
ra de Lisboa , com que Nuno da Cunha 
tinha muito parentefco. Paífada aquella pri- 
meira prática , dilatou Meiique a refpoíía 
para outro dia , a qual foi de pouca con- 
clusão , dizendo , que para elle fazer tama- 
nha mudança de 11 , como era ir ao Gover- 
nador , primeiro havia de ver três coufas. 

A pri- 



Década IV. Liv. IV. Cap. IV. 393 

A primeira , vir aquelle fcguro em lingua 
Pr.ríia , e nao na Pormgiicza , e que o ha- 
via de fegurar o Governador de o não le- 
varem a Portugal , como fizeram a Rnez 
Xarafo. A legunda , que no leguro lhe ha- 
via de nomear o Governador a parte que 
lhe havia de dar das couías que ganhaííe 
cm Cambava. E a terceira , que quando fe 
JiouveíTe de embarcar com eUe , havia de 
fer em companhia de mais navios , e mais 
gente , porque a cofta de Dio andava cheia 
de navios de Armada , e nao queria aven- 
turar fua peíToa em coufa tão ímgella corno 
elle trazia. Ao que Gaípar Paes refpondeo , 
que aquelle feguro , como vinha em nome 
d'ElRey de Portugal , nao era decoro , nem 
coílume que fe déíTe em outra linguagem 
fenão na Portugueza , por ler a lingua pró- 
pria que ElRey fallava , e na fórm.a em que 
vinha era tão firme , e valiofo , como fe o 
mefmo Rey D. João de Portugal o aíTmá- 
ra por fua mão ; e que as fuás Armas re- 
prefentavam feu nome , e final. E que quan- 
to á parte que lhe haviam de dar do que 
fe tomaíTe em Cam.baya , quando elle Me- 
liqueSaca déíTe algum modo para fe tomar 
Iguma coufa , então elle a haveria. Mas 
que fe ainda té então elle não tinha trata- 
do com o Governador coufa daquella ma- 
téria 3 como havia o feguro de fallar nella , 

pois 



394 ÁSIA DE JoAO r)E Barros 

pois cftava por fazer? e que elle não man- 
dara pedir mais que feguro , e navios , e que 
iíTo lhe trazia alli. E que fe receava a coíla 
de Dio, por lhe parecerem poucos os fcus 
navios 5 que com eíTes poucos tomara elle hu- 
ma náo , e fizera recolher no rio de Pormcane 
quatorze fuílas. Em fim vendo Gaípar Paes 
as íimuladas razoes de Melique Saca , c que 
lhe náo quiz tornar o feguro , depois que o 
teve na mão , dizendo que o queria ver com 
alguns dos feus , e tomar delles feu parecer , 
enrendco que aquella invenção de o fazer 
alli vir fora como o que tinha feito a Ei- 
tor da Silveira , para fazer feus negócios 
com ElRey de Cambaya , e aífi fe vio pe- 
lo íucceíTo , porque dahi a pouco tempo fe 
tornaram a reconciliar , como ElRey foube 
que Gafpar Paes fora ter com Melique , e 
lhe levara o feguro , que Melique moftrava 
em abonação de fua lealdade , temendo El- 
Rey , que fe o mais indignafle , ordiria al- 
guma trama com o Governador que lhe 
cuílaífe muito. 



CA- 



Década IV. Liv. IV. 395: 

CAPITULO V. 

Como Gâfi)ar Paes fe partia defavindo de 

Melique Saca , e lhe queimou algumas 

fujlas 5 e fe tornou a Cocbij, 

GAfpar Paes dcfpcdido , e bem eícan- 
dalizado de Melique , fe recolheo a 
íbiis bargantijs , e a noite fcguinte ao tem- 
po da maré com dons delles fomente pelo 
rio acima lhe foi queimar nove fuftas , e 
tornou-fe a fahir com determinação de na 
feguiute noite ir queimar quinze que eram 
de feu fogro , e eílavam mais acima meia 
légua. Mas vendo o Mouro o damno do 
fogo das outras debaixo , poz em falvo as 
de cima , com que Gafpar Paes não pode 
pór em eíFeito feu propoíito. E partido da- 
hi 5 veio correndo a cofta té chegar á Cida- 
de de Mangalor , onde achou muitas nãos 
de Cambaya , e algumas de Ormuz com feus 
cartazes para poderem navegar , e deixou 
de fazer damno a outras que os não tiniiam , 
porque eftavam em companhia das que eram 
de amigos noffos. E ao tempo que Gafpar 
Paes chegou deíla viagem a Cochij , que foi 
em Janeiro , labendo delle o Governador 
que hi cílava o que paíTára com Melique , 
c que tudo eram enganos , e aftucias para 
fazer bem feu negocio , ficou mui indignado , 

e com 



39^ ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

e com o fundamento desfeito da efperança 
que aquellc Mouro dava das coufas de Dio ; 
pelo que mudou de propofito , e determinou 
de ir o anno feginte com huma groíTa Ar- 
mada fobre aquella Cidade ^ E porque em 
Choromandel andavam muitos Portuguezes , 
por fer terra abadada , em que os homens 
a pouco cuílo fe mantinham , mandou lá 
hum cavalleiro per nome Ambrofio do Re- 
go com poderes baftantes para fazer vir aquel- 
la 

a Efcreve Francifco de Andrade no cap. jj dn -2. 
Parte , que eftando Meliíjue Tocão , Innão de Melique Sa- 
ca y por Capitão de Dio , [depois que deixou aquella capita' 
nia Camalmaluco y como fe di[Je atrás na nota do cap. 14. 
do tiv. 2. ) mandara Nuno da Cunha fegunda vez Gafpar 
Paes a Dio , efcrevendo a Melique Tocão os parabéns da 
capitania , e offerecendo-lhe fua amix.ade para ter Feitoria 
em Dio ; e com ordem a Gafpar Paes , que reconhecefje 
com particularidade a Cidade , e dejlramente perfuadijje a 
Me li que que difje nella huma fortaleza a ElRey de Por- 
tugal y com que fe affeguraria das tyrannias deBadur. Par- 
tio Gafpar Paes de Goa com três fujlas em Fevereiro 
de I J Jo , chegou a Dio , foi bem recebido de Melique To- 
cão y deo-lhe a carta do Governador , e hum prcfente que 
the mandava ; e tratando da Feitoria , mandou JifeUque avi- 
far a UlRey Badur , como o Governador a offerecia ; a que 
refpondeo , que depois que viffe as condit^ões com que fe 
havia de afjentar y mandaria o que lhe bem parccefje. Em 
quanto foi y e veio efe recado a ElRey , vio , e notou Gaf- 
par Paes tudo dentro , e fora da Cidade ; e despedido de 
Melique , [a que não fallou na fortaleza , por fe lhe mojlrar 
mui obrigado , e fiel ao ferviqo de Badur , ) com hum prc 
fente rico para o Governador , e refpojia da fua carta com 
grandes agradecimentos da amizade que lhe offerecia , tor* 
nou a Goa em falvamento» 



Década IV. Liv. IV. Cap. V. 397 

Ih gente , e perdoar a alguns que lá anda- 
vam homiziados , vindo a fervir a ElRey 
naquella jornada de Dio ; e aííi ordenou , 
que António de Saldanha fícaíTe alli aquel- 
le inverno para prover as coufas ncceílarias 
á Armada. 

TéaqucIIe tempo, fendo já perto da fua 
partida para Goa , não íe tinha vifto com 
EIRey de Cochij , por elle eílar doente de 
bexigas , poílo que o tiveíle mandado viíl- 
tar per recados 5 emandando-lhe dizer, que 
le queria partir , e quanto fentia fua enfer- 
midade , pois fora caufa de o não poder ver. 
EIRey lhe refpondeo , que nenhuma coufa 
lhe poderia dar faude fenao fua vifta ; e que 
não oufava de lhe pedir que ovifitaffe, ten- 
do muitas coufas de importância que tratar 
com elle , por fua enfermidade fer contagio- 
fa , e recear que temeífe elle de o ver. O 
qual receio Nuno da Cunha lhe tirou com 
''- a elle , que não foi pouco confentir EI- 
lley fer vifto naquclle eftado de enfermo , 
e de tal enfermidade , pofto em mão de hum 
Brâmane , que o curava , por ferem aquel- 
les Gentios mui fuperíliciofos , e de grandes 
iígouros em fuás cbras , e não quererem os 
Grandes que os vejam em fuás enfermida- 
des , por ílies não verem fuás fraquezas. To- 
da a prática da vifitaçâo foi queixar-fe EI- 
Rey , e contar a Nuno da Cunha os aggra- 

vos 



39^ x\SIA DE João de Barros 

vos que recebera de Affonfo Mexia no tem- 
po das differcnças entre Lopo Vaz de Sam- 
paio , c Pêro Maícarenhas. Na qual práti- 
ca Nuno da Cunha conheceo d'ElRey fer 
homem prudente por a paciência que tev^e 
nas couícis que lhe foram feitas em modo 
de defprezo , fazendo pouca conta dclle. Ao 
que Nuno da Cunha refpondeo de maneira , 
que lhe curou fua paixão , affi em fecreto , 
como em público ; e por o que importava 
ao ferviço d'ElPvey de Portugal , e confer- 
vaçao da paz , e amizade que tinha com el- 
Ic , o tratava com toda a reverencia que po- 
dia , e algumas coufas lhe concedeo acerca 
dos direitos das mercadorias que lhe não 
pagavam , com que Nuno da Cunha o deixou 
contente, e fatisfeito. 

CAPITULO VL 

Como Nuno da Cunha foi a Goa , e o que 
fez em Challe , onde achou Diogo da Sil- 
veira , a que encomniendou que deflruif- 
fe o Chatim do rio de Mangalor. 

TAnto que Nuno da Cunha deo fím ao 
que tinha que fazer em Cochij , partio 
para Goa , e chegado a Challe achou Dio- 
go da Silveira com a maior parte da fua 
Armada, por ter fabido que peraquelle rio 
haviam de fahir os galeões dos Rumes que 

dif- 



Década IV. Liv. IV. Cap. VI. 399 

diíTcmos. Neíle rio íe deteve Nuno da Cu- 
nha hum dia, onde foi vifitado d'ElRey , 
e Príncipe de Challe por eftarcm de paz 
comnolco , e por iíTo acudiam a Diogo da 
Silveira com os mantimentos da terra que 
lhe eram ncccílarios , pofto que efte Rey déf- 
fc obediência a ElRey de Cnlecut, Polo que 
a feus meníageiros Nuno da Cunha fez mer- 
cê , e deo licença para ElRey poder man- 
dar vir mantimentos de fora , por efíareni 
na mefma necelTidade delles que Calecut. E 
porque foube que hum Chatim , que eílava' 
em Mangalor mui rico , e poderofo , fazia 
muitas offenfas a Portuguezes , principal men^ 
te em dar favor aos de Calecut , que tiraC- 
fem per aquelle porto fuás efpeciarias para 
os Mouros , fob color de fer vaíTallo d'EÍ- 
Rey de Narfmga , encommendou muito a 
Diogo da Silveira que foíTe áquelle lugar, 
e podendo dar hum caíligo áquelle Chatim 
fem perigo feu , o fizeíTe. E primeiro que 
fe defpediíTe de Diogo da Silveira , fez mer- 
cê aos Capitães , e peíToas notáveis que com 
elle andavam na fua Armada , e mandoa 
pagar foldo á gente de armas , por todos 
andarem gaitados , e bem agaftados , por 
aquella guerra do Malavar fer de muito tra- 
balho, e pouco proveito, coufa que os fol- 
dados mal foffrem. 

Defpedido o Governador de Diogo da 

Sil- 



400 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

Silveira, partio-fe via de Cananor a 12 de 
Fevereiro de 1530, onde eftava D. JoáoDe- 
çci por Capitão , e no lugar onde fe os Reys 
coílumam ver com os Governadores , que 
heante a fortaleza noílii, fevioElRey com 
Nuno da Cunha , vindo com fua pompa , 
e npparato de Naires poílos em ordem de 
guerra. E como elles são homens de gran- 
des ceremonias , e vãos em feu tratan^ento , 
e mais eíle , que era hom.cm mui velho , e 
da condição mimofo , Nuno da Cunha fa- 
tisfez tanto á lua vaidade , que ficou dle 
mui contente. E a troco de alguns requeri- 
mentos 5 que lhe Nuno da Cunha concedeo , 
por lerem juftos , lhe pedio o bom trata- 
mento do feu Guazil , por fer noíTo amigo , 
e íiel , o qual andava fóra da fua graça , co- 
mo atrás diíTemos. E por fer coftume geral , 
quando os Rcvs fe vem com os Governa- 
dores , aprefentar-Ihes fempre alguma peça , 
fez ElRey prefente a Nuno da Cunha de 
huns bracelletes lavrados de pedraria , que 
cUq acceiíou por o não efcandalizar , por 
elles haverem por injúria engeirar-lhes o que 
oíFerecem. Nuno da Cunha os mandou lo- 
go entregar ao Feitor da Armada para os 
mandar a ElRey quando as náos vieífem 
ao Reyno , por cumprir com fua condição, 
que era alheia de toda cubica , e com as 
leis de feu officio, com as quaes cumprem 

pou- 



Deg.IV. Liv. IV. Cap. VI. eVII. 401 

poucos. Defpedido Nuno da Cunha d'EI- 
Rey , provéo nas coulas da fortaleza , man* 
dando fazer algumas obras para mais fegu- 
I anca delia , além de hum baluarte que Lo- 
po Vaz de Sampaio tinha mandado fazer. 
E por caufa das novas que alli foube das 
coufas de Calecut , além das amoeílaçôes , 
e defeza que poz nos que dalli o proviam 
com mantimentos , mandou recado a Dio- 
go da Silveira , que em fe levantando de 
Calecut , deixaíTe alli alguns Capitães para 
tolher entrarem-lhe mantimentos ; e elle o 
fez aíll 5 deixando Nuno Fernandes Freire 
com huma galeota , e hum bargantim com 
feíTenta homens , com os quaes gaftou bem 
o tempo que íe alli deteve , vindo-lhe de 
Cananor os mantimentos. 

CAPITULO vn. 

Como Diogo da Silveira entrou no rio deMan^ 
galor , e deftruio o Chatim que alli vivia. 

Ficou Diogo da Silveira , depois da par- 
tida de Nuno da Cunha para Goa , vi- 
fitando todos os rios daquella coíla fem 
deixar entrar , nem fahir vela alguma , com 
que metteo em grande opprefsáo os lugares 
delia por levar dezefeis velas , de que eram 
Capitães João da Silveira feu irmão, Fran- 
cifco da Cunha , Manuel de Vafconcellos , 
Tom.ir. P.l Ce João 



402 ÁSIA DE João de Barros 

João Penalvo , Diogo QLiarefina , Aires Ca- 
bral , António de Sou ia , Nicoláo Jufarte , 
Gomes de Souto-maior 5 António de Souro- 
maior, AíFonfo Alvares , Loureneo Botelho, 
António Mendes de Vafconcellos , Francif- 
co de Sequeira , e António Mendes Mala- 
vares , e em que hiam quatrocentos e cin- 
coenta homens. Com cfta Armada foi a 
Mangalor , que he hum lugar mettido per 
hum rio do meíhio nome , per que podem 
entrar navios de carga. Efte lugar he d'El- 
Rey de Naríinga , com que os Portuguezes 
tinham paz , e amizade , por a qual razão 
fe recolheo naquelle rio hum tão groíTo mer- 
cador em fubftancia de fazenda , que por 
excellencia era chamado , e conhrecido por 
Chatim de Mangalor , porque entre clles ao 
mercador chamam Chatim , que já he rece- 
bido entre os Portuguezes , que naquellas 
partes tratam. Eíle de Mangalor , porque 
com a guerra de Calecut , que durou annos , 
não podia negociar feus tratos , tomou por 
remédio arrendar a ElRey de Naríinga aquel- 
le rio 3 e dalli carregava muitas nãos para 
o Eílreito de Meca , parecendo-lhe que o 
falvava defta obra eftar elle naquelle lugar, 
que era de hum Rev noíTo amigo. Porém 
como homem que fabia oíFender-nos naquel- 
le trato que tinha com noíTos inimigos , por 
íe fegurar de noíTas Armadas , fez per dentro 

def- 



Década IV. Liv. IV. Cap. VIL 403 

defic rio huina fortaleza de pedra , e cal, 
onde fe recolhia. E como EIRey de Cale- 
cut per eftc cano iiirdo dava íahidas a fuás 
cfpeciarias , efcondidamcnte o favorecia com 
munições , e artilheria para fe defender de 
nós , fe lá quizclTemos entrar. E por a Nu- 
no da Cunha ler dito o procedimento deite 
Chatim , e o favor que lhe dava EIRey de 
(Calecut , e quão forte eílava , encommendou 
a Diogo da Silveira o caftigo delle. 

O Chatim , como per via de Cananor te- 
ve avifo que haviam de ir fobre dlc , na 
entrada do lugar em algumas partes fez 
humas tranqueiras em modo de baluartes 
com artilheria para fazer damno a quem 
entraíle pelo rio contra fua vontade. E dian- 
te da fua cafa forte tinha feita huma força 
de madeira com dobrada artilheria , e as 
vigas miais efpeíLis , porque naquelle lugar 
era neceííaria maior reíiílencia. Diogo da 
Silveira nas mais pequenas embarcações , 
deixando as outras a bom recado na boca 
do rio , fubio per elle acima com duzentos 
e quarenta homens , de que ametade eram 
efpingardeiros , a cujo encontro fahio hum 
efquadrâo de gente frécheira , e alguma com 
efpingardas , cuidando que como empregaf- 
fem os primeiros tiros , fariam embarcar os 
poucos noíTos ; mas como elles começaram 
u fentir o fogo , e o ferro dos Portuguezes , 
Ce ii tan- 



404 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

tanto fc foram retirando ró que ic rccollic- 
ram de todo ; os iioíTos foram trás clles , 
e os íeguíram té que a ligeireza dos pés 
os íalvou. Dcfpejado o lugar , foi Diogo 
da Silveira demandar a cafa forte, que ef- 
tava junto do rio , no commettimento da. 
qual os noíTos começaram a fentir mais re- 
íiftcncia com tiros de efpingarda , frechas , 
panellas de pólvora , e todo outro artificio 
de boa defensão , té que a pezar delia , e 
delles os noífos chegaram á porta , ampara- 
da de hum baluarte , em que tinham os ini- 
migos aíTeftada m.uita artilheria ; e os pri- 
meiros que com.metrêram querer entrar nef- 
ta cafa foram Diogo Alvares Telles, Fran- 
cifco de Barros de Paiva , João de Soufa 
Lobo , Gomes de Souto-maior , Francifco 
Brandão , Diogo l'iznado , Duarte de Pai- 
va , João Quarefma , e António Mendes de 
Vafconcellos , tomando todos hum berço 
de ferro dos que eftavam no baluarte , e 
feito delle vaivcm , foi a porta aberta , e 
a cafa entrada ; e a m^elhor fortuna que os 
iioíTos tiveram em feu favor , foi , que a 
hum bombardeiro dos Mouros , que gover- 
nava huma peça de artilheria groíTa , com 
que lhe pudera fdzer grande damno , hum 
cipingardeiro Portuguez o matou* Tanto 
que a cafa foi entrada , vendo o Chatim 
que não podia falvar a fazenda , procurou 

fal- 



Década IV. Liv. IV. Cap. VII. 405' 

falvar a vida ; e foi tao clefditofo , que in- 
do-fe acolhendo entre alguns feus que o 
acompanhavam , outro elpingardeiro noíTo 
o derribou. E porque os mais delles hiam 
bufcar o rio para fe llúvar a nado da ban- 
da de além dclle , acharam os noflbs bar- 
gantijs, ecatiires, que ás lançadas mataram 
tantos , que as aguas andavam tintas com 
o feu fangue , e aííi huns no mar , e outros 
na terra acabaram as vidas '^ ; e os noílbs , 
pofto que houveram vitoria delies , não hou- 
veram lua fazenda ; porque Diogo da Sil- 
veira depois que mandou recolher toda a ar- 
tilheria , da qual alguma fora tomada a na- 
vios pequenos de Portuguezes quando paf- 
íavam per aquella coíla , mandou pôr fogo 
a toda a fazenda que eílava na cafa do Cha- 
tim , que era muito cobre , azougue , ver- 
melhão , coral , e outras mercadorias , que 
pela navegação do mar Roxo os Mouros 
levavam áquellas partes , as quaes mercado- 
rias o Charim havia a troco da pimenta ; 
porque temeo Diogo da Silveira que os íeus 
foldados fe quizeíTem entregar naquella fa- 
zenda em recompenfo de feu trabalho , e 
carregalla nos navios da fua Armada , que 
eram de remo para pelejar , e não para car- 

re- - 

a Eram os Mouros mais ãe quatro mil , dos quaes en»: 
tre mortos, d feridos foram mais de mil ^ dos noíjos mor. 
rh-am treze , e das frechas foram feridos muitos. FrancilV 
co de Andrade 2. Farte j cap. 57, 



4o6 ÁSIA DE João de Barros 

regar com femclliante preza. Também innii- 
dou queimar treze navios , que aili eftavam 
varados para carregar de pimenta , e dece- 
par os palmares , coufa que aquclla gente 
mais fente. 

Acabado efte feito , por fer já no fim 
do verão , fez Diogo da Silveira fua via- 
gem para Cananor , defpedindo de fi oito , 
ou nove velas , por já não ter neceíTidade 
delias , parecendo-lhe que não podia vir cou- 
fa para que as houvelíe mifter. Mas não íuc- 
cedeo aíli ; porque chegado a Cananor-, ef- 
tando defcarregando alguma daquella arti- 
Iheria que tomou ao Chatim , acertou de 
paíTar hum Capitão d'ElRey de Calecut 
por nome Patê Marcar, de que nefta hifto- 
ria ao diante fe fará muita menção por a 
guerra que nos fez. Efte levava huma Ar- 
mada de feíTenta paráos , e hia a Mangalor , 
que Diogo da Silveira deixava deílruido , 
a bufcar arroz , pòr a neceííidade que Ca- 
lecut tinha delle. Diogo da Silveira aííi car- 
regado como eílava , vendo paíTar aquellas 
velas 5 as quiz feguir , por não perder ião 
boa occafíão , ainda que tinha menos as ve- 
las que defpedio , e que eram as que lhe 
ficaram poucas , e pejadas , e aíIi não lhe 
iuccedeo bem ; porque Patê Marcar como 
era Capitão , e as fuás embarcações hiam def- 
pejadas, mçlhoroii-fe colhendo o balra ven- 
to 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. vil e VIII. 407 

to a Diogo da Silveira ; e hum dos noíTos 
catiíres que hia diante , por fer ligeiro , per 
deíaftre Ibçobrou , e de huma boinbardada 
quebraram os inimigos hum braço a João 
da Silveira feu irmão. E vendo que o ven- 
to por fer contra dle lhe não dava lugar 
para ir ao Mouro , fe tornou a Cananor a 
defcarregar , com fundamento que voltando 
mais leve , e o Mouro carregado fe vinga- 
ria delle. E como o cuidou , afii foi j por- 
que Patê Marcar tornando de Mangalor tão 
carregado de medo , por a deílruição que 
vio naquelle lugar, como de arroz que foi 
bulcar a outra parte , chegando a Monte 
Deli , onde Diogo da Silveira o eílava ef- 
perando , perdeo féis velas , que os noíTos 
lhe mettêram no fundo , e com efta perda 
fc acolheo a Calecut, e Diogo da Silveira 
fe foi invernar a Cochij. 

CAPITULO VIIL 

Do que fez António da Silveira com huma 

Arynada na enfeada de Cambaya , onde 

tomou Surat , e Reiner Cidades prin- 

cipaes daquella cofta, 

SEguindo a ordem que o Governador 
Nuno da Cunha teve em mandar as Ar- 
madas de Cochij , como a elle chegou , de 
que a primeira foi a de Diogo da Silvei- 
ra, 



4o8 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

ra , diremos agora o que fez António da 
Silveira com a íua na cofta de Cambaya , 
o qual partio de Cochij a i6 dias de De- 
zembro de 1529 para Goa a recolher os 
navios que o Governador mandava que le- 
vaíTe , e dahi k foi a Chaul , onde também 
tomou os que ai li eílavam , e partio para 
a enfeada de Cambaya a 21 de Janeiro de 
i5'3o: e logo em Bombaim, que são cin- 
co léguas de Chaul , fez alardo , e achou 
que levava cincoenta e huma velas , de que 
três eram galés , huma em que elle hia , e 
em outra hia Francifco de Vaíconcellos , 
que andava na cofta do Malavar ; e por íèr 
homem de muita conta para aquella guerra 
de Cambaya , mandou o Governador que 
foíTe com António da Silveira ; de outra 
galé era Capitão João Rodrigues Paes ir- 
mão de Gafpar Paes ; e de duas galeotas 
eram Capitães Fernão de Lima , e João de 
Magalhães irmão de Fernão Martins Evan- 
gelho. Todas as mais velas eram. furtas , 
bargantijs , e catúres , embarcações de re- 
mo , e pequenas , nas quaes por o alardo 
que fez , achob- que levava novecentos ho- 
mens Portuguezes , em que entravam mui- 
tos Fidalgos mancebos , e criados d'ElRey , 
que aquelle anno foram com Nuno da Cu^ 
nha, 

Sahido de Bombaim , foi correndo a 

coP 



Década IV. Liv. IV. Cap. VíII. 409 

coíla té Damam , e no caminho achou algu- 
mas náos carregadas de madeira , que atra- 
vcíTavam para a Cidade de Dio , e aíli achou 
jium barco pequeno , que vindo dar com 
elle 5 o tomou , no qual hia hum Mouro 
honrado que vinha de Dio mandado de 
Melique Tocam. Dalli foi ter á barra do 
rio de Taprij , pelo qual acima eftavam 
duas Cidades as mais notáveis daquelia en- 
feada. Á primeira chamam Surat a três lé- 
guas da foz , e á outra Reiner , da outra 
banda do rio , meia légua da fua ribeira , 
detrás de huma ponta que a terra faz. Efta 
era mais fumptuofa em edifícios , e policia 
de gente bellicofa , todos Mouros coílu- 
mados á guerra do mar , e de que as mais 
das furtas , e navios da Armada d'EIRey de 
Cambaya fe proviam. Surat era povoada de 
gente fraca , a que chamam Baneanes , ho- 
mens dados a officios mecânicos , principal- 
mente á arte de tecer pannos de algodão. 
Efte rio Taptij , pofto que he dos dous mais 
notáveis que aquella enfeada tem , e atra- 
veíTa toda aquella parte de Cambaya , que 
jaz na coíla do Oriente , nao podem entrar 
nelle velas grandes ; e porque os noflbs Pi- 
lotos não fabiam a entrada delle , nem o 
fundo que tinha , pofto que António da Sil- 
veira levava alguns Mouros de Chaul , não 
fe quiz fiar delles , nem de olhos alheios , 



410 ÁSIA DE João de Barros 

fenao dos feus ; e por fi mcfmo em dons 
bargantijs foi fondando o rio : nelle vio que 
não podiam entrar íenão fuílas , c bargan- 
tijs 5 porque de maré vaíia todo outro na- 
vio de maior porte ficava em fecco , fomen- 
te tinha huns poços ao modo de pegos , que 
parecia ferem feitos de induílria , para quan- 
do alguma náo íè achaíTe dentro , ter ai li 
cama na vaíTà. Reconhecido o rio, metteo- 
fe com toda a gente que havia mifter nos 
bargantijs , e catúres , e na foz do rio dei- 
xou as maiores embarcações,, e com ellas 
Francifco de Vaíconcellos ; c por fer da 
barra donde elle partio á Cidade quatro lé- 
guas , não pode no primeiro dia chegar a 
eila por razão da valante da maré , com 
que lhe ficaram algumas embarcações em 
fecco com o pezo da gente : e aíTi quando 
veio ás d(])ze horas do dia feguinte , chegou 
ante a Cidade , que na viíla lhe pareceo mais 
defenfavel do que os noíTos a acharam , por 
fer huma povoação de dez mil vizinhos , com 
caías nobres de ladrilho , e no cabo huma 
fortaleza junto d'agua , com feu cães mui 
bem feito. Antes da Cidade havia huma 
praia limpa , em que António da Silveira 
determinou de defembarcar, parecendo-lhe 
que mais feguramente o podia alli fazer; 
e porque pegado a efta praia eílava hum te- 
fo , que occupando-o os inimigos , podia 

re- 



DecadaIV. Liv.IV. Cap. VIII. 411 

receber delles muito dam no , mandou Ma- 
nuel de Soula com alguma genre que lho 
íoiTe tomar em quanto elle defembarcava , 
e ordenava a outra ; o que Manuel de Sou- 
fa fez fem reíiílencia. E pofto que , quando 
António da Silveira commetteo a defembar- 
caçao , lha quizeram defender os inimigos 
com algumas frechadas , e efpingardadas , 
nenhum deites que as tirava efperou o re- 
torno dos noíTos , havendo nefta gente hum 
corpo de mais de dez mil homens , em que 
entravam trezentos de cavallo , tomando to- 
dos por falvação virar as coílas aos noílbs 
a quem mais corria ; porque eíla gente Ba- 
neane he tão fraca , que o temor lhe faz 
não ter conta com a honra , mas tem por 
prudência falvar a vida como puderem. Fi- 
nalmente a Cidade fe defpejou de toda a 
gente , havendo trcs dias que tinham tirada 
fua fazenda , por faberem que a Armada 
vinha per aquclla cofta , e eftavam cada dia 
efperando ferem viíitados. E como os Por- 
tuguezes não acharam nella fazenda , de me- 
lhor vontade lhe puzeram o fogo per mui- 
tas partes , como António da Silveira man- 
dou , e aíli a hum. galeão novo , e a outras 
velas que eftavam em eftalleiro ; fomente 
sficáram por queimar algumas velas de Ma- 
lavarcs de Cananor , e Cochij , que alli ef- 
tavam á carga, que nefta entrada puzeram 

ban- 



412 ÁSIA DE João de Barros 

bandeiras brancas ; e fabendo António da 
Silveira ferem de noflbs amigos , efcapáram 
do incêndio das outras. 

Acabado cíle feito , fem cuílo noíío , 
mandou António da Silveira Manuel deSou- 
fa que folie diante delle fondando o rio da 
banda de Reiner , que era a outra Cidade 
que diítava defta queimada huma légua com 
a torcedura do rio , mas per caminho di- 
reito pouco mais de meia légua ; e inda 
com Pilotos fondando , quafi já na fronte- 
ria á-4 Cidade , começaram de lhe tirar com 
algumas bom.bardas , que eílavam podas em 
huma eflancia , da qual efperavam defender 
a defembarcação aos noííos. Sondado o 
rio , tornou Manuel de Soufa aonde deixa- 
ra António da Silveira , que fem detença 
com toda a gente fubio pelo rio acima té 
defronte da Cidade , a qual eftava fituada 
em hum tefo ao longo do rio , e todo o 
circuito delia era campina , e a fua cafaria 
ao modo de Hefpanha de pedra , e cal , 
com portaes , e janellas lavradas de mace- 
naria "■, Do rio fe ferviam per três caezes 
de pedra, nas quaes partes como fjfpeito- 
fas 5 perque os noíTos poderiam commetter 
a defembarcação , tinham aílèftada muita ar- 

ti- 

/7 E/ia Ciãade de Reiner , di^T)' ogo do Couto , çne 
foi fundada pelos Gentios Reineis y que jã foram Senhores 
de todo o Reyno. 



Década IV. Liv. IV. Cap. VIIL 413 

tilheria , com fuás tranqueiras , e defensões. 
Ataílado hum pouco da Cidade , no lugar 
onde tiravam as náos em cílalleiro , eftavam 
todas juntas , também com fua defensão de 
quatorze bombardas groíTas , temendo que 
lhas foíTem queimar. Seria aquciia Cidade 
de féis mil vizinhos , quaíl todos Mouros 
Naiteas "* , gente mui valente , e deftra na 
guerra do mar , geração avorrecida dos na- 
turaes da terra , por ferem homens malicio- 
fos 5 e atraiçoados , e quafi toda fua valen- 
tia eftava mais em manha , que em esfor- 
ço , e forças. Eftes nas guerras de Cambaya 
eram havidos por os primeiros , e princi- 
paes 5 e com a groíTura do trato da Cida- 
de eram ricos , e a riqueza os fez foher- 
bos 5 como pela mor parte são os que ef- 
tam em eftado profpero ; e quaíi toda a na- 
vegação para Tanaçarij , e eílreito de Me- 
ca era defta Cidade , que das mercadorias 
daquellas partes eftava cheia. António da 
Silveira vendo que fe fahiíTe cm algum dos 

cae- 

a Ejies Naiteas s7io grandes cojjairos , e todos tifam a 
arte , e guerra do mar ; he a mais haixa cafta dos (juí 
peguem a lei de Mafomed , Jegtmdo a feita dos Árabes, JE 
por eííes entrou, aqueíla falfa lei no Reytw de Cambaya , & 
dalli fe ejicndeo per todo Oriente y affi nos B.eynos da ter* 
TO firme , como nos dos ilhas de Çamatra , Jaua , Borneo , 
Banda , Maluco , onde efles Naiteas chegaram com fuás 
náos ; e como xeíofos da fua feita , a pregaram , e conver» 
t2ram a ella grande multidão daguella Gentilidade, Diogo 
do Couto 4. Dec, liv. 6. cap, 9. 



414 ÁSIA DE João de Barros 

caczes *fería caufa de lhe morrer Tua gente , 
por a muita defensão de artilheria que nel- 
íes havia , quiz antes defembarcar em hum 
tclo 5 e mandou a Manuel de Soufa , que 
com a gente que levava , que feriam feííbn- 
ta homens , os mais delles eípingardeiros , 
foíTe tentar huma eítancia , que os Mouros 
naquella ilharga da Cidade tinham feita , a 
qual Manuel de Soufa commetteo com tan- 
to Ímpeto , que fez aos Mouros defpejar o 
lugar ás efpingardadas , e lançadas ; e al- 
guns quinhentos de cavallo , que andavam 
no campo ao redor daquelle íltio , quando 
viram que os noffos eram fenhores da ef- 
tancia , com.o gente que tinha alli pouco 
que fazer , puzeram-fe em falvo. Manuel 
de Soufa vendo-fe defimpedido da gente 
daquelle lugar , foi-fe ajuntar com António 
da Silveira , que com o corpo de toda a 
gente foi dar em outra cílancia acima da 
parte do rio , que também foi logo def- 
pejada , femnella achar a valentia, que lhe 
diziam daquella gente ; antes no primeiro 
commetíimento , feiri cuidado de mulheres , 
filhos , ou fazenda , começaram de ir-fe re- 
colliendo per huma rua larga , tao de pref- 
fa , que os nao podiam os noíTos feguir. 
Os primeiros que fe acharam neíla entrada 
foram Gonçalo Vaz Coutinho , Balthazar 
Lobo de Soufa , João Jufarte Tição , Dio- 



Década IV. Liv.IV. Cap. VIII. 415' 

go Varclla , Francilco da Silva , R117 Boro 
de Lima , D. Diogo Valençuela , Pêro de 
Taíde 5 Duarte de Mello , e outros , os 
quaes como viram que a vitoria era ilia , 
defpejando a Cidade , nao quizeram fiihir 
delia para feguir mais os inimigos , porque 
podia vir gente de cavallo , que os pode- 
ria enxovalhar , eftando caníados. António 
da Silveira deo a Cidade a íacco aos Tol- 
dados ; e fe houvera embarcações , em que 
recolher parte das muitas mercadorias , de 
que ella eftava bem cheia , ficaram todos ri- 
cos : pelo que o Cnpirao mor mandou pôr 
fogo á Cidade per muitas partes , a qual 
por eftar pofta em campina , aíTi lhe alTo- 
prava o vento , que era hum terror ouvir 
os eftrallos , e eftrondo que faziam os ma- 
deiramentos , e paredes das cafas ; coufa 
certo 5 ainda que a Cidade era de inimi- 
gos , muito para doer aos mefmos glorio- 
fos da vitoria. Além da fazenda que ardeo 
na Cidade , também arderam muitas náos ^ , 
e fuítas , que eftavam na agua , e em eílal- 
leiro , entre as quaes eftava huma , que en- 
tre elles era afamada , porque nas partes de 

Ma- 

rt As náos eram v/nte , e muitas cotias carregadas ãe. 
faxendns , mantimentos , e madeira , e a artUheria das 
tranífueiras , por não haver onde a emharcar , a mandou 
António da Silveira lani^ar no pé(ro do rio. Diogo do Cou- 
to , Dec. 4. /iv. 6. cap. 9, ^Fernão Lopes Ue Gaítanhe- 
da, cap. 8. liv. 8. 



41 6 ÁSIA DE João de Barros 

Alalaca em companhia de outra tomou hu- 
ma náo nofla , em que andava por Capitão 
Álvaro de Brito , de que atrás diíTemos. 

CAPITULO IX. 

Coyno António da Silveira tomou Aga- 
cim j e a dejiruio, 

ACabado o feito de Surat , e Reiner , 
que foi hum dos honrados que na- 
quella eníeada té então fe fizeram , deixan- 
do eílas duas tão notáveis Cidades deílrui- 
das , e queimadas com tão pouco cuílo dos 
vencedores , tornou-fe António da Silveira 
recolher a ícus navios , os quaes achou pof- 
tos em grande fefta ; porque em quanto el- 
je ganhou aquella honra , tomaram elles 
íeis velas , que hiam carregadas de manti- 
mentos para Dio. E ao Mouro que tomou 
de Melique Tocam defpedio , mandando- 
jlie dar fua embarcação , que foíTe em boa 
hora , e lhe perdoalTe , porque quando o 
tomara hia com determinação de deílruir 
aquellas duas Cidades , e o entretivera para 
ver o que os Portuguezes niíTo faziam j e 
pois já o vira , podia levar eíTe recado a 
fcu Senhor , do que o Mouro ficou mui con- 
tente , e teve que contar a Melique. 
>' Sahido António da Silveira da barra 
donde eílava , foi-fc outra vez a Damam, 

que 



Década IV. Liv. IV. Cap. IX. 417 

que hc hum lugar grande , que tem hum 
rio onde não podem entrar galés. E para 
fua defensão tinha hu ma fortaleza com qua- 
tro cubelos , e muro de oito pés de largo. 
Mas os feus moradores ficaram tão alíom- 
brados com a deftruiçao das Cidades de Su- 
rat , e Reincr , que não oufáram experimen- 
tar o ferro dos que vinham triunfando del- 
ias 5 e defpejáram o lugar de todo ; polo 
que não tiveram os noíFos mais que fazer 
nellc , que tomar alguns mantimentos , e 
pôr-lhe o fogo , e em batéis pequenos fo- 
ram a cativar alguns Mouros pelas aldeãs 
que citavam ao longo do rio "". 

Dalli veio António da Silveira caminho 
de Agacim , que diíla de Chaul quatorze 
léguas , com determinação de dar nelle. E 
por o rio não fer para iíTo , defembarcou 
na cofta brava , meia légua do lugar, que 
era grande , e rico de fazenda , poílo que 
pobre de edifícios , em que haveria cinco 
mil homens de pé , e quatrocentos de ca- 
yallo , que ferviam de guarnição , por fer 
perto de Chaul , os quaes não defpejáram 
o lugar 5 por lhes parecer que os noíTos não 
quereriam ir a elle , porque tinham muito 
Tom. IF. P.I. Dd ca- 

rt EJIa tomada de Vamam ejcreve mais largamente 
Francifco de Andrade no cap. 56. da 2. Parte y onde fi 
pfiderá ler. E diz que de caminho defiruio António da Sil- 
veira a Ilha de BomPaim ; mas não fax menção da toma* 
ia ^ e de Agacim^ 



4i8 ÁSIA DE João de Barros 

caminho que andar a pé , e confiando na 
gente de cavallo , que os podiam impedir. 
António da Silveira como tudo té o lugar 
era campo , e lhe pareceo ler mais perto 
do que era , fahio cm terra , e mandou dian- 
te caminho do lugar por delcubridor hum 
Capitão Canarij , chamado Malú , homem 
coííumado a andar em noíTas Armadas ga- 
nhando íbldo. Nas codas dcfte Canarij man- 
dou também a Franciíco de Vaíconccllos , 
c Fernão de Lima , ambos com alguns ef- 
pingardeiros , e elle com a mais gente os 
léguio na retra guarda. Caminhando todos 
neíta ordem , foram dar os dianteiros na 
gente do lugar , que a modo de encuberta 
cilavam lançados no baixo de hum cabeço , 
os quaes em os noíTos chegando fahíram 
mui rijo , dando grande grita. Neíle commet- 
limento mataram cinco Portuguezes , com 
que os mais fe puzeram em virar as coftas 
aos inimigos. Mas foram logo entretidos 
per Francifco de Vafconcellos , e per ou- 
tros Fidalgos, e chegou Manuel de Soufa, 
que vinha detrás com mais de cem efpin- 
gardeiros , que fizeram aos Mouros voltar 
caminho do lugar. Chegado António da 
Silveira aonde foi efte de (mancho , não fe 
quiz deter , nem levar o paflb tão vagaroíb 
como levava; mas tomando-o mais apreíTa- 
do , chegou ao lugar , e antes de entrar nel- 

le. 



Década IV. Liv. IV. Cap. IX. 419 

Ic , deixou a bandeira acompanhada daquel- 
Ics que haviam miíkr tomar algum fôlego. 
Na parte onde deixou aquella gente era em 
huma de duas entradas , que o kigar tinha 
de íua ferventia 5 porque o mais era o rio., 
e da outra banda huma vafa , que no tem- 
po de boxamar era peior que amefmaagua; 
e aíli do rio , e da vafa era eíle lugar cer- 
cado ao modo de Ilha , o qual eílava cheio 
de muita artilheria , e mercadoria de pan- 
nos de algodão , e grande quantidade de 
madeira , por a muita que cada anno dalli 
fe tirava para diverfas partes , o que tudo 
foi a força de ferro pelos noílbs entrado, 
E como efte lugar não tinha mais que aquel- 
las duas ferventias , e huma lhe tomou An- 
tónio da Silveira com a bandeira Real , não 
fe pode falvar tanta gente , e foram cativos 
mais de duzentos , e muitos mortos , e o 
lugar queimado , e os navios que citavam 
no rio ". Deílruido efte lugar , tornou-fe An- 
tónio da Silveira a recolher , e veio-fe a 
Bombaim , que difta cinco léguas de Chaul , 
para mandar recadar as páreas dos de Ta- 
ná , Bandorá , e Caranjá , que eram obriga- 
dos a pagar em cada hum anno por as pa- 
zes que fizeram com Eitor da Silveira ; mas 
Dd ii não 

a Nefla nuerra queimaram os Portugtiezes trezentas 
velos entre náos g,ro[Jas , zamhiicos , e cotios , carregadas 
de fazenda , de madeira , e mantimentos. Fernão Lopes 
de- Caílanheda cap. 9. do tiv. 8, 



420 ÁSIA DE João de Barros 

não o pode fazer por ir Ibccorrer ao Ca- 
pitão de Chaul, como diremos. 

CAPITULO X. 

Como Francifco Pereira de Berredo Capi- 

tão de Chaul mandou recado a António 

da Silveira , que o viejje foccorrer em 

huma preffa em que cflava com os 

Capitães d'^ElRey de Cambaya, 

NEíle tempo que António da Silveira 
andava correndo acoíla de Cambaya, 
Soltão Badur Rey dcHa fazia guerra ao Ni- 
zamaluco , que era Senhor das terras de 
Chaul 5 o qual fe hia retirando da potencia 
de Badur , que era Senhor do cam.po ; e 
entre alguns Capitães feus , que nas terras 
do Nizamaluco faziam entradas , era hum 
Popaterao que fora íèu vaflallo , e fe lan- 
çara com o Soltão Badur ; e por melhor 
faber a terra ^ veio contra aquella parte de 
Chaul per fcu mandado , e a eftragou quan- 
to pode , té chegar d povoação dos Mou- 
ros 5 que he acima da noíTa fortaleza. Os 
quaes com alguns Portuguezes , que com 
elles eftavam , c outros que acudiram com 
Fernão de Moraes , que hi cílava com hum 
galeão , que Nuno da Cunha mandava pa- 
ra Ormuz , todos juntos pelejaram com os 
Mouros de cavallo entre huns vallos das 

hor- 



Década IV. Liv. TV, Cap. X. 421 

hortas do lugar, e derribaram quatro del- 
les , com que efcarmentáram os outros, e 
fe foram com efta perda. Qiiando veio ao 
outro dia , movido Francifco Pereira de Ber- 
redo , per confellio de alguns homens , e 
importunado dos Mouros, e gente da ter- 
ra , pedindo-lhe que os foíTe amparar antes 
que aqueJia gente torna ffe aos deítruir , por- 
que como hiam efcandalizados , temiam que 
de propoíito tornaíTem a fe vingar, fe ar- 
mou comparte da melhor gente que tinha, 
em que entravam cincoenta de cavailo , e 
cento e cincoenta de pé , e fahio da forta- 
leza , e paíTando a povoação deites Mou- 
ros , foi-fe a hum paífo além delia , que he 
como entrada , o que chamam Argao , que 
fera da fortaleza meia legua , o qual por 
fer entre humas ferras , he tão forte , e tão 
cílreito , que cincoenta homens podiam de- 
fender a entrada a cem mil. E porque alli 
não acharam os Mouros que hiam bufcar , 
alguns da companhia começaram de reque- 
rer a Francifco Pereira , que foíTe mais avan- 
te , porque de outra maneira pareceria aos 
Mouros de Chaul covardia. Elle movido 
com eftas razoes , começou feguir o cami- 
nho , e a outro paílb apartáram-fe quatro 
de cavallo dos feus a defcubrir terra , os 
quaes lhe mandaram dizer , que andaíTe 
mais, que tudo eílava feguro. Chegando a 

hum 



422 ÁSIA DE João de Barros 

hum campo , no fundo delle jazia em rc- 
poalo o Capitão Popaterao , e outros que 
aquclla noite vieram a fe ajuntar com elíe , 
os quaes feriam per todos cinco mil de ca- 
vallo 5 e dez , ou doze mil de pé. Francif- 
co Pereira , como vio tao groíía gente , e 
que começava abalar contra elle , e travar 
efcaramuça com os de cavallo que hiam 
diante , quiz voltar ao paífo recolher a gen- 
te de pé ; mas ella hia tao canfada , e a 
calma era tao grande , que como homens , 
que fe não atreviam na força dos pés , co- 
meçaram de fe cfpalhar , c metter pelo ma- 
to 5 a qual defordem os matou , porque os 
Mouros hum , e hum os foram derribando 
a todos. Francifco Pereira o melhor que 
pode no paíFo entreteve os de cavallo ; mas 
como veio a gente frécheira dos Mouros, 
que eram de pé , fizeram recolher os noíTos 
á fortaleza , a maior parte delles feridos , 
e deixando no campo mortos mais de oi- 
tenta '\ Com eííe desbarato ficou a fortaleza 

tao 

a Efcrevc Francifco de Andrade {no cap. 44. ãa 2. 
Tnrte ) efte fucce[Jo de Chatií no tempo do p;ovenío de Lo" 
fo Vaz. de Sampaio , e que tendo o Governador nova dejia 
iiefgraça , mandou a Chaul António de Miranda com os 
fetis poderes y o çual çuando cheirou achou já em Chaul Ei' 
ior da Silveira , que fabendo do que acontecera acudira lo- 
go alU com a fua (rente. E no cap. 56. í//;^ , Qtte o Go- 
vernador Nuno da Cunha ordenou a António da Silveira 
{depois da dejlruicuo de Damam , e Agacim ) que fojje a 
Chaul , e tomando pojji da fortaUm , lhe manàajje prew 



Década IV. Liv. IV. Cap. X. 423 

tao defamparada de gente , e fiijeita a todo 
defaftre , íè os Mouros tiveram animo para 
logo vir Ibbre ella , que por efte receio eC- 
creveo Francifco Pereira a António da Sil- 
veira o perigo em que eílava , o qual acu- 
dio logo ; e fabendo o cafo , e quáo perto 
ElRey de Cambaya andava , temeo que fa- 
bendo a deílruiçáo que elle António da Sil- 
veira deixava feita naquella coíla , em vin- 
gança diíTo quizeííe vir fobre aquella forta- 
leza , tanto mais tendo nova do que eíles 
feus Capitães deixavam feito a pouco cuf- 
to feu. Polo que por eíla caufa António da 
Silveira cm chegando mandou fazer muitas 
eftancias , e aílentar nellas fua artilheria , 
provendo na terra , e no mar, como quem 
efperava de fe defender a todo o poder do 
SoltãoBadur, que andava mui foberbo pe- 
ias terras do Nizamaluco. O que aprovei- 
tou muito ; porque como efres Capitães , 
que fizeram aquelle eftrago , fouberam que 
António da Silveira era alli com a Armada 
que trazia , e o que deixava feito , recea- 
ram de pagar o damno que fizeram , e con- 
verteram fua indignação em tomar huma 

for- 

Franctfcfl Pereira pohs culpas ão fuccejjo do Argao. Fer- 
não Lopes de Cafbanheda no cap. lo. e ii. do liv. 8. e 
Diogo do Couto no cap. 9. do liv- 6. em tudo fe confor- 
mam com João de Barros ; differe fomente Diog;o do Cou- 
to no número dos inimigos , porçiie efcrevg qus eram mais 
de duzentos de cavallo , e dons mil de pé. 



424 ÁSIA DE João de Barros 

fortaleza per nome Palie do Nizamaluco, 
que lie das mais fortes que dh tem , e tal 
que não fe pode tomar fenão per fome. Eí- 
ta fortaleza eílá em hum paílb per onde da 
terra firme vera todos os mantimentos a 
Chaul ; e fe o Capitão delia a não entrega- 
ra , nunca fora tomada , e fomente com o 
eílrago da terra , e tomada defta fortaleza , 
por fe vir o inverno, ElRey Badur fe tor- 
nou para Cambaya ; mas a fortaleza eíleve 
pouco tempo em feu poder , por a cobrar 
o Nizamaluco. 

António da Silveira deo conta deílas 
coufas de Chaul ao Governador , e as car- 
tas o tomaram paliando elle per Baticalá , 
e quizera ir a Chaul, fe a doença que lhe 
fobreveio , c o inverno lho não impediram, 
E mandou logo que Francifco Pereira folie 
prezo fobre fua homenagem , e levado a 
Goa ; e que António da Silveira ficaíTe por 
Capitão na fortaleza , para que viíTem os 
Mouros como fe caftigavam os Capitães , 
que deixavam fuás fortalezas , de que ha- 
viam feito homenagem , e fahiam fora del- 
ias fem mui grande neceílidade. E tirando- 
fe devaífa do cafo , caíligou algumas pef- 
foas por incitarem a Francifco Pereira ir 
aonde foi. António da Silveira como teve 
recado do Governador que ficaífe na forta- 
leza, defpedio as mais das velas da fua Ar- 
ma- 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. X. E XI. 425' 

mada , que foíTem invernar a Goa . deixan- 
do íomente humagaleota, e alguns bargan- 
tijs para lerviço da fortaleza, c feiscentos c 
cincoenta homens para guarda delia. 

CAPITULO XI. 

Do que Eitor ãa Silveira fez, com a fua 
Armada té chegar a Mete , e depois d 
Cidade de Adem : e como fez tributá- 
rio o Senhor delia, 

NO princípio dcfte Livro diíTemos das 
três Armadas que o Governador Nu- 
no da Cunha apreftou em Cochij , das quaes 
huma havia de fer para o mar Roxo , de 
que fez Capitão Eitor da Silveira , o qual 
partio de Goa a 21 de Janeiro do anno de 
1530 com quatro galeões , duas caravellas , 
e quatro bargantijs , em que hiam feiscentos 
homens , e fez ília viagem á Ilha de Çocotorá 
para nella fazer fua aguada , a qual feita , dif- 
poz feus navios de maneira , que não paíTaíTe 
veia de Mouros fem dar nas fuás , eííenden- 
do-as quaíi humas á viíla de outras ao modo 
de rede defde o Cabo de Guardafú , que he 
na cofta de Africa , contra Xael na coíla de 
Arábia. Eílando neíla ordem , huma náo que 
hia de Mangalor carregada de efpeciaria , 
foi dar com Eitor da Silveira , a qual era 
do Chatim de Mangalor, e era já partida 

da- 



426 ÁSIA deJoÂo de Barros 

daquelle porto quando Diogo da Silveira 
deílruio ao Senhor delia; mas fe a fortuna 
a livrou de hum Silveira, veio ler tomada 
d^eíloutro com morte de quania gente tra- 
zia ; e foi grande ventura , porque aquclie 
anno lòmente ílihio do Malavar com efpe- 
ciaria para Meca. Além deíla , tomaram ou- 
tras velas, pofto que nao de muita fubflan- 
cia. A Martim de Caftro Capitão de hum 
galeão , na parte onde andava, coubc-lhe 
em forte outra náo , que liia de Dio , c le- 
vava duzentos homens , que quando os noC- 
fos abalroaram com elles , fe defenderam 
tão valerofamente , que fe houvera de per- 
der Martim de Caííro , e dez, ou doze ho- 
mens , que íciltáram com dle dentro na fua 
náo ; mas no fim da peleja á cuíla de mui- 
tas feridas , principalmente das de Martim 
de Caftro , houveram vitoria delles , com 
morte da maior parte dos Rumes , ficando 
a náo em poder dos noíTos , a qual hia car- 
regada de ricas mercadorias. E por Eitor 
da Silveira , pela gente deíla náo , e de ou- 
tros navios que tomou , ter fabido que as 
náos queaquelle anno carregaram em Cam- 
baya , partiram de lá cedo com receio dos 
Portuguezes , temendo foíTem a Dio , e eram 
já todas paíFadas ao eftreito , elle fe foi ajun- 
tar com toda a Armada em o lugar de Me- 
te , onde tinha mandado per regimento a 

to- 



Década IV. Liv. IV. Cap. XI. 427 

todos , que no fim dns prezas foíTem fazer 
aguada. 

E porque Nuno da Cunha lhe manda- 
ra , que feitas as prezas , dando-Ihe o tempo 
lugar , déílc huma vifta á Cidade de Adem , 
e achando no porto náos de pouca valia , 
mandaílc dizer aElRey, que por amor del- 
ie lhe nao fazia damno , e o commctteíTe 
amorofamente que fe fízeíTe vaíícillo d^EI- 
Rey de Portugal ; como ajuntou toda a fro- 
ta 5 mandou dalli as náos que tomara para 
Mafcate , e elle fe partio para Adem , aon- 
de chegou a 4 dias de Abrii daquelle anno. 
Foi logo viíitado da parte d'ElRey com 
muitas vaccas , e carneiros , e outros refref- 
cos 5 com palavras íignificadoras de muito 
contentamento da fua vinda , e per retorno 
Jiouve ElRey outras coufas que havia de 
eílimar em muito. PaíTadas as viíitaçoes , man- 
dou ElRey dous homens Arábios dos prin- 
cipaes faber de Eitor da Silveira acaufa da 
fua vinda , e a corre fpondencia que o Go- 
vernador da índia queria ter com elle. Ao 
que Eitor da Silveira refpondeo , que o Go- 
vernador fabendo que os Rumes o tinham 
cercado , o mandara com aquella Armada 
foccorrer ; e por em Çocotorá achar nova 
ferem já idos "" ^ efpalhára a Armada ás pre- 
zas y 

a Diogo do Couto efcreve , Qiie os Rumes com o feu 
Capitão Mujlafú , em companhia d^EIRey de Xad ^ ejla» 



428 ÁSIA DE João de Barros 

zas ; e pois o Governador fe movia a efta 
boa obra pordefejar fua amizade, por lho 
ElRey de Portugal feu Senhor encommen- 
dar , elle também devia de folgar de fe 
obrigar a ElRey com alguma demonftra- 
çáo , para o Governador da índia ter mais 
vivo cuidado das coufas delle Rey de Adem , 
e que ella demonftração devia fer , fazer-fc 
vaíTallo d'£iRey feu Senhor , com algum 
reconhecimeato do parcas , para o Gover- 
nador da índia o defender dos Rumes. Ao 
que ElRey refpondeo , que antes por razão 
de elle entreter aquella má gente noíTa ini- 
miga , ElRey de Portugal lhe devia muito , 
pois não pertendiam outra coufa os Tur- 
cos 5 fenão tomar aquella fua Cidade de 
Adem , e alli fe fazerem fortes para delia 
conquiftarem a índia. Eitor da Silveira dif- 
fe a eftes homens que hiam , e vinham , que 
nenhuma coufa o Governador da índia mais 
defcjava , que ver os Turcos tomarem al- 
gum lugar para os ir desbaratar nelle ; e 
que foubeíTe , que muito mais certo tinha to- 
mar aquella Cidade de Adem da m.ao dos 
Turcos , quando a elles tiveíTem , que da 
dos Arábios ; mas como andavam efconden- 
do-fe em buracos , não os podia caftigar : 

Que 

Víim (línrta johre Adem , com mais de vinte mil homens , 
quando Eitor da Silveira chegou ; e (jiie temendo gite elle 
fojje a tomar Xaelf levantaram o cerco de Adem. Cap. 10. 
iív, 6, 



Década IV. Liv. IV. Cap. XI. 429 

Que agora viíTeElRey fe queria a fujeiçao 
daquelics , que conheciam por gente íem 
lei , e fem verdade , e atraiçoados , c cruéis 
em todas fuás obras , ou a amizade dos 
Portuguezes com a lealdade com que tra- 
tavam ieus amigos , e os vaíTallos de feu 
Rey 3 e Senhor. Eíies , e outros recados vie- 
ram , e foram tantas vezes , té que ElRey 
concedeo fazer-fe vaííallo d'E]Rey de Por- 
tugal , com lhe pagar cada hum anno dez 
mil xeraíijs , e deo logo mil e quinhentos 
mortos para fe fazer em Orm,uz huma co- 
roa de ouro , de que lhe fazia ferviço. Def- 
te aíTento de paz , e vníTalIagem. fe fizeram 
duas efcrituras aílinadas per ElRey , e per 
Eitor da Silveira , de que cada hum ficou 
com a ília , e a rogo d'ElRey deixou Ei- 
ror da Silveira hum bargantim com trinta 
homens , de que ficou por Capitão António 
Botelho. ^ 

An- 

tf EJIa jornada de Eitor da Silveira divide Francifco 
de Andrade ^m duas , e erii diferentes tempos ; for<jne ep 
creve no cap. 47. da i. Part. Que em fim de Janeiro do 
cnno de 1 524 par tio Eitor da Silveira de Goa para o ej^ 
ireito do mar Roxo , per mandado do Governador D. Duar- 
te de J\lene:(es , em Itt-ica de D Eodrico de Liii o , íjue 
não levoíi á índia por o não adiar em Maçuà. E que deÇ- 
ia viafrem aportando em Adem , fizera a ElRey delia vaf- 
jallo d ElRey de Portugal , com huma coroa de ouro de 
dous mil xerafijs de páreas , e cjue então lhe deixara o 
largantim para fua guarda , e per Capitão delle Fernão 
Carvalho y a que ElRey maiára ^ {bgo que Fitor da Silvei' 
ra Jc partia para a Índia , ) e aos Poríu^uei^es do feu bar^ 



430 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

Antes que dalli partiíTe Eitor da Silvei- 
ra 5 lhe efcreveo ElKey de Xael , que tam- 
bém íe queria fazer vaíTallo d'ElRey de Por- 
tugal , e lhe entregaria toda a artilheria que 

ti- 

gantim , e a outros , ^ue com a fegnrança ãa paz vieram 
a Je:i porto. O ijae joul^e depois no anno de 28 António de 
Miranda y [como di:^ Francifco de Andrade no cap. 66. 
da 1. Pa>-te ,) çuando foi ao Ejireito ; pelo que tomando 
defronte de Adem huma não de mercadores ricos daqueUa 
Cidade , que vinha de Cambaya , depois que a mandou def- 
■pejar da fazenda que traxÀa , e lhe pagaram os mercado^ 
res porfeu re/gate trinta mil xeraãjs , os fez. queimar vi- 
vos com fua não. E no cap. 6j. da 2. Parte ^ efcrevendo 
eji a jornada de Eitor da Silveira do anno de IJJ° > ^''* > 
Que chegou a Adem com defejo de tomar vingança da faU 
Ja paz f que EHiey fizera com elíe , quando lhe dera a co- 
roa de ouro de páreas : e que ElKey em fatisfaqão lhe of- 
ferecha nova paz , e por vajjallo d''ElRey de Portugal , 
com as mefnas páreas dos deus mil xerafijs , e que refa- 
ria a quebra da outra paz paffada , que fora quebrada pe- 
los muitos males , e grandes roubos , e injultos que fajiam 
os Fortuguezes que alU deixara no bargantim , no que 
fe não tomou refoíução , porque fe partio logo Eitor da Sil- 
veira para a índia. João de Barros não efcreve a jorna- 
da de Eitor da Silveira do anno de 24. fenão do anno de 
.IJ26 em tempo do Governador D. Henrique no cap. í. liv» 
lo. da ). Década, quando trouxe D "Rodrigo de Lima j 
e o Zagaxabo Embaixador do Prejle Joãc. E no cap. 9, 
do liv. 7. da mejma Década trata da jornada que D. Luiz 
de Meneies fez "o ejireito em bufca de D. Rodrigo , que 
não trouxe : e affi parece que Francifco de Andrade fe 
enganou , fazendo de Eitor da Silveira a viagem de Dom 
Luiz de Menezes. E Diogo do Couto no cap. 10. do liv, 
6. dizy Que quando Eitor da Silveira chegou a Adem y ef- 
tava ainda cercada per Muflafá , o qual como vio a nojfa 
Armada , levantou o cerco , e foi-fe para Xaci. E no mais 
fe conforma com João Uç Barros neJU capitulo , como tam- 
èem Caílanheda. 



Década IV. Liv. IV. Cap. XI. 431 

tinha alli , e em Dofar que fora noíla , e 
a houvera os annos paíTados. Diílo íicou EI- 
Rey de Adem mui contente , vendo que to- 
dos deíejavam a amizade dos Portuguezes 
cm ódio dos Turcos , de que eftava eícan- 
dalizado , nao tanto por a guerra que lhe 
fizeram , quanto por a pouca verdade que 
nelles achava , e maldades que commettê- 
ram. O Capitão deites, que cercaram a Ci- 
dade de Adem , de que eJJa ficou mui des- 
baratada 5 foi Muftafá 5 fobrinho de Raez 
Soleimáo Capitão mor da Arm.ada do Tur- 
co 5 de que atrás falíamos "" . Eílas novas , 
e as da vaííallagem d'ElRey de Adem man- 
dou Eitor da Silveira a Nuno da Cunha 
perMartim Vaz Pacheco Capitão de huma 
das caravellas que levava. Também deixou 
hum bargantim em Mete com a náo da 
preza para a levar a Mafcate antes que fojp- 
fe a Adem. Com. efte bargantimi veio ter 
huma fufta de Turcos ; e cuidando o Capi- 
tão fer alguma das da noíTa Armada , fahio 
a ella , e em chegando , c conhecendo que 
{q. enganara , não pode deixar de pelejar , 
fendo os Portuguezes fómiente doze , e os 
furcos trinta , os quaes todos , depois que 
•janíliram de pelejar , fe aíTentáram para def- 
. ançar \ e tornando de novo á requeíla , fi- 
caram os noíTos com a vitoria bem feridos , 

e três 

« No cap. %. do Hv. i. 



43^ ÁSIA DE JoAo DE Barros 

e três delles mortos , e os Turcos morre- 
ram todos, e com a fufta tomada fe foram 
a Mnfcate ; e deíla viagem que Eitor da 
Silveira fez , fe levaram a Goa para ElRey 
trinta e dous mil pardáos das prezas. 

Eíle fim houveram as três Armadas , que 
Nuno da Cunha armou chegando á índia " , 
per três Capitães de appellido da Silveira. 
Per Diogo da Silveira , filho de Martim da 
Silveira Alcaide mor de Terena , Pai de 
D. Maria da Cunha • primeira mulher do 
Governador Nuno da Cunha j e per Antó- 
nio da Silveira filho de Nuno Iviartins da 
Silveira Senhor de Góes , e dos Morgados 
da Silveira, e Lemos, e Pai de D. Ifabel 
de Vilhena fegunda mulher do mefmo Go- 
vernador Nuno da Cunha , com quem en- 
tão era cafado ; e per Eitor da Silveira fi- 
lho de Francifco da Silveira Senhor das 
Cerzedas , e de Sovereira formofa , Coudel 
mòr deíle Reyno : todos três parentes per 
defcendencia de Nuno Martins da Silveira 
o velho , que foi rico homem , Efcrivao de 
Puridade d^ElRej D. Duarte , Aio d'El- 
Rey D. Aífonfo V. e Coudel mòr , e Vee- 
dor mor das obras do Reyno. ^ 

CA- 

a Frota ãa índia do atino de i n^* 

í Em Setembro dejle anno de i n° chegaram a Goa 
cinco núos do Reyno , de Jeis tfue partiram delle fem Ca» 
pitão mór. De fias cinco eram Capitães Manuel de Brito, 
Jatiiz. Alvares de Paiva , Fernão Camello , Vicente Fega* 



Década IV. Livro IV. 433 

CAPITULO XII. 

Como Nuno da Cunha partio para Dio , e 

das novas que foube per ynerc adores Ara- 

bios 3 que na fortaleza de Damam achou, 

NUno da Cunha por o muito que tra- 
_ balhou em mandar fazer muitos aper- 
cebimentos para a jornada de Dio , era táo 
grande o apparato deílas coufas , aíTi de na- 
vios , munições , mantimentos , que por não 
poder partir juntamente de Goa com toda 
a Armada , mandou António de Saldanha 
com algumas velas queeílavam p refles , que 
o fofl^e efperar a Bombaim. Elle partio de 
Tom, IF. P. 7. Ee Goa 

do , e Francifco de Scufa Tavares provido da capitania de 
Cananor , a cuja paragem chegou no fim de Outubro. A ou- 
ira náo [de (jue hia por Capitão Fero Lopes de Sampaio , 
que levava a capitania de Goa ) com tanta gente morta , 
<f doente , ^ue não havia çuem marea[Je as velas. E per- 
dera-fe , fe a não encontrara Diogo da Silveira Capitão 
mór daíjuella cofia , que metteo dentro na náo gente da fua 
Armada , com (jue foi furgir no porto de Cananor , ondtí 
os doentes foram curados , a náo defpejada , e levada a 
CochiJ. Francifco de Andrade cap. 64. da 2. Farte. Fer- 
não Lopes deCaílanheda cap. 2$. liv. S. Nefas náos man^ 
dou ElRey a Nuno da Cunha , que emharca[Je para o Rey- 
no AJ/onfo Aíexia , e lhe fixe fje inventario da faipida y pe- 
las culpas , e capitules que Fero Mafcarenhas deo contra 
elle. A fazenda , que era de muita pedraria , pérolas , pe- 
qas de ouro ^ e prata , e outras coufas ricas, fe entregou 
aos Capitães das náos , em que Afionfo Mexia fe embar- 
cou em Janeiro de i5jj. Diogo do Couto cap. 2, do 
Jiv. 7. 



434 ÁSIA DE João de Barros 

Goa o primeiro dia de Janeiro do anno de 
15* 31 com parte da frota , e para o mais 
que ficava deixou a Franciíco de Sá que a 
■ levaíTe. Chegado a Chaui'' deo a capitania 
daquella fortaleza n Gafpar de Teive , que 
era Alcaide mor delia , porque levou com- 
íigo António da Silveira ; e chegado a Bom- 
baim , onde eftava António de Saldanha ef- 
perando por clle , ajuntou alli toda a Ar- 
mada^ , a qual era de cento noventa enove 

vé- 

a Efcreve Fernão Lopes deCaftanbeda, (ftie de Chaiil 
mondou o Governador defcnhrir a cofia de Camhoya psr 
X>. Manuel de Menezes Tel/o com três catúres , o (jual 
chegando perío da I/ha das Vaccas , encontrou com Hag 
Mamude , tjue dijjuadlo a MeUifue Saca entregar Dio a 
Eitor da Silveira , o gual andava guardando a(juellq cojla 
com vinte fujias bem armadas ; que vendo os catilres os 
iiccommetteo , e elles fe foram retirando concertadamente ; 
e chegando a capitania de Mamude ^ por fer mais ligeira y 
a hum dos catúres wrrciro , 1>. Manuel voltou a voga 
arrancada ao foccorrer , e abordando a fujia , querendo fal- 
tar dentro os Portufjiezes y os Mouros com medo fe dei t ti- 
ram ao outro bordo , cotn que a fufta foçobrou , e ficaram 
CS Mouros na agua , onde os nojjos mataram muitos , e 
entre elles a Hag Alamude . e porque as outras fuftas fe 
vinham chegando , D. Manuel fe contentou de falvar í? 
4:atúr , com o qual fe foi a Chaul y onde foi bem recebido 
do Governador , af/i por falvar o catúr de tamanha Arma- 
da y como pola morte de Hag Mamude. Cap. 29. liv. 8. 

b Dos grandes apercehimentos defa Armada , [que foi 
a maior que té enttio fe fizera na índia , ) fazem particu- 
lar relaqão Diogo do Couro no cap.*:.. do liv.y. e Fran- 
citco de Andrade no cep. 6 6. da 1. Farte , onde efcre^ 
ve y Qãe a fora os navios , que muitos homens particulares 
fi)ceram d fua cujla , havia nefta Armada oito náos do Rey- 
no , quatorze galeões , duas galeaças , dox,e galés , duejeis 



Década IV. Liv. IV. Cap. XII. 435* 

velas ; náos , galeões , e navios redondos 
eram vinte e féis ; galés , e galeotas doze ; 
furtas , e bargantijs fellenta e féis ; catúres 
quarenta e dous ; féis náos grandes de Mou- 
ros , e quatro juncos , e quarenta e três na- 
vios a que chamam cotias , em que hia o 
Gentio da terra , Canarijs , e Malavares , 
que eram dous mil. Os principaes Capitães 
da frota eram António da Fonfeca do ga- 
leão S. Alattheus , em que hia o Governa- 
dor Nuno da Cunha ; das outras velas eram 
António da Silveira , Diogo da Silveira , 
Eitor da Silveira , António de Saldanha , 
Francifco de Sá , Jorge Cabral , Francifco 
de Vafconcellos , D. António da Silveira , 
Vafco Pires de Sampaio, Nuno Fernandes 
Freire , Manuel de Brito , Ruy Vaz Perei- 
ra , Alanuel de Alboquerque , Henrique de 
Macedo , António de Lemos , Jorge de Li- 
ma , Martim AíFonfo de Mello Jufarte , Jor- 
dão de Freiras , Martim de Freitas , Dom 
Triftao de Noronha , Fernão de Moraes , 
Manuel de Vafconcellos , Gomes de Souto- 
maior , Fernão de Lima , Paio Rodrigues 
de Araújo, Triflão deTaíde, João deMa- 
Ee ii ga- 

gahotas , duzentas e vinte oito vêías miúdas de remo 9 
entre bargantijs , ftijlas , e catúres y vinte cinco junco^ 
grandes de Malaca , carregados de mantimentos , e mui' 
tas nãos , znnikicos , e cotias de taverneiros que hiam 
vendendo mantimentos , e vinhos da terra , com que Jàiiam 
número de mais de quatrocentas vé/as. 



43^ ÁSIA DE João de Barros 

galhacs , Luiz FaJcáo , Luiz da Veiga, 
Gonçalo Baião , Fernão Rodrigues Barba , 
Jorge de Souía , Paio Guedes , Gafpar Pre- 
to , Gregório de Abreu , Francilco de Bri- 
to 5 Gonçalo Vaz Coutinho , Galvão Vie- 
gas , e outros , cujos nomes não vieram á nof- 
ia noticia "*. Partido o Governador de Bom- 
baim ^ com toda íua Armada , foi ter á for- 
taleza de Damam , que era d'ElRey de 

Cam- 

a Francifco de Andrade, e Diogo do Couto nomeani 
móis osfeguinteSy Garcia de Sã ^ D. Vafco de Lima ^ T///^ 
têio Homem , António de Sá o Rume , I^uno Pereira de 
la Cerda , Manuel de Soufa , Mifruel Carvalho y D. Ro- 
^ue Tel/o , Manuel de Miranda ^ Manuel Rodrigues Cou- 
tinho , Chrijiovão de Paiva , (jue hia por feitor da Ar* 
mada , Ruy de Mello , Lopo Pinto , Pêro Botelho , Antó- 
nio da Cunha , Francifco de Soufa , António da Silva de 
Mene:(es , Lopo de Mesquita , Martim de Ca/Iro y Vafco 
da Cunha , Francifco da Cunha , Nuno Fernandes de Ma- 
cedo , D. Fernando Deça , Anihrojio do Rego , Nuno Bar- 
reto y Gonçalo Gomes de Azevedo , João da Silveira , Hen- 
riíjue de Souja , "D. Manuel de Lima, Trift7io Cromes da 
Gram , João Mendes de Macedo , Diogo Botelho Pereira , 
Lourenço Botelho , António Pejjoa , António Corrêa , João 
Jufarte Picão , Vicente Corrêa , e Gafpar Corrêa , de cu- 
jos ejcriios í//;^ Francifco de Andrade , t/ue tomou o mais 
do que efcreve das coufas da índia , por eile fe achar pre- 
Jente a todas , de que dá relação. 

h Nejla Ilha de Bomhaim fe fej^ refenha geral da gen- 
te que hia na Armada y e achar am-fe três mil e quinhen- 
tos e fejjenta e taníos homens de peleja , contando os Ca- 
fitães , mil e quatrocentos e cincoenta e tantos homens do 
mar Portuguexes com os Pilotos , e Mejlres , dotis mil e 
tantos Malavares , e Canarijs de Goa , oito mil efcravos , 
homens que podiam pelejar y quatro mil marinheiros da ter- 
ra que remavam , e íjiais de oitocentos mareantes dos juncos * 



Década IV. Liv. IV. Cap. XII. 437 

Cambaya , e com temor fe defpejou logo, 
e todos os bargantijs entraram dentro do 
rio a fazer aguada por fer pequeno , e nâo 
para maiores embarcações. Aqui fahio Nu- 
no da Cunha em terra , onde mandou di- 
zer MilTa folemnc , e fez hum Sermão o 
CommiíTario da Ordem de S. Francifco , e 
no fim delle deo huma abfolviçáo geral. O 
que acabado , mandou o Governador lançar 
pregão , em que o primeiro homem que 
fubitíe os muros de Dio haveria de mercê 
d'EIRe7 quinhentos pardáos , e o fegundo 
trezentos , e o terceiro cento , e efcala fran- 
ca a todos 5 tirando a artilheria , e cafcos 
das náos , que eram d'ElRe7 per feu regi- 
mento. E per alguns mercadores Arábios, 
que alli achou fazendo feus commercios , 
loube como Muftafá , de que atrás falíamos , 
fobrinho de Raez Soleimao , era entrado 
em Dio havia poucos dias em tempo que 
ninguém té alli atraveíTou de Caxem , don- 
de elle pardo para Dio por fer em Janei- 
ro fora de monção. E a razão de vir em 
tempo tão perigofo era por fugir das Ar- 
madas Portuguezas , que temia vindo em 
tempo ordinário. Também foube o Gover- 
nador como na Ilha de Beth , (que diíla 
fete léguas de Dio para a enfeada de Cam- 
baya , e mil paíTos apartada da terra firme , ) 
eílava hum Capitão Rume com alguns Ru- 
mes, 



438 ÁSIA DE João dk Barros 

mes, e Arábios, e outras nações de Mou- 
ros , que leriam por todos dous mil homens , 
os quaes faziam huma fortaleza , além da 
que a mellna Ilha tinha. Efta Ilha leria em 
redondo de légua e meia , e fobre a pene- 
dia de que era cercada tinha em torno fei- 
to hum muro antigo de pedra , e cal com 
baluartes , e cubellos de maneira , que fica- 
va como huma Cidade bem cercada. Daquel- 
la fábrica era alguma renovada, como obra 
que fe fizera , temendo-fe que tomaíTem os 
Portuguezes poíTe delia , com que ficaria 
Dio deftruida , e defpovoada. Sua entrada 
era huma calheta entre hum arrecife de pe- 
dras , fobre o qual eftava hum baluarte pa- 
ra defender a defembarcação , e logo junto 
dclle duas portas dobradas enfiadas huma 
em outra , e o caminho para fubir acima 
era amparado de dous muros hum bom pe- 
daço té entrar em terra chá , porque fomen- 
te os baluartes, eeftes muros eílavam fobre 
a penedia , e em cima no chão havia hum 
templo antigo , final que em algum tempo 
aquella povoação fora coufa mais nobre do 
que agora era. Nefte lugar havia tanta arti- 
Iheria , que Nuno da Cunha o não creo, 
fenão depois que o vio. 



CA' 



Década I\^ Livro IV. 439 

CAPITULO xin. 

Como Nujío da Cunha chegou d Ilha de Beth , 
e a deftruio : e da crueldade que o Capi- 
tão delia executou enifuafamilia , por 
dar exemplo defua conjiancia. 

ALvorozado com aquellas duas novas 
Nuno da Cunha , partio de Damam , 
arraveíTando á outra cofta da enfeada de 
Cambaya , e foi demandaria Ilha de Beth, 
onde chegou 37 de Fevereiro ; e em quan- 
to a Armada fe agazalhava , mandou a An- 
tónio de Saldanha com todos os navios de 
remo que foíTe tomar a traveíTa do mar, 
que havia entre a Ilha , e a terra firme , e 
andaíTe em vigia , e viíTe a difpoíiçao que 
a Ilha tinha per aquella parte , para ver per 
qual feria melhor commetter a entrada del- 
ia. Porque em a Armada furgindo , com 
grita , e artilheria a falváram os inimigos 
de maneira , que bem moílravam ferem ho- 
mens que defenderiam a terra em que efta- 
vam. E como Nuno da Cunha vio eíla fua 
determinação , tomou alguns Fidalgos , e 
em bargantijs , e catúres foi dar huma viC- 
ta á parte onde eftava António de Saldanha. 
E depois de reconhecer todos os lugares de 
dentro , e de fora da Ilha , e havido confe- 
Iho fobre o que fariam , foram todos de 

pa- 



440 ÁSIA DE João de Barros 

parecer , que não devia deixar aqiiclla la- 
droeira atrás , o que Nuno da Cunha ap- 
provou. E entre muitas razões que deo pa- 
ra fe dever fazer , foi , que tomava aquelie 
acerto por bom prognoftico , lembrando-lhe , 
que indo o Viío-Rey D. Francifco de Al- 
meida a Dio desbaratar os Rumes , que de 
feito desbaratou , fahio primeiro em Dabul , 
que deílruio , e depois alcançou huma mui 
illuílre vitoria "" ^ e outra tal efperava elle 
naquella Ilha , le não menos gloriofa em 
Dio. Só a Eitor da Silveira , a quem não 
faltava animo, nem confelho , pareceo que 
a Ilha fe não havia de accommetter, por- 
que eftando a gente delia com determinação 
de fe defender , não fe podia entrar íem 
alguma perda de gente , que para a empre- 
za de Dio não fe havia de arrifcar o mais 
pequeno homem daquella Armada , porque 
tudo lhe era neceíTario. No que parece que 
adivinhava fua morte , e a falta que podia 
fazer. Determinado o accommettimento da 
Ilha , por não aventurar Nuno da Cunha 
nem dous grumetes que nella podiam peri- 
gar , diíTe , que primeiro havia de ver fe 
aquella gente íè queria entregar a partido , 
e per hum homem de hum barco que fe al- 
li tomou da terra, mandou recado ao Ca- 

pi- 

ii A tomaãa de Dahuf efcrevíjogo Ue Barros no cap, 
4' do liv. i» da 2. Década, 



DegadaIV. Liv.VI. Cap. XIII. 441 

pitáo , dizendo , que elle via bem como cf- 
íava cercado, e que nem pelo ar podia la- 
hir dalli , fenao per via de concerto , o qual 
parecia convir-lhe íe queria viver , deípejan- 
do a Ilha de todo com fua fezenda. Ao 
que o Mouro refpondeo , que lhe mandaf* 
fe hum leguro para ir fallar com elle ; e 
vindo , dilTe , que elle era hum homem fó , 
e que nao fabia fe poderia acabar com a 
gente , que deixaíTem fuás armas , e fazendas , 
e que dando elle leguro a tudo , trabalha- 
ria niOb o que pudeiTe. Nuno da Cunha 
lhe refpondeo, que o que tocava á fua pef- 
foa , mulher , e filhos , fe os tinha , e pró- 
pria fazenda , que era contente , e com iílb 
o defpedio para o outro dia tornar com a 
refolução. A qual foi , que elles não eram 
homens para tão levemente alargarem o que 
lhes era entregue , que onde fe perdeíTe a 
fazenda, lá foíTem as vidas ; e fegundo íe 
depois foube , os eílrangeiros eram de pare- 
cer que fe déífem ; mas os Guzarates natu- 
raes temiam tanto a crueldade de Soltam 
Badur, que não confentíram no partido. E 
como gente determinada a morrer , toda 
aquella noite fe raparam as cabeças , ( que 
he huma fuperílifão de que ufa m os que def- 
prezam a vida , aos quaes chamam na ín- 
dia Amaucos , ) e fe foram á fua Mefqui- 
ta, ealii oíferecêram fuás peíToas á morte, 

ou 



442' ÁSIA DE JoAo DE Barros 

ou ao que a ventura delles difpuzeíTe , pois 
queriam manter a fé que tinham dada ; e em 
íinai deíle voto , o Capitão per dar exem- 
plo de lua determinação , mandou fazer hu- 
nia grande fogueira , onde lançou fua mu- 
lher , e hum filho pequeno que tinha , e to- 
da fua familia , e fazenda entregou ao fo- 
go 5 temendo que alguma coufa fua podia 
vir a noífo poder. Outro tanto fizeram al- 
guns tão deícfperados como efte Capitão. 

Nuno da Cunha como teve o feU def- 
engano , para o outro dia ordenou as pef- 
foas que haviam de commetter a entrada 
onde ellcs eftavam. A Francifco de Sá , e 
a Manuel d'Alboquerque deo huma parte; 
a x\ntonio da Silveira , e a Diogo da Sil- 
veira 5 e a Manuel de Soufa outra ; a Ei- 
tor da Silveira , Jorge Cabral , e a Ruy 
Vaz Pereira outra ; a Martim AfFonfo de 
Mello cora alguns Capitães dos navios ou- 
tra ; e elle com António de Saldanha , e 
todos os outros Capitães tomou outra. Vin- 
do a luz da manhã, cada hum acudio a feii 
lugar com grande animo. Os Mouros co- 
mo eftavam offerecidos ao Demónio , aíli 
fe vinham merter nas armas dos noíTos , co- 
mo que na fua morte eílava a falvação da 
Ilha ; e dando , e recebendo de ambas as 
partes , houve aíTás fangue , e alguns ficaram 
logo onde os feriram , e outros morreram 

de- 



Década IV. Liv.IV. Cap. XIII. 443 

depois das feridas que houveram , aííi co- 
mo Eitor da Silveira , que de huma efpin- 
gardada que lhe atraveíTou huma perna , mor- 
reo dahi a féis dias , ao que ajudou fua 
má difpoíiçao , que diziam ièr quafi ethico. 
Ecomo nelle havia hum animo invencível, 
€ de fuás obras lhe reíultava tanta gloria , 
e fama 5 e era tão necelTario aoferviço d'Ei- 
Rey , não lhe impedia a doeiíça tratar as 
armas , e offerecer-lb aos maiores perigos ; 
e aíli acabou com univerfal fentimeuto , e 
notável perda. Também m.orreo D. Fran- 
cifco de Caílro , fiiho de D. Antão de Al- 
mada Capitão de Lisboa , Jan' Alvares de 
Azevedo , Henrique de Soufa , e outros que 
faziam número de doze peíToas ; os feridos 
foram mais de cento , de que os principaes 
eram Pvuy Vaz Pereira , e João da Silveira. 
Os Mouros como fe viram entrados per tan- 
tas partes , começáram-fe de recolher ao lu- 
gar de feu juramento , que era a Mefquita , 
a qual eílava no meio da Ilha , onde fem 
fe quererem entregar morreram com huma 
braveza de animaes brutos á cuíla do fan- 
gue dos noíFos. Muitos deiles por fugirem 
o feu ferro, lançáram-fe pelas barrocas da 
ilha abaixo , e vinham ter ao mar , onde 
os batéis noíTos os andavam íifgando ás lan- 
çadas , com que acabaram como os outros , 
os quaes per dito deiles mefmos foram mií 

e oi^ 



444 ÁSIA DE João de Barros 

c oitocentos; foram tomadas feíTenta peças 
de artilheria de toda forte. A cerca , e ba- 
luartes ficaram aportilhados , principalmente 
a obra nova , que era menos forte ; e por 
eílc feito fer hum dos mais perigofos , e 
bem pelejados da índia , e em que morre- 
ram tantos Mouros , alguns chamaram a ef- 
ta Ilha , a dos mortos , e outros lhes cha- 
mam de Santa Apollonia , por fer tomada 
em feu dia , nove de Fevereiro. ** 

Nuno da Cunha acabando de fe reco- 
lher a gente a feus navios , a primeira cou- 
fa que fez foi em hum catiir andar de na- 
vio em navio vifitando todos os homens 
principaes feridos , e apôs iífo mandou ao 
Secretario Simão Ferreira , e com elle o 
Patrão mor, que foíTe defronte deíla Ilha a 
terra firme a huma ribeira de agua ver fe 

era 

a Efcreve Diogo do Couto , e Fernão Lopes de Caf- 
tanheda , Q^íií na tomada dir/la Ilha , arr eme t tendo hum foU 
dado Portuguex. com huma lança a hum daijtielles amoucos , 
ellc fe mctteo per ella , e correndo pela ajiea té chegar 
ao foídado » lhe deo huma cutilada per huma perna , que 
lha cortou , e amhos cahíram mortos a hum tempo. E Fran- 
cifco de Andrade refere y Qjie tomada a Ilha ^ rodeando-a 
Gafpar Corrêa em hum catar , vio fohre hum penedo quatro 
mulheres , e hum homem , e indo para os tomar , o Alou-' 
ro com huma oda^a degoUou duas , aparando elhis voluntã" 
riamente as gargantas ; e querendo degollar as outras , o 
mataram com huma efpingardada , e cilas fe deitaram ao 
mar para Je afogarem , por nTio virem a poder dos Por- 
tuguezes r e tomadas dos reme ir os do catúr , o intentaram 
depois algumas vex>es* 



Deg.IV.Liv.IV.Cap.XIII.eXIV. 44; 

era para fazer aguada nella. E por acharem 
que o era , tornou lá Simão Ferreira a if- 
ío , e Francifco de Sá em fua guarda , aos 
quaes os moradores de hum pequeno lugar , 
que eftava á borda d'agua , vieram pedir fe- 
guro para o irem pedir ao Governador , que 
lhes nao mandalTe fazer damno algum , c 
elle lho concedeo , e lhe mandou dar cer- 
tos covados de velludo cremeíim , de que fi- 
caram contentes. 

CAPITULO XIV. 

Como Nuno da Cunha , uiflo ofuio , e haluar^ 
tes de Dío , fe determinou em c combater. 

DA Ilha de Beth partio Nuno da Cu- 
nha aos 12 de Fevereiro , mandando 
diante de toda a Armada a Simão Sodré a 
hum rio que fe cJiama Madrefabat , para 
defender que , quando a Armada per alli paí- 
faííc ^ não entraiTe alguma das velas dentro 
para elle ancorar com toda a frota junta , e 
dar delia huma grande moílra , como fez 
meia légua da face de Dio. E também por 
evitar o perigo da artilheria, de que logo 
teve experiência , porque lhe tiraram com 
hum bafilifco , cujo pelouro andava faltan- 
do entre as velas ; e emendando-fe a pon- 
taria , parecendo-lhcs que não chegava bem , 

fo- 



446 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

fobrelevoíi toda a frota. Nuno da Cunha , 
viílo o íitio da Cidade , os baluartes , eVil- 
la dosPvumes, e toda fua difpofiçáo, hou- 
ve que nao tinha informação de homens , 
nem pintura de papeis , que pudeílem de- 
monílrar o que elle fentia com a vifta ; e 
que quantas informações eram dadas a El- 
Rey em Portugal , e regimento que para 
aquella empreza lhe dera , tudo era pouco 
mais de nada para o que ellc via , e con- 
vinha fazer-fe. E fegundo elle depois di- 
zia , fe nelle fò eftivcra a execução daqucl- 
le cafo 5 e nao houvera de dar conta ao 
Mundo, elle nao gaílára niíTo hum arrátel 
de pólvora. Porém como era neceííario fa- 
tisfazer ao mandado d'ElRey , e á opinião 
das gentes , convinha fazer experiência , e 
acabar de defenganar tanto enganado. - 

E poílo que já atrás "" em alguma ma- 
neira efjrevemos a poftura , e íitio dcfta Ci- 
dade , todavia primeiro que digamos o mo- 
do de como foi combatida , daremos huma 
breve noticia de algumas coufas delia. O 
lugar em que eRa Cidade eftá íituada he ter- 
ra firme ; mas porque hum efteiro do mar 
a rodea , fica em Ilha. Eíle eftciro faz duas 
bocas , huma da parte do Norte , que por 

fcr 

a No cnp. 9. do liv. 2. da a. Década efcreve da 
fimdai^Tio de Dio , e de feu Jitio no cap» 5. do llv, 3. da 

inefria Década. 



Década IV. Lrv.IV. Cap. XIV. 447 

ler baixo , e aparcelado não fe fervem per 
elle ; e a face defta Ilha , que fica da banda 
do mar , e corre té a outra boca do efteiro 
da parte do Sul , Jie tudo huma rocha de 
penedia mui afpera , principalmente onde a 
própria Cidade tem feu aflento , que he na 
boca do eftciro do Sul ; e quaíi toda a po- 
voação , e o principal ferviço delia jaz ao 
longo defte eíleiro , que fera de largura de 
hum.a milha. Da outra banda delle, na mef- 
ma parte do Sul , eílá huma povoação , a 
que chamam Villa dos Rumes*, e aqui ef- 
praia o mar de maneira , por fer aparcela- 
do 5 que não pode nadar hum barco , que 
he mui difíerente do canal , que vai ao lon- 
go da Cidade , que tem fundo per que en- 
tram os navios , e de cima delia fe pode 
defender a quem quizer entrar per elle ; e 
para eíla entrada ficar mais defenfavel , a 
meio eíleiro , entre o aparcelado da banda 
da Villa dos Rumes , e a Cidade , fizeram 
lium baluarte baixo miui forte, que joga ao 
lume d'agua , e como eftá no meio , ferve 
de través a outros três baluartes, que ficam 
da parte da Cidade , hum junto ás cafas da 
Alfandega , onde fe defcarrega a fazenda 
que entra , e outro mais abaixo contra o 
mar , fronteiro quafi ao do meio do eílei- 
ro , e o que chamam de Diogo Lopes , que 

jaz 

c o feu próprio nome he Gogald. 



44^ ÁSIA deJoXo de Barros 

jaz abaixo de todos. Defc baluarte que eí- 
tá no meio , hia huma grofla cadeia ao ou- 
tro baluarte fronteiro 5 luílentada íobre bar- 
cos ; e da outra parte contra a Villa dos 
11 umes corria outro lanço da cadeia também 
lobre barcos té dar em huma ponte de ma- 
deira , que ficava em lugar de eílancia té á 
Villa. Além delia cadeia , que fechava aquel- 
la entrada , eílavam entre bargantijs , e fuf- 
tas mais de oitenta velas , com muitos fre- 
cheiros , e efpingardeiros para acudirem á 
parte onde neceíTario foíTe. Na Villa dos 
Rumes eftava gente da terra com fuás mu- 
lheres , filhos , e fazenda para os obrigar a 
nao deíiimparar o lugar , fe commettidos 
foíTcm. A Cidade eftava atulhada de gente 
de díverfas nações , e todos os muros , e 
eirados , c partes de que podiam ver a nof- 
fa Armada , eílavam cheias , e com grandes 
gritas , moílrando que a tinham em pouco. 
Porém a verdade he , (fegundo depois fe 
foube,) que Melique Tocam quando vio 
o mar coalhado de velas , e foube que na 
Ilha de Beth eram mortos mil e oitocentos 
homens , os quaes eflando em hum lugar 
láo defcnfalvel foram entrados a poder de 
ferro , eílcve mui abalado para deixar a Ci- 
dade , ou ao m.enos fazer algum partido 
d'ellc ficar com a vida , e fazenda feguro. 
Mas (fegundo também fe dille) Maftafá, 

que 



Década IV. Liv.IV. Cap. XIV. 449 

que era chegado de poucos dias "* , vendo 
a dilpofição da Cidade , e que cm todas as 
couías que tinha vifto cm Itália, e Turquia 
nao iiavia alguma que per natureza , e arte 
foíTe tão defenfavel como eJIa , e íbbre iíTo 
a muita artilheria , aíFi que havia na Cida- 
de 5 com.o a que eJle trouxe por fer mui 
groíTa , em que entravam bafililcos , e ou- 
tras peças mui furiofas , e muitos géneros 
de artifícios de guerra , e com tanta gente ^ , 
náo defconfiava de poder defender-íè ;, com 
que todos íe determinaram a efperar a pri- 
meira bateria. 

Nuno da Cunha , depois que notou o 
que pode ver do eílado , e difpoíiçao da 
Cidade , teve confelho com os principaes 
Capitães , declarando-lhes a vontade d'EI- 
Rey fobre o ccmmettimento delia , e o que 
lhe tinha efcrito pela informação que lhe 
tinham dado , que era commetter a entrada 
da Cidade pela Viila dos Rumes por fer 
combate mais feguro , tendo fempre diante 
a vida dos homens. E pois todos tinham 
ante os olhos o que haviam de accommet- 
ter , lhes pedia que cada hum déííe feu vo- 
to perque lugar feria, conformando-fe com 
Tom.IKP.L Ff a ten- 

fí Chegou Aíujlafã a Dio com deus gaUocs carregados 
de foldados , artilheria , e munições três dias antes çíie o 
Governador. Diogo do Couto cap. 4. do liv. 7. 

h Havia na Cidadã dez mil homens que podiam tomar 
armas. 



45'0 ÁSIA DE JOAO DE BA.RROS 

atenção d'ElRey feu Senhor. Pofto efte ne- 
gocio em prática , depois que foi altercado , 
per final conclusão , per muitos inconve- 
nientes , e pouca difpofição para ifíb , hou- 
veram que não podia íer pela Villa dos 
Rumes , fenão per a mefma Cidade ; e aC- 
fentado per onde a haviam de combater , 
não fe fiando Nuno da Cunha de outrem , 
o dia antes da bateria per Ci mefmo com o 
Piloto mor da Armada , andou fondando 
os lugares onde fe deviam pôr os que a ba- 
teííem. E per peííoas que para iífo orde- 
nou , dando a cada hum feu rol , fe notifi- 
cou aos navios pequenos, que capitania ca- 
da hum delles havia de feguir da reparti- 
ção que fez. 

CAPITULO XV. 

CowoNuno da Cunha commetteo a Cidade 
de Dio ; e por a principal artilheria lhe 
rebentar ^ e haver outros impedimen- 
tos , não perfeverou no combate* 

VIfta a difpofição da Cidade, c deter- 
minação do Confelho que fe accom- 
metteíTe per mar , o Governador ordenou 
as eílancias em três partes , pelo baluarte 
que eílava no meio do rio , e per outro da 
terra defronte delle , e por o que chama- 
vam de Diogo Lopes. Para efte, por caufa 

de 



DecadaIV. Liv. IV. Cap. XV. 45:1 

de huma calheta á maneira de concha , on- 
de fc podia defembarcar , e parecia que 
derribando algum pedaço do muro , e pon- 
do-íe efcadas , poderia a gente fubir per 
aquella parte , ordenou Jorge Cabral , Ma- 
nuel de Soufa , Martim. Aííonfo de Mello , 
cada hum em fua galé , e em huma galea- 
ca Manuel d'Alboquerque com hum baíi- 
iifco , Francifco de Valconcellos em huma 
galé com outro , e Jordão de Freitas com 
outro em huma albetoça , Fernão de Lima , 
Manuel de Vafconcellos , João de Maga- 
lhães 5 Henrique de Macedo , e Gomes de 
Soto-maior em galeotas. Além deftes na- 
vios hiam alguns batéis grandes , cada hum 
com fua peça groííii , e mantas , de que 
eram Capitães Jorge da Azambuja , Vaico 
da Cunha , e fobre elles António de Salda- 
nha com fua raforea , da qual tirava huma 
falvagem á Cidade a matar gente , e fazer 
o damno que acertaífe : e elíe andava em 
hum catúr, v(em que lhe mataram hum ho- 
mem com hum pelouro de bombarda , ) 
correndo os navios da gente de armas , que 
também alli era repartida , para que haven- 
do algum modo de entrada , fahiíTem. Con- 
tra o baluarte do mar ordenou o Gover- 
nador três batéis grandes , e poderofos , que 
para iíTo foram feitos , com mantas , e ti- 
ros mui groíTos , de que eram Capitães Dom 
Ff ii Vaf- 



4^2 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

Vaíco de Lima , Jorge de Lima , e Triíláo 
■Homem. Contra o baluarte da terra a eítc 
fronteiro , ordenou Franciíco de Sá em hu- 
ina galé baílarda , que tirava hum baillifco , 
e dous leóes ; e António de Sá em huma 
galé com outro bafiliíco , e dous camelos ; 
Nuno Fernandes Freire levava outra , de 
<]ue tiravam outros três tiros groííos com 
íuas mantas , e arrombadas , e amparo para 
a gente correr menos perigo. E Nuno da 
Cunha ficava com toda a outra gente , aííi 
Portugueza , como Canarij da terra de Goa , 
pela qual repartio as elcadas , e munições , 
cojn que haviam de acudir , fe neceííario 
fofle íaitar em terra. E para que a mais 
frota ficaíTe fegura detrás , e os que deíTem 
a bateria efaveíTem feguros de oitenta fuP 
tas , que os Mouros tinham dentro da ca- 
deia*, que como sao ligeiros em fuás remet- 
tidas , podiam fazer torvação , ordenou que 
António da Silveira com duas galeotas , e 
vinte bargantijs eíliveííe em fua guarda para 
acudir quando foííe neceífario , e que fe pu- 
zeíie hum pouco afaftado para fegurança da 
gente , por ferem navios rafos. 

Dada efta ordem a todos os Capitães , 
quando veio ao outro dia, que foram 16 
de Fevereiro, dia de Santa Juliana Virgem , 
cada hum cílava poíio cm íeu lugar j e da- 
do por íinai no batei de D. Vaíco de Li- 
ma 



Década IV. Liv.IV. Cap. XV. 4^^ 

ma hum tiro com liuma peça , a que os 
noílbs chamam efpalhafato , por fer mui 
fiiriofo , começaram o mar , a terra , e ar 
a tremer , e mudar a quietação que tinham ; 
porque o mar fervia íaltando para cima as 
luas aguas com o cahir dos pelouros que 
vinham da Cidade , e fuílalha , onde havia 
grande número de efpingardaria , de manei- 
ra , que os pelouros faziam huma chuiva ,. 
e no ar 5 e agua fe encontravam. A terra 
era toda poíla em poeira , que levantavam' 
os noíTos tiros das efcancias que batiam. O 
ar era hum fumiO de enxofre aíTi efcuro , e 
groíTo 5 que afogava os homens , e os ce- 
gava , e entre elle Iiuns relâmpados de fo- 
go , que pareciam vir do inferno. Tudo era 
huma efcuridao fem alguma luz , fomente 
hum terror , e efpanto aos olhos , tormento 
aos ouvidos 5 e huma confusão de animo, 
que nao fabiam os homens onde eftavam , 
e fe era fonho o que viam , ou verdade. 

Neíle tempo andava Nuno da Cunha em- 
hum catúr , por fer manha fria , veftido de 
huma roupeta deefcarlata, e chapeo de fe- 
da de felpa , e em cima o cubria hum fom- 
breiro da China grande também de feda de 
cor , tudo porque foiTe vifto , e conhecido , 
e déíTe animo aos homens. Nefte catúr tra- 
zia fomente o Secretario Simão Ferreira , e 
perpaíTando peia taforea , em que eílava 

An- 



45'4 ÁSIA DE João de Barros 

António de Saldanha, vio nella a Triílao 
de Gá , ao qual por fer feu amigo , e com 
que folgava , lhe diíle : Ah galante , entrai 
aqui comnofco , não haveis vós de levar ef- 
fa vida, E porque depois de ler dentro no 
catiír choviam pelouros de artilhcria , e hum 
delles paíTou per junto de Triílao de Gá , 
com cujo vento fe aíTombrou , diíTe a Nu- 
no da Cunha : Ah fenhor , a ijlo me trouxe 
VoJJa Senhoria aqui ? e eJle relpondeo mui- 
to inteiro , e leguro cilas palavras da Igreja : 
Humiliate capita vejira, E porque elie cor- 
ria tudo , ora a huma parte , ora a outra , 
chegando a Jorge de Lima , achou que lhe 
eram mortos quatro homens , e tinha o ba- 
tel arrombado ; e como fe não podia ter 
fobre a agua , o rebocou , e levou a feu 
galeão ao concertar. Neíle tempo , eílando 
D. Vafco de Lima no feu batel cm pé, lhe 
levou hum pelouro a cabeça do corpo. Os 
que eílavam na bateria do baluarte da terra 
a eíle fronteiro com fua artilhcria lhe não 
faziam damno ; porque como maciço não 
obrava mais o pelouro que amaííar hum pou- 
co o lugar onde dava , e maior damno fa- 
zia com o repuxo a quem tirava , que ao ba- 
luarte. A Francifco de Sá rebentou-lhe o 
feu balilifco, e o que tinha António de Sá 
fez huma fenda na boca com que não po- 
dia tirar mais. A ferpc que eílava na galé 

de 



Década IV. Liv. IV. Cap. XV. 4^^ 

de Nuno Fernandes Freire também arreben- 
tou. Os que eítavam da banda do baluarte 
de Diogo Lopes de Sequeira , que batiam 
com trcs baíiliícos , e outras peças , por o 
muro fer dobrado, e abateria fer do mar, 
e o repuxo da fúria dos tiros não fer em 
coufa fixa , e immobil , faziam muito pouco 
damno , fomente hum balilifco que tirava a 
montão dentro na Cidade, (fegundo fe de- 
pois foube , ) fez muito mal na gente. Os 
Mouros que eílavam no baluarte do meio 
do rio , como viram os batéis retirados , 
converteram os tiros ás galés , e aos outros 
navios que lhe cahiam em pontaria , com 
que faziam muito mal aos noíTos , matan- 
do alguns , fem delles poderem receber al- 
gum damno, E niílo gaftáram todo o dia 
té a noite , fendo toda a perda noíla , aííi 
da gente 5 como das peças de artiiheria , que 
arrebentaram ; porque além das nomeadas , 
também arrebentou hum bafilifco a Fran- 
cifco de Vafconcellos , e a Jordão de Frei- 
tas outro 5 e a Martim AíFonfo de Mello 
hum leão. 

O Governador como fempre andava vi- 
fitando eftas eftancias donde fe dava abate- 
ria , fabia particularmente o que acontecia 
a cada navio. E porque o tempo não dava 
mais lugar , mandou afaftar os combaten- 
tes 5 e para fe determinar o que fariam ao 

fe- 



45'6 ÁSIA DE João de Barros 

feguinte dia , aquclla noite teve confelho 
com todos os Capitães \ e altercado o caio , 
virto que o maior damno daquelle dia fora 
dos noflbs , e nao dos inimigos , e que das 
peças da noíTa artilheria as mais importan- 
tes eram quebradas ; e que quanto a com- 
metter a Cidade pela Villa dos Rumes , co- 
mo ElRey mandava , per má informação 
que lhe dei-am , era impoílivel , aííentou que 
nenhuma outra coufa podia fazer damno 
áquella Cidade , e ao Reyno de Cambaya , 
fenão trazer boa Armada no mar , e não 
lhe deixar entrar , nem íldiir coufa alguma ; 
porque era regra certa , que quem era fe- 
nhor do mar , também o era da terra j e 
aíli fe refolveo , que o Governador fe tornaf- 
fe para Goa , e que António de Saldanha 
fícaífc com boa Armada para fazer todo o 
mal 5 e damno que pudeíTe na enfeada de 
Cambaya. Polo que logo aquella noite man- 
dou Nuno da Cunha que todos fe fizeíTem 
á vela , afaflando-fe o mais largo que pu- 
deíTem da Cidade. Eíle fucceíTo teve efta 
jornada , que fora profpero , fe o Governa- 
dor íè não detivera na tomada da Ilha de 
Beth , e navegara direito a Dio ; ou fe 
depois de tomada partira logo , e chegara 
áquclla Cidade antes de entrar nella Mufta- 
fá , que perfuadio a Melique Tocam que 
le defendeíle. O que mais efpantou aos Mou- 
ros 



Década IV. Liv. IV. Cap. XV. 4,^1 

TOS ncfte combate , foi aconíiaiicia com que 
os noííos em todo hum dia , recebendo , e 
iiao fazendo damno , duraram té que a luz 
do dia lhes faltou , e os delpedio com mor- 
te fomente de trinta peífoas , que pareceo 
coufa milagrofa , legando a multidão dos 
pelouros chovia fobre elles. Também hou- 
veram por muito tornar tao grande Arma- 
da tão inteira como veio fem algum defaf- 
tre. 

O Governador defpedido de António de 
Saldanha , foi-le para Chaul , onde fe de- 
teve alguns dias ordenando hum baluarte , 
muros , e cava , e outras coufas para defen- 
são da fortaleza. Providas eílas coufas , par- 
tio-fe para Goa , e feguindo feu caminho , 
veio ter com elle Baftião de Faria , que vi- 
nha de Calecut com nova que o Çamorij 
lhe queria dar lugar para fazer huma forta- 
leza. Chegado a Goa a 15* de Março efte- 
ve na Cidade té que chegaram duas náos 
que foram deite Reyno ^ para irem á Chi- 
na. 

a Frota da índia do anno de I5P* 

Ejias náos eram de huma Armada de féis náos ^ (jne 
partiram do Reyno em Março de 1 5 j i > Íi'Mta delias arri- 
hou a Lisboa , em que hia P^ro Vax. do Amaral Correge- 
dor da Corte , com Officio de Veedor da Fa:^enda , e capi' 
tania de Cocliij. Das cinco eram Capitães Aquiles Godi~ 
nho y Diogo Botelho Pereira , Maniícl Botelho , João Gue- 
des , e Manuel de Macedo , que levou prezo a Portugal 
Kiiex. Xarafo, e vinha provido da fortale:(a de Chaul. A 
núo da Manusl Boteliio por erro do feu Piloto foi parar 



45'8 ÁSIA DE João de Barros 

na. De huma vinha por Capitão Manuel 
Botelho 5 c da outra Manuel de Brito, as 
quaes não foram á China , mas o Gover- 
nador as tornou mandar com carga para o 
Reyno , como adiante fe dirá. 

CAPITULO XVL 

Como Mujlãfd foi recebido de Soltam Ba- 

dur com muitas honras , e mercês : e dos 

nomes de honra , e titulos com que 

fe nomeam os Principes , e nobres 

do Oriente. 

LOgo que partio o Governador de Dio , 
le partio Muílafá com todos os da fua 
companhia para onde eftava Badur , de quem 

foi 

às Ilhas de Nicohar , donde voUoii a Cochij. A de Ma- 
jiucl de jMacedõ errando também o feti Piloto a navef^a- 
ção y mctteo-fe do cabo de Comorij para dentro y fem ja- 
her onde ejiava , e foi varar a náo na rejiinçra da Ilha 
dos Jogues y defronte do !:i:!;ar de Cakcare povoado de Moii' 
ros Naiteas. Manuel de Mac-cdo defembarcou na reflin^a , 
e em huma p,>nta de área fe fortificou com a artilheria da 
não ; e como mui esforçado Capitão fe defendeo dox.e dias 
dos Mouros , que em muitos navios que ajuntaram , os 
combateram com muitas peças de nrtillieria de dia y e de 
noite , té que cher^ou o foccorro de Cochij , [aonde Manuei 
de Macedo com o efquife avifou ao Capitão do feu naufrá- 
gio y ) com que os Mouros fe retiraram; e embarcada tO' 
da a (^ente , artilheria , munições , e fazenda nos navios 
que vieram de Ccchij , puderam fogo ao cafco da náo y e 
chegaram a falvamento d que l/a Cidade. Trcs deflas nãos vi' 
iihani ordenadas do Reyno para fazerem viaçrem d China t 
e por aquella Província ejlar levantada , o Governador as 



DecadaIV. Liv. IV. Cap. XVI. 4^^ 

foi recebido com muita honra , e gazalha- 
do , aíli por a fama que delie tinha , como 
por o grande prelènte que lhe fez de mui- 
tos cavallos Arábios , e armas de toda for- 
te , e peças ricas de feda , e ouro ; e o que 
era mais principal , muita artilheria , em que 
entravam bafilifcos , e outras peças de ba- 
ter 5 que foram caufi de fe defender Dio 
dos Portuguezes , o que ElRey muito ef- 
timiou ; e por moílrar a vontade com que 
o recebia , e galardoar a Muftafá o prefente 
de fua peífoa , e do mais , lhe fez mjcrcê 
da capitania de Baroche, que he na enfea- 
da de Cambaya , e de grande rendimento , 
eaíli de outras terras, e juntamente o nome 
de Rume , e o honrofo appellido de Chan. 
O Rume lhe chamou por fer natural 
Grego; porque os Mouros da índia como 
náo fabiam fazer divisão deftas Provincias 
de Europa , a toda Trácia , Grécia , Efcla- 
vonia , e Ilhas circumvizinhas do mar Me- 
diterrâneo chamam Rum , e aos homens 
delias Rumij , fendo eíle nome próprio dos 
naturaes daquella parte de Trácia em que 
eílá Conftantinopla ^ que do nom.e que ella 
teve de nova Roma , tomou a Trácia o de 

Ro- 

tornou a mandar a Portugal em Janeiro de 1 5 J 2 , aond^ 
7jão chegaram as duas de Manuel Botelho , e de Diogo 
Botelho , nem epparec^ram mais. Fiancifco de Andrade 
cap. 75. da 2. Parte , e Diogo do Couto cap» 11. do 
Irj. 7. 



460 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

Roniania. E aíli são differentes nações Ru- 
lucs , e Turcos ; porque eftes tem a fua ori- 
gem da Província Turcheftan , e os Rumes 
da Grécia , e Trácia , e como taes íe tem 
por mais honrados que os Turcos , fazen- 
do-lhes vanrajem nos coílumes , e valor , e 
tendo por afronta chamarem-lhes Turcos. E 
pofto qu(? nas mefmas Províncias de Gre- 
eía , Trácia , Efclavonia ha Chriftãos , não 
são dos Mouros aborrecidos , como os das 
outras partes de Europa , a que elles cha- 
mam Frangues. A origem deíle vocábulo , 
e deíle ódio lie do tempo em que Gotfredo 
de Bulhon conquiílou a Terra Santa. Por- 
que como elle , e os mais dos Principes , 
que foram as cabeças daquella expedição , 
eram Francczes , que foram grande terror 
dos Árabes , Perfas , c Egypcios , de que fi- 
zeram grande eftrago , e lhe tomaram íuas 
terras , chamaram íempre Frangues , por di- 
zerem Francezes a todos os Chriftãos de 
França , Hefpanha , Alemanha , e das ou- 
tras Províncias do Norte. E como os ho- 
mens deftas nacoes raramente fe tornam Mou- 
ros , e obedecem á Igreja Romana , tem el- 
les a todos por verdadeiros Chriftãos ; e por 
o ódio que lhes tem , e aborrecimento ao 
nome de Frangue , por vitupério chamam aos 
Chriftãos deftas partes Frangues , como nós 
a elles impropriamente chamamos Mouros. 

O 



Década IV. Liv.IV. Cap. XVI. 461 

O Chan que accreícentou ElRey Badur 
ao Rumi , he denotação de dignidade to- 
mada dos Tártaros , c que entre os Guza- 
rates , e outros Povos do Oriente fe coí^ 
tuma dar por cílndo , ou iTierecimentos de 
peflba , que denota entre elles huma digni- 
dade como em Heípanha a de Duque. E 
porque cm diverfas nações daquellas Orien- 
taes ha muitas diíFerenças deftas adjecçoes , 
e additamentos , que íe ftzem aos nomes 
próprios 5 íegundo he a dignidade da peí^ 
íba 5 aííi para entendimento do que nós eP- 
crevemos neíles Livros , como para os que 
traduzem de huma iingua em outra fabe- 
rcm fazer a diílinçao do nome , cognome , 
e agnome , como os Latinos , fera neceíTario 
darmos diíTo a noticia que alcançámos ^ por 
fer coufa que muitos nao fabem. 

Os Perlas , como gente mais politica que 
todos os Orientaes , (excepto fempre os da 
Cliina , ) deram entre os Mouros a elles vi- 
zinhos diverfas denotações de honra , e tu- 
do exemplificarem.os conforme aos attribu- 
tos dos ditados , e dignidades de Hefpanha , 
donde as outras nações o podem appiicar a 
feus ufos. Eíle nome Xiah , que em Iingua 
Arábiga íignifíca Governador , ou Capitão , 
junto a qualquer nom.e próprio , dam os 
Perfas a feus Reys , e acerca delles denota 
Emperador, donde vem chamarem-lhe XiaK 

If- 



462 ÁSIA DE João de Bari^os 

Ifmacl , Xiah Tainas. Bec refponde á di- 
gnidade de Conde. Emir , que quer dizer 
Capitão , he titulo que fe dá ao Fidalgo. 
Xech em Arábigo , e Cogia em Turquef- 
co , íignificam homem velho de authorida- 
dc. Raez denota cm Arábigo Principe , e 
Capitão que mandava navio , pelo que ufam 
ócÚq os Governadores dos Reynos. Os Tur- 
cos chamam a íeu Rey Paderan ; e Vizir , 
que quer dizer Confelheiro , he dignidade 
jgual á do Duque , e Baxiá á do Conde. 
Sangiac he o m.efmo que Capitão de ban- 
deira ; ChiaufeCavalleiro da cafa d'ElRey ; 
Jíinglichiari efcravos d'ElRey , a que nós 
chamamos Janiçaros. Os Arábios no tempo 
de fua potencia chamavam Soltao ao Rey 
do Cairo , o qual nome os Turcos toma- 
ram delles. 

Dcílas nações dos Mouros tomaram ou- 
tras feus appellidos de honra , como os do 
Reyno de Cambaya o nome de Soltão , 
que deram ao feu Rey. Os Capitães do Rey- 
no do Decan accrefcentam a léus nomes pró- 
prios outros de honra , de que fe mais pre- 
zam , chamando- fe Iniza Malmulco , que 
quer dizer , lança da terra , Cota Malmul- 
co , fortaleza da terra , Adilchan , da juíliça 
fenhor ; e nós corrompendo eftes nomes , lhe 
chamamos Nizamaluco , Cota Maluco , e 
Hidalchan. Os Mouros Malaios tem hum 

ter- 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XVI. E XVII. 463 

termo que he Raja , que quer dizer d'El- 
Rey , o qual accreíccntani a feus próprios 
nomes , com que íicam íigniflcando caval- 
leiros d'ElRey , braço d'ElRey. Entre os 
de Maluco ha hum prenome de honra que 
he Cachil , como entre nós Dom , e dizem 
Cachil Daroez , Cachil Vaidua. Finalmente 
nao ha lugar na terra , cm que nao haja ef- 
ta ambição de nomes honrofos , no fim , ou 
no princípio do feu próprio : e o mais com- 
mum naquelle Reyno de Cambaya he o de 
Chan , que Soltao Badur deo a Muílafá , 
chamando-lhe Rumechan ; e como a homem 
a que melhor cabia o governo de quantos 
Rumes 5 e Chriftáos havia em feu Reyno, 
lhe deo a capitania delles. 

CAPITULO XVII. 

Do que fez António de Saldanha com a 
Armada (jue lhe ficou : e como o Gover- 
nador houve á mão hum irmão ã^El- 
Rey de Cambaya : e do fuccejjo da 
Armada de D, António da Sil- 
veira , e da fua morte, 

ANtonio de Saldanha ficou com feflen- 
ta velas , as mais delias de remo , e 
com mil e quinhentos homens , a quem o 
Governador mandou que primeiro que en- 
iraíTe na enfeada de Cambaya, eílivelTe no 

por- 



464 x\SIA DE João de Baruos 

porto de Dio alguns dias , como eíleve oi- 
to , fem as oitenta fuftas de Melique , que 
dentro da cadeia tinha ^ oufarem íahir. Par- 
tido daili , entrou na Cidade Madrefabat, 
que diíta cinco léguas de Dio contra a Ilha 
de Beth , com tenção de fazer alli aguada , 
porque tem hum eíleiro , em que bem po- 
dia entrar toda a Armada , e foi a tempo 
que eftava toda dcípejada de gente , temen- 
do que os Portuguezes foíTem a ella. Eíla 
Cidade era toda cercada de muro , e da par- 
te da terra firme tinha ferventia de duas por- 
tas 5 onde António de Saldanha , em quan- 
to os noíTos andavam rccolliendo hum pou- 
co de defpojo que acharam aíTás pobre , 
mandou pôr a huma das portas Fernão Ro- 
drigues Barba com trinta homens , e na ou- 
tra Jorge de Soulh com vinte e cinco. Per 
ambas commetteo entrar muita gente de ca- 
vallo dos Mouros j e pofto que entraram , 
cuftou a vida a dezefete que alli ficaram mor- 
tos , fendo alguns dos ncíTos feridos. E ven- 
do que entrar dentro era fua perdição , qui- 
zeram tornar a fahir per onde entraram , e 
por acharem as portas defendidas , como 
gente já defefperada , vieram demandar as 
portas da ribeira , por fer Jugar mais cfpa- 
çofo perque podiam fugir. E neíle caminho , 
que fizeram pelo terreiro , ficaram alli al- 
guns derribados as lançadas. Queimada eíla 

Ci% 



Década IV. Liv.IV. Cap.XVIL 46^ 

Cidade , c Talajá , entrou António de Sal- 
danha para dentro da enfeada , ao longo 
da cofta daqueila parte de Canibaya , e foi 
a liuma Cidade grande , e antiga , chamada 
Gogá "* 5 de muito trato , que diílára de Ma- 
drefabat vinte e quatro léguas pouco mais , 
ou menos. Neíle porto achou dezoito pa- 
rdos de Maia vares carregados de efpecia- 
ria , que eram os melhores de todo o Rey- 
no de Calecut , por ferem de três merca- 
dores ricos , Patê Marcar , Cutiale , e de 
fcu filho. Eíles , tanto que houveram viíta da 
Armada de António de Saldanha , fe met- 
téram per hum efteiro dentro quafi meia lé- 
gua , cuidando que os noíTos navios por 
demandarem mais fundo , nao poderiam fu- 
bir onde elles eítavam. Mas António de 
TomAF. P,L Gg Sal- 

a Ejia Cidade era hiima das maiores y e mais opu/eti' 
tas em trato , rii/ueta , e poder de todas as da enfeada de 
Cambaya. Jaz ijuafi no Cabo delia da banda do Ponente , 
ejiendida em hum largo campo ; e de algumas minas de. 
edifícios y cjiie ainda hoje fe vem , mojira tjue foi antiga* 
mente coiifa mui grande , vendo-fe em muitas partes peda^ 
^os de grojjos muros de conteria , de pedras bem lavradas 
de quatro palmos de comprido , tres de largo , e outros tan-' 
tos de alto , liadas fem betume , nem cal , e ajentadas com 
tanta igualdade , que parece parede de liuma Jó pedra. K 
fe os Romanos chegaram com fuás concjuijlas áqUellas par^ 
ies y pudera-fe prefumlr que era fábrica fua pela femelhan* 
ija que tem com as que elles deixaram feitas : e deve fer 
dos Chijs , cujos edifícios de femelhante fábrica fe vem em 
clguns daquelles Reynos y de que elles foram fenhores y co- 
mo nos Pagodes da Ilha de Salfete , c outros. Diogo do 
Couto Jiv, 7. cap. 5, 



46Ó ASÍA DE João de Barros 

Saldanha com as velas mais fubtís , e leves 
os foi demandar com oitocentos hom.cns , 
porque fe puzeram elles em defensão com 
muita artilheria ; e em os quererem os noí- 
Ibs commetter , tiveram aíTás trabalho , por- 
que lhes conveio fahir em terra , onde os 
vieram receber mais de trezentos homens 
de cavallo , e oitocentos de pé , em que en- 
travam muitos elpingardeiros dos Malava- 
res 5 que como gente que defendia o feu , 
deram bem que fazer aos noíTos ; mas á 
cuíla de mais de duzentos delles que alli fi- 
caram mortos 5 deíamparáram os catúres , e 
cftancias , que logo foram queimadas , e aíli 
entraram na Cidade , a que também foi poi- 
to fogo 5 e a fcte , ou oito náos que eftavam 
em baixo no porto , ficando tudo aíTolado , 
e feito em cinza. Dos noflbs foram muitos 
feridos , e alguns mortos , de que foi hum 
Paulo de Sá do Porto. Delles pardos Ma- 
lavares fe houve muita artilheria , da qual 
alguma era de bronzo. 

Acabado eíle feito , paíTou-fe António 
de Saldanha á outra cofta de fronte'*, e foi 
demandar a Cidade de Surat , por ter nova 
que dentro do feu rio eftavam alguns na- 
vios , principalmente paráos Malavares car- 
regados de pimenta, e gengivrej mas não 

achou 

a Onde dejlruio os lufares de Belfa , Tarapr , Maij , 
Queime, Agacim U o rio de Bandorâ* 



DecadaIV.Liv.IV. Cap.XVII. 467 

achou mais que íete que queimou. E podo 
que o anno paíTado fora aquella Cidade def- 
truida per António da Silveira , porque fe 
começava outra vez a reedificar , antes de 
fazerem maiores raizes , nas embarcações 
pequenas foram queimar o que eílava em 
pé. Tornado António de Saldanha a fahir 
do rio , fe foi invernar a Goa , deixando 
táo aíTombrada aquella cofta, que mandan- 
do Nuno da Cunha alguns catúres a Dio 
tomar lingua , a tomaram pegados na ca- 
deia 5 e a esbombardeáram , fem algum na- 
vio da Cidade oufar de vir a elles. 

Ncíle tempo andavam dous irmãos d'EI- 
Rey de Cambaya fugidos delle , temendo 
que os mandaíTe matar , cpmo fizera a ou- 
tros ; os quacs vindo ter à cafa do Niza- 
maluco , elle os quizera mandar a ElRey 
feu irmão 5 por lhos mandar pedir. Pelo que 
vendo-fe elles tão perfeguidos , apartáram- 
fe , e hum delles foi morto por fe não dei- 
xar prender de quem o hia bufcar , cuja ca- 
beça foi levada a Soltão Badur feu irmão. 
Outro foi ter com o Hidalchan , que com 
temor de o irmão também lho mandar pe- 
dir , lhe deo dinheiro , e o defpedio de íi , 
dizendo-lhe , que fe foíTe fegurar a outra 
parte. E indo caminho deDabuI, para dal- 
li paíTar per mar para outra parte , feus pro« 
prios criados lhe deram peçonha, e o dei- 

Gg ii xá- 



468 ÁSIA DE João de Barros 

xáram per morto , roíibando-lhe o que le- 
vava. E eílando aJIi por Feitor hum Lopo 
Toleano , o fez faber a Nuno da Cunha , 
c elle lhe mandou feguro , e que lho en- 
viaffe logo j e por ir mui desbaratado , o 
fez mui bem curar , c dar-lhe todo o nc- 
ceíTario , e o tinha por grande jóia , por 
fer o legitimo herdeiro do Reyno deCam- 
baya , clperando com e\k fazer algum bom 
negocio. "" 

Em Chaul defpedio Nuno da Cunha a 
D. António da Silveira para o eílreito com 
féis velas , huma galcaça em que elle hia , 
e cinco galeões, de que eram Capitães Jor- 
ge de Lima , Martim de Caítro , António 
de Lemos , Henrique de Macedo , e João 
Rodrigues Paes. Chegando D. António da 

Sil- 

• a De fie irmão de Soltam Badur escrevem variamente 
Francilcò de Andrade , e Diogo do Couto. Vort^ue Fraii- 
cifco de Andrade dli^ no cap. 85. da 2. Parte y Que fn- 
finda elle de Badur em trajos de Jogue , viera a 'Pahuí ^ 
onde Joiío Criado que aíli ejiava por Feitor o recolhera ^ 
eem huma fujla ^ que para ijjo mandara -pedir a Chaul a 
J^anuel de Macedo , o levdra a Goa y e que o Governa^ 
dor o fora receier a Pangim em huma gafe , e o hojpedú' 
ra . e tratara como irmão d''ElRey de Cambava , o qual 
com os ciúmes defle irmão mandara ao \eu Regedor mór 
que tratalje com Trijião de Gá {que então c/iava na Cor» 
te ) aígum concerto entre elle Rey , e o Governador , com 
que a gtierra fe acahafje. Diogo do Couto ejcreve no cap. 
^. do liv. 8. Que quando Nuno da Cunha par tio para Ba-' 
íjaim , que a deliruio , entregara ao Ouvidor geral Simão 
Caeiro hum irmão de Soltam Badur , que António da Sil" 
veíra Capitão de Ormuz tomara naqucUa Cidade , que hia 



DecadaIV. Liv.IV. Cap.XVII. 469 

Silveira com toda fiia Armada a falvamen- 
to á paragem onde havia de eíperar as náos 
da preza , repartio os íeus navios para o 
que lhe era neceíTario , onde havia de an- 
dar té a fim de Maio ; e dahi foi ter a Ci- 
dade de Adem , onde foube que os homens 
que Eitor da Silveira alli deixou , e os ou- 
tros Portuguezes que depois com mercado- 
rias ahi foram ter , eram mortos por El- 
Rey de Adem. A caufa da fua morte foi 
a cubica que ElRey teve de huma náo car- 
regada de pimenta , que alli levaram certos 
Portuguezes que lhe cUq tomou. D. Antó- 
nio da Silveira , porque não. levava força 
para o caftigar , diffimulou o melhor que 
pode aquella culpa ; e porque certas náos 
eítrangeiras que hieítavam furtas houveram 
medo delle , fe acolheram , e ellc fe foi a 
Ormuz , onde falleceo em Agofto. E em 
feu lugar foi feito Capitão mor Jorge de 
Lima , o qual partindo de Ormuz na fahi- 
da do mefmo mez de Agofto , de caminho 
na cofta de Cambaya tomou duas náos de 
preza tão ricas , que valeram para ElRey , 
e partes cincoenta mil cruzados 5 e com ci- 
las chegou á índia. 

CA- 

fufrjndo de feu irmão que o çuiz^ra matar ; e ijne ãefte 
Príncipe não pudera faher o nome , nem quando , e onde 
morrera , mas que alcançou homens velhos em Goa , que 
o viram aqnelle inverno do anno de 1552 andar peia Cida- 
de behado em cima de hum elefante , o quefax>ia de ordinário* 



470 ÁSIA DE João de Bakros 

CAPITULO XVIII. 

Como Nuno da Cunha a requerimento d-El- 

Rey de Calecut fez a fortaleza de ChaU 

le : e o modo que teve com elle pri- 

meiro que a fizejfe. 

ELRey de Calecut aíTombrado da guer- 
ra que lhe Nuno da Cunha mandava 
fazer , e quanto damno Teu Reyno niíTo 
recebia , porque fomente o anno paiTado ha- 
via perdido com noíTas Armadas , que an- 
davam na cofta de Cambaya , vinte e fete 
velas carregadas de efpeciaria , que eftavam 
para ir ao Eftreito de Meca , efcreveo a 
Nuno da Cunha fobre concerto de pazes. 
E que por evitar a dilação de idas , e vin- 
das de meíTageiros , mandafle lá huma tal 
peíToa 3 que conforme a feus apontamentos 
pudeíTe logo dar feguro com que os mer- 
cadores livremente navega íTem fuás merca- 
dorias por fer o tempo da monção. Para 
efte negocio mandou Nuno da Cunha a Dio- 
go Pereira , por fer homem que tinha mui 
antiga experiência das coufas do Malavar , 
e de grande authoridade ante os Reys , e 
Príncipes delle , por a prática que em ne- 
gócios paíTados com elle tiveram ; o qual 
além de fer hum varão prudente , e de mui- 
ta capacidade para femelhantes coufas ^ ti- 
nha 



DecadaIV.Liv.TV.Cap.XVIII. 471 

nha a outros vantagem , que era faber a 
lingiia da própria terra de maneira , que 
nao tinha neceílidade de interprete , parte 
inui importante a Embaixadores , e pelToas 
que hao de negociar com gente eftranha; 
porque além de todo o fegredo dos dous 
que contratam , e faliam ficar no interpre- 
te , como a lingua he hum vinculo que 
muito obriga para ambos fe convirem bem , 
fe a fabem , eftam feguros de haver menti- 
ra na falia , e de não fe trocar huma cou- 
fa per outra , como muitas vezes acontece 
por malicia , ou ignorância do interprete ; 
e quando he fem eíles, cftá o negocio fe- 
guro de tal perigo , e acaba-fe mais cedo , 
e melhor , como entre naturaes pela com- 
municaçâo da lingua , que foe caufar bene- 
volência. E porque a tenção , e fundamen- 
to de Nuno da Cunha era ter huma forta- 
leza em hum porto de Calecut , todo o re- 
gimento que Diogo Pereira levou vinha aca- 
bar nefta conclusão , apontando-lhe a parte 
onde a queria , que era no porto de Chal- 
le , mas que nao fentiíTe ElRey que elle a 
defejava alli , e que para mais diíTimulação 
fempre lhe apontaíTe o próprio lugar onde 
eílivera a outra noíTa fortaleza , que Dom 
Henrique de Menezes mandara desfazer, 
por elle Governador ter fabido que em ne- 
nhuma maneira ElRey havia de confentir 

aue 



47^ ÁSIA DE João de. Barros 

que alli foíTe , o qual requerimento aíll fuc- 
cedeo , e ElRey Jhe deo logo dilTo huma 
Provisão. Diogo Pereira como teve cfte re- 
cado d'ElRey , fecretamente o mandou lo- 
go a Nuno da Cunha , porque conhecia 
bem a natureza , e inconftancia deftes Prín- 
cipes Malavares , e já ElRey havia de fof- 
frer , ou per bem , ou per mal que o Gover- 
nador fízeíTe a fortaleza. Nuno da Cunha , 
em quanto mandava fazer cal , e outras pro- 
visões para a obra , entreteve na Corte d'EI- 
Rey de Calecut a Diogo Pereira quafi todo 
o inverno , fazendo outros negócios de pou- 
ca importância , para neíte tempo praticar 
com dous , ou três Príncipes de Challe , e ha- 
ver feu confentimento , principalmente com o 
que era fenhor da terra , onde Nuno da Cu- 
nha pertendia fundar a fortaleza , por fer o 
mais conveniente lugar ; e para fe melhor 
entender o que diíTermos , he neceíTario de- 
clarar o íitio da terra , e a vizinhança que 
tem. 

Efta terra chamada Challe he huma Ilhe- 
ta pequena , que faz hum rio dos notáveis 
daquelle Malavar, que eftá abaixo de Ca- 
lecut três léguas contra o Sul. He efte rio 
navegável com catúres té o pé da ferra de 
Gate onde nafce , porque também entram 
nelle outros rios , que o fazem grande : huns 
vçm da parte de Calecut , e outros da par- 
te 



DecadaIV.Liv.IV.Cap.XVIJI. 473 

te de Tanor de maneira , que muita parte 
das terras a Challe vizinhas vam repartidas , 
e retalhadas em leziras com efteiros , perque 
fe os moradores fervem. Porém quando to- 
dos eíles rios , e eíleiros fe querem mctter 
no mar , he per três partes , huma de cima 
da banda do Norte , a que chamam Chal- 
le; outra queíahe abaixo meia légua, cha- 
mada Caramaniij ; e logo mais abaixo lé- 
gua e meia entra outro braço , a que cha- 
mam Parengalle , vizinho a ElRey de l'a- 
nor. Da terra de Challe era Senhor hum 
Gentio chamado Unirama , que fe intitula- 
va Rey 5 e vizinhava com elle da parte de- 
baixo contra o Sul ElRey de Tanor, am- 
bos fubditos d'ElRey de Calecut. Ambos 
defejavam muito a amizade dos Portugue- 
zes por fe livrarem do Çamorij. Com el- 
les tinha Diogo Pereira praticado cfte nego- 
cio 5 e elles mefmos o provocavam a fe fa- 
zer efta obra , efperando que noíTa fortale- 
za os havia de fazer ricos , e poderofos , 
como tínhamos feito a ElRey de Cochij. 
Havido confelho fobre o lítio da fortaleza 
com as principaes peíToas com que Nuno 
da Cunha o praticou , foi aíTentado que fe 
fizeíTe em Challe , porque feria hum freo 
para todo o tempo enfrear a foberba do 
Çamorij , e os Mouros de Meca nao po- 
derem navegar a pimenta ^ que tiravam de 

Ca- 



474 ÁSIA DE JoAO DE Barkos 

Calecut 5 e feus portos , fenâo com rifco 
de fe perderem , e outros muitos proveitos 
que da Feitoria da fortaleza dependiam , 
fendo os Portuguezes fenhores daquelle rio , 
em que os feus navios podiam invernar. 

Provido o neceífario para efta obra , o 
Governador partio de Goa ** a 20 de Ou- 
tubro daquelle anno de i$r3i* , e quando 
chegou 5 eítava já o Çamorij arrependido de 
permittir fazer-fe a fortaleza per confelho 

dos 

a Antes (jue Nuno da Cunha partijje de Goa para Chal- 
le , mandou António de Saldanha que fojje a Cochij reco- 
lher a Armada , e gente que alli ejiava prejles , ordenan- 
ào-lhe pte com ella o ejfierafje por todo Novembro fohe o 
•porto de Calecut. Chegou António de Saldanha ao rio de 
Panane , e fouhe (jue dentro ejíavam duas nãos do Çamo- 
rij d carga; e porque não fahijem ^ deixou Cobre aquella 
harra D. Roque Tel/o Capitão do galeão Lambeamorim 
com féis fujlas , e eíte paffou a Cochij. O Çamorij mandou 
armar quarenta navios , para que o fojjem render ; e de- 
pois que os Mouros o combateram com muita artilheria , 
e arcabuzaria , determinaram de o invejlir , e commettS- 
ram a entrada , que lhe foi defendida dos noffos com tan- 
to valor , que fe retiraram os inimigos com mais de doije 
navios menos , e os outros dejlroqados , e muita gente mor- 
ta , e ferida , e aji fe tornaram a recolher no rio , le- 
vando para dentro as duas nãos , que hiam já fahindo pa- 
ra fora. D. Roque Tello , po/lo que lhe feriram alguns 
homens , não recebe o outro damno , e tomou a for g ir no 
•niefmo pojlo , onde efperou per António de Saldanha , que 
vindo de Cochij com a Armada , fe foi com elle a Cale- 
cut efpfrar o Governador como lhe ordenara. Diogo do 
Couto cap. II. do liv. 7. 

^ Levava o Governador huma grande Armada de cen- 
to e cincoenta vilas ^ nas quaes hiam embarcados três mit 
Forttfguezes , e mil Lafcarijs da terra. 



DecadaIV.Liv.IV.Cap.XVJII. 47J 

dos Mouros mercadores , aos quaes ella era 
hum pczado jugo Ibbre o pefcoço. Toda- 
via entre a promefla , e o arrependimento , 
Nuno da Cunha fundou a fortaleza , na 
qual gaftou muita pedra de huma mefquita 
de Mouros antiga , que eílava junto delia , 
e de algumas cafas velhas, que foi grande 
ajuda 5 e aíli á prcíTa com trabalho das mãos 
de quantos Fidalgos fe ahi acharam , em 
efpaço de vinte e féis dias foi pofta em de- 
fensão 5 com muro de doze palmos , com 
feus baluartes , e torre de homenagem , e 
cafas para o Capitão , e foldados , armazéns , 
e Igreja : e he huma das bem acabadas for- 
talezas daquellas partes , mui proveitofa , de 
bom porto , e tão pegada na arêa do mar , 
que não fe pode minar , porque a meia bra- 
ça acham logo agua doce que fe pode be- 
ber. Para efta obra deram o Rey , e Prin- 
cipe de Caramanlij , e ElRey de Challe to- 
do o favor , e ajuda que delles fe houve 
miíler. E porque antes de Nuno da Cunha 
fazer aquella fortaleza os direitos das mer- 
cadorias que entravam per aquelles rios fe 
partiam igualmente entre eftes dous Prínci- 
pes , concedeo-lhos Nuno da Cunha , o qual 
requerimento negou ao Çamorij. Efta era 
huma das principaes coufas que clle reque- 
ria , e apontava no contrato das pazes , que 
os direitos da entrada , e fahida daquelles 

por- 



47^ ÁSIA DE JoAo DE Barros 

portos foflem feus. Ao que Nuno da Cu- 
nha refpondco , que tendo EÍRey de Por- 
tugal íeu Senhor fortaleza em Cochij , os 
tacs direitos eram do Rey da terra , como 
Senhor que era delia ; e que a ElRey de 
Calecut 5 que nao era Senhor daquella , não 
fe deviam pagar , pois nunca os levara an- 
tes da fortaleza ; e que a juftiça era darem- 
íc ao Senhorio da terra. Diílo ficou o Ca- 
morij anojado , e muito mais quando hum 
Senhor da Serra , chamado Baluari Lambea- 
dorim , que tem vinte mil naires , per con- 
templação d'ElRey de Tanor íê confede- 
rou com cftoutros dous da fortaleza , e ódio 
delle Çamorij , para nao confentirem que 
elle vieíTe per fuás terras , e muito menos 
o Príncipe de Calecut , que por fer muito 
amigo dos Mouros , e por os comprazer , 
infíftia muito que fe nao fízeíTe a fortaleza. 
A qual como foi acabada , deixou o Go- 
vernador nelía duzentos e cincoenta homens , 
e por Capitão , e Feitor a Diogo Pereira , 
por dle o merecer por lua peíToa , e por o 
trabalho que levou em quanto andou no 
negocio delia , e a Francifco da Yora fez 
Alcaide mor. E para mais fegurança , dei- 
xou a Manuel de Soufa que andaíTe naquel- 
la cofta té a entrada do inverno com huma 
galé , huma galeota , dez barganrijs , e dez 
çatúres , aíH para guarda da fortaleza , co- 
mo 



Década IV. L i v. IV. C a p. XVIII. 477 

mo para favor daquelles noíTos amigos no- 
vos , com que EIRey de Calecut por noí- 
iã caufa eílava de quebra. Manuel de Sou- 
la andou naquella coita pouco tempo, por- 
que lhe deo hum temporal tão forte , que 
todas as velas que trazia ie recolheram per 
clles portos que puderam tomar j e não po- 
dendo elle fahir de huma enfeada com a 
galé , foffreo o tempo fobre a amarra té 
que abrio por fer velha , mas a gente fe 
falvou com a artilheria toda , fomente hum 
baíilifco que aboiáram , e depois o vieram 
tirar , e com o tempo fe recolheo a Goa , 
onde o Governador eftava. ** 

EIRey de Calecut como Nuno da Cu- 
nha fe partio , começou fazer guerra áquel- 
Ics Príncipes noííos alliados , aos quaes cuí- 
tou miuito trabalho ília defensão , principal- 
mente a EIRey de Challe , no que elle mof- 
trou tanta lealdade , e fé , como EIRey de 
Cochij quando por noíTa caufa foífreo os 
trabalhos que já efcrevemos ^. E quando 
per guerra o não pode vencer , movia-lhe 
partidos de grande tentação ; e pela mefma 
maneira tentou a ElRcy de Caramaniij , e 
j EIRey de Tanor , mas todos fe moftrá- 

ram 

n Nejla jornada de Challe diz Diogo ôo Couto no cap. 
12. do liv. 7. (jiie Nuno da Cunha fez pazes com o Ça- 
vwrij á injlancia d''E!Rey de Tanor , a (jiiem o ÇamoriJ 
^cnion por medianeiro , para que o Governador lhas concedejje* 

y Nq Uv. 7. da i. Década. 



478 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

ram nofíbs amigos. Com eftes deíprezos fe 
houve o Çamorij portão injuriado da pou- 
ca conta em que eíles Principes o tinham 
por o favor que lhes dávamos , que efteve 
para morrer. No tem.po de fua doença , o 
Príncipe herdeiro fez da neceíTidade virtude , 
e efcreveo a Diogo Pereira cartas de gran- 
de amizade , promettendo nellas , que fe feu 
tio falleceífe , elle havia de aíTentar pazes 
com o Governador ; e que quando fe foíTe 
a coroar, como verdadeiro amigo havia de 
ir pela porta de Cochij , e não per caminhos 
furtados , como feu tio fizera. 

CAPITULO XIX. 

Do que Manuel de VafconcelJos , e Anto^ 
mo de Saldanha fizeram em Xael , e co- 
mo chegaram a Majcate, 

O Governador Nuno da Cunha , porque 
tinha determinado de mandar António 
de Saldanha ao Eílreito do mar Roxo , tanto 
que a fortaleza de Challe efteve em boa altu- 
ra , o defpedio que fe foíTe a Goa dar ordem 
á fua partida , por fer já tarde. E para me- 
lhor aviamento , quiz António de Saldanha 
por caufa da monção que fe paíTava , que 
folie diante delle Manuel de Vafconcellos , 
e o efperaíTe em Xael, dando primeiro hu- 
111a vifta á Ilha de Çocotorá , qvie era o or- 

de- 



Década IV. Liv. IV. Cap. XIX. 479 

denado curfo das noíTas Armadas para aquel- 
las partes. Manuel de VafconcelJos partio 
a 28 de Fevereiro de 1532 com diuis ga- 
leotas , elle em huma , e Henrique Mendes 
de Vafconcellos em outra , e oito bargan- 
tijs 5 e de alguns eram Capitães Fernão Lou- 
renço de Lima , Chriílováo Rangel , Tho- 
mé Baião , Diogo Vaz , e Trilião de Hor- 
ta , e em eípaço de nove dias foi na Ilha 
de Çocotorá , onde fez aguada. Dahi foi 
caminho de Xael , com.o lhe António de 
Saldanha mandara , e também por ter no- 
va que no porto eílavam muitas náos. Na 
traveíTa deíle caminho achou huma náo de 
Dabul , a qual como hia bem artilhada , e 
levava muita gente , começou de fe pôr em 
ordem de querer pelejar , o que ella não 
fez , como fe vio rodeada dos noíTos ; e 
pondo huma bandeira na quadra , final de 
paz , diííe fer de Dabul , e moftrou o car- 
taz que trazia , que lhe foi guardado , pof- 
to que era antigo , e paííado o tempo del- 
le. O reípeito que Manuel de Vafconcellos 
teve em alargar eíla náo , foi termos em 
Dabul hum Feitor , que podia receber dam- 
no , fe eíla náo o recebeffe ; fómente lhe fer- 
vio de lhe dar novas , que em Xael ficavam 
muitas náos , e entre ellas huma muito rica , 
e nomeada Cufturca , que havia muito tem- 
po que navegava , e nunca fora tomada dos 

noi- 



480 ÁSIA DE João de Barros 

noflbs. E aíFi lhos cuílou muito trabalho de 
a haver quando chegaram a Xael ; porque 
tanto que ella vio a nofla Armada , temen- 
do o que veio a fer , alargou as amarras, 
e deixou-fe ir á cofta té encaljíar , e a gen- 
te delia fugio para terra , onde cfperava de 
lalvar a íi , e a ella com a artilheria que 
puzeram na praia para a defender. Os nof- 
lbs querendo-a commetter , tiveram logo re- 
cado dos Mouros da Cidade cem preíen- 
tes que lhe mandaram , dizendo ferem nof- 
fos amigos , e náo lhe merecerem fazerem- 
Ihc algum damno no porto daquella Cida- 
de. Mas quando viram que todavia entra- 
vam dentro na náo , e para a poderem ti- 
rar ao alto a nado , alijavam alguns fardos 
de mercadorias , começaram os Mouros de 
íe fervir da fua artilheria, de que hum dos 
noílbs foi morto , e alguns feridos. E por 
muito que alijaram , e a náo eílava já em 
nado, nao havia remédio de atirar daquel- 
le lugar a poder de cabreílantes , té que hum 
Mouro cativo , que andava nas noíTas ga- 
leotas , defcubrio a Manuel de Vafconcel- 
los , que tinha per baixo rajeira dada na 
quilha , e atacada ein terra , como de feito 
affi era , a qual cortada , a náo veio logo 
onde as gaíeotas eftavam. Além defta náo 
que era bem rica , tomaram hum marruaa 
de Turcos que tinha muita fazenda , e ef- 

cor* 



DecadaIV. Liv.IV. Cap. XIX. 481 

corcháram outras três náos, com a fazenda 
das quaes carregaram a Cufturca em lugar 
da que lhe tinham alijada. ElRey de Xael 
temendo por o que vio fazer , que fe nao 
contentaíFc Manuel de Vafconcellos com ef- 
ta preza que tinha feita , o mandou vifitar 
com hum prefente de vaccas , carneiros , gal- 
linhas , tâmaras , e outros mantimentos da 
terra , dizendo que era noíTo amigo , e que- 
ria ei4ar em nolla amizade , e que a artiihe- 
ria que fe tirara na praia fora per Turcos 
do marruaz 5 de que elle nao fora fabedor; 
mas depois que o foubera , os mandara pren- 
der. E que quanto ás náos que tomaram , 
pois eram de feus inimigos , que o pagaíTem , 
que fe mandaíTe alguma coufa delle , que 
folgaria de o fazer. Eíles cumprimentos gra- 
tificou Manuel de Vafconcellos a ElRey de 
Xael com lhe mandar algumas coufas , e 
fete cafcos das náos que alli tomara ven- 
deo a feus naturaes por mil pardáos. E por- 
que António de Saldanha lhe tinha dado 
em regimento , não fendo com elle té 10 
de Abril no Cabo de Fartaque , onde o 
mandava efperar , que fe foíTe a Mafcate , e 
o tempo era já paífado, determinou de fe 
partir , e de todas as velas que levava ti- 
rou a dous , e a três marinheiros , com que 
proveo de gente do mar a náo Cufturca com 
trinta Portuguezes , porque os mais eram 
Tm.IF.P.L Hfi da 



4^2 ÁSIA deJoAo de Barros 

da terra , com a qual preza chegou a MaC- 
cate. 

António de Saldanha que ficou em Goa, 
nao íc pode fazer preíles para partir maig 
cedo que a lo de Março , em que deo á 
vela com dez navios , elle em hum galeão , 
de que era Capitão i^ntonio da Foníeca , 
por ler coílume que o Governador, e Ca- 
pitães mores levam em a náo cm que vam 
huma peílba , que firva de Capitão da mef- 
ma náo para entender no governo delia , 
ao modo que ferve hum Veedor da cafa , 
e o Capitão mor fica defoccupado para o 
governo de toda a Armada. Os outros Ca- 
pitães eram D. Fernando Deça , D. Roque 
Tello de Menezes , Henrique de Macedo , 
António Cardofo , Gonçalo Vaz Coutinho, 
António de Lemos , Gafpar de Lemos , João 
Corroa , e Francifco Mendes. Partido com 
€Íla frota , chegou á Ilha de Çocotorá vef- 
pêra de Pafcoa , e em fazer fua aguada fe 
deteve quatro dias : daqui foi ter a Xael , 
onde foi viíitado d'EIRey com algum re- 
frefco 5 que lhe António de Saldanha não 
quiz acceitar, que foi caufa de fe temer de 
fua vinda. Com efte temor, parecendo aos 
de Xael que queria fahir em terra j come- 
çaram logo de defpejar a Cidade das mu- 
lheres , meninos , e fato , que carregaram 
cm camelos ^ que os noíTos viam ir pelo 

ca- 



Dec.IV. Liv. IV. Cap. XIX. eXX. 4S3 

caminho da Serra. Aqui acharam algumas 
iiáos deChaul, eDabul com feus cartazes; 
e aíli a cilas , como a outras que eílavam 
em lecco , que fe apercebiam para defçn- 
são 5 náo lhes foi feito mal algum , porqi^e 
a tenção de António de Saldanha era dar 
huma vifta a Adem , e não achando Turcos 
com quem pelejar , andar ás prezas. Mas 
como fe poz em caminho té chegar ao Ca- 
bo de Fartaque , não puderam ir mais avan- 
te 5 por ferem já 26 de Abril , com gran- 
des çarraçoes , e tormenta , que o fez arri-^ 
bar a Mafcate. 

CAPITULO XX. 

Do que António de Saldanha fez em Maf 

cate : e dos trabalhos que pajjou na pa- 

vagem de Dio , té Diogo da Silveira 

tomar entrega da Armada : e como 

veio ao Keyno for Capitão mór 

das nãos de viagem* 

TAnto que António de Saldanha chegou 
a Mafcate , que foi a íeis de Maio, 
achou hi Manuel de Vafconcellos com fua 
preza , e João Rodrigues Paes , Vafco Pi- 
res de Sampaio , e António Fernandes , que 
não puderam vir em fua companhia, e ro- 
ta batida vieram demandar elíe porto , e ti- 
rou 5 e poz Capitães , e officiaes novos , por 
os outros fe quererem entregar das prezas 

Hh ii <juç 



4^4 ÁSIA DE João de Barros 

que tinham tomado ; e fcgundo o regimen- 
to delias 5 as repartio pela gente , que eram 
novecentos homens. E vindo o tempo , par- 
tio dalli 5 c veio haver viíta do Cabo de 
Rofalgate ; e por achar os mares grandes 
com tempo novo, foi-fe á cofta de Dio , e 
foram contando as pedras ao longo da praia 
de Patê , e Patane té fe lançarem na ponta 
de Dio. Aqui vieram dar com elle íete , ou 
oito náos , de que fomente tomaram três , 
e as outras deram comfigo á coíla , onde 
a gente íe ílilvou. Chegado mais á vifta da 
barra de Dio , appareceo hum galeão de Ru- 
mes , que determinou de íe falvar, corren- 
do tao junto da praia por efcapar ás noíTas 
véías grandes , que foi neceíTario que o fe- 
guiffem as galeotas , e bargantijs , que fe 
lhe tiravam hum tiro , tirava elle dous , e 
da pr?.ía lhe fazia a gente de Dio finaes , 
que não houveííe medo , e com a artilhe- 
ria que nella tinham pofta , tiravam aos nof- 
fos bargantijs que o perfeguiam , té que que- 
rcndo-íc metter quaíi no porto de Dio , co- 
íeo-fe tanto com a terra , que foi dar em 
huma pedra , e com a pancada lhe faltou 
Jogo o m?.ílo fora , e virou- fe de huma ilhar- 
ga , onde ficou. Mas os noífos não oufáram 
de o ir esbulhiir por eftar em lugar perigo- 
fo , nem menos os da terra que eftavam á 
yifta de tudo , fomente houveram os noíTos 

dei- 



Década IV. Liv. IV. Cap. XX. 485: 

delle o que o mar lhe lançou na praia , e 
parte da gente fe íalvou. 

E porque António de Saldanha tinha or- 
dem de Nuno da Cunha , que fe nao par- 
tiíTe de íbbre a barra de Dio té elie man- 
dar Diogo da Silveira com huma Armada 
de navios de remo , a que elle António de 
Saldanha havia de entregar os outros que 
trazia para ficar naquella coíla , deixou-fe 
andar eíperando por elle , e com muito tra- 
balho 5 porque os ventos eram tão rijos , que 
fe não podia hum. homem ter em pé nos ga- 
leões 5 e os bargantijs citavam arrafados d'a- 
gua , e não dormia a gente , e o menos que 
os navios grandes eftavam furtos , temendo 
ir dar comíigo em terra , era em feílenta 
braças , mudando muitas vezes as ancora- 
gens , em que os homens andavam mortos^ 
e dos bargantijs ficaram fóm.cnte ires , e os 
outros arribaram a Chaul. Finalmente com 
o trabalho , fome , e fede , com.eçou a gen- 
te adoecer , perque foi neceíTario mandar 
António de Saldanha no galeão de João Ro- 
drigues^ Paes caminho da índia os doentes , 
e muita fazenda que fe tomou , com o qual 
rbi António Fernandes no feu catiir. E per 
João Rodrigues Paes mandou António de 
Saldanha dizer a Nuno da Cunha o que ti- 
nha feito , e como ficava naquelle trabalho 
efperando Diogo da Silveira, 

As 



486 ÁSIA DE João de Barros 

As fuftas de Dio neftc tempo eílavain 
apercebidas para como viíTem íua hora fa- 
hirem aos noílbs navios grandes j c aíli tan- 
to que ellas viram ir delcahindo íobre os 
alcorões da Cidade , que Jie na barra delia , 
o galeão de António de Saldanha , e dous 
outros , hum de D. Fernando Deça , e ou» 
tro de D. Roque , fahíram a elles vinte e fe- 
te velas , e puzeram-fe em lugar , e ordem , 
que defcarregáram quanta artilheria traziam 
na capitaina , e aíli nos outros dous galeões ; 
mas como o galeão S. Mattheus , em que 
António de Saldanha andava , era como hu- 
iTia rocha forte , como davam no coitado 
cahia o pelouro no mar fem fazer damno , 
fomente alguns entravam dentro per cima 
do bordo quando hiam fazendo faltos , e 
chapeletas pelo mar , dos quaes hum que- 
brou hum braço a hum Fidalgo per nome 
João Telles , e outro foi dar no galeão de 
Manuel de Vafconcellos , que matou dous 
efcravos. Nefte commetrimento também os 
Mouros levaram feu caíligo em gente que 
a noíTa artilheria ferio , e matou. E ao tem- 
po que batiam os galeões , eftavam as fuás 
fuftas fobrc o remo , eosnoíTos navios fur- 
tos , que foi caufa de não irem melhor caf- 
tigadas ; e a principal foi ferem os noíTos 
ires bargantijs idos em caça de huma não , 
que os Mouros lançaram pela barra fora em 



Década IV. Liv. IV. Cap. XX. 487 

modo de ardil , a qual encaminharam de 
maneira , que foram dar com ella na cofta 
em Madrefabat , achando-a vazia os noílbs 
bargantijs ^ fe detiveram lá em fazer aguada. 
Neíle tempo chegaram dous catiires da 
índia 5 em que vinham Marrim de Caftro , 
e Fernão de Moraes com recado do Go- 
vernador para António de Saldanha como 
Diogo da Silveira vinha logo. Os quaes vin- 
do na paragem de Baçaim , toparam Fer- 
não Lourenço de Lima , Chriílovao Ran- 
gel , Francifco Mendes , e João Corrêa Ca- 
pitães dos bargantijs da Armada de Antó- 
nio de Saldanha , que eram os que diíTcmos 
ferem arribados a Chaul , e ajuntáram-fe ef- 
lQs dous catúres com eiles , c tomaram hu- 
ma náo de preza , e a levaram a CliauL 
Com cita nova que os catiires trouxeram a 
António de Saldanha , por fe não ir daqucl- 
la colla fem fazer alguma coufa notável ^ 
determinou de ir dar em a Cidade de Pa- 
tê , que fica detrás de Dio , para o que man- 
dou dous catúres diante , que lhe foffem dar 
hum a viíla para faber o eftado em que ef- 
tava , e que defembarcaçao tinha , moílran- 
do que arribaram alli com tempo , e que 
elle hia de vagar trás elles. Os catúres to- 
param huma náo mui rica que vinha para 
Dio , e começaram de ir ladrando trás ella 
ás bombardadas j e como António de Sal- 
da- 



488 ÁSIA DE João de Barros 

danha hia de caminho para lá , e as ou-^ 
vio 5 entendendo o que feria , deo mais vé^ 
las ; mas quando chegou , já os catúres com 
os bargantijs que foram diante tinham to- 
mada a náo, que foi a mais rica de quan- 
tas tinham tomado á cufta de muito íiingue 
dosnoíTos, por pelejarem huma grande ho- 
ra , em que morreram muitos Mouros ; e 
outros carregados de muita fomma de moe- 
da de ouro , e prata , fe lançaram ao mar , 
cujo pezo os levou mais cedo ao fundo. E 
fegundo alguns dos Mouros cativos delia 
diziam , fomente em moeda de zequijs Ve- 
necianos trazia mais de feíTenta mil , a fora 
muitos brocados , fedas , pannos , e outras 
mercadorias , e confervas de rodo género , 
té de efpargos , que valiam grande preço. 
Como eíles que entraram na náo tomaram 
o que puderam , fe tornaram a feus navios 
antes que António de Saldanlia chegaíTe , o 
qual mandou metter nella Officiaes para fe 
pôr em boa arrecadação o que nella vinha ; 
e dando com efta vitoria huma viíta a Dio , 
navegou para Chaul. Mas pí'imeiro que lá 
chegaíTe , na paragem de Baçaim achou Dio- 
go da Silveira , ao qual entregou os navios 
que Nuno da Cunha mandava , e elle foi-fe 
a Chaul , onde mandou fazer grande. cata 
em todos os navios , e catares , que tomaram, 
aiiáp na coita de Dio j de que houve gra nr 

de 



Década IV. Liv. IV. Cap. XX. 489 

de íomma de dinheiro , e fazenda , de que 
deixou alguma parte alli , por ter maior va- 
lia que cm Goa , e partio-fe para lá , onde 
foi recebido com grande prazer ; porque 
importaram as prezas que naquella viagem 
fez mais de cento e oitenta mil cruzados , 
em ouro , prata , fedas , pannos , cobre , e 
outras mercadorias , que deitas partes de Eu- 
ropa fe levam á índia pelo eítreito do mar 
Roxo. 

Naquelle anno de I5'32 foi a Armada , 
que partio defte Reyno , dividida em duas 
capitanias mores'' j de huma era Capitão mor 

D. 

a Ejia Armada do anno de i ç J 2 era de cinco tuíos , da 
(jual hia por Capitão môr Pêro Vaz de Amaral ^ que ar- 
ribara o anno pnjjado. Na não de Vicente Gil foi embar- 
cado D. Fernando Vaqueiro Bifpo Aurenfe da Ordem dos 
Menores , varão mui religiofoy e o primeiro Bifpo que 
ElRey D. João mandou á índia , na qual falleceo o anno 
de 1554 ejlando em Ormuz , onde jaz enterrado na . Jgre- 
ja da Fortalei^a. A náo de D. Fjievão , ( com quem hia 
T>. Chrijlovão da Gama outro feíi irmão , ) errando Aíoçam- 
dique , e não podendo tomar Me linde para fazer aguada , 
nem Coco tora , foi a Xael , em cuja praia defemharcou 
D, Ejlevão com D. Manuel de Lima , e D. Fernanda 
de Lima. E ejlando nella , em quanto fe faziti aguada , 
fobreveio lium Levante tão rijo^ que não o podendo fojfrer 
a náo , que andava ás voltas com o t raquete , lhe foi for- 
çado correr em popa , e ir demandar a cojla de Ale/in- 
de ; e não podendo ferrar terra , pnfjdram avante , e fo^ 
ram tomar Aíoçambique com muito trabalho , e perigo. Dom 
Ejlevão pafada a primeira fúria do temporal , embarcou- 
fe ao outro dia no batel , e foi ao mar bufcar a náo , 
farecendo-lhe que andajje per alli ás voltas ; e não a achan- 
do , chegou a Çocotorá , onds nãofabendo novas delia , apçr^ 



490 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

D. Eílcvão da Gama , filho do Conde Al- 
mirante, com quem hia por Capitão dehu- 
ma náo Vicente Gil ; e da outra era Capi- 
tão mor D. Paulo da Gama , irmão do mef- 
irio D. Eitevão , e com elle por Capitão de 
huma náo António Carvalho. D. Eftevão in- 
vernou em Moçambique ; e porque havia 
de ficar na índia para ir pgr Capitão a Ma- 
laca 5 e quando elle acabaíTe lhe havia de 
fucceder D, Paulo feu irmão , veio António 
de Saldanha ao Rcyno por Capitão mor da- 
quella Armada com a carga da efpcciaria. 

CAPITULO XXI. 

Como Diogo da Silveira , entregue da Ar- 

7nada de António de Saldanha , dejlruio 

as Cidades de Patan , Patê , e Man-- 

galor 5 e as queimou , e as nãos 

que em feus portos ejiavam, 

SEndo paíTado o inverno , fez~íe preftes 
Diogo da Silveira , e partio de Chaul 
caminho de Dio a fazer guerra naquella coi- 
ta 3 como o Governador lhe mandava ; mas 

nel- 

iou em Ma^raífaxo ; ElRey da terra lhe ãeo huma em- 
iarciiçuo maior , e Pilotos qui: o levaram a Melinde , on* 
de fouhe que a Çua náo ejlava em Moçambique ; e em hU" 
ma fnjla , que lhe aprejlon Nano Fernandes Capitão de Me- 
linde y em poucos dias che^j n a Aíoçnmbique , e aíli ef- 
■per ou a monção de Ago/h y a qual o levou d Lídia, Dio* 
go Uo Couto liv, S. cap. 2. 



DecadaIV. Liv.IV. Cap. XXL 491 

íieJIa nao havia já que fazer , por António 
de Saldanha a deixar deílruida , c amcdren- 
tada por o que atrás diflcmos : polo que 
paflbu avante com tenção de dar na Cidade 
de Patan , que cílá na coíla doze léguas de 
Dio. Era eíh Cidade cercada de bom mu- 
ro , e baluartes , que defendiam a defembar- 
caçao que eílá ao longo de hum arrecife , 
da qual tinha novas Diogo da Silveira , que 
eilava bem provida aílí de Rumes , como 
de artilheria , com que fe determinava de- 
fender. Com tudo elle a foi demandar , e 
chegando ao porto , defembarcou com a me- 
lhor gente da que levava , e tomou huma 
tranqueira , que os Mouros tinham feita mui- 
to forte , e bem artilhada , a qual foi accom- 
niettida pelos noíFos com tanto esforço , que 
lha fizeram largar , e fe recolheram com mor- 
te de m.uitos. A ifto acudio o Capitão da 
Cidade com muitos Rumes , que pelejaram 
mui animofamente té lhe os noíTos mata- 
rem o Capitão com muitos dos feus , com 
que foi entrada a Cidade de Patan, faquea- 
da 5 e queimada , e com ella perto de qua- 
renta náos que eftavam no feu porto. Em- 
barcando Diogo da Silveira com muito 
contentamento de todos , com cila vitoria 
que houveram a pouco cufto leu , com tan- 
ta brevidade , e de que houveram grande 
defpojo , fe panio caminho da Cidade de 

Pa- 



49^ ÁSIA DE João de Barros 

Pare. Eíla Cidade eftava também muito for- 
te 5 aíTi de gente de armas Guzarate , como 
de artilhcria ; mas nada lhe valco , pofto 
que o íeu Capitão a defendeo mui valero- 
famente , porque com fua morte , e de mui- 
tos dos íeus foi a Cidade tomada , faquea- 
da , e entregue ao fogo , e todas as náos 
que no porto eftavam. Com eíla fegunda 
vitoria andava a gente tao contente , e glo- 
rioía , que tudo lhe parecia leve de accom- 
nietter. E aíli fe foi Diocro da Silveira á 
Cidade de Mangalor , que diíla vinte lé- 
guas de Dio \ e pofto que em cofta brava , 
não deixou de a accommetter , e queimar, 
e as náos do feu porto fem refiftencia de 
feus moradores , por todos a terem dcfpeja- 
da com temor de Diogo da Silveira , o qual 
andou deftruindo aqueJIa cofta , e queiman- 
do muitos lugares , c veio a dar vifta á Ci- 
dade de Dio , fem haver quem lho defen- 
dcíle : tanto era o temor que delle tinham. "^ 

CA- 

a Antes dejla jornada fez I)iof,o da Silveira outra em 
Setemhro de i jj ^ ^"^'^^ vinte navios , cm ^ue levava tiC' 
zentiís efpingardeiros , com (jue atravej^ou de Chanl ã pon- 
ia de Dio a efperar as náos de Meca ; e por ellas ferem 
já entradas em Dio antes çue elle che<^affe , voltou dalli 
no fim de Outtihro para a enfeada de Camhaya , e foi de- 
■mandar Bandorá , Cidade daquelle Keyno mui rica , por 
o trato , e commercio de feus habitadores -, e pojio que eU 
Us a defenderam hem , foi tomada per os nofjos , e depois 
de faqueadu lhe puzeram o fo'.!;o. De Bandorá fe pafoií 
Dio^o da Silveira ao rio de Bombaim , e entrou per elle 
que com o favor de hum Capitão 



Década IV. Liv. IV. 493 

CAPITULO XXII. 

Como Nuno da Cunha tomou a fortaleza 

de Baçaini , e d mandou dejlruir , com 

morte de muitos Mouros , e fugida de 

Melique Tocam feu Capitão, 

VEndo Nuno da Cunha que nao fe po- 
dia tomar a Cidade de Dio por íiia 
grande fortificação , determinou de lhe fa- 
zer tanta guerra per mar , tolhendo que ao 
porto delia não foíTem náos , com que a 
defrruiíTe. Poreíla razão deixou António de 
Saldanha naquella coíla , e apôs elle man- 
dou 

ãe Melique Tocam , ^m ejlcva com dons mil homens em 
BíJ^aim , fe rehellára , e não pofrava gs parcas çne fe oUri- 
.;áta pagar , quando Já fora Eitor da Silveira. Defende- 
ram os Aíouros a defembarcação aos nofjos , e com gran- 
de re(i!lencia a entrada da Cidade ; forem com morte de 
muitos Rumes , e Gnzarates foi entrada , e dejlruida co- 
mo Bandorá. Sabidos os Portuguex.es do rio , foram té «$"«- 
rat afjolando todas as aldeãs , e povoações marítimas , em 
4jue cativaram , e mataram muita gente. E não havenda 
naquella cofia mais em que empregar o ferro , e o fogo , 
fe pafjãram a outra de Dio , cnde fizeram igual damno 
fios lugares de Cofelleíe , Talaja , e Madrefavat , queiman- 
do naquelles portos muitos nazúos carregados de fazendas^ 
■polo que tcdos os moradores da cofia deÇpovoáram os luga- 
res ; e Diogo da Silveira acahado o verão , em Ahril de 
I5J2 fe recolheo vitoriofo a Goa [onde já eflava o Go- 
vernador da volta de Challe ) com mais de quatro mil ca- 
tivos , e feus foldados ricos de defpcjos, Francifco de An- 
drade cap. 76. da 2. Parte, Diogo do Couto cap. i J. do 
ílv. 7. e Fernão Lopes de Caílanheda cap. 4$. ^ 46. do 
liv. d. 



494 ÁSIA DE João de Barros 

dou Diogo da Silveira , que fizeram o que 
temos elcrito. Bem fentio o damno Soltao 
Badur no pouco rendimento que aquelle an- 
po teve de fuás Alfandegas. E poílo que 
Kuno da Cunha lhe mandou fazer eíla guer- 
ra , nao lhe defcançava o efpirito , em quan- 
to nao via huma fortaleza feita na Cidade 
de Dio , e aíTi bufcava todos os modos que 
podia para a apertar de maneira que fe lhe 
vieíle a entregar. E porque tinha per in- 
formação , que Bacaim fe hia fazendo outra 
Dio , antes que mais crefccíTe , determinou 
de a dellruir. Deite penfamento deo conta 
a cinco 5 ou féis Capitães dos mais princi- 
paes , c experimentados , pcdindo-lhes con- 
felho fe commetteria eíta empreza por as 
caufas que a iílb o moviam , as quaes eram 
fer aquella Cidade de Bacaim grande efcala 
de náos , onde carregavam para Meca mui- 
ta madeira , de que fe proviam as galés dos 
Turcos , e todo aquelle eftreito , no qual 
ella tinha muita valia , e que fe hia fazendo 
aquelle porto outra Dio com a fortificação 
que nelle começara Melique Tocam. E que 
fe os Turcos alli fe recolheííem vindo á ín- 
dia , (de que havia prefumpçao,) feria no- 
tável damno para aquelle Eftado polas com- 
modidades , que eíles para fuás Armadas na- 
quelle lugar tinham. Polo que lhe parecia 
que convinha deitar os Mouros deEaçaim, 

e fa- 



DecadaIV. Liv. IV. Cap.XXII. 495- 

e fazer nclle huma fortaleza , aíTi para lhes 
impedir o trato da madeira , e os intentos 
de Melique , e eílorvar que os Turcos o 
occupaíTem , como para terem nellc as nof- 
fas Armadas porto mais vizinho de Dio , 
donde fahiflem a fazer guerra ao Reyno de 
Cambaya. Pareceo aos Capitães defneceíTa- 
rio fazer fortaleza em Baçaim , (como fe 
depois fez por as cauías referidas , ) fendo 
a de Chaul táo vizinha , e que para fe ata- 
lharem os damnos que fe receavam , bailava 
arrazar o lugar, e pôr per terra tudo o que 
Melique nelle tinha fortificado. 

Approvada a jornada , fe fez preftes o 
Governador , e partio de Goa na entrada 
do anno de I5'33 com oitenta velas'', indo 
clle em huma galé baftarda, e levando por 

Ca- 

a Era efta Armada de mais de cento e clnccenta vi- 
uís , nas cjiiaes havia vinte galeões , muitas galés , e ga- 
le o tas : CS Capitães são os cjiie nomea João de Barros 9 
eram Garcia de Sd , António da Silva , Jorge de Lima , 
Franclfco de Sã , Ruy Vaz Pereira , António de Sã o Ktt' 
rae , Nuno Pereira de la Cerda , Trijião homem , Jorge 
Cabral , Francifco de Vajconcellos , Martim de Freitas , 
Z>. Roque Tello , Manuel de Miranda , Manuel Rodri- 
gues Coutinho i Chrijlovão de CaJIro , Luiz Coutinho , Fran- 
cijco da Silva , Paio Rodrigues de Araújo , Lopo Finto , 
Fero Botelho , Jorge de Soiifa , António da Cunha , Fran- 
cifco de Soufa , Pêro de Mefcjuita , Afbnfo Figueira , An- 
tónio Ribeiro , Francifco da Cofia , Gafpar Luiz , Bartholo- 
meu Vaz , João Fernandes o Taful -. hiam embarcados nef 
ia Armada mais de três mil foldados Porttigiieies. Diogo 
do Couto cap. j, ão liv- 8. 



49^ ÁSIA DE João de Barros 

Capitães das mais galés Manuel d'Alboquer- 
quc , D. Pedro de Menezes , Marrim Af- 
íbnfodeMelloJufartej Fero de Faria , Nu- 
no Barreto , Triílão de Taíde , Francilco 
da Cunha , Vaíco da Cunha, Manuel de 
Vafconcellos , e Fernão de Lima. Dos ga- 
leões hiam por Capitães D. Fernando De- 
ça , D. Paulo da Gama , António de Le- 
mos , Vafco Pires de Sampaio , Henrique 
de Macedo , António Cardoio , e aíli ou- 
tros 3 cujos nomes não vieram ,á noíía noti- 
cia. A gente que hia nefla Armada , (a qual 
fe ajuntou á de Diogo da Silveira , que ti- 
nha mandado chamar Nuno da Cunha , ) 
eram mil e oitocentos Portuguezes , e dous 
mil Canarijs. Melique Tocam Capitão de 
Dio 5 que eílava então em Baçaim "" , e ha- 
via muitos dias que a fortificava , fabendo 
que o Governador vinha fobre ella com ta- 
manlio poder , metteo na Cidade com efte 
receio mais de doze mil homens de guar- 
nição 5 e acabou de a fortificar o melhor 
que lhe foi poílivel ; e quiz ver fe podia 
per algum ardil livrar-fe de Nuno da Cu- 
nha 5 para o que lhe mandou per hum Mou- 
ro commetter paz com algum bom partido. 
O Governador refpondeo, que acceitaria a 

paz , 

a O que ejlnva em Boçaim diz Francifco de Andra- 
de , gue era fobrinho de Meliçue Tocam Capitão de iJio ^ 
do Jen rnefmç nomç» Cap. jj, da 2. Jfarte, 



DecadaIV. Liv.IV. Cap.XXIL 497 

paz 5 e mandou a Mcliquc com anefens que 
deo a Maitim AfFonlò de Mello , o qual 
nao aíTcnrou nada , porque Meliquc não quiz 
conceder a paz como nos convinha. Polo 
que aíFentou o Governador com os Capi- 
tães , e Fidalgos , que com elle vinham , 
de fahir em terra antes que Melique ajun- 
taíTe mais gente. E também porque foi avi- 
fado per o Secretario Simão Ferreira , que 
os foldados fe queixavam delle já não ac- 
commetter a fortaleza. Para o que ordenou 
fua geme em três efquadroes : no dianteiro 
hiam Diogo da Silveira , Manuel d'Albo- 
querque , Martim Affonfo de Mello : no 
outro D. Paulo da Gama , D. Fernando De- 
ca , Vaíco Pires de Sampaio , António Car- 
doíb , Henrique de Macedo , António de 
Lemos : na retraguarda hia Nuno da Cunha 
com os dous terços da gente. E porque Me- 
lique tinha feito huma tranqueira bem for- 
tificada para defender a defem.barcação'^, c 
em huma ponta delia eftava hum baluarte , 
e a outra hia enteílar em huma Mefquita, 
a qual era mui forte, com feus baluartes de 
terra , e madeira , com muita , e boa arti-- 
Iheria, e fua cava ao redor, mandou Nuno 
da Cunha chegar a ella todos os batéis , e 
Tom, IF. P. /. li em- 

a A fcrtificeqão ãejla Cidade , e a peleja que es nof- 
Cos tiveram com os Aloures , ejcreve mui particulanventç 
Franclfco Ue Andrade no cap. 78. da 2, FarU» 



49^ ÁSIA DE João de Barros 

embarcações com fuás mantas , c artilheria 
para a baterem. E ante manha dado o fi- 
nal que tinha poílo , foram todos juntos ; c 
fendo confcílados , e abfolutos per hum Re- 
ligiofo de S. Francifco , e encommendando- 
fe a Dcos , partiram , e chegando á tran- 
queira , começaram a batella , a que os Mou- 
ros refpondiam delia com outros tantos ti- 
ros. PaíTando os noílbs per efte perigo , fo- 
ram dcfembarcar no cabo deíla tranqueira , 
onde acharam Meliqiie com amais da gen- 
te, cm que hnvia muitos decavallo, e tan- 
tos tiros de cfpingarda , e artifícios de fo- 
go , que parecia temeridade accommettel- 
los; o que os noflbs fizeram com tanto ef- 
forço , que nao podendo os Mouros foíFrel- 
los , fe começaram a dcfordenar , e recolher 
para a fortaleza feguidos dos noíFos ; fa- 
zendo Mclique per algumas vezes entreter 
CS feus , pelejando com os Portuguezes por 
muito efpaço , té que a vitoria íe declarou 
por nós. d que vendo Melique , fe poz em 
fugida, e todos os mais com elle , morren- 
do^^muiros". Dos noíTos morreram fómente 
dous homens de nom:e Diogo de Mello, e 
Barrholomeu Drago, e féis, ou fete folda- 
dos , o que os Gentios da terra tiveram por 
milagre entre tantos tiros ^ e artifícios de fo- 
go . 

a Foram morics mais ãe ^uinlieníos e cincoenta Moii^ 
ros. 



Década IV. Liv.IV. Cap.XXII. 499 

go , que foi caufa de alguns fe fazerem 
Chriílaos. Paliada efta tranqueira , caminhou 
Nuno da Cuniia para a fortaleza , mandan- 
do diante Simão Ferreira com poucos que 
a folTe reconhecer em quanto elle fe de- 
tinlia em efperar por artilheria para a bater. 
Mas os noíTos vendo ir Simão Ferreira , fe 
foram todos apôs elle ; o que viílo pelos 
Mouros , e como Melique íe acolhera, e 
era tanta gente morta , não fe atreveram de- 
fender a fortaleza , e começaram a fugir , e 
os noíTos aos feguir matando nelles. Avifa- 
do Nuno da Cunha per Simão Ferreira , 
abalou logo té chegar á fortaleza , e depois 
de entrado nella , deo m.uitas graças a Deos 
por lha dar. E louvando muito áquelles Ca- 
pitães , e Fidalgos feu muito esforço 5 ar- 
mou alguns cavalleiros com muito prazer 
de todos em dez dias que alli efteve , no 
qual tempo a gente deílruio a terra , e Nu- 
no da Cunha mandou derribar a fortaleza 
té os aliceces , por então não fer neceíTaria. * 
Em quanto efteve em Baçaim , mandou 
Diogo da Silveira ao eflreito do mar Roxo 
por Capitão mor de huma Armada de qua^ 
tro galeões , de que foram Capitães elle, 
Vafco Pires de Sampaio , António Cardofo , 
li ii e An- 

a Recolheram-fe da fortaíeTJt , hahiartes , e tranijuei* 
rasmais de quatrocentas peças de artilheria j e huma ç^ran» 
áe (juantidade de munições* Fernão Loj^es de CailanhcUa^ 
çaj), 6j. do liv 8. 



yoo ÁSIA DE João de Barros 

e António de Lemos, e de duas galeotas , 
das quaes eram Capitães Franciíco de Sou- 
fa , e Feriiao de Caílro , e de quinze bargan- 
tijs. Também defpachou Martim Affonfo 
de Mello Jularte para Bengala, de cujo fuc- 
ceíTo daremos conta em feu lugar. E por 
lhe darem novas que a fortaleza de Damam 
eftava derpejada , mandou também dahi a 
Manuel d'ÀlboqiJerque que a foíle derribar 
com huma Armada , de que o fez Capitão 
mor : com elle hiam D. Pedro de Menezes , 
e Manuel de Vafconcellos , e trezentos ho- 
mens em doze bargantijs , e catúres. Antes 
de Manuel d'A]boquerqiie chegar a Damam , 
íichou novas que não eftava defpejada a for- 
taleza ; e fendo requerido de todos que fe 
tornaíTe , porque o Governador fomente a 
mandava derribar, cuidando que eftava def- 
smparada da gente , e não lha mandava 
conquiftar , elíe per cumprir com fua honra 
não quiz deixar de chegar a ella , e infor- 
mar-fe per li do que podia fazer. E achan- 
do que eftava mui bem artilhada , e com 
muita gente de guerra Abexijs , e Fartaquijs , 
todos homens defeito, eque elle não leva- 
va o neceíTario para a accommetter , e fo- 
,bre iflb a pouca vontade dos feus foldados ^ 
a deixou. 

^ Partido Manuel d'AIboquerque de Da* 

mam, 

a Diogo do Couto cep. 5. ão Uv. S. 



DecadaIV. Liv.IV. Cap.XXIL yoi 

mam , foi queiaiando , c aflblando todas as 
povoações que havia deBaçaim téTarapor, 
tomando muitas embarcações com fazendas , 
e da volta entrou no rio de Bombaim , dan- 
do em alguns lugares da Ilha de Salcete , 
que jd fe tornava a povoar ; e porque o da- 
mno nao crefcefle , offereceo cada hum dos 
Tanadares delia quatrocentos pardáos de 
parias , pagando logo os daquelle anno ; e 
o mefnío íizeram os de Tani , Bandorá , 
Maij , c Bombaim ; e por fe chegar o in- 
verno 5 recolheo-fe Manuel d'Alboquerque 
a Chaul . como o Governador lhe tinha man- 
dado. 

" Diogo da Silveira , que partio para o eC- 
treito de Meca ás prezas no princípio de 
Fevereiro, chegou ao Cabo de Guardafú, 
onde tomou liuma náo com alguma reíiílen- 
cia da muita gente que hia nella. Vafco Pi- 
res , que fe adiantou da Armada na para- 
gem de Çocotorá , rendeo huma grande , e 
poderofa náo de Rumes com morte da maior 
parte delles , e de alguns dos nolTos ; e no 
Cabo de Fartaque tomou outra que levava 
muita fazenda. Diogo da Silveira queimou 
depois duas no porto de Adem , e deo com 
outra que amainando o Capitão delia , fe 
foi no batel ao galeão, e lhe aprefentou com 

mui- 

a D!.)?o do Couto , e Francifca de Andrade no cap. 
So. da 2. I^iiríe. 



5*02 ÁSIA DE João de Bakros 

muita confiança huma carta de Iium Portu- 
guez , que eílava cativo em Judá , a qual 
trazia o Mouro por íalvo conduto. Diogo 
da Silveira a abrio , e leo nella eílas pala- 
vras : Peço aos fenbores Capitães d'ElRcy , 
que encontrarem e/ia não , que a tomem de 
preza , porque he de hum muito ruim Mou- 
ro, Vendo o Capitão mor a confiança com 
que o Mouro trazia aquella carta de fua 
perdição , e conílderando a ruindade do Por- 
tuguez 5 por confervar o noíTo credito , ap- 
provou-lhe o falfo feguro , e rompendo-lho , 
porque não conheceíTe o engano , nem lhe 
íizeílc mal , encontrando-o com elle algum 
Capitão cubiçofo , paílbu-Ihe outro em for- 
nia , com que o Mouro íe foi mui conten- 
te 5 e Diogo da Silveira quiz antes perder 
huma náo carregada de ouro , que quebrar 
a fé enganofa de hum Portuguez , em que 
o Mouro vinha tão confiado. Dahi embo- 
rcou o eftreito da Perfia , e deixando os ga- 
leões em Mafcate , fe paíTou aos navios de 
remo , e nellcs foi a Ormuz onde invernou. 
Na entrada de Agoíio partio com toda a 
Armada para Goa , nefta huma traveíla , to- 
maram duas náos de Meca, com que che- 
garam a Chaul. Defpcdindo alli Diogo da 
Silveira os navios groíTos para fe concerta- 
rem , embarcou-fe na galé de Manuel d'Al- 
boquerque, e cora os navios de remo vol- 

íou 



Deg. IV. Li\^ IV. Cap. XXII. E XXIII. 5'03 

tou a continuar a guerra de Cambaya , e 
ie poz na enfeada , onde veio ter com elle 
Viíco da Cunha , e lhe deo huma carta do 
Governador , com a qual íe recolheo a Goa 
nc fim de Setembro. 

CAPITULO XXIII. 

Como o Governador mandou Vafco da Cu-- 

ilha a Melique Tocam fobre fe fazer 

a fortaleza em Dio. 

DEftruido Baçaim , partio o Governador 
para Goa , onde foi recebido com gran- 
de alegria " pela vitoria com que vinha de 

Me- 

«T De Goa ãefpachoti o Governador para Maluco Trif- 
:7io de Xaide , ijue eliava provido datjUíHa Capitania , e 
para Malaca D, Paulo da Gama , por não haver novas 
de D. EJievão feu irmão. Ejies Capitães partiram em 
Abril. Diogo do Couto cap, 5. do liv. 8. e Giílanheda 
cap. 64. do liv. 8. Ejtas duas Armadas chegaram cm Se- 
tembro á índia , e com ellas D. Ejlevão da Gama , gue 
inverndra em Moqambigue. Partidas as duas Armadas ds 
Keyno , chegou a elle a da índia , pela qual fouhe ElRey 
D. João do roim jucce[jo (jue tivera Nuno da Cunha na 
jornada de Dio , e per via de Levante , cjue fe apercebiam 
05 Turcos para irem ã índia. Polo (juc mandou Sua Alte- 
za apre/lar com diligencia outra Armada de do\e velas , 
</ií^ eram dous galeões , huma naveta , e nove caravellas. 
Ejia frota hia ordenada para ficar na índia , levava mais 
de mil e quinhentos foldados , foi por Capitão mór delia 
no .raUão Salvador D. Pedro de Cajiello-hranco , filho de 
D. Pedro , defpachado com quatro annos da capitania de 
Ormuz, Do outro galeão era Capitão André de Cofiro , 
da naveta Nicoláo Jufarte , e das caravellas António Lo- 
bo , Balthamr Gonçalves , Lioriel de Lima , Eitor de SoU' 



5*04 ÁSIA deJoÂo de Barros 

Melique Tocam ; porém dlc nao fe dava 
por íarisfeito do fucceíTo de Dio , e fó e.n 
tomar aquella Cidade , e fazer neJla huna 
fortaleza trazia occupados todos feus penk- 
menros. Incitava-o ElRey D. João com coi- 
tinuas lembranças , como fez aquelle md- 
mo arino de i5'33 pelas duas Armadas ce 
{çte náos que mandou , de huma das quaes 
veio por Capitão mor D. Gonçalo Couti- 
nho , e com elle por Capitães das náos Nu- 
no Furtado de Mendoça , Diogo Brandão 
do Porto, e Simão da Veiga. E da outra 
Armada era Capitão mor D. João Pereira , 
que levava a capitania de Goa , e os Capi- 
tães das outras nãos Lourenço de Paiva , e 
D. Francifco de Noronha , que fe perdeo 
na viagem. Polo que determinou Nuno da 
Cunha de fazer tanta guerra a Cambaya , 
té que ElRey de canfado delia lhe déíTc a for- 
taleza. 

Nefte tempo eílando Melique Tocam' mui 
receofo de lhe EIRey tirar a capitania de 
Dio para a dar a Muftafá, eícreveo huma 

car- 

fi , João ife Soufa , António de Sotifa , Francifco Pereira , 
Gonçalo Fernandes , e Francifco Fernandes Leme. Par- 
tiram na entradi de Novembro , tiveram trahalhofa via- 
fiem té checar em fevereiro a Mosambique , alli fe a/un- 
iáram todos o<! navios , e fe aparelharam ^ e reformaram 
do que lh:s faltava ^ e em Marco partiram para a índia, 
onde che (Taram no princ-vío de Alai o. Diogo do C^>uto cap» 
7. e 10, do liv. 8. e Francifco de Andrade caj). %y» dé 
$:. Parte i e 2. da terceira* 



Década IV. Liv. IV. C AP. XXIII. 5-05' 

carta ao Governador , que lhe mandaíTc hii- 
ma peífoa de qualidade com quem commu- 
nicalTe algumas coulas de muito íerviço d'EI- 
Rey de Portugal. Nuno da Cunha , pofto 
que nao ignorava as aftucias , e manhas de 
que os Mouros fc valem para leu provei- 
to , nâo deixou também de cuidar , que por 
algum refpeito lhe queria Mclique conceder 
a fortaleza que pertendia. E fazendo con- 
felho fobre aquelle negocio , no mclmo pa- 
recer foram todos , e fe aíTentou foíTe Vaf- 
CO da Cunha ; porque além de fer esforça- 
do, e fezudo , era mui verfado nas coufas 
daquelles Mouros , como homem antigo na 
índia 5 elhedeo inílrucçao do que havia de 
fazer com Melique Tocam , e o que lhe 
havia de prometter fe déíTe a fortaleza , que 
era a metade do rendimento da Altandega 
de Dio de juro ; e mandar-lhe o Governa- 
dor fazer hum.a fortaleza em qualquer dos 
rios de Cambaya que ellequizeíTe , para que 
nella eftiveíTe feguro d'ElPvev , contra queni 
o favoreceria , e ajudaria cada vez que fof- 
fe neceíTario. E para qualquer fucceílb que 
iflo tiveíTe , encarregou o Governador mui- 
to a Vafco da Cunha trabalhaíTe por ir á 
Cidade , para ver fe havia nella alguma en- 
trada per onde fe pudeíTe tomar , e per on- 
de melhor fe bateria. E para eíle eíFeito man- 
dou com elle hurn Condeílabre da artilhe- 

ria. 



50Ó ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

ria , mui experto em leu oíHcio , e em fua 
companhia hum Jao Chriftão , calado em 
Goa , irmão de hum bombardeiro , que ef- 
tava em Dio no baluarte do mar , para fe 
informar do irmão como fe poderia per aquei- 
la pane bater , e tomar a Cidade. 

Valco da Cunha fe partio em huma fuC- 
ta á entrada de Agofto , chegado a Dio y 
e arvorado huma bandeira branca , perque 
Mclique entendeo que feria peílba perque 
ciperava , mandou faber per hum homem 
de confiança quem era o que vinha na fuf- 
ta. Vafco da Cunha lho diíTe, e que trazia 
huma carta do Governador para Melique 
Tocam ; mas que não fahiria em terra té 
íe lhe mandar em arrefens o Capitão do 
baluarte domar, o que logo fe fez'; e dei- 
xando-o em poder de António Borges que 
com eile hia , fe foi defembarcar na Cida- 
de , onde de praça lallou a Melique To- 
cam em fua cafa. Sendo noite, foi ter Me- 
lique com Vafco da Cunha , e por faber 
bem fallar Portuguez , não levou interpre- 
te : dlc lhe deo huma carta do Governa- 
dor , em que lh'2 efcrevia o que queria del- 
le , e o partido que lhe faria. Além deíla 
carta , lhe dilTe Vaíco da Cunha as muitas 
razoes que tinha para fe vingar d'ElPvey de 
Cambaya , por os aggrnvos que delle tinha 
recebidos , querendo-lhe tomar Dio, para 

a dar 



Década IV. Liv.IV.Cap.XXIII. 5-07 

a dar a Muftafá homem eftrangciro , que 
fem caula alguma fora traidor ao Turco ícu 
Senhor: eque agora tinha occafiao , e com 
muito proveito íèu , para Ic ílitisfazer , e 
mais ficando em fua natureza leguro d'El- 
Rey de Cambaya. JVlelique 1 ocam lhe pe- 
dio tempo para fe deliberar , no qual Vaf- 
co da Cunha íe foi ver com Diogo da Sil- 
veira , ( que viera do eílreito , e andava na 
ponta de Dio , ) e lhe deo a carta do Go- 
vernador , (de que atrás diflemos , ) em que 
lhe mandava que não fizeííe guerra a Dio 
em quanto Vafco da Cunha lá eílava , c o 
Embaixador que elle mandara a ElRey Ba- 
dur. Tornado a Dio Vafco da Cunha, Me- 
lique Tocam lhe moílrou a Cidade , e nem 
clle, nem o Condeftabre viram, modo para 
fe poder entrar per mar , fem também a 
commetterem per terra , para o que era ne- 
ceíTario hum grande exercito , e Armada. 
A ultima refolução de Melique foi dizer a 
Vafco da Cunha , que lhe parecia bem o 
que lhe dizia , e efcrevia o Governador ^ o 
qual iria de Armada naquelle verão a Dio , 
e que té então fe refolveria , c lhe daria avi- 
fo do que determinaíTe , e com huma carta 
para o Governador defpedio a Vafco da Ca- 
nha. 



CA- 



yoS ÁSIA DE JoAO DE Barros 

CAPITULO XXIV. 

CoiJio o Gover-nador mandou Trijiao de 
Gd a ElRey de Cambaya fobre a fortale- 
cida de Dio que lhe pedia : e como ElRey 
viandou ir o Governador a Dio para fe ve- 
rem j e as vijias não houveram effeito , e 
Manuel de Macedo defajiou a Rumechan. 

NO mefmo tempo que o Governador 
_ Nuno da Cunha mandou Vafco da 
Cunha a Meiiquc Tocam, mandou Triftao 
de Gá a ElRey de Cambaya , commetten- 
do-o que liie délTe a fortaleza cm Dio , e 
faria paz com elle , e feria feu amigo , e 
efcreveo a alguns Capitães d'ElRey , e pri- 
vados feus \\\Q aconfelhaffem quáo bem lhe 
vinha a amizade , e favor d'ElRey de Por- 
tugal para contra íeus inimigos , e para fe- 
gurança de feu Eilado. A embaixada de 1'riC- 
ião de Gá moftrou ElRey folgar de ouvir ; 
mas a verdade era que elle não tinha von- 
tade de dar lugar para fe fazer a fortaleza. 
Porque como Rumechan , que andava muito 
feu privado, tinha olho em haver a Cidade 
de Dio , e fazella tirar a Melique Tocam , 
a quem tinha grande ódio , e fobre que tra- 
zia efpias , como foube que Vafco da Cu- 
nha viera a Dio ver-fe com elle , accuíavn-o 
ante ElRey , dizendo ^ que aquellas viílas 

eram 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXIV. 5-09 

eram tratos crn que andava para dar a for- 
taleza ao Governador. Periliadido ElRcj 
derta accufaçno , determinou de tirar a ca- 
pitania a Melique Tocam , c dalla a Ru- 
iTiecJian. Polo que aíll para impedir o que 
fufpeitava , como para entreter ao Governa- 
dor que lhe nao fízeíle guerra aquelle ve- 
rão , ou para o matar fe pudeíle , derpedio 
a Triftao de Gá , que com inílancia lhe pe- 
dia a refpoíia da lua embaixada , mandan- 
do per dlc pedir ao Governador quizeíTc 
ir a Dio para fe verem ambos , e aíTenta- 
rem pazes. O Governador ^ que das ma- 
nhas 5 e condição d'ElRey nao fabia tanto , 
poz a ca ufa em confclho , não para fe tra- 
tar fe havia de ir , fendo como havia de ir , 
e foi aífentado , que foífe a Dio com huma 
boa Armada , mas apercebido tanto para a 
guerra , como para as viílas. Os Fidalgos , 
e mais gente que a ellas hiam mui conten- 
tes , fe aperceberam de muitas louçainhas , 
e veílidos ricos , e com elles partio Nuno 
da Cunha de Goa em fim de Outubro com 
fua Arm.ada , que com a de Diogo da Sil- 
veira 5 que achou em Baçaim , levava cem 
velas 5 em que hiam dous mJl Portuguezes , 
que todos eram mui nobre , e luzida gente. 
Os galeões eram oito , de que a fora a nao 
capitaina , hiam por Capitães Diogo da Sil- 
veira 5 António de Lemos , Manuel de Ma- 

ce^- 



5'io ÁSIA DE João de Barros 

cedo , D. Eítevão da Gama , António de Sá 
o Rume, Diogo Alvares Telles , D. Gaíláo 
Coutinho. Das galés , e galeotas eram Ca- 
pitães Manuel d'Alboqiicrque , Vaíco Pires 
de Sampaio , D. Pedro de Menezes , Ma- 
nuel de Vaíconcellos , Fernão de Lima, 
D. Fernando Deça , António da Silva de 
Menezes , Vafco da Cunha , c outros Fi- 
dalgos. Chegado o Governador de fronte 
de ]]um lugnr chamado Danii , íoube que 
ElPv.ey de Cambaya paíTára o dia de antes 
com nove galés para Dio , e logo dalli lhe 
mandou dizer per Simão Ferreira , que on- 
de mandava que fe vilTem , fe em Madrefa- 
vat , ou no mar, e com ellc mandou a João 
de Sant-Iago por língua, que fora Mouro, 
e fe torndra Chriftão. E profeguindo fua 
viagem 5 chegou á Ilha dos Mortos , e nel- 
la efpcrou Simão Ferreira que não tardou , 
e com elle vinha Coge Sofar , que lhe dif- 
ie da parte d^ElRey de Cambaya , que lhe 
pedia foíTe a Dio , e que lá fe veriam. Def- 
ta Ilha fe foi o Governador a Dio , e da 
barra tornou a mandar Simão Ferreira com 
Coge Sofar a EiRey a faber delle em que 
lugar queria que fe vifTem. Entretanto que 
vinha a refpoíla , fahio o Governador em 
terra com alguns Capitães , e Fidalgos, on- 
de chamam o Palma rinho , para ver fe po- 
diam proar alli as galés j para que queren- 
do 



Dec. IV. Liv. IV. Ca?. XXIV. 511 

do EIRcy que lè viflcm naquclle Jugar , fa- 
zer clicgar a elle as galés , para ficar ícgu- 
ro com iua artilheria , IclheElRcy dcCam- 
baya quizeíTe fazer alguma violcncia. Eílan- 
do nifto , veio Simáo Ferreira ao Governa- 
dor , e diíTe , que ElRey nao acabava de 
ferefolver onde fe haviam de ver; mas que 
lhe mandava pedir , que entretanto fe náo 
xhm , lhe mandaíTe lá os Capitães dos ga- 
leões 5 e da galé baílarda para os ver ; o 
Governador os mandou , c foram mui gen- 
tis homens , e ricamente veílidos , ElRey os 
recebeo com muita honra , e agazalhado, 
moftrando-lhes que folgava muito de os ver. 
Manuel de Macedo , que era hum dos 
Capitães 5 fabendo que Ruracchan procura- 
va de haver a capitania de Dio , que era 
de Melique Tocam , com quem elle tinha 
amizade , c que EIRcy determinava de lha 
dar 5 íe chegou a ElRey com muito acata- 
mento ; e pcdindo-lhe licença para faliar, 
lhe diííe : Que fe efpantava muito de ouvir 
dizer , que Sua Alteza , fendo hum Príncipe 
tclo prudente, e valcrofo , e tão grande re- 
munerador dos fcrviços que recebia , queria 
tirar a capitania de Dio a Melique Tocam 
fcu vaííallo , -e que tão bem o tinha fervi- 
do 5 e filho de tão fmgular Capitão como 
fora Melique Az , que tantos ferviços fizera 
a feu pai , e a elle , e que tanta honra ga- 
nha- 



512 ASlA DE JoAO DE Barros 

nhára aoRcyno deGuzarate, e dalla a Ru- 
mcchan , homem cílrangciro , e de que náo 
tinlia mais experiência , que flizer traição ao 
Turco feu Senhor , e que por effa cauía 
viera a Cambaya , mais que para o fervi r , 
polo que nao le devia fiar delle , e por hum 
homem tao fem verdade aggravar a quem 
com tanta lealdade , e verdade o fcrvíra. 
E que fe Rumechan aíli eftava , (que cUq 
o não conhecia^) e lhe negaíTe o que elle 
dizia , lho faria conhecer pelas armas , e o 
defaíiava , e pedia para iifo licença a Sua 
Alteza. Rumechan que alli eftava , e ouvio 
aquellas palavras ao interprete , nao reípon- 
deo por íi coufa alguma. ERvey o olhou 
com olhos torvos por clle nao rcfpondcr 
por fua honra ; e entendendo Manuel de 
Macedo que era Rumechan aquelle para 
quem ElRcy olhava , outra vez o tornou a 
defafiar por a mcima caufa , dizendo mais , 
que podia mctter comíigo outro , porque 
com ambos fe mataria. Vendo ElRey que 
nem a ifto refpondia Rumechan , lhe diííc 
com ivã 5 que como não refpondia ao def- 
afio ? Ao que Rumechan diíTe , que por o 
nao ter em conta ; porém que pois affi que- 
ria , clle acccitava o deíafio fó porfó: eaííi 
foi aííinado por campo o mar , para cada 
hum pelejar de fua furta. Sabendo o Go- 
vernador do defaíio de Manuel de Mace- 
do, 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXIV. ^i^ 

do , folgou muito , e lhe deo licença para 
o flizer, e lhe mandou elquipar hum bar- 
gantim em que lè metteo , e foi furgir jun- 
to da Lagea. Tardando Rumechan , por 
parecer ao Governador que com m.edo da 
Ília frota não vinha , fe fez ao mar hum ef- 
paço ; e logo lahíram oito fuílas toldadas , 
e embandeiradas , e huma diante da outra 
foram demandar o bargantim de Manuel de 
Macedo ; e dando todas huma volta ao re- 
dor delie , fe recolheram ao porto donde 
fahíraai , e não voltou mais alguma , o que 
parece foi por não querer ElRey que Ru- 
mechan fahiíTe ao defaíio. E vendo o Go- 
vernador que tardava muito , fez final a Ma- 
nuel de Macedo com hum tiro que fe re- 
colheíTe , o que eile fez com muita honra, 
A refolução que ElRey tomou fobre as 
viftas , foi mandar dizer ao Governador que 
fe queria ver com elle , eftando á jancila 
de hum baluarte , e o Governador no mar 
em huma galé. Vendo o Governador o def- 
propofito que ElPvcy queria ter nas viftas , 
lhe m.andou dizer , que per aquella maneira 
fe não queria ver com elle. 1 udo ifto eram 
perfuasões de Rumechan , que receava de 
fe dar a fortaleza em Dio , de que elle pre- 
tendia fer abfoluto Capitão , e Governador ; 
o que não podia fer com a vizinhança dos 
Portuguezes. Também fazia a ElRey não 
Tom.IF. P.L Kk que- 



514 ÁSIA DE João de Barros 

querei' ver no Governador as efpcranças em 

?iic cilava de fazer pazes , e alliança com 
hnaum Patxinh Rey dos Mogoles , com 
que já começava a ler ufano , e cuidar que 
jhenao fariam damnos os Portuguezes , mas 
que cUq os poderia com ajuda dos Mogo- 
les lançar da índia , o que tudo lhe fucce- 
deo ao contrario. "" 

Qiiando o Governador Nuno da Cunha 
vio que a fua vinda fora emvao, e apou- 
ca verdade , e defprinior d'ElRey , lhe man- 
dou fazer cruel guerra per toda a coíla , e 
efcrcvco logo a Omaum Parxiah Rey dos 
Mogoles per via do Sinde , offerecendo-lhe 
iua amizade , e fazer toda a guerra per mar 

a Sol- 

a EJia jorjjada do Governador efcreve mui particular" 
mente Francifco de Andrade nos cap. 8 6. 87. 8 8. 89. da 
2. Farte. E dá culra caufa do dejafio de Alonuel de Ma- 
iwdo. Fernão Lo^es de Cartanheda ent tudo fe conforma 
ccvt o cjue efcreiíe joão de Barros. jE Diogo do Couto re- 
fere no cap. 8. do hv. S. Qtíe ejie dejaf.o foi por outra cau' 
Ça , e com outro Kuniechan , <]ue era genro de Cooe Sofar , 
chamado Tifrre do Ahindo . e (jiie o desafio foi tantos por 
tantos y cujo número não afirma D ogo do Couto , mas diz 
tjuc os ifue achou nomeados foram Manuel Rodrigues Cou- 
tinho , António de Sá o Rume , JoÃo Jufarte Ti^-ão , Gon- 
^troVaz. Coutinho, Joiio Velho ^ € Francijco Gonçalves das 
J^rmas. E não fax menção da ida de Vafco da Cunha a 
X)io , nem da emlfaixada que o Governador mandou per 
'X'' alão de Gá a Soltam Badur , o qual di:<^ ^ue mandara 
7u'dir per huma carta a Auno da Cunha que Je vi/Jcm , e 
tíue o portador da ca ta era hum pagem de Badur , a que 
encontrara Diogo da Silveira na paragem de Surat em 
hum navio ligeiro , e o levara ao Governador , que movi- 
do das- palavras da carta , fiura ejla jornada a D/ff- 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXIV. ^i^ 

a Soltao Badur , por fer homem fem ver- 
dade , e de que fe não devia fiar. Ao que 
Omaum rclpondeo , moftrando ter grande 
defejo de fua liança , e amizade. De Dio fe 
veio Nuno da Canha a Chaul , onde deí- 
pachou algumas Armadas para diverías par- 
tes. Hum.a de nove velas entregou a Antó- 
nio da Silva de Menezes para ir a Benga- 
la : outra de três galeotas , e treze fuílas le- 
vou Vafco Pires de Sampaio para o eftrei- 
to , em que hiam trezentos homens. Os Ca- 
pitães das galeotas eram Vafco Pires, Dom 
Pedro de Menezes , e D. Manuel de Li- 
ma. Outra Armada para o mefmo eftreito 
mandou de cinco galeões , de que hia por 
Capitão mór Diogo da Silveira ; e os ou- 
tros Capitães eram D. Gaftao Coutinho , An- 
tónio de Sá , Diogo Alvares Telles ^ e An- 
tónio de Lemos , e lá fe haviam de ajuntar 
com elles Vafco Pires de Sampaio, ^ 

De Chaul fe foi o Governador a Goa * ^ 
e delia defpachou D. Eftevão da Gama para 
Malaca , por fer primeiro em tempo que 
feu irmão D* Paulo que lá eftava , dando- 

Kk ii lhe 

a Em Fevereiro partiram ejlas Ármaâas para o Ef' 
treito , e chegadas á cojia de Arábia , tomaram algumas 
nãos de Cambaya , e de Achem , e com a fazenda delias fe 
foram invernar a Ormuz , e dalli a Chaul , onde DiogJ 
í!a Silveira entregou as Armadas a Marfim Afonfo de Sou^ 
fa , como fe dirá no ultimo Capitulo dejie livro, Diogo ása> 
Couto cap. IO. do liv. 6. 

^ Diogo do Couto cap, 9. ão liv, %, 



yió ÁSIA DE João de Barros 

lhe poderes de Veedor da Fazenda , e hu- 
ma Provisão para fcu irmão D. Paulo ficar 
por Ca pilão mor do mar todo o feu tem- 
po , té lhe tornar a caber a capitania , que 
era apôs elle , porque eftava o Rey de Ujan- 
tana de guerra , e era neccílario acudir a 
ella ; para o que deo Nuno da Cunha a 
D. Eílevão três galeões , de que eram. Ca- 
pitães ellc D. Eílevão , Simão Sodré, e An- 
tónio de Brito , que havia de ir a Banda , e 
alguns navios ligeiros , em. que hiam André 
Calco 5 João Rodrigues de Soufa irmão de 
Maríim AíFonfo de Soufa , e D. Francifco 
de Lima. Neíl?. Arm.ada levava D. Eílevão 
quatrocení^os Portuguezes , e feu irmãc Dom 
Chriílovâo da Gama com Provisão para fer- 
vir de Capitão mór do mar, fe D. Paulo o 
não quizeíle fer. E neíla conferva foi também 
Vafco da Cunha na náo Santa Cruz , para 
em Malaca carregar de drogas , e de pi- 
menta da Jaoa , e ir-fe para Portugal , fa- 
zendo fua viagem pelo boqueirão da Sunda, 



CA- 



Década IV. Liv. IV. 5*17 

CAPITULO XXV. 

Como Cunh ale Marcar tomou hum hargan^ 
tim , e outros 7iavios de Fortuguezes ^ 
e da mo^te que lhes de o : e como An- 
tonto da Silva de Menezes desba- 
ratou ejle cojjãiro , e lhe tomou 
as fujias, 

ANtes que o Governador partiíTe para 
Dio ^"5 deixou Manuel de Soufa em 
guarda da cofta do Malnvar , da qual por 
pouca vigia dos noíTos fahio de Panane Cu- 
nhale Marcar , Mouro coíFairo fobrinho 
de Patê Marcar , com oito fuftas bem ar- 
madas i e navegando para Choromandei , 
no Cabo de Comorij achou de noite furto 
hum bargantim noíFo com hum falcão , e 
féis bergos , em que Jiavia dezoito Portu- 
guezes 5 e três bombardeiros , e fahia de 
Coulão a dar guarda ás náos dos mercado- 
res daquella terra , que vinham carregadas 
de arroz. E como os noíTos dcfcuidadam.cn- 
te dormiíTcm , nao fentíram os Mouros den- 
tro no bargantim fenao quando lhes ata- 
ram, as mãos. A todos mandou Cunhale ma- 
chucar as cabeças na proa do bargantim com 
hum marrão de bombardeiro em pena de 
dormirem tão defcanfadamente fem medo 

dei- 

a Franclfco de Andrade cap. 91. da 2. PorU. 



5i8 ÁSIA DE João de Barros 

delle. Aos bombardeiros , e comitre levou 
prezos , e dalli foi íakeando toda aquella 
coíla té Negapatain , onde fempre eílavam 
inuitos Portuguezes , e Mouros mercadores. 
Eftes receando que , entrando Cunhale na- 
quelle porto , os roubaíTe juntamente com 
os Portuguezes , por fe lègurarem delle , lhe 
mandaram dizer, que viciíc áquelle lugar, 
onde acharia boa preza na fazenda dos Por- 
tuguezes , que eílava á borda do rio, pelo 
qual poderia entrar fem difficuldade. 

Defte trato foi fabedor o Digar da ter- 
ra, e efperando de fer feu o maior, e me- 
lhor quinhão da preza , efcreveo a Cunhale 
que vieíTe feguramente , porque elle ajunta- 
ria gente para o ajudar , fingindo que era 
para defender o lugar , e os mercadores que 
nelle citavam , como lhe mandava feu Se- 
nhor. Polo que o coíTairo fe poz logo com 
fua Armada na barra de Negapatam , que 
fabendo-o os Portuguezes , que eram qua- 
renta , enterraram o dinheiro onde lhes pa- 
receo que poderia eftar mais efcondido , e 
fe concertaram com as armas que tinham o 
melhor que puderam para fe defenderem. 
E não tendo noticia do trato dobre do Di- 
gar , que os fegurava , promettendo-lhe de 
os defender , lhe requereram qtic lhes guar- 
daíTe fuás fazendas , deque proteftavam lhes 
havia de dar conta • e com algum fato , e 

man'» 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXV. 5^9 

mantimento que levavam feiís efcravos , fe 
lahírani do lugar com tenção de fe paíLirem 
aterra de outro Senhor que cftava dalli per- 
to ; poréni não lho coníentindo o Digar, 
fe mettéram cm hum pagode cercado de 
muro , o qual terraplenaram , e cerraram a 
porta que eftava na borda de huma lagoa 
grande com determinação de fe defenderem 
nelle. O Digar , que vio os Portuguezes en- 
cerrados 5 poz fobre elles muita gente de 
guarda , porque não fugiíTem , para os en- 
tregar a Cunhale , que era já entrado no 
rio ; mas não fahíra em terra , porque o 
Digar o não fora receber á praia ; o qual 
vendo os noíTbs fortificados , temendo que 
mandalTem algum recado a feu Senhor , não 
fe quiz moílrar defcubertamente em favor 
do coQairo ; mas mandou-lhe dizer , que 
defembarcaíTe , e tomaííe as fazendas que 
achalTe dos Portuguezes , e os fuíTe matar 
ao pagode, que eilava dalli meia légua. 

Havia nefte lugar hum Mouro merca- 
dor mui rico , conhecido, e amigo dos Por- 
tuguezes , chamado Coge Marcar , que ainda 
tinha algum parentefco com Cunhale. Efte 
procurando falvar os noílbs , foi viutar ao 
parente com hum prefente , e lhe diíle , que 
por fer feu fangue o hia avifar que fe não 
fiaíTe do Digar, que eftava concertado com 
os Portuguezes , que mandara de propofito 

met- 



5'20 ÁSIA DE João de Barros 

metter no pagode para lhe ir queimar a 
Arinada em quanto elle com a ília gente 
os foíTc combater. Ao que o coíTairo , co- 
mo era recatado , deo credito , e ao paren- 
te graças pelo avifo. Coge em fe apartan- 
do de Cunhale , fe foi ao Digar , e em gran- 
de fegredo lhe diífe que fe não fiaíTe de Cu- 
nhale , que a elle fó queria tomar , porque 
tinha entendido que o enganava; eque por 
ter já roubado o dinheiro aos Portuguezes , 
lhe mandara dizer que os foíTe matar ao 
pagode , para entre tanto lhe queimar as 
fuftas : de que o Digar cobrou tamanho me- 
do 5 que nunca fe quiz ver com o coifai ro 
por mais recados que lhe mandou , e aílí 
temendo-fe , e vigiando-fe hum do outro , 
os Portuguezes por efte meio fe falváram. 
Cunhale porém fahio em terra com fua gen- 
te 5 e queimou as cafas dos Portuguezes , e 
alguns navios que eílavam varados , e to- 
mou alguns zambucos noífos carregados com 
fazendas , que vieram ter áqiielle porto nos 
dias que nelíe fe deteve , e a oito Portu- 
guezes que vinham em hum navio os man- 
dou levar a terra , e atados em páos matar 
ás frechadas. 

Da tomada do bargantim , e mais na- 
vios 5 e mortes dos Portuguezes , e roubos 
que efte coílairo andava fazendo deo El- 
Rey de Cochij avifo a Pêro Vaz Veedor 

da 



Década IV. Liv. IV.Cap.XXV. 5'2I 

da Fazenda , e Capitão da Cidade , para 
que vingalTe tantos males , e damnos , e íe 
íegLiraiTem as náos dos léus mercadores que 
eípcrava. Pêro Vaz aprcftou logo oito fui- 
tas , e quatro catúres com duzentos eípin- 
gardeiros , de que fez Capitão António da 
Silva de Menezes. Defta Armada , e da par- 
tida delia de Cocliij foi logo aviíluio Cu- 
nhale ; e porque os ventos eram contrários 
para íe tornar para a índia , metteo-fe em 
huma enleada da mefma cofta , chamada Ca- 
nhameira , com groflas peitas que deo ao 
Senhor da terra que o recolhefle , e metteo 
as fuílas por hum eíleiro que entrava para 
dentro huma légua , cuja boca fez cerrar 
com vallados de terra , e rama de manei- 
ra 5 que parecia não haver alli eíleiro , e na 
entrada delle armou huma tranqueira com 
a artilheria das furtas. 

António da Silva fabendo que Cunhale 
eftava naquella enfeada , entrou nella, e des- 
embarcada toda a gente em terra , a que 
fe ajuntou a do lugar , foi dar nos Mouros 
que eílavam na tranqueira , os quaes com 
pouca refiftencia a dcíamparáram , e fe pu- 
zeram em fugida , feguidos dos da terra , 
que os foram m^atando , e dcfpindo ; e tor- 
nados ao lugar , defentopíram o eíleiro , e 
tiraram da vafa o noíTo bargantim , e as 
fuílas de Cunhale , que limpas , c lavadas 

com 



^21 ÁSIA DE JOAO DE BaRROS 

com a maré íahíram para fora do efteiro ; 
e queimadas três por eftarem quebradas , com 
as outras , e com o bargaiuim , em que fe 
recollico a artilheria , e munições do coííai- 
ro , íe tornou António da Silva para Co- 
chij. Cunhale Marcar em trajos de pedinte 
fe foi per terra a Calecut , onde eílava feu 
tio Patê Marcar , com quem tornou a con- 
tinuar o officio de coíTairo. 

CAPITULO XXVL 

Como António da Silveira Capitão de Or-* 
muz mandou D. Jorge de Caftro , e de- 
pois Francifco de Gouvea a cajiigar 
ElRey de Raxet , por fe levantar 
contra ElRey de Ormaz. 

EStando António da Silveira por Capi- 
tão de Ormuz *" , mandou a D. Jorge 
de Caftro com huma galeota , e duas furtas 

com 

a "Defla Capitania provêo o Governador a António da 
Silveira o anno pajpuio de i)J2, a q'ial fervia Belchior de 
Soufíi Capitão inór da mar , e Alcaide mór daijuella forta- 
leifi per morte de Chrijlovão de Mendoça Capit'10 delia. 
Onde chegando António da Silveira , ElRey de Ormuz fe 
lhe çtieixou de Kaez. Ale feu irmão , iftte 9 (jtii^^era matar 
per induzimento de ftia mãi , pe/a t/ttal ra^F/o o tinha prC' 
zo , e lhe não quiij:'''^ dar a msrte que merecia , por não 
haver diJ/ensÕes no Reyno. António da Silveira por fatis- 
f<í!z.er á queixa d"" ElRey , emhnrcou a Raex Ale conj toda 
ftia cafa no mefmo navio em que fera , e o mandou a Goa 
(10 Governador , efcrevendo-lhe a caafa porque a mandava , 
ê quat o receheo conforme a qualidade de fua pefjoa , c lhe 



Década IV. Liv. IV. C a p. XXVL 5'23 

com cem homens efpingardeiros , que foíTe 
cartigar aElRey de Raxet , (Cidade nacof- 
ta da Pcríia,) porque fendo vaííallo d'£I- 
Rej de Ormuz , com huma Armada que 
trazia naquelle mar , roubava quantos vi- 
nham para Ormuz , no que Ellley muito 
perdia "nos direitos. E por D. Jorge achar 
os tempos muito contrários no Cabo de Or- 
facam , e lhe matarem , e cativarem os re- 
mei ros da galeota em que hia , e oito Por- 
tuguezes em huma iilada que os Mouros 
lhe armaram em terra, querendo elle fazer 
aguada em huns poços de hum higarinho 
de dez , ou doze cafis de palha , foi força- 
do tornar-fe a Ormuz. Continuando ElRe/ 
de Raxet na rebellião , e queixando-fe m.ui- 
ío ElRey de Orm.uz a António da Silvei- 
ra , e pedindo-lhe mandaíTe caíligar aquelíe 
Mouro , António da Silveira tornou apref- 
rar a Armada , e mandou Francifco de Gou- 
vea por Capitão mor delia em huma galeo- 
ta , e João Ribeiro em hum bargantim , e 
Ruy Gomes em outro , e Nuno Vaz em 
huma fufta , e cinco catiires com duzentos 
homens ; e fem ter na viagem os trabalhos 
que paíTou D. Jorge , chegou Francifco de 
Gouvea ao porto da Cidade de Raxet , e 

fur- 

iomoíi a homenagem , ãe que fi nTio tomaria a Onnuz fem 
fua íicetjça , o que Rne':^ Ale cumpria. Fernão Lopes de 
CaftanheJa cap. 50. do Uv. 8. e Francifco de Andrade 
cap. 7j. da 2. Parte. 



5'24 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

furto nellc , foi logo vifitado per hum Mou- 
ro , da parte d'ElRey , com refrefcos , e 
palavras de cumprimento , dizendo que que- 
ria dar os nofíbs cativos que lá tinha , e af- 
fentar paz comnofco , e reduzir-fe á obediên- 
cia d'E}Re7 de Ormuz , para o que elle 
Capitão mór fahiíTe em terra ordenar as Ca- 
pitulações das pazes , c aílinailas com o fea 
Guazil. Francifco de Gouvea fe moílrou 
coiíteute deíle recado ; e fabendo pelo avifo 
que lhe tinham dado quão diííereníe era a 
tenção d^ElRey , que eftava com o animo 
damnado contra nós , c que tinha mandada 
que eftiveííe preftes fomma de gente de pé , 
c de cavallo , para que em lhe fazendo fi- 
nal fahiíTem aos nolTos , e os cativaíTem. 
Polo que o dia que Francifco de Gouvea 
fahio em terra aíTentar a paz, como hia avi- 
fado , mandou pôr todas fuás embarcações 
com osefporoes em terra , e a artilheria to- 
da fevada , e os murroes accezos , e elle 
com cincoenta homens armados defembar- 
cou diante da Cidade , e fe foi a huma ten- 
da , onde eftava Frajula Guazil do Reyno , 
que vinha cm lugar d^ElRey com poderes 
feus para aíUnar as pazes ; e vendo o Gua- 
zil os noíTos táo cautelofos , não fe atreveo 
a executar o que eftava ordenado ; alli as 
Capitulações das pazes fe ef:revêram , e af- 
finadas por ambos , Francifco de Gouvea 

fe 



Década IV.Liv. IV. Ca ?. XXVI. 5'25' 

íe recolheo aos feus navios , e o Guazil fe 
foi dar conta a EIRcy do que fe fizera , o 
qual fe indignou tanto contra cile , que com 
hum terçado 5 que tinha na míio , o matou; 
e mandou hum Capitão íeu com muita gen- 
te a guardar huns poços , onde os Portugue- 
zes haviam de fazer aguada , no que hou- 
ve alguns recontros fobre os noílbs quere- 
rem tomar agua; e por náo cuílar fangue , 
e Francifco de Gouvea ter pouca gente , en- 
caminhou ahumallha vizinha aRaxet. No 
caminho houve vifta de humas fuílas da Ar- 
mada d'ElRey de Raxet , a que mandou 
]ogo arribar , e cilas fe acolheram a hum 
rio ; e duas que ficaram de fora , huma va- 
rou em terra , e outra foi tomada dos noP- 
fos , que vinha carregada de efpeciaria , que 
os Mouros tomaram de navios que hiam 
de Ormuz para Bafçorá , e nella cativaram 
hum fobrinho d'ElRey de Raxet. Ifto aca- 
bado 5 tornou Francifco de Gouvea a feguir 
leu camjnho , e chegando á Ilha achou a 
povoação defpejada , e em huma Ríefquita 
alguns feíTenta homens d'armias em guarda 
pela devoção que os Mouros nella tinham , 
que devia de fer pouca , pois a defampa ra- 
ra m por fe não terem porfeguros, e íè fo- 
ram para hum forte, parecendo-lhe quenel- 
le fe falvariam , e por derradeiro fe entre- 
garam a Francifco de Gouvea, promettcn- 

do- 



^20 ÁSIA DE João de Barros 

do-Ihe as vidas *, e feira fiia aguada , a re- 
querimento do ibbrinho d'ElRcy tornou a 
Raxet , onde o Rey por refgate do ícbri- 
nho lhe mandou dar os cativos , e deo a 
obediência a EIRey de Ormuz , e aíTentou 
de novo a paz , dando defcuipas ao paliado 
das que os Mouros coílumam dar em íe- 
melhantes calos. Francifco de Gouvca foi 
correndo áquelle Eftreito té a Ilha de Ba- 
Jiarcm , donde efcreveo a EIRey de Bafço- 
rá o que fizera , e Uiq mandou a efpcciaria 
que tomara , o qual a cftimou muito , e em 
retorno mandou muitos mantimentos, eof- 
ferccimentos a Francifco de Gouvca , que 
deixando o Eftreito feguro , ie foi invernar 
a Ormuz , onde chegou a falvamento , e 
achou que EIRey era falecido, e levantado 
por Rey hum filho feu de idade de oito ân- 
uos , que depois foi m.orto com peçonha , 
cue dizem lhe mandou dar feu tio Raez 
Ale , que eftava em Goa , o qual fuccedeo 
no Reyno , cm que fez muitos fervidos a 
EIRey de Portugal. 



CA- 



E 



Década IV. Liv. IV. 527 
CAPITULO XXVIL 

Como Marthn Affonfo de Soufa foi de For- 
tugal por Capitão mór do mar da Índia , 
e tomou D amam , e o deftruio : e como 
ElRey de Cambaya pedio paz a Nu- 
no da Cunha , e lhe deo por ella 
Baçaim com todas fuás rendas, 

Stando o Governador em Goa , cJie- 
gou nefte anno de 15' 3 4 huma Arma- 
da "" , de que hia por Capitão mór Martim 
Affonfo de Soufa , que EUley mandava com 
cargo de Capitão mór do mar da índia , e 
com elle hiam por Capitães das outras náos 
Simão Guedes para Capitão de Chaul , DÍo- 
go Lopes de Soufa . António de Brito , e 
Triftão Gomes da Grã ^ O Governador en- 
tiegou logo a Martim AíFonfo a capitania 
mór do mar , e huma Armada , em que lhe 
mandou que foíTe fobre Damam : com qWq 
])iam Manuel de Soufa de Sepúlveda , Mar* 
tim Corrêa , Fernão de Soufa de Távora , 
D. Diogo de Almeida , Francifco de Sou- 
fa , e João de Soufa Lobo , que hiam por 
Capitães das galés , e galeoras. E em Chaul 
\h^ entregou Diogo da Silveira fua Ar- 

ma- 

a Frota da Jndto do anno de i n4' 
b Diogo do Couto chama a eftc Capifão Trljlão Ge* 
mes da Mina, 



5'28 ÁSIA DE João de Bakfos 

mada '^ , e a de Vafco Pires de Sampaio , 
que eram vindos de Ormuz onde inverná- 
ram : faziam eílas velas número de quaren- 
ta 5 rodas mui bem artilhadas , em que hiam 
quinhentos homens. Cliegando Marílm Af- 
fonío a Daniam 5 achou o lugar todo deftrui- 
do pelo mefmo Capitão delle , que fe re- 
colhera á fortaleza com quinhentos homens 
que tinha Turcos , e Resbutos , de que mui- 
tos eram efpingardeiros. E porque Martim 
Aftoníb íoube que defembarcando no rio 
havia de ter muito impedimento por caufa 
da artilheria que eílava em certas eftancias 
pofta ao longo delle , derembarcou de noi- 
te na coib fem entrar no rio , poílo que 
foi muito trabalhofo , e tomou o caminho 
de que já eílava avifado , que hiadar da ou- 
tra banda da fortaleza , onde chegou ainda 
ante manha , e com os muitos efpingardei- 
ros que levava foram logo os muros delia 
defpejados da muita gente que porelles cf- 
tava , e foi poíla nelles huma efcada j e o 
primeiro que per ella fubio foi Francifco 
da Cunha , por fer homem que em todas 
as partes , em que aííl elle , como feus ir- 
mãos 

a Entre<ruê a Armada , fe pajfou Diogo da Silveira 
a Goa , onde defyedindo-fe do Governador fe foi para Co- 
chi) , e daUi fe veio para Portugal por Capitão mor da 
Armada , tjne icvott Martim Affonfo de Soufa , em qitc tam- 
i£m fe emharcou Jorge Cal/ral , c outros Fidalgos, Dio^jo 
do Couto liv. 9. cap. i. 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXVII. 5'29 

mãos íe acharam , fcmpre foram os primei- 
ros nos perigos , por nao degenerar de feus 
avos Ruy de Mello da Cunha Almirante 
deftes Rcynos , e Diogo de Barros Adail 
delles , os quaes ambos foram mui esforça- 
dos cavalleiros. E indo Francifco da Cu- 
nha já para lançar mao das ameas dos mu- 
ros , quebrou a efcada com elle por fer 
velha , c podre , e elle grande de corpo , e 
a quantos hiam trás elle levou ao chão , e 
fe efcalavráram. A eíle tempo abriram os 
Mouros huma porta da oucra banda da for- 
taleza para fe irem , aonde os noíTos logo 
acudiram , e houve huma brava peleja , os 
Mouros por íiihirem , e os noíTos por en- 
trarem. O primeiro que entrou foi Diogo 
Álvares Telles , e apôs elle outros , que to- 
maram os inimigos em hum terreiro , que 
eftava dentro da fortaleza , em que havia 
mais de cincoenta de cavallo j eftes peleja- 
ram mui esforçadamente , té que a vitoria 
fe declarou por os noíTos com morte de 
muitos dos inimigos. Acabado ifto , man- 
dou Martim Aífonfo de Soufa arrazar a 
fortaleza de todo ; c ella arrazada , fe em- 
barcou 5 e foi correndo a cofta té Dio. 

E por Damam fer huma fortaleza de 

Gue EIRey de Cambaya fazia muita conta , 

lentio muito a perda delia, e as muitas vi- 

íorias que cada dia dos lugares da cofta de 

Tom.IF.P,L Li Cam^ 



530 ÁSIA DE João de Barros 

Cambaya haviam os Portuguczes. E porque 
lhe era forçado acudir á guerra , que lhe fa- 
zia ElRey dos Mogoles , (como diremos 
adiante , ) receando que fe defamparaíTe Dio, 
que lho romaria Nuno da Cunha , para o 
fegurar em quanto hia á guerra dos Mo- 
goles 5 quiz fazer pazes com elle , e dar- 
Ihe Baçaim ; e para iíTo mandou por Em- 
baixador a Xacoez "■ , o qual íòi ter a Goa 
com Nuno da Cunha , e \\\q deo fua em- 
baixada. E havendo de parte a parte tra- 
tos 5 e Capitulações , tornou Xacoez com 
procuração de feu Rcy , e íe fez huma pú- 
blica efcritura das pazes , cuja íubftancia era : 
Oue Nuno da Cunha , como Governa- 
dor da Índia , e Procurador d^ElRey de 
Portugal f cu Senhor , concedia pazes per- 
pétuas em feu nome a Soltam Ba durKey do 
Guzarate ^ com ejlas condições: 

a y^acoex. era per fua prudência , e confelho pefjoa de 
muita authoridade na caía d''ElRey Badtir. E ejcreve Dio- 
go do Couto , que elle chegou em três navios ligeiros á 
larra de B aça ira y na (jual ejiava o Governador furto com 
grande Armada , onde viera com penfamento de pajfar a 
jyio , e de a occupar , tanto que Badtir fohifje de Cnvi' 
hnya á guerra do Mogol j e que recehera ^ e ouvira a Xa- 
coe/, no feu galeão com grande apparaío ; e que affentadas 
íís Capitulações das pazes , e Juradas por amhos , o Go- 
vernador efpcdíra logo o Secretario Simão Ferreira para 
ir a Camhaya a vellas jurar por Soltam Badur , que as 
jurou com grande folemnidade -, e defpachado o Secretario , 
partira Nuno da Cunha para Goa , levando comjigo Xa- 
coe^e, em reféns de Simào Ferreira. Cap, 2, do iiv. 9. 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXVII. 5:31 

Qí4e o dito Rey do Guzarate daria a 
FJRty de Portugal para fempre Baçaini , 
com todas fuás terras firmes ^ emar ^ com 
toda fua júri dição mero , e mixto império , 
com todas as rendas , e direitos Reaes , 
ajfi como elle , e feus pajfados per feus Ca^ 
pitães , e Tanadares houueram , e que de 
tudo pudejjem logo mandar tomar pojje per 
feus Officiaes, 

Que todas as nãos , que partiffem dos 
Reynos , e Senhorios do Guzarate para o 
eftreito do mar Roxo , partiffem de Baçaim , 
e alli vieffem tomar feus cartazes do Ca- 
pitão da fortaleza , e que da torna-viagem 
tornaffem ao mefno porto de Baçaim a pa- 
gar feus direitos, 

" Q^^ todas as outras nãos , que 7tave- 
g(^íferd para outras partes , levariam car- 
tazes dos Capitães das fortalezas ã^El- 
Rey de Portugal , com que poderiam nave- 
gar livremente , fem outra alguma obri- 



gação. 



Que emjtenhum porto ã^ElRey deCam- 
baya fe faria navio de guerra y e os feitos 
7U10 navegariam mais. 

Que Soltam Badur não recolheria em 
feus portos Rumes , nem lhes daria favor , 
mantimejítos , nem coufa alguma que hou-^ 
veffe em feus Reynos, 

LI ii Quç 

a Diogo do Couto no cap, 3. 4^ Ih. 9, 



5'p ÁSIA DE JoAo DE Barros 

Que todo o d'inheh'0 que eftava por ar- 
recadar das rejídas de Baçaim , defde o 
tempo de Melique Az , o pudejje mandar 
cobrar o Governador, 

Que os cavallos , que utejjem do eftrei^ 
to de Meca , ou de Arábia , os primeiros 
três annos depois da fortaleza de Baçaim 
acabada , veriam a ella , para Badur man- 
dar comprar alli os que quizejfe ^ pagan- 
do os direitos que delles fe pagavam em 
Goa, 

Que vindo alguma náo de Soltam Ba- 
dur com cavallos para elle , não pagaria 
direitos de fefjenta. 

Que vindo alguma não de qualquer par- 
te (conto não foJ[e do ejireito de Meca) pa- 
ra o Reyno de Cambaya , e defgarrando com 
temporal , fe tomajjè Baçaim , poderia fa^ 
hirfe do porto livremente quando quizeffe. 

Que cinco mil tangas de Larijs , que 
fias rendas de Baçaim efiavam applicadas 
para as Me f quitas , fe pagariam fempre 
das niefmas retidas. 

Que fe pagariam das mefmas rendas 
duzentos parddos aos foldados das forta- 
lezas Aceira , e Coeja , como de antes fe 
pagavam. 

Mas depois que Soltam Badur deo a 
Fortaleza em Dio , fe diftratáram algumas 
dçi):as condijoes , concertando-fe o Gover- 
na- 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. XXVII. 5-33 

nador, eElRey de Cambnya , que as náos 
de Meca , que neceírariaiiicntc haviam de 
ir, c vir a Baçaim, foíTein a Dio , fe qui- 
zeirein , e aííi todas as mais náos , com al- 
gumas declarações fobre os cavallos que vi- 
nham de Ormuz , e da Arábia. Além dif- 
to , por virtude do dito contrato , promet- 
teo ElRey que entregaria os cativos que 
cílavam prezos em Champanel , c Nuno da 
Cunha muitas vezes lhe pedio. Confirmadas , 
e aílinadas eílas pazes , o Governador íe 
foi a Baçaim , onde o Embaixador d'EI- 
Rey de Cambava lhe deo poíTe daquella 
Cidade "* , e das mais terras , ilhas , e ren- 
das , conforme aos contratos que tinham 
feitos. E logo o Governador mandou fazer 
huma Feitoria * , em que poz Gafpar Paes 

a E/ia poj/c' j íf/zFrancirco de Andrade tio cap. 7. da 
5. Parte y (fue a tomou Martin Affônfo de Soufa per or- 
dem do Governador , que ficara em Goa , e não fax men- 
ção da fua vinda a Baçaim. 

1/ ÈJcreue Diogo do Couto nos cap. 1. e ^. do iiv. 
9. Qjíe no mefmo dia , em que Nuno da Cnnlia tomou poffi 
de Baçaim y elege o oJitiOy em que queria fundar huma for- 
taleza , cujos alicerces fe ahríram logo , e que aos 20 de 
Janeiro deitou o Governador neíles a primeira pedra , e 
pofla em defenfa , a proveo de artilheria , e os Armazéns 
de mantimentos , e munições , e deo a capitania a Antó- 
nio da Silveira , que áquel/e tempo chegara de OrniUT^, 
Mas ido encontra o que efcrevc João de Barros no cap. 
17- do liv. 6. Francifco de Andrade no cap. ij. da j. 
Parte , e Fernão Lopes ds Caílanheda no cap. 126. do 
liv. 8. afirmando todos que o Governador começou a for- 
talexfl d: Baçaim quando voltou de Dio , deixando naqueí- 



5*34 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

para a feii tempo fe fazer fortaleza , e fe 
tornou para Goa , porque fe vinha o inver- 
no ; onde nós ora o deixámos por dar ra- 
zão no Livro fcguinte da defcripçao , e cou- 
fas do Reyno de Guzarate por o muito 
que delle havemos de tratar ao diante. 



DE- 



ta Cidade feita foytaUxa. E gue a capitania da de Ba* 
^aim deo a Garcia de Sá gue alli eftava , e defend2ra dos 
J^íogoles a Feitoria , e Cidade com as tranqueiras gue 
ordenou António Galvão, como fe efe revê no cap, i6. do 
mefmo tiv. 6. 









:x>í;>o<xx>í:>;>cxx\-r<>.:.>;:>:;i\\^'^ 



DÉCADA (QUARTA. 
LIVRO V. 

Governava a índia Nniio da Cunha. 

CAPITULO I. 

Em que fe defcreve o Reyfw de Guzarate , 
e as gentes de que he habitado, 

SEndo as coufas da índia , e das outras 
Provincias Orientaes , que os Portugue- 
zes defcubríram , e conquiftáram , tao 
novas , e incógnitas aos homens de Europa , 
e tão dignas de virem á noticia do Mun- 
do , e de que os Gregos , e Romanos anti- 
gos tão pouco deixaram efcrito : os Rom.a- 
nos por não chegar feu Império áquellas 
partes; e os Gregos por não lhes durar mui- 
to o domínio que em algumas delias tive- 
ram ; não deve parecer fora da matéria que 
emprendemos de efcrever os feitos que os 
Portuguezes nellas fizeram, , referir alguma 
coufa do fitio das terras , da origem de feus 

pó- 



5'3<^ ÁSIA DE João de Barros 

povos , e de feus Reys , e Príncipes , dos 
coftiimes , e feitas delles , e do modo de fua 
niilicia , para aíli fe vir em mais fácil co- 
nhecimento defta Hiftoria , e fe poder col- 
ligir a eftima em que fe devem ter os Por- 
tuguezes , que tantas , e tão feras napcs 
tantas vezes venceram , e trouxeram a feu 
jugo ; e recebendo delles as parias , e tribu- 
tos , como vencedores , e fenhores feus , lhes 
dam as leis , a lingua , e a muitos a Reli- 
gião. Sendo pois noflas coufas tão travadas 
com aquellas gentes , aííi por a guerra , co- 
mo por o commercio que com elles temDs , 
não podemos efcrever de coufas noífas , que 
não feja também das fuás. E além da ne- 
ceílidade que temos de tratar parte de fuás 
couíâs para melhor entendimento das nof- 
fas , não fica fendo pequeno ornamento, e 
utilidade da hiíloria , para exemplo , e svi- 
fo de noífa vida , recontar variedades de 
emprezas , e caufas per que fe intentaram , 
e os fuccelTos delias , para com fua noticia 
alcançarmos juizo , e prudência , para nos 
governarmos em outras femelhantes , que 
he o principal fim , e fruto da hiíloria. Po- 
lo que havendo nós ora de tratar de algu- 
mas coufas de muito pezo , e maior coníi- 
deração , que os noíTos fizeram no Reyno 
de Cambaya , deixámos para efte lugar a 
defcripjão do Reyno todo ^ e a origem dos 

Reys, 



Década IV. Liv. V. Cap. L 5-37 

iVeys , que á noíTa noticia puderam vir , co- 
mo foremos eie outras Províncias , e de ou- 
tros Revs nos Livros que le ao diante le- 
guem , e fizemos no? paliados. 

O Reyno do Guzarare , a que geralmen- 
te chamam Cambaya , ( como diílemos na 
deícripçao geral do marítimo da Índia'*,) 
começa na ponta dejaquete, e acaba no rio 
Nagotana , que he o limúte do dito Reyno , 
e das terras de Chaul , que sao do Senho- 
rio do Nizamaluco. E para fe melhor en- 
tender a lituaçáo defte Reyno , ufaremos de 
noffa mao efquerda , fegundo já em outras 
partes figurámos a cofta marítima da Indlai 
Virada efta mao com a palma para baixo , 
juntos os dedos , e afaftando delles o pol- 
legar , fica feita a enfeada de Cambaya ; e 
na parte mais curva pegada na juntura def- 
te dedo poUegar , da banda de dentro , ef- 
tá fituada a Cidade de Cambayet , a que 
chamam.os Cambaya , que por íer a mais 
nobre , e populofa , e como Metropoli da- 
quelles lugares marítimos , dá nome nao fo- 
mente á mefma enfeada , mas a todo o Reyr 
no. Porém efta nobreza , e trato que antes 
tinha , perque era celebrada , perdeo quan- 
do a Cidade de Dio fe fundou , pela ma- 
neira que adiante diremos. Porque a nave- 
gação daquella Cidade he táo perigofa por 

cau- 

H Cap. I. do liv. 9. ãa primeira Década, 



538 ÁSIA DE João de Barros 

caufa do grande macareo que tem , que quan- 
do a maré enche , e vafa , fe foçobram mui- 
tas náos. Eíle macareo , ou fluxo da maré , 
he tão veloz , que não ha cavallo , por li- 
geiro que feja 3 a que a maré nao alcance 
quando entra pela planície da praia , com 
que íe perde muita gente , c fazenda no rio 
Carcarij , que fe vem metter no ultimo feio 
defta cnfeada , acima da dita Cidade de 
Cambaya. Na foz deíle rio , para fe nao 
perder gente, per ordenança dos que regem 
a terra , em hum lugar alto , eílá fempre hu- 
ma vigia, que vê vir a maré de mui lon- 
ge , a qual vem fempre tão levantada , e fo- 
berba , que parece huma montanha de agua ; 
e como começa apparecer , aquella vigia 
tange huma bozina , perque dá avifo que 
ninguém paífe o rio ; porque vem a maré 
tão repentina , e furiofa , e mette tão gran- 
de quantidade de agua naquella paíTagem , 
que alaga tudo. E ainda que efta vigia não 
enxergue com os olhos a maré, tem outro 
mui certo final delia vir, que he o grande 
número de aves , que andam naquella cam- 
pina da praia marifcando na ifca que acham 
domar, as quaes per hum inílinfto natural, 
ainda que não vejam a m.aré , quando ha de 
vir , he tanta a gralheada , e apitar que fazem, 
fugindo todas para a terra, que as ouvem 
mui longe , poílo que as não vejam. E pot- 
ra- 



Década IV. Liv. V. Cap. L 5-39 

razão defte macareo tão perlgolo, na Cida- 
de de Cambaya eílá hum eíiciro , onde os 
navios fe recolhem , furtando-ie do Ímpeto 
da maré , que vai direita correndo bufcar 
a garganta do rio , onde faz o damno que 
diííem.os. Efte perigo não tem a Cidade de 
Dio , antes he mui proveitofa fua navega- 
ção , porque eílá aquella Cidade fituada ío- 
bre a ponta do dedo pollegar , que puze- 
mos por figura , que fica mais a Ponente , 
e aonde concorrem todas as nãos que vam 
d'ambos eftreitos , de Ormuz , e de Meca , 
e aíli de toda a cofta de Melinde ; as quaes 
quando querem paíTar á índia , que he to- 
da a parte do dedo index , que corre da íe- 
gunda junta té o fim delle , fica eíla Cidade 
de Dio quafi como huma efcala daquelle 
Levante , e do Ponente, por neíle Reyno 
haver mais cópia de mercadorias de entra- 
da , e fahida, que em toda a índia, tiran- 
do pimenta , e outras efpeciarias , que nas- 
cem da terra do Malavar para o Oriente. 

E tornando á noíla divisão deite Reyno 
do Guzarate , do nó do meio do dedo in- 
dex , que figuramos fer o rio Nogatana , 
termo Orientai defte Reyno , té a Cidade 
de Dio , poderá haver nefta cofta aíTi cur- 
va , como fe moftra , oitenta léguas ; e cor- 
rendo té a ponta de Jaquete , cento e vinte 
cinco. Per dentro pelo fcrtão da parte do 

Po- 



540 ÁSIA DE João de Barros 

Ponente , que he o dedo pollegar , vizinha 
com os povos Resbutos. Eíles habitam em 
huma corda de íerranias , e matas , que co- 
meçam do Cabo Jaquete , e correm para o 
Norte , e Nordeile té o Reyno Mandou , 
que eílá fobre ajuntura deíle pollegar , com 
o qual Reyno também por a parte do Nor- 
te vai vizinhar eíle do Guzarate , e pola do 
Nordefle com o Reyno de Chitor , e do 
Leíle com o de Pale , tomando toda a cof- 
ta da enfeada que diíTemos , onde tem mui- 
tas Cidades , e povoações. " 

Def- 

a Para accommõãar a verdatleira ãejcripção prefente 
ãejias regiões Orientaes com a a>iti<ya de Píohmeu , (jm 
■per erradas informa-^Ões , cotn grandif/i'na differença da 
fónna da cofia , c das alturas de f^us cabos , e lagares el- 
le defcreveo , he nece[fario tifar de conjeíluras ; porçiie a 
cojla da índia defde a ponta de Dainam té o Caho de Co- 
mori) , qiie corre do Norte ao Sul , //tua Ptolomeu de Po- 
nente a Levante ; e fe elle a dcfcrevêra defde o promon- 
tório SimyHa , que he a ponta de Daniam , té o de Cory , 
^ue he o de Comori; , como na verdade elta corre ^ e os 
■promontórios Bale o , e Sim\dla efiiueram pojlos na altura 
ifue elíes tem , viera a jituar o Cabo de Comori j quafi na 
altura em que eíle ejlâ y porque o Promontório Simylla dif- 
ta do de Cory y fegundo Ptolomeu ^ quint.e gráos de Ponen- 
te a Levante f e dous menos ha de Norte a Sul, de fie a. 
ponta de Dama» ao Cabo de Con.iri/. E afji per con- 
je:'iíiras parece que os dous Jinos Canthi , e Barigazeno 
de Ptolomeu são as duas enfeadas de Jaquete , e Cambayat 
o Promontório Baleo he a ponta de Jaquete. A Ilha Bara- 
ce , que elle litua arrimada a e(le cabo, querem alguns er-. 
radaimnte que feja a Ilúa de Dio , defcrevendo Ptolomeu 
a Barace na entrada do Jino Canthi da parte de dentr^j ;' 
e ficando a de Dio arrimada ã cojla , que corre da ponta 



Década IV. Liv. V. Cap. I. 541 

Deíle Rcyno quafi todo o maririmo , 
principalnicme o da parte do Oriente, alem 
de ler terra clia , he regada de dous notá- 
veis rios Taptij , e Tapetij , e de muitos el- 
reiros d'agua falgada , que a retalham á ma- 
neira de Ilhas : he mui fértil de mantimen- 
tos de todo género , e de grandes criações 
de gados , que paftam a fertilidade das íuas 
campinas. E o mefmo he da outra parte da 
coíla do Ponente , ainda que não tem aquel- 
la abundância de aguas ; e ao longo do mar 
fe levanta a terra alguma coufa , e fe abai- 
xa 5 com que fica montuofa cm refpeito da 
outra. Sahindo deite maririmo té ir dar nas 
Serranias dos Resbutos pela parte do Po- 
nente, e do Norte, e Nordefte, onde efte 
Reyno parte com os Reynos que diíTemos , 
quafi tudo são campinas tão chans , que to- 
do o ferviço da gente he em carros , que 
levam bois , que não andam tão pezadamcn- 
le como os noíTos de Hefpanha ; nem são 
tão grandes , mas são muito mais vivos na 
andadura , que aíjios Mourifcos , e tem no 
2ndar mais aíTento que as facas de Irlanda 
de maneira , que fegundo dizem , alguns 

dos 

âe Jíiquele paro a enfeada ãe Camíaya , e tão junta â ter- 
ia firme y que hwn ejUiro mui ejlreito a devide delia. O 
JPt omontorlo Simylla , omle fe termina o fino Barigaxeno , 
■parece fer a ponta de Damam ; e o rio Nanaguna , poÍa 
feyyjelhança dos nomes , e dif anciã , o rio Nagcíana , tcrmt 
fcr aaueíla parti do Reyno íftf Çamhya, 



54^ ÁSIA DE João de Barros 

dos noflbs , que provaram eíles dous modos 
de caminhar , menos trabalho fentem os que 
vam neftes canos de Cambava , que os que 
vam nos carros de Itália , e Flandes tira- 
dos por cavallos , e tem melhor curfo , prin- 
cipalmente cm jornadas curtas. 

Todo efte Reyno de Guzarate he mui 
povoado de quatro géneros de gente , de 
povo natural da meíina terra , a que cha- 
mamBaneanes de duas fortes: huns saoBa- 
gançarijs , que comem carne , e pefcado ; 
outros Baneanes , que não comem coufa 
que tiveíle vida ; outros são Resbutos , que 
antigamente eram os nobres daquelia ter- 
ra 3 também Gentios " j outros Mouros cha- 

ma- 

a Ha nejte Rcyno de Camtaya ijuatro cofias de Gen- 
tios , (]ue são os Bramenes , em que ejiã ofacerdocio , [co- 
mo cm todo Orioite ) os Baneanes , <jue são mercadores , 
os Catheris , (jiie tem armas , e as exercitam na guerra , 
e Vices y que fe occupam em cicios mecânicos. Tem tam- 
hem certo modo de re/igiolos , que chamam Vertias , con- 
trários da feita dos Bramenes , os quaes andam cuhcrtos 
com hum panno hranco , e n^o podem lavar , nem tirar , 
fem primeiro fe fazer em pedaços , [obre elle fe afjentam , 
ou n9 chão -. vivem de efmola , e não podem guardar cou- 
fa alguma de hum dia para c outro. O (jue com mais cui- 
dado procuram para fiia falvaqão he não matar coufa vi- 
va , e ajji não contentem faxcremfe tanques , porque po- 
dem nelles morrer es peixes ; e não accendem de noite can- 
dea por não morrer nella algum íicho, Trazem todos nas 
mãos humas vafouras compridas para irem varrendo o chão 
per onde paffam , por não acertarem de pitar , ou mataf 
com os pés algum hicho. O P. Fernão Guerreiro nafiia relação 
AnnaU dos coufas da índia dos ann.os 606. e 607. Hv. y c. 12* 



Década IV. Liv. V. Cap. I. 5-43 

mados Lutcas , que sao naturacs da terra , 
convertidos novamente á feita de Mafame- 
de ; outros sao Mouros , que vieram de fó- 
ra 5 e conquiftáram a terra , lançando delia 
CS Resbutos. A gente popular he mui dada 
ao trabalho , aíli da agricultura , como da 
mecânica ; e ncíla parte he tão ílibtil , e in- 
duftrioía , que tem com o trato das obras 
que fazem enriquecido aquelle Reyno , por- 
que mais feda , e ouro fiado fe gafta nclle 
em pannos tecidos de diverfas fortes , que 
em toda a índia ; e a Cidade de Patam po- 
de competir em número de teares com. as 
Cidades de Florença , e Milão. De marfim , 
de madrepérola , concha de tartaruga , la- 
quequa , criílal , lacre , verniz , páo preto , 
e amarelo ^ e de outras coufas que fervem 
para leitos , cadeiras , vafos , e armas de to- 
da forte 5 fódeíle Reyno fàhem mais obras, 
que de todo o reílante da índia. E daqui 
vem fer dlc abafcado de todas as coufas ne- 
ceílarias -, porque as que naturalmente, ou 
artificialmente não tem , lhas trazem os que 
vem bufcar as que elles tem , que sao mui- 
tas. A gente do povo he naturalmente fra- 
ca , e cativa de condição , por ferem da li- 
nhagem Baneane , a qual guarda com gran- 
de religião a feita de Pythagoras , de não 
comerem coufa que feja viva. E são tão fu- 
períliciofos na obfervancia deíle preceito não 

ma- 



5:44 ÁSIA DE João de Barros 

matarás , que as immundicias que cm 11 
criam , as íacudem em parte que náo íejam 
maltratados. Polo que quando os Mouros 
querem dclles haver alguma coufa , trazcm- 
Ihes diante hum paflaro , ou outro qualquer 
animal , ainda que feja huma cobra; e fa- 
zendo que a querem matar , elles a com- 
pram , e íoltam por não verem íua morte , 
etem que fazem niílo grande ferviço a Deos. 
Té huma carreira de formigas fe atraveíTam 
per hum caminho per onde algum Baneane 
vá 5 ou a pá , ou a cavallo , ha de rodear 
por náo paliar por cima delias. ^ Per pre- 



cei- 



a Ufnm de tanta comjwixTio , e humanidade com es 
Jtfíitos y (]ue para curar os r"JI'^>'^^ ^^^ "^ Keyno de Cavv 
I/aya hum hofpital, cuja múçiiina de enfermeiros y e fábri- 
cas de enfermerias não são menos dignas de efpanto , ^tte 
de rifo ; porque ha muitos homens faíariados das rendas 
do mefmo hofpital , que tem por oficio andar pelas Cida- 
des , e lugares , e correr o campo em bujca das aves, e 
pn [faros doentes , e aleijados y para ferem alli 'curados y e 
fujleníados. Outros andam peias praças , onde os Mouros 
sacadores lhes vendem os pa/aros , que elles não deixam 
de comprar per nenhum preqo , pmente para que lançados 
logo a voar , os tornem a p?>r em fua liberdade. Da mef 
ma maneira tem currais deputados para o gaia^hado , e 
■cura de toda a jorte de alimárias , que por doentes ^ oti 
velhas feus donos deitam ao almargem. E para que fe co- 
jjheqa bem o auihor defla fua mifericordiofa bejiialidade , 
fe encontrarem hum homem morrendo ao dcfamparo , ou o 
.virem lançado per terra pi^ar dos que pafjam y nemjajw 
.ãaráo a levantar , nem porão os olhos nelle , e não lhes 
ficará poffaro que não ref gatem , e deixarão morrer ao 
-■próprio pai em duro cativeiro. O P. JoSo de Lucena rn;í, 
í2. do liv. 2. da vida do P. Francilco Xavier. 



Década IV. Liv. V. Cap. I. S49 

ceito de fua religião não podem ter arma 
alguma em cafa; c he a gente mais delga- 
da , e engenhofa em o negocio do commer- 
cio , que quantas temos defcubcrto, tirando 
os Chijs 5 que niíTo , e na mecânica leva 
vantagem a todas as nações do Mundo. A 
outra gente defte Reyno , já convertida á 
feita dos Mouros , pofto que feja também 
fraca , como he mifturada deftas ambas na- 
ções , por a parte que tem dos Mouros , 
que são eítrangeiros , e trazem origem de 
gente mais robufta , fazem a cíles Gentios 
muita vantagem ; e de todos elles, os ho- 
mens mais valentes na guerra são os Res- 
butos 5 que habitam as ferranias que diíTe- 
mos , os quaes foram já fenhores defte Rey- 
no do Guzarate , e com a vinda dos Mou- 
ros fe foram recolhendo ao alto das ferras , 
como fizeram os Hefpanhoes quando os 
Mouros entraram em* Hefpanha , que fe re- 
colheram aos Montes Pyreneos , e ás mon- 
tanhas de Oviedo. E defde aquelle tempo 
fempre entre os Resbutos , e os outros fi- 
cou hum capital ódio , e contenderam en- 
tre fi. Ecomo eftes Resbutos eram da mais 
nobre gente , que fenhoreava aquella terra 
do Guzarate , e são homens grandes , e for-- 
çofos, c não tem a religião dos Baneanes^ 
armados , e em bons cavallos defcem dag 
montanhas , e vem ao baixo ás povoações ^ 
Tom.IKP.L Mm ou- 



540 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

onde fazem grandes prezas. Governâo-fe os 
Resbutos ao prelbnte em Republica per os 
mais velhos , repartidos em Senhorias ; e fe 
todos fe conformaíTcm em amizade , e nao 
contendeíTem entre fi , já foram fenhores do 
Guzarate que feus avôs perderam. Porém 
com efta divisão , e com o poder da arti- 
Iheria , de que elles carecem , por nao te- 
rem commercio do mar , nao lhes aprovei- 
tam fuás forças , e animo para mais , que pa- 
ra cilas entradas quediíTemcs. Eoque prin- 
cipalmente iez aos Reys Mouros , que con- 
quiíláram aquelle Reyno , poderofos contra 
cila robuíla , e guerreira gente , foi fazerem- 
íe logo fenhores dos portos de mar , perque 
foram metlendo muita gente Arábia , Per- 
fa, e Turquefca 5 e de nação Grega, eLe- 
vantifca , a que eiles chamam Rumes , os 
quaes vem cada anno aquelle Reyno bufcar 
mercadorias , e ganhar grandes ioldos , que 
eftes Reys Mouros lhes dam, com que tem 
conquiílado o que ora poíTuem , e defendi- 
do de nós , depois que conquiílámos a ín- 
dia. A noíla entrada foi caufa deíles Res- 
butos perderem de todo as terras chans que 
polTuiam. ; porque como os Reys Mouros , 
por fe defenderem de nolTas Armadas , ti- 
nham grande neceílidadc de recolher aquel- 
]a gente eílrangeira que diíTemos , ella mef- 
ina lhes deo a induílria , e animo para fe 

de- 



Dec. IV. Liv. V. Cap. I. E ri. 5'47 

defender dos Rcsbiitos , de cuja religião , e 
crença de três PelToas , e hum ío Deos , e 
veneração da Virgem Maria NoíTa Senhora , 
e outras couías , que parece haverem feus 
maiores recebido dos Apoftolos , em a nof- 
fa Geografia o efcrevemos particularmente. 

CAPITULO II. 

Como 5 e em que tempo os Mouros começa- 
ram a ganhar o Reyno do Guzarate 
aos Gentios, 

EM que tempo , e perque maneira os 
Mouros entraram no Reyno do Guza- 
rate 5 e fe fenhoreáram delle , elies mefmos 
cm íuas hiftorias le confutam , e encontram 
em quem foi o primeiro. Mas nefta noíTa 
narração feguiremos a mais commum opinião 
dos efcritores do mefmo Reyno do Guza- 
rate. E fegundo elles efcrevcm , no anno 
de 700 da era de Mafamede , que he o de 
Chrifto Noflb Redemptor de 1292 reinava 
no Guzarate hum Principe Gentio por no- 
me Galacarná , homem mui poderofo , e ef- 
forçado de fua peíToa. O qual poílo que com 
a maior parte de feus vizinlios eftava em 
paz 5 por temerem de o anojar , fempre vi- 
veo em diíFerenças com hum feuirm^o mais 
moço. A caufa defta difcordia era, porque 
feu pai de ambos deixou hum Eílado , que 
Mm ii íi^ 



548 ÁSIA DE João de Barkos 

tirou da Coroa do Reyno , e o deo a cfte 
moço , e com clle titulo de Rey , cuja ca- 
beça era a Cidade de Champanel , que per 
litio era a mais forte do Reyno do Guza- 
rate. E como efte Galacarná arguia que fcu 
pai não podia defmembrar do Reyno tanta 
parte dcJle para o dar a leu irmão, e mais 
com titulo de Rey , e dk lho queria tirar 
como coufa que liie pertencia , fuccedco da- 
qui 5 que por fe fazer poderofo hum con- 
tra outro , ambos ficaram fracos para o que 
lhes fobreveio. E o cafo foi , que tendo 
eíle Galacarná dous Capitães ambos irmãos , 
e os mais principaes do feu Reyno, poftos 
na frontaria contra aquelles , com que tinha 
guerra ; o maior delles , que chamavam 
Madaná , tinha huma das mais formofas 
mulheres do Reyno , a qual era da linha- 
gem daqueilas , que elles chamam Padami- 
nij 5 que fegundo aííirmam , alem de ferem 
mulheres mui perfeitas em feus feitos , e 
formofas em fuás peíToas , per natureza lhes 
cheira mui fuav emente toda a roupa que 
veílem , como que da compreifsão , e boa 
proporção de humores proceda efte cheiro 
á fua carne , e delia ás veftiduras que tra- 
zem , como contam que fazia a Alexandre 
Magno." E por iííb eram aquellas mulhe- 
res 

a Plutarco na vida âe Alexandre Magno , referindo 
os Cotnmentarios de Arijlo^ono, 



Década IV. Liv. V. Cap. II. ^49 

res inais cílimadas entre aquelle Gentio , das 
quacs dizem elles agora , que com difficul- 
dade íe acha alguma naquellc Reyno do 
Guzarate ; mas que no de Orixá ha muitas. 
Vendo ElRey Galacarná eíla mulher de 
Madaná leu Capitão , aílí por a formofura 
de lua peíToa , como por íer daquella boa 
natureza, e compoílura , tanto fe lhe aíFei- 
çoou , que bufcou todos os meios para go- 
zar delia ; mas ella reíiílindo ás importuna- 
ções d'ElRey , e a íuas promeíTas , em na- 
da confentio indo EIRey dcfconhecido a 
fua cafa. Polo que como ella era de pro- 
pofito caftiíTima , e amiga da pureza de fua 
peflba , e da honra de íeu marido , lhe deo 
aviío que fecretamente fe vieíTe logo ver 
com cila 5 porque aíli importava á honra 
de ambos. Chegado o marido , deo-lhe con- 
ta do que palfava , e como chegara EIRey 
a tanto , que huma noite viera ter a fua 
cafa , ao qual ella defpedíra , fingindo certos 
inconvenientes , pelos quaes não podia en- 
tão fazer-lhe a vontade , o que faria dahi 
a poucos dias ; as quaes efcufas elle accei- 
tou , e lhe prometteo de a tomar por mu- 
lher. Madaná , depois que particularmente 
foube o procedimento que EIRey tivera na- 
quelle negocio com fua mulher , mandou- 
Ihe que fe fízeíTe preftes o mais fecretamen- 
te que pudeíTe , porque elle hia dar conta 

a feu 



5'5'o ÁSIA DE JoÂo DE Barbos 

a fcLi irmão daquelle cafo , para pôr em or- 
dem fuás coufas , em quanto elle tornava 
por cila. Finalmente os irmãos ambos le 
fizeram em huma vontade , e tomando fe- 
cretamente fuás mulheres, e ornais prccio- 
fo de luas fazendas , ajuntaram fuás gentes , 
e fizeram feu caminho ao Reyno do Delij : 
e tanto pode a perfuasao delles , e a cubica 
de Xiah Nofaradim "" Rey daquelle Reyno, 
que com grande exercito lè ajuntou com 
eíles dous irmãos , e veio conquiftar o Rey- 
no do Guzarate ; e por fe defviarem do po- 
voado do Reyno de Mandou , que fe met- 
te entre o Reyno do Delij , e o do Guza- 
rate com grandes montanhas , commettê- 
ram de paífar huma táo afpera , que pare- 
cia coufa impoílível ; mas á força de bra- 
ços 5 e de ferro romperam huma penedia 
tão maravilhofa de ver , que por memoria 
daquelle feito mandou ElRey do Delij edi- 
ficar alli huma Cidade mui populofa , a que 
poz nome Mandanai , por honra do maior 
daquelles irmãos. Mas como não era eftra- 
da real , nem caminho para outras partes , 
e ninguém hia áquella Cidade fenao quem 
tinha negocio nella , veio-fe perder, e di- 
minuir , e hoje he mui pequena , e obfcura. 
Entrando aquelle grande exercito no Rey- 
no 

a 'Deflc Rey do Delij Xiah Kojarãlnt tratou João de 
Barros no cap. 2. do liv. 5. da 2. Década. 



Década IV. Liv. V. Cap. II. 5'5'T 

no do Guzarate , como a maior parte da- 
quella gente em aquelle tempo era dos Ba- 
neancs , que como diíTemos , por fiia reli- 
gião nao tinham armas em caía , levemen- 
te foi conquilbdo , e ElRey Gaiacarná mor- 
to em JiLima batalha. Seu irmão , porque fa- 
bia que a entrada de Xiah Nofaradim fora 
por induftria dos dous irmãos pola injúria 
recebida , pareceo-lhe que náo receberia da- 
mno delles , e deixou-fe eftar na fua Serra 
do Champanel , fem querer ajudar ao ir- 
mão ; mas não tardaram muitos dias, que 
morto o irmão na batalha , Nofaradim o 
foi bufcar , a quem não oufando efperar por 
o pouco poder que tinha em refpeito de feu 
inimigo 5 deixou a terra , e com o mais pre- 
ciofo que tinha de fua fazenda , e com al- 
guns que o quizeram faguir , atraveUou a 
fcrrania de Paie , a qual he tão afpera , que 
té agora neíles noíTos tempos , que o Senhor 
daquelía terra fe fez vaíTallo de Soltam Ba- 
dur Rey de Cambaya , nunca foi conquif- 
tada , havendo tanto tempo que iílo paíTou. 
ElRey Xiah Nofaradim , fazendo defte 
Rey de Pale pouca conta , o deixou , e o 
Eftado que ganhou entregou a hum feu Ca- 
pitão chamado Habedxiah , que naquella 
guerra , e em outras conquiftas lho tinha 
merecido ; para fegurança do qual deo par- 
te do exercito que trazia , e lhe mandou 

que 



5'5'i ÁSIA DE João de Barros 

que conquiílaíle o mais que ficava do Rcy- 
no. Aos dous irmãos Mandaná , e Cacaná , 
que o trouxeram a ganhar aquclle Reyno , 
e o ajudaram , deo dobrado Eftado do que 
tinham em vida d'ElRey Galacarná. E em 
memoria de fua vinda áquellas partes , fun- 
dou huma Cidade de feu nome , que hoje 
eílá em pé 5 e os Guzarates lhe chairíam 
Nozcarij , que difta da Cidade do Champa- 
jiel vinte léguas pouco mais , ou menos ao 
Levante. 

Os Reys de Mandou , e de Chitor , te- 
mendo que quando cfte Príncipe Xiah No- 
faradim tornaíTe para o Delij , lhes rouba f- 
fe, e deftruiíTe fuás terras de paíTagem , ou 
com o favor da vitoria que houve dos Gu- 
zarates , quizeíTe intentar a conquifta de feus 
Reynos , mandáram-lhe Embaixadores com 
grandes prefentes , entregando-fe por feus 
vaflallos 5 com obrigação de certo tributo 
por anno. Com efta ofFerta ficou Nofaradim 
latisfeito , e fem llies fazer damno paíTou 
per fuás terras , e fe foi ao Delij. Té aqui 
contam as hiftorias do Guzarate defte Prín- 
cipe que os conquiftou, * 

As 

a Pelos annos de loo do Nafcimento de NoJJo Salva- 
dor Vaixáram dos u/timos termos Septentrionaes innumg' 
ravels gentes repartidas em Tribtis » tjue vieram congtiif- 
tando tudo o çtie /az. do monte Caiicafo para haixo ic Com" 
haya» Eram ejlas gentes Mogofes , Tártaros , Chacatais , e 
Reskttõs, Bjies fe apoderaram do Gui/arate , e foram fC' 



Década IV. Liv. V. Cap. II. ^^^ 

As Chronicas dos Pcrfas, de quem nós 
tomámos ai guinv^s couíhs dos Rcys delia pa- 
ra cila noíla hiftoria , dizem , que no anno 
de 708 de Mafamede , que são 1300 denoC- 
fa Redempção , reinou na Tartaria Orien- 
tal hum Príncipe Tártaro, por nome Iara 
Mexernij Clian , íiliio de Doa Chan , em 
cujo tempo poucos Tártaros houve que não 
abraçalíem a falfa lei Mahometana. Eíle , fen- 
do Príncipe mui guerreiro , entrou na ín- 
dia , e ganhou o Reyno do Delij , e dcíceo 
ao do Guzarate , o qual fez fcu tributário ; 
e tornando-fe para feu próprio Eílado , dei- 
xou no Rcyno do Delij hum feu irmão cha- 
mado Doa Chan , como íèu pai , e no Rey- 
no do Guzarate hum feu Capitão. E fegun- 
do a conveniência dos tempos , que he a 
coufa que na hiftoria fe mais deve coníide- 
rar pêra a verdade delia , parece que o Xiali 
Nofaradim , e efte Tara Mexernij era hum 

mel- 

nhores de todo o Inãoftan ', que repartiram entre fi , to- 
viando as calietjas iittilo de Rajas , que he o mCjíno que 
Governadores , té cerca dos annos de ijoo , que vieram 
todos a ferem conquiflados de hum Rey do DcH/ , chamado 
Soltam Nofaradim , [que he o mefmo a que João dç Bar- 
ros chama Xiah Nofaradim nejie copitnio , ) cujo Império 
fe ejiendeo defde o rio Indo tê o G enfies , e recofhendofe 
para o Delij , onde falleceo brevemente , deixou em todos 
os Reynos do Decan hum Governador , e outro por nome 
Mahamud , [que João de Barros no capitulo feguinte cha- 
ma Hamed , ) no Reyno do Guzarate , com o qual elle fe 
alqoti tomando titulo de Rey , quando Joube da morte de 
Soltam Nofaradim. Diogo do Couto Dec. 4. liv.i. cap. j» 



5'5'4 ÁSIA DE João de Barros 

mcfmo Rey , poílo que os nomes fejam dif- 
ferentcs j pois ambos , fegundo dizem , qua- 
li em hum mefmo tempo conquiftáram o 
Reyno Guzarate. Xiah Nofaradim nos an- 
nos de Mafamede de 'joj , e Tara Mexer- 
nij 5 poílo que pontualmente a Chronica que 
temos dos Keys de Perfia náo diga em que 
anno conquiftou os Reynos do Delij , e do 
Guzarate , fabemos que depois de Ter tor- 
nado á íua própria pátria , foi morto no 
anno de Mafamede 708 por hum fcu ibbri- 
nho chamado Puron , filho de Taimu Chan 
em huma batalha junto da Cidade de Cha- 
ta. E porque per morte dellc , íegundo a 
mefma Chronica dos Perfas , foi levantado 
por Rey Daiagan Chan fcu filho , o qual 
por vingar a morte de feu pai matou mui- 
tos Senhores , que foram na conjuração dei- 
ta morte , revolveo-fe o Império de manei- 
ra 5 que muitos Capitães , que eílavam em 
diverfas Províncias governando por elle , fe 
levantaram por Reys , dos quaes feu tio Doa 
Chan ficou Rey do Delij , e o Capitão do 
Reyno do Guzarate. 

E poílo que a Chronica dos Perlas di- 
ga 3 que poucos l'artaros ficaram que fe nao 
fizeíTem Mouros cm tempo de Xiah Tara 
Mexernij \ ou que cíles dous Príncipes , que 
elle deixou no Guzarate , e Delij , não fe- 
riam tão confirmados naquella feita , que 

per- 



Década IV. Liv. V. Cap. II. 5'5'5' 

permaneceílem nella ; ou porque a terra era 
toda de Gentios , os Rcys que depois ílic- 
cedéram a eíles primeiros Conquiftadores fo- 
ram Gentios. E querer enfiar a linhagan de 
Iiuns em outros , elies melmos o nao podem 
fazer por as mortes , levantamentos , e mu- 
danças , que os Eftados tem , quanto mais 
nós 5 que diíTo nao temos mais noticia que 
a que delles recebem.os. Bafta para continuar 
noila hiftoria , que o Reyno do Deiij per 
alguns annos teve o império dos Reynos 
de Guzarate , de Mandou , de Chitor , e 
Canará , e de toda a terra , que jaz entre 
aquelles celebrados rios Indo , e Ganges , a 
que propriamente chamamos índia , eosna- 
turaes Indoftan. E que eíles Reynos , e feus 
Principes fe izentáram depois da morte de 
Xiah Nofaradim 5 que com a gente que na- 
quellas Provincias mettia daqucllas partes do 
Norte , que naturalmente he conquiíladora , 
os enfreava. 



CA- 



yjó ÁSIA DE João de Barros 
CAPITULO III. 

Como Hamed Mouro Tártaro de nação veio 

fer Rey do Guzarate , de que procederam 

todos os Reys que té agora foram : 

€ o que pajjou fobre fua fuc- 

cefsão. 

NOanno de i33odenoíraRedempcão, 
__ hum Mouro Tártaro , cliamado Ha- 
med , homem rico , e poderofo , que vivia 
ua Cidade de Cambaiet , a que nós chama- 
mos Cambaya , com favor dos Arábios, 
Perfas , c gentes de Europa , principalmente 
Gregos 3 e Turcos , a que elles chamam 
Rumes , que áquelle Rey no hiam por cau- 
fa do commercio , fe levantou com parte 
do Reyno Guzarate , tomando per força de 
armas ao Rej Gentio que então reinava , 
que fc chamava Deíingue Rao , muitos lu- 
gares , e a Cidade de Madrefavat , que na- 
quelle tempo era mui grande, e populófa , 
e difta cinco léguas de Dio , que depois fea 
neto Peruxiah ennobreceo , como adiante 
diremos. Eííe Hamed , pofto que era caval- 
leiro de fua peíFoa quanto bailava para cf- 
ta empreza , que tomou de fe intitular por 
Rey em Reyno alheio , era elle táo pruden- 
te , que iíTo lhe deo maior fer para o que 
foi, que as armas contra o Rey Gentio. E 

aíTi 



Década IV. Liv. V. Cap. IIL 5'5'7 

aíTi confidcrando clle que o que faz osRcy- 
nos 5 e as Republicas mais florentes , são ho- 
mens , e riquezas , recolhia todos os eftran- 
gciros , alli da Europa , corno de Africa , 
Egypto , Arábia , e da Períia , aos quaes 
dava grandes foldos, com que fazia muita 
guerra ao Rey Gentio ; e com todos ufava 
de muita juíliça , e liberalidade , que são as 
partes com que os Principes fe fazem bem 
quiftos , e reverenciados. E para enriquecer 
ícu Reyno , não fomente recolhia nelle to- 
da forte de mercadorias que tinham valia , 
e de fua mão fe repartiam pelos que as ha- 
viam miíler , fem delias querer mais ganho 
que terem todos neceílidade delle ; mas ain- 
da todo género de moeda eílrangeira , quer 
foíle de Mouros 5 quer de Chriftãos da Eu- 
ropa , ou de Gentios daquelle Oriente , man- 
dava que correíTe cm feu Reyno por maií? 
do que valia nas terras donde vinha , caufa 
que entraffe nelle grande quantidade de ou- 
ro 5 e prata. Teve tam.bem outras partes 
mui principaes para fer bem quifto , que 
aos Principes cuflam pouco , e Jhes rendem 
muito. Além diíb , o que o fez mui pode- 
rofo para conquiftar aquelle Reyno do Rao , 
foi viver clle muito , e ter vinte filhos de 
divcrfas mulheres, que quaíi todos yio ho- 
mens em feus dias. 

Per morte deíle Príncipe reinou feu fi- 
lho 



^jS ÁSIA DE João de Barros 

lho Ale Chan. "" Eib accrefcentou ao Eftado 
herdado muitas terras, que tomou ao Rej 
Gentio ; mas cm huma batalha que lhe deo 
junto da Cidade de Cambaya , foi vencido 
do Gentio com perda de muita gente , e 
defpojo de duas náos ricas que deram á 
coda 5 com que ficou o Rey Gentio mui 
rico , caufa de elle depois perder em outra 
batalha dez mil homens ; porque como hou- 
ve a riqueza daquellas náos , que eram mui- 
to ouro, prata, fedas, e coufas de grande 
preço , defeco do fertâo ás povoações da 
ribeira do mar , que eram do Mouro , a 
lhe fazer guerra , efperando haver outra tal 
preza , e Ale Chan lhe mandou armar com 
outras duas náos lançadas á cofta , como em 
cilada , com que foi desbaratado , e perdeo 
aquella gente que era a melhor que tinha. 
Efte Ale Chan viveo cento e féis annos , 
dos quaes reinou cincoenta e nove , e teve 
quarenta filhos de muitas mulheres, de que 
três foram Reys. 

O que lhe fuccedeo foi o maior que fe 
chamou Peruxiah : o fegundo por nome Azei- 
de Chan cafou com hum.a filha d'ElRey do 
Mandou feu vizinho ; e per morte do fo- 
gro, pornao ter filho, herdou aquelleRey- 

no 

a A efle chama Diogo do Couto Daudarchatty e gue 
foi o fundador de Dio y e tião faz. menção de Peruxiah , 
fenãú de Maha^ved , que diz foi filho de Daudanhan , e 
feu fuccefor. Liv. i. cap. 7. 



Década IV. Liv. V. Cap. ITI. ^$^ 

no per via da iriulher : o terceiro fe cha- 
mou Álc Cluui como o pai , que também 
pela mulher veio a reinar emAgimar, hum 
pequeno lleyno que confina com Chitor , e 
com Galer. Peruxiah foi homem pacífico , 
c humano , como fe vio nos tratos que ti- 
nha , e nos fovores que fazia aos m.ercado- 
res , e navegantes que a feu Reyno hiam , 
que foi caufa de fe fazer rico , c poderofo. 
Fez moeda de cobre , e de prata , de que 
hoje fe acha ainda alguma : foi o primeiro 
que naquellas partes fez navios de guerra 
ao modo dos de Levante , per induftria de 
Gregos , e Italianos , e de outras nações que 
hiam áqueilas terras , com cuja ajuda houve 
muitas vitorias do Gentio , e a principal foi 
de dous juncos dos Chijs , os quaes como 
naquelle tempo navegavam a cofta da ín- 
dia 5 per clia tinham fuás Feitorias por ra- 
zão do trato da efpeciaria. E pofto que Pe- 
ruxiah houve vitoria deftes juncos , na pe- 
leja lhe mataram dous irmãos , e cinco tios 
com muita gente nobre , e elle ficou mui 
ferido. E em quanto fe curava , em memo- 
ria da vitoria , que foi onde hoje eM edi- 
ficada a Cidade de Dio , elle fez alli huma 
povoação , (não fendo antes mais que aco- 
lhimento de pefcadores , ) e mandou que o 
trato de Madrefavat 5 que era a Cidade prin- 
cipal daquella cofta , fe paíTalTe a Dio. Mas 

iftq 



yóo ÁSIA DE João ue Barros 

ido durou o tempo que elle vivco , de ma- 
neira , que ao tempo que a houve Mclique 
Az , já era tornada quaíi a fcus principaes > 
e eilc a reedificou , e ennobrcceo. 

A eíle Peruxiah fuccedeo feu filho Sol- 
do Maliamud"", por appellido Begra, que 
cm iingua dos Guzarates quer dizer caval- 
leiro , porque aííi o foi elle , e mui aíluto , 
e dado ao governo de feu Eílado , e á ad- 
niiniílraçáo da juíliça. Efte Principe tomou 
ao Gentio da terra de Mangalor contra o 
Cabo dejaquete mais de vinte e cinco Vi 1- 
las , e povoações , e teve em cerco a Cidade 
de Champanel três annos , no fim dos quacs 
a tomou , e aíli a Serra delia , fendo a cou- 
ía mais forte de todo aquelle Reyno do 
Gi^zarate. Nefla Cidade achou grandiífimos 
thefouros dos Reys antigos. Reinou Maha- 
inud 55 annos , e deixou doze filhos ; o 
maior delles chamado Modafar , foi gran- 
de edificador, eennobreceo muito feu Rey- 
jio ; lavrou huma moeda de ouro , que ora 
corre , chamada do feu nome Modafarxao , 
que da noííli de Portugal vai 1270 reaes, 
da qual veio muita a poder dos noíTos per 
morte de feus filhos. Reinou Modafar qua- 
tofze annos. Os filhos que delle ficaram ef- 

ti- 

à F.Jle foi o que deo a Ilha de Dio a Meíique Az , t 
enifiíi tempo defi-tihrio a navegação da índia o grande Dom 
Vofco da Gama Conde da Vidigueira , Almirante do mar 
da índia. Diogo do Couto Uv. i. cap. 7. 



Década IV. Liv. V. Cap. IIL $61 

timados , e de que fe faz menção, foram 
Scander Chan , Latifá Chan , Badur Chan , 
Chande Chan , Jangri Chan , e Mamud 
Chan , e outros. 

Scander Chan mais velho fuccedeo a feu 
pai 5 e não reinou mais que nove mezes, 
porque por fer homem afpero , e por que- 
rer tirar de Dio a Melique Saca , filho de 
Melique Az , por as razoes que adiante di- 
rem.05 , foi morto per conjuração dos feus. 
Porque como eíle Melique era homem fa- 
gaz , e poderofo como feu pai , com feu 
dinheiro , e aftucia grangeou*muitos dos prin- 
cipaes 5 que a ElRey por fua condição não 
tinham boa vontade. E todos , cada hum per 
fua parte , á força de dinheiro moveram a 
Madre Maluco Governador do Reyno, que 
elie per fua mão mataíle a , ElRey , e que 
tanto que ifto fízeífe , lhe acudiriam todos 
com feu poder. O Madre Maluco matou a 
EiRey , e logo tomiou no collo a Mamud 
Chan feu irmão o mais moço , que era de 
dous annos , intitulando-o por Soltam , a 
fim de elle Madre Mamaluco ficar mais tertH 
po por Governador do Reyno , como já 
era , e com os outros de fua parcialidade 
comerem os rendimentos do Reyno. E por 
moílrar que ElRey não fora morto por ódio 
que os Grandes IhetiveíTem, fenão por evi- 
tarem as afperezas que com o povo ufava , 
T0m.lF.F.L Nn com 



fói ÁSIA DE João de Barros 

com grande lolcmnidade , c pompa , acom- 
panhado de alguns Senhores de lua facção , 
o levou a enterrar onde feu paiElPvCyMo- 
dafiir eítava fepultado; e onovoRey levou 
á Cidade de Champancl , que era a mais 
forte coufa doReyno, ondeeftava o thefou- 
ro dos Reys. Alli fez vir todos a obedecer 
ao menino , governando dle abfolutamente , 
porem com prudência , e vigia de fua pef- 
íba. 

Mas não tardaram muitos dias que La- 
tifá Ciian , fcgundo filho de Soltam Mc- 
dafar , a quem pertencia o Reyno por mor- 
te de Scandar , veio do Reyno do Man- 
dou 5 onde era cafado com huma filha d'El- 
Rey delle , e com a gente que trouxe , e a 
que feguia fua parte , que era a da juftiça , 
foi levantado por Rey na Cidade de Abma- 
dabad , e logo fe poz a caminho para Cham- 
pancl. Porém a fortuna devolveo o Reyno 
ao terceiro filho de Modafar, que era Ba- 
dur Chan , que andava em hábitos vis de 
Calandar peregrinando per Reynos eílranhos, 
indigno daherença de feu pai por o que ti- 
nha commettido , como fe adiante verá , 
com cujo proceíTo de vida , e feitos nos pa- 
receo que convinha ir continuando , não fo- 
mente porque tocavam aos feitos dos Por- 
tuguezes , e ao propoíito de noíTa hiftoria , 
mas ainda porque no decurfo da vida deíle 

Prin- 



Dec. IV. Liv. V. Cap. IIL e IV. 5'6j 

Príncipe , e de outros que com elle conten- 
deram , fe verá hum curfo de tempo de va- 
rias tragedias de Eílados para exemplo da- 
quelles que os governam. 

CAPITULO IV. 

Como por ElRey Modafar dar certas Cida-* 

des aos filhos de Melique Az , fe aggra- 

vdram feus filhos , e o terceiro delles 

Badur Chan fe foi do feu Reyno pa* 

ra ElRey de Chitor , e o que lhe 

Id aconteceo. 

D Aquelle Melique Az tão celebrado nef- 
ta noíTa hiftoria , que faleceo no anno 
de T^io 5 lhe ficaram três filhos , Melique Sa- 
ca , Melique Liaz , ' Melique Tocam.. E 
querendo ElRey Modafar fatisfazer a eftes 
feus filhos os ferviços de feu pai , repartio 
per elles as terras que feu pai tinha em fua 
vida , que eram Baçaim , Madrefavat , Dio , 
e Jaquete , que he huma Cidade pofta em 
hum cabo , que faz a enfeada chamada do 
feu nome de Jaquete , na qual entra o rio 
Indo. Cada huma deftas Cidades tinha mui- 
tas povoações, que lhe eram fubjeitas, per- 
que ficavam de grande rendimento , de que 
a maior parte dava Melique Az a ElRey , 
o mais lhe ficava a elle para defensão , e 
governo daquellas terras , como Capitão 
Nn ii dei- 



564 ÁSIA DE João de Barros 

delias y que fe elle nomeava , e não Se- 
nhor. A repartição que EIRey fez deílas 
terras foi dar a Melique Saca , que era o 
mais velho , as Cidades de Dio , e Jaquetc ; 
a Melique Liaz a Cidade de Baçaim j e a 
Melique Tocam, que era o mais moço, a 
Cidade de Madrefavat , que era fomenos 
das outras. Alguns dizem , que a tenção 
d'ElRcy Modafar cm repartir eftas terras 
per eftcs irmãos , nao foi tanto por lhes fa- 
'zcr mercê , como por tirar competências en- 
tre o Príncipe Scandar, e Badur feus filhos; 
os quaes quando viram feita a doação dei- 
las , fe queixaram muito' a feu pai, dizen- 
do 5 que como havia clle de dar aos filhes 
de hum feu efcravo , como foi Melique Az , 
as terras com que os podia a elles manter, 
as quaes dizia cada hum delles que eftariam 
mais feguras em fua mão , que na dos fi- 
lhos de Melique , que já em fua vida cfti- 
vera duas vezes para entregar a Cidade de 
Dio aos Portuguczes com artificios ^ que pa- 
ra iíTo iifára ? 

Melique Saca quando foube deíle reque- 
rimento , pareceo-lhe que o Príncipe Scan- 
dar não pedia eílas terras tanto por cubica , 
por o grande cuílo que cilas tinham nas Ar- 
madas 5 que fazia feu pai Melique Az , quan- 
to por a má vontade que llic tinha por al- 
gumas paixões que entre elles havia. E co- 
mo 



Década IV. Liv. V. Cap. IV. $6^ 

mo era crendo nvis fagacidades de íeu pai , 
e elíe tambcni era homem naturalmente ma- 
licioib , começou peitar groíTamente a Ma- 
dre Maluco Governador do Reyno , e a to- 
dos os privados d'EiRey , com que fez que 
ElRey as repartio da maneira que diíTemos ; 
porque íabia , que le feus filhos defcjavam 
aquelias terras , era para comer o rendimen- 
to delias. E como eram marítimas , onde 
elles não haviam de refidir para as defen- 
der dos Portuguezes , ficavam mui appare- 
Ihadas para as elles tomarem , e elle Re/ 
náo teria delias rendimento algum , das quaes 
em tempo de Melique Az havia elle em 
cada hum anno cento e cincoenta , e du- 
zentos mil pardáos j e anno houve que por 
íe Melique Az aíTegurar ante ElRey dos ma- 
les que alguns feus competidores delle di- 
ziam , lhe levou quatrocentos mil pardáos. 
Finalmente ElRey com repartir eílas terras 
pela maneira referida , e com razoes que 
deo a feus filhos, fe efcufou de lhas dar a 
elles ; o que depois foi caufa de muitos tra- 
balhos , e de Soltam ModaPar correr riíco 
de morte. Porque Badur Chan , que era feii 
terceiro filho , como não efperava por fua 
morte a herança do Reyno , que era do ir- 
mão maior, (poílo que EIRey defenganou 
ao Príncipe , dando-lhe algumas razoes com 
que o fatisfez fobre a pertenção daqueJlas 

Ci- 



yóó ÁSIA DE João de Barros 

Cidades,) infiília muiro no feu requerimen- 
to, ao qual ElRey fe elcuíava com o lia- 
ver negado ao Principe. Alguns dizem que 
ElRey aborrecia a efte ícu filho Badur , por- 
que em nafcendo , ou por Aílrologia , ou 
por feiticeria , lhe diíleram que elle havia 
de fer caufa da deílruiçao daquellc Reyno. 
O qual porfua má incUnaçao , e por íe ver 
desfavorecido do pai , e íobre tudo mal def- 
pachado nefte feu requerimento , dizem que 
deo peçonha a feu pai com con fel ho , e 
ajuda de fua mai , que lhe queria grande 
bem ; da qual peçonha , porque houve al- 
guns indícios na peíToa d'ElRey , que foi 
diíTo curado , temendo Badur que o pai o 
quizeífe prender , fugio , levando comfigo 
alguns criados que o feguíram. E pormof- 
trar que fazia efta ida por alguns particula- 
res defgoftos que tinha de feu pai , e não 
temor do que fizera , neíle mefmo tempo te- 
ve outros requerimentos , e com voz de pai- 
xão do máo defpacho delles fe partio , e 
foi ter ao Reyno de Chiror , vizinho do 
de Guzarate , que era de hum Gentio por 
nome Sanga. 

ElRey de Chitor , por Badur fer filho 
d'ElRey Modafar , o recebeo com muita 
honra , e gazalhado , e por lhe fazer feíla , 
a noite feguinte de fua chegada teve ferao , 
ao modo que cá na Europa coftumam os 

Prin^ 



Década IV. Liv. V. Cap. IV. 5*67 

Príncipes , e Reys. E vindo a bailar certas 
moças , que fegundo o ellas fazem naquel- 
las partes com deítreza , parecem volteado- 
jes 5 gabou Badur a hum homem dos no- 
bres do Reyno que eftava junto delle o bai- 
lar , e foliura delias. O qual em modo de 
defprezo diíTe contra Badur : Pois aquellas 
moças , q:ie vós alli vedes , são filhas de 
homens nobres de vojfo Reyno Guzarate , as 
quaes nós cativámos quando tivemos guer- 
ra comvofco , e ElRey NoJJo Senhor as man- 
dou enfinar a bailar para feu gofio. Mas 
Badur por eftas palavras lhe parecer que fe 
diziam em fua injúria , levou de hum pu- 
nhal que trazia na cinta , e deo duas pu- 
nhaladas áquelle Fidalgo , de que logo fi- 
cou morto. E Badur também o fora per 
mãos dos parentes do morto , fe a Rainha 
Crementij mulher d'ElRe7 o não defendera 
delles 5 e d'ElRe7 , que o queria mandar 
caftigar. E fobre o livrar daquelle perigo , 
o mandou fecretamente com guarda pôr 
em, falvo fora do Reyno do Delij , o que 
lhe elle depois mal pagou , como adiante 
diremos. 



CA- 



yóS ÁSIA DE João de Barbos 

CAPITULO V. 

Como Bãdur fe fez Calandar , e da ma- 
Tielra , e cojlumes daquella religião ; e co- 
mo fabendo da morte defeu pai , e da d''El- 
Rey Efcandar que lhe fuccedeo , veio ao 
Reyno de Guzarate , e fe levantou com eU 
le com morte de feus irmãos , e de outros 
muitos. 

TAnto que Badur fe vio fóra do Rey- 
no de Chitor , e da afFronta em que 
foi porto 5 e em terras ertranhas , determinou 
fazer-fe religiofo por remédio de vida ; e 
desbaratando tudo o que comílgo trazia , 
e repartindo-o pelos criados , ao modo de 
homem que entrava em religião de pobre- 
za 5 tomou habito de Calandar, delpedin- 
do-le de todos , dizendo , que deixava o 
Mundo, e fe oíFerecia todo ao ferviço de 
Deos , c a peregrinar, pedindo efmola por 
falvar fua alma. Eftc ufo de religião não 
fomente tem os Mouros , mas também os 
Gentios , e eíles tomam eftc modo de vida 
mais eftreitamente , aos quaes clles chamam 
Jogues. Os quaes não fó defprezam todo 
o mimo , e delicias de comer , e veftir , mas 
ainda fazem vida de grande afpereza , e tal , 
que faz efpanto , e move a compaixão , por- 
que andam nus com humas groiTas cadeias 

de 



Década IV. Liv. V. Cap. V. 5-69 

de ferro ao pefcoço , e ao redor de íi á 
maneira de cilicio , fomente as partes ver- 
gonhofas trazem cubertas com liumas pelles , 
e comem mui miíèravelmente. E poílo que 
pareça que cobrem alguma parte de leu cor- 
po por vergonha , tem elles em o mais mui 
pouca , porque em todas as couías naturaes 
ao homem , onde quer que lhe toma von- 
tade , logo obedecem á natureza , fem te- 
rem pejo a ferem viftos de alguém , dizen- 
do , (como também os Filofofos Cynicos * 
diziam,) que a natureza nao fiizcoufa tor- 
pe. São eíles na vida huns martyres do de- 
mónio 5 e nas maldades os meímos demó- 
nios ; porque como sao acreditados cm to- 
da a parte , cuidam aquelies povos , que quan- 
do faliam com hum deites, faliam com hum 
Santo 5 nem fe vigiam delles ; e porque co- 
mo homens fantos não são bufcados , nem 
os tocam. Nos tempos das guerras elles sao 
os que de Reyno a Reyno levam todas as 
cartas , e aviíbs , e os que paliam pedraria 
furtada aos direitos dos portos. E pofto que 
eftas coufas , e outras peiores fe faibam del- 

Jes, 

n Antijlhenes Athenienfe FíJofofo Socrático deo prin- 
cípio á feita Cynica , aj/i chamada da efcola Cynofarge , hti' 
ma de três que havia fora de Athenas , na qual enfinava 
Antijlhenes , como Flatno , e Arlftoteíes nas outras duas Aca» 
demia , e Lyceo. Foi Antijlhenes mejire de Diógenes Cyni" 
CO y e de outros Filofofos que feguíram a fua feita. Efcret. 
veo dez livros de varias matérias , como refere Laertia 
m fua vida^ Uv. 6. 



5*70 ÁSIA DE João de Barros 

les , tem para íl , quem lhes fizer mal , que 
fica excommungado , e perdido do corpo , 
e da alma. A parte onde fe acha mais nú- 
mero deftes he no Reyno do Delij , por- 
que he como hum centro daquellas Provin- 
das de Aíia , aonde concorrem de todas as 
nações , e muitas vezes andam em huma 
companhia mais de dous mil , os quaes , pof- 
to que fejam de diíFerentcs linguas , com a 
converfação que huns com outros tem nef- 
tas fuás peregrinações , que he hum dos vo- 
tos de fua regra , todos fe entendem. Não 
entram nas Cidades ; mas ao modo dos Cy- 
ganos , que andam nefta parte de Europa , 
poufam fora do povoado , e alli lhe traz 
a gente do povo lua efmola. E quando aííi 
anda grande número dei les , elegem hum a 
que obedecem á maneira que os Cyganos 
fazem a feu Conde. Cada hum deftes traz 
huma corneta , principalmente quando an- 
dam fós 5 a qual tangem em chegando ao 
povoado 5 para que fe faiba que eftá alli , 
e lhe trazerem de comer , e efmola. 

Andando aíTi Badur nefte habito de Ca- 
landar nas terras do Reyno do Delij , teve 
novas como feu pai Soltam Modafar era 
falecido j e fem mais efperar outra coufa , 
naquelle mefmo habito fe veio ao Reyno 
do Guzarate , onde também foube da mor- 
te de Soltam Efcandar feu irmão , que fuc- 

ce- 



Década IV. Liv. V. Cap. V. ^ji 

cedera a feu pai , e a maneira delia , e que 
o Governador do Reyno Madre Maluco 
levantara por Rey a Mahamud Chan feu 
irmão mais moço , menino de pouca idade : 
caíli foubc como Latiflí Chan legitimo her- 
deiro do Reyno , por fer o fegundo ge- 
nito , era vindo com gente groíTa do Rey- 
no do Mandou , onde era cafado , para fe 
apoderar do Reyno de feu pai, que de di- 
reito era feu , e depor o menino , que o 
Governador mal levantara''. E porque efte 
irmão Latifá Chan caminhava para Cham- 
panel a fe apoderar dothefouro de feu pai, 
Badur defceo para as fraldas do mar, para 
fe metter nas Cidades de Surat, e Reiner , 
onde tinha dous mercadores groílbs ambos 
irmãos grandes feus amigos , aos quaes ef- 
creveo do caminho , que fecretamente , fem 
Deftar Chan Capitão daquellas Cidades o 
faber , (porque fora na morte de feu irmão 
Efcandar,) lhe fizeíTem a mais gente que 
pudeíTem a foldo , e que em quanto levan- 
taíTem , elle pelo caminho per onde foíTe 
com o feu nome iria ajuntando alguma. Fi- 

nal- 

a Efcreve Diogo do GoMto , tjne Badtir (a çue eíle 
chama Bador ) era o primogénito d'*E/Rey Modafar , 9 
íjuul -por (juerer dar o Reyno ao filho fecundo , mofirava 
yná vontade a Badur , po/o que elh fe fi\era Calandar , 
íiufentando-fe do Reyno. E o çue aqui diz Jo^o de Barros 
de Latifa Chan , que com foccorro d'*ElRey de Mandou 
veio a pertender o Reyno do Gu^arate , Diogo do Couto 
e referi de BaiUir, Cap. i. //v. 7. 



^ji ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

nalinente Bndur entrou na Cidade de Rei- 
ner per induílria dos dons irmãos , e com 
o poder , e favor da gente que lhe tinham 
junta foi levantado por Rey. 

A nova dcfte levantamento foi logo ter 
á noticia dos outros feus irmãos , que os 
metteo , e a toda a gente em grande con- 
fusão , náo fabendo a qual das partes acu- 
diíTem , principalmente Deftar Chan , que 
eílava fora das Cidades. Eíle parecendo-lhe 
que grangeavaBadur , lhe foi beijar amao; 
mas nelle começou Badur de encetar com 
morte a nobreza daquelle Reyno , mandan- 
do-o logo matar , com titulo de traidor a 
feu irmão , dizendo , que fora participante 
no confelho de fua morte. lílo dizia o pre- 
gão ; mas a caufa era por lhe tomai' toda 
a fazenda , como tomou. E por fe acredi- 
tar com a gente , e mover a todos que o 
feguiíTem, logo alli galardoou aos dous ir- 
mãos que o ajudaram : Ao que fe cham.ava 
Naitia deo aquellas duas Cidades de Rei- 
ner , e Surat ; e ao outro feu irmão chama- 
do Coje Babii fez Veedor de fua fazenda , 
que era grande cargo. 

Partio-fe logo Badur em bufca de feu 
irmão Latifá Chan , mandando diante mui- 
tas cartas aos Capitães que com elle anda- 
vam , promettendo-lhe grandes mercês fe o 
deixaíTem, e fe yieiTem para ellc. E como 

a for- 



Década IV. Liv. V. Cap. V. SJ^ 

a fortuna as inais das vezes nos primeiros 
amores que tem com a pclToa que quer le- 
vantar a grande eftado , liie faz a entrada 
leve, e defpcjada de todos os inconvenien- 
tes , aíli ordenou as coufas de Badur , que 
venceo ao irmão cm huma batalha que lhe 
deo , ficando defamparado de todos os feus , 
e foi achado morto fem ferida alguma en- 
tre dez , ou doze homens , que lealmente 
o feguiam , e dizem que morreo de abafa- 
(iO dasarm.as, por fer homem mui groíTo''. 
Daqui foi Badur á Cidade de Champanel , 
onde fe lhe entregou o Governador Madre 
Maluco com o menino Alamud que levan- 
tara por Rey , e outros dous irmãos tam- 
bém de Badur , a qual entrega elle fez de 
íi , edaquelles Infantes, com grandes fegu- 
ros jurados por Badur , per os oíTos de feu 
pai 5 e per o Moçafo de fua lei , que lhes 
não faria mal ; mas a fim de fua verdade 
foi diíTim.uIar alguns dias com Madre Ma- 
luco , por lhe acolher a fazenda. E no tem- 
po que ú\q cftava com menos fufpeita , e 
mais favorecido de Badur , o prendeo , e 
mandou esfoilar vivo , o qual dizem que 
cíleve inteiro falia nd o fempre té lhe chega- 
rem ao embigo , c lhe foi tomada toda a 
fazenda. Dahi a poucos dias mandou vir an- 
te fi os três Infantes feus irmãos , e per fua 

pro- 

a Succedío ijlo no c.nno de 1525, Diogo do Couto. 



5*74 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

própria mao dcgollou o Mamud , que era 
levantado por Rcy , fendo criança , que ain- 
da não fabia íahir dos braços de fua ama , 
e aíli degollou os outros dous irmãos por 
lhe dizerem , porque tingia as mãos cm feu 
próprio fangue , fendo aquelJe feu irmão 
menino innocente em idade , e em culpa. 

CAPITULO VI. 

Como ElRey Badur determinou de matar 
todos os que cm ter/ipo de feu pai o tinham 
offendido , e entre elles a Melique Saca Ca- 
pitão de Dio ; e da manha que elle ufou 
para lhe efcapar : e como naquelles dias 
veio a Dio humanão deFrancezes que par- 
tira de França , de que era Capitão y e 
Piloto hum Portuguez, 

OBedecido Badur por Rej daquelles Se- 
nhores 5 e gente que tinha comfigo , e 
rico com os thcfouros de feu pai , começou 
logo a entender no modo que havia de ter 
para matar aíli áquelles a que tinha ódio 
antes que fugiíTe de cafa de feu pai , e a 
áquelles , que em fua vinda lhe foram caufa 
de algum impedimento , como os que foram 
na morte d^ElRey Efcandar feu irmão , af- 
íi per fuás peíToas , como per feu confelho ; 
e ifto mais por lhe tomar o feu , que por 
lhe doer a morte de feu irmão. Em Meli- 
que 



Década IV. Liv. V. Cap. VL 5:75- 

que Saca Capitão de Dio , filho de Meli- 
que Az , concorriam todas eílas caufas de 
ódio , alTi por os modos que teve em pei- 
tar , para que Soltam Modafar não déíTe 
aquelle Eftado de Dio a elle Badur (como 
diíTcmos ; ) como por lhe não empreitar al- 
gum dinheiro que lhe elle pedio, eíer mui 
rico , e hum dos principaes authores que 
urdiram a morte d'EIRey Efcandar. Polo 
que paraeíFetuar efte delèjo, Badur o man- 
dou chamar, como a homem dos principaes 
do Reyno , a quem ainda não tinha viílo , 
para lhe beijar a mão , e o reconhecer por 
Senhor a feu modo , fingindo também que 
a caufa principal porque o chamava era 
ter labido quanto damno as Armadas dos 
Portuguezes faziam por toda acofta de feu 
Reyno , e querer confultar com elle o mo- 
do que fe teria para aquella defensão. Me- 
lique Saca além de eftar avifado pelas mor- 
tes daquellcs que EíRey matava com voz 
que foram authores da morte de feu irmão, 
em que elle fc achava culpado , temia mui- 
to ir ante ElRey, porque fecretamente lhe 
mandaram cartas de aviío , que fua vida não 
feria mais que té chegar a ElRey , e que 
por iíTo olhaíTe por íi. E como elle era ho- 
mem fagaz , e criado nas manhas de feu 
pai, que comnofco fazia ás vezes feus ne- 
gócios ante ElRey Modafar feu Senhor;^ 

ufou 



5'76 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

ufou também deftas artes , efcufando-fe a 
Soltam Badur com ncíías Armadas , que an- 
davam naquelle tempo pela cofta de Cam- 
baya , e que fe não atrevia deixar Dio a rií- 
co de o tomarmos em quanto elle foíTe au- 
fente. ElRey , que não era menos malicioíò 
que elle , e incitado do ódio que lhe tinha , 
aperta va-o mais que fbíTe , e deixaíTe algum 
homem de recado por Capitão em quanto 
o lá detiveíTe. Quando Mclique Saca fe vio 
tão apertado , mandou chamar a Eitor da 
Silveira , que o entreteve em Dio , como 
atrás efcrevemos "" , a fim de fe defculpar a 
ElRey , e fazer-lhe crer a neceifidade que 
havia de fua peíToa em Dio*. Mas como 
ElRey per outra parte fabia fer elle o mef- 
mo author de os noíTos irem a Dio , e o 
modo que tinha com elles , apertou-o tan- 
to , que elle fe determinou em fugir para 
Jaquete. 

Ef- 

a No cap. ç. do llv. i. 

h Diogo do Couto efcreve , que a tençTio de Meliíjut 
Saca foi de entregar com efeito a fortaleza de Dio aos 
JPortuguez^s , de (jtie Agã Mahomud feu parente o dljfun' 
dio , defconfiando da verdade , e fé de Eitor da Silveira , 
^ue tendo-o em feu poder , com a cubica do thefouro íjuc 
tinha , o prenderia , e aj/i ficaria fem fortaleza , Jem fa- 
':(enda , e fem liherdade ; o (jue efe Mouro traçou malicio' 
famente , para lhe ficar o governo da Cidade , a qual dia 
Couto , que /hg deo Badur vindo a Dio em hufca de Meli' 
^ue Saca , que já era fugido para Jaquete, Dec. 4» liv, 
a. cap. 8. e Fernão Lopes de Gaftanhcda Uv. 7. cap, 6. 
7. ^ ij. 



Década IV. Liv. V. Cap. VL 5'77 

Efta he Jmma Cidade , que eftá em hum 
cabo aíli chamado por caula de hum an- 
tigo , e iumpruoío templo de Gentios , o 
mais celebre daquellas partes , onde começa 
a outra eníeada , que por ca ufa do meímo 
tempio le chama de leu nome de Jaquete, 
a qual eníeada he aíTi penetrante na terra 
com hum cotovello como a de Cambaya ; 
e fe eíla tem os perigos do grande maca- 
reo que nella ha , com que muitas náos ou 
ficam em fecco , ou fo cobram com a fober- 
ba da agua , que entra do mar a encher o 
que vaiou; aíH adejaquete tem grande nú- 
mero de Ilhas de arêas levadas da agua que 
fe mudam , a que os navegantes chamam 
alfliqucs , com as cheias do grande rio In- 
do , e de outros que defcarregam fuás aguas 
nella. Neíb parte efperava Melique de fe 
falvar por duas razoes : a huma por fer 
perigofa anav^egação peraquelle mar, e per 
terra nao poder ir ElRey lá , por as gran- 
des montanhas que lhe era neceíTario atra- 
veílar , que são dos Resbutos , com que 
aquelle Reyno de Cambaya tem contínua 
guerra a outra razão , por fer elle cafado 
com huma filha de Lacazamo ; Senhor da 
Comarca de Cache , Resbuto de nação , que 
eílá no interior da enfeada que diíTemos , e 
homem poderofo entre aquella gente , onde 
efperava achar favor. 
TonuIKP.L Oo De- 



578 ÁSIA DE João de Barros 

Determinado Melique em effetuar íua 
partida , mandou paíTar muita artilheria que 
eftava na Cidade ás náos em que efperava 
de fugir , e aíTi proveo toda a fuftalha do 
neceííario , como que havia de pelejar com 
noíla Armada , íe nós quizefTemos commct- 
tcr entrar no porto , com fundamento de 
não fomente levar fua peíToa , ftmilia , e 
fazenda , mas ainda todos os principaes mer- 
cadores , que alli reíidiam , per vontade , ou 
per força, para comelles ennobrecer a po- 
voação , e fazer delia outra eícala tão prin- 
cipal como Dio 5 por o íítio em que eííava. 
A principal peíToa , com que Melique Sr. ca 
tinha communicado cíic leu propoíito era 
Agá Mahamud , aquelle feu Capitão das 
fuftas que muito perfeguio os nolTos em 
Chaul , quando faziam a fortaleza "^ ; por- 
que além de fer homem de fua peíToa , e 
prudente , tinha nelle confiança que Iht man- 
teria fegrcdo. E porque efta mudança fe não 
entendeíTe , nem menos no embarcar foíTe 
fentido , foi-fe Melique a huma quinta íua , 
que he na terra firme da Ilha de Dio obra 
de cinco milhas, alem da Villa que chamam 
dos Rumes , que he hum arrabalde da Ci- 
dade , entre a qual , e o arrabalde fe met- 
te o braço da agua falgada , que faz a ter- 
ra 

a Cenio ejircve João de Er.rros nos ca-p. S. <j. lo. ãa 
Vcc. j. 



Década IV. Liv. V. Cap. VI. 5'79 

ra ficar em Ilha. Neíla quinta tinha elle fua 
mulJier, e feu filho , e fazenda ; e mandan- 
do diante alguns navios com diííimulaçáo , 
por nao arrancar com tanta familia , nelles 
mandou a mulher , e parte da fazeada. E 
a noite em que cfperava de le acolher , man- 
dou a Agá Mahamud , que fízefle grande 
revolta na Cidade , dizendo que vinha nof- 
la Armada para a tomar ; e que no alvo- 
roço de todos acudirem aos lugares de de- 
fenfa , dle acudiria também da quinta aquel- 
la ante manhã , como quem íe vinha met- 
ter dentro , e ao paíTar do rio fe embarca- 
ria 5 e daria á vela caminho de Jaquete. 

Agá Mahamud lançando outras contas, 
fez-fe em outro bordo , e deo conta a cer- 
tos Capitães Arábios , e outros que ferviam 
a Melique ; e examinado bem o negocio , 
aíTentáram de nao confentir a Melique que 
fe embarcaíTe , nem entraíTe na Cidade , e 
eíliveílera levantados com voz de Soltam 
Badur , té faber delle o que mandava. E 
começaram pelo próprio ardil de Melique , 
de noite com tambor , e grandes gritas , di- 
zendo , que vinha a Armada dos Portugue- 
zes 5 e defpejáram muita artiiheria que efta- 
va nas náos , e navios que Melique queria 
levar , e a puzeram no muro , com outras 
munições que haviam miílcr para defensão 
da Cidade. Melique foi logo avifadq dos 

Oo ii feu3 



^^o ÁSIA DE JoAO DE Barros 

Jfeus da grande revolta que havia nclla , di- 
zendo que vinham os Portuguezcs , queacu- 
(Jiílc; e como clle tinha cuidado o ardil da- 
quclla revolta , parcceo-Ihe que o fazia Agá 
Mahamud polo íeu mandado , e todo íeu 
trabalho era mandar carregar fuás carretas 
com o fato , dizendo que o queria recolher 
na Cidade antes que nós chegaíTemos. Vin- 
do ellç. , em rompendo a alva , para embar- 
car feu fato 5 a gente, que já eftava appcl- 
lidada por parte de Agá Mahamud , tan- 
to que o vio á borda da agua , começaram 
de lhe tirar ás frechadas , e eípingardadas , 
com grandes apupadas , chamando-lhe trai- 
dor , que queria dar a Cidade aos Portu- 
guezcs , com mil doeílos , quaes a gente po- 
pular junta íbe íoltar em femelhantes mu- 
danças de tem.pos. 

Qiiando Melique fe vio aíli fobrefalta- 
do , não fomente defefperou de iè poder 
embarcar, por lhe terem tomada a embar- 
cação 5 mas ainda temeo perder a vida , pa- 
rccendo-lhe , que tão grande coufa , coma 
aquella , não podia vir de Agá Mahamud, 
fenão induPiriada de algum Capitão por m.an- 
dado d'ElPvey , que lhe pareceo não po- 
deria muito tardar , que não vieííe fobre el- 
]e. E pedindo hum pelouro dos que lhe ti- 
raram com a artilheria , o tomou na mão , 
e. diflc : Eu ts mandei fazer ^ e não para 

mi , 



Década IV. Liv. V. Cap. VI. 5-81 

ml , fenão para meus inimigos ; e pois os 
amigos te mandam cá , como final que jd 
o não são , eu te levo comigo , como tejie- 
ynunba para alguma hora {fe Deos qulzer ) 
te mofirar a elles , que mal me pagavam 
o bem que lhes fiz. Tornado para fua quin- 
ta , havendo quatro dias que nao fazia ou- 
tra couía , fenáo carregar , e aperceber- fe 
de cavalgaduras , e de carretas , para ir per 
terra onde ellava feu fogro nos Resbutos , 
veio-Ihe nova , que ElRey abalava para vir 
fobre elle , por o recado que lhe mandou 
Agá Mahamud. Melique Saca como a no- 
va oapreíTou, levando de fua fazenda o mais 
principal , fe poz em caminho , em que paC- 
iou alílis de trabalho em hum paíTo junto 
da Cidade de Novanaguer , em que já efta- 
vam dous Capitães d^ElRcy, que lhe foram 
atalhar a eftrada , onde lhe conveio partir 
o ouro , prata , e jóias , que levava pelos 
alforges da gente de eavallo , não efperan- 
do de fe poder falvar. Com tudo elle o fez 
de maneira, que rompeo o grande número 
de gente que os Capitães traziam , e mais 
falvou grande parte de fua recovagem dian- 
te de íi , o que elle não efperava. PaíTada 
efta affronta , elle fe vio em outra maior , 
porque EIRey o alcançou \ mas elle fe poz 
á efpora fita , dizendo aos feus , que não 
havia de ver o rofto de feu Senhor , nem 



^2z ASIA DE João de Barros 

levantar arma contra elle ; e aíTi íc íalvou 
daquclla fúria d'ElRey por então. 

Em quanto EIRey foi no alcanço de Mc- 
lique , Agá Mahamud com os confelheiros 
defte cafo mandaram a grã prcíTa chamar 
Melique Tocam irmão de Melique Saca , 
que citava em Madrefavat , ao qual diíTe- 
ram que lhe entregavam aquella Cidade 
té EIRey prover, porquanto feu irmão fa- 
zia aquella traição que elles não confcntí- 
ram. EIRey como defefperou de poder ha- 
ver á mão Melique Saca , veio-íe a Dio , 
e mandou matar como traidores os mais 
daquelles principaes , que foram no confe- 
Iho de fe levantar contra elle , e de todo 
efteve julgado á morte Agá Mahamud por 
fer author diíTo , fe o não defenderam al- 
guns Capitães privados d'ElRey. E tam- 
bém por rogo de Codamo Chan , que era 
o principal do Reyno , que tinha o fello , 
como acerca de nós o Efcrivão da Purida- 
de , deixou Badur de matar a Melique To- 
cam com peçonha fecreta , dizendo que o 
merecia por acceitar a capitania da Cidade 
de mão dos traidores. Com tudo elle o le- 
vou comíígo , e aííi a Agá Mahamud pa- 
ra Champanel como prezos. Também le- 
vou quantos Rumes havia na Cidade , por 
fe não fiar delles , e os mandou pôr em 
guarda da Serra , da qual era Capitão hum 

cha- 



Década IV. Lrv. V. Ca?. VI. s'^3 

chamado Tearchcin , e em Dio deixou ou- 
tro por nome Camalmaluco , homem que 
elle fez de pouco , por o acompanhar , e 
fervi r nos feus princípios. 

Havendo poucos dias que EIRey era 
partido para Champanel , na entrada de Ju- 
lho do anno de 1527 chegou ao porto de 
Dio huma náo Franccza , que fe armara no 
porto de Diepe "" , de que era Capitão , e 
Piloto hum Éílevão Dias Brigas de Alcu- 
nha Portuguez , com té quarenta Francezes , 
o qual por travelTaras que tinha feitas nef- 
te Reyno , fe lançou em França para com- 
metter eíla maldade , que lhe cuílou a vida. 
Porque depois de lhe dar o Capitão de Dio 
feguro para alli fazerem feu commercio , os 
prendeo a todos , e os mandou a ElRey a 
Champanel , parte dos quaes fe fizeram Mou- 
ros , e o Efe vão Dias acabou mal, como 
também acabaram os Francezes. 



CA- 

a As nãos France^^as foram três. 'Ruma aportou na 
Ilha âe S. Lourenço , da gual era o Franca, t/ue uella 
achou Diogo da Fonfeca , como fe dijje no cap. i. do Uv. 
5. Outra era ejla y de que trata í7^r(< João de Barros. jE 
da outra era Capitão , e Piloto hum Portuguez, natural 
de Villa do Conde , gue fe chamava o Rofdo , a qual não 
fe perdeo em huma Bahia da cofia Occidental da Ilha Ca- 
ma tra , perto de Panaajú Cidade do Rey dos Batas j çue 
houve defia não alguma artilherla , com aue foi pelejar com 
ElRey de Achem no anno de i nç- Fernão Mendes Pin- 
to no livro das fins peregrinações f cap. ló'. e 20. 



j84 ÁSIA DE João de Barros 

CAPITULO VII. 

J)a embaixada , que Babor Fatxiah Rey do 
Delij mandou a ElRey de Cambaya , o 
qual armando gente contra elle , foi 
contra o Nizamaluco : e como man- 
dou esfollar huns Collijs , e da vin- 
gança que elles a ij]ò tomaram. 

T Ornado Soltam Badur a Champanel da 
viagem que fez a Dio , vieram-lhe a]li 
Embaixadores de Babor PatxiaJi Rey dos 
Mogoles 5 e do Reyno do Delij. A fubftan- 
cia de fiia embaixada era , que por quanto 
aquelle Reyno do Delij , de que elle era 
Senhor, fora antigamente a cabeça do Im- 
pério de todo o Indoílan ; e todos os Ef- 
tados 5 que nelle ha, eram governados per Ca- 
pitães do mefmo Império , os quaes em tem- 
pos paliados , com infortúnios , e guerras 
que aquelle Império teve , fe rebelláram 
contra elle , e fe intitularam por Reys , fen- 
do vaíTallos , elle Babor Fatxiah queria tor- 
íiar reftituir aquelle Império o poder , e ju- 
rifdicção que tinha em todos aquelles Efta-- 
dos 3 como verdadeiro Senhor que era dei- 
las. E porque o Reyno do Guzarate , de 
que elle Badur fe chamava Rey , era hum 
dos principaes , e mais vizinho a elle Ba- 
bor ; Uie mandava dizer , que tomaíTç a fua 

di-» 



Década IV. Liv. V. Cap. VIL ^Ss* 

divifa , e na Mefqiiita foíTe o feu nome can- 
tado cm final de obediência, e vaíTallagem. 
Soltam Badur com.o era homem aíTomma- 
do , e tão foberbo , que lhe parecia íer mais 
digno daquellas couías , que Babor pedia del- 
le , quizera logo mandar matar aos Embai- 
xadores , le feus Capitães lho não eftorvá- 
ram. Polo que lhes reípondeo , que diíTef- 
Icm a quem os mandava , que ante de mui- 
to tempo efperava de lhe dar a refpoíla den- 
tro do Rcyno do Delij. E com ifto os def- 
pedio , ficando tão indignado da foberba do 
Patxiah , que logo mandou fazer grandes 
apercebimentos , que foram cem mil ho- 
mens de cavallo , e quatrocentos Elefantes , 
e grande fomma de artilheria. 

Eílando para partir contra o Delij , lhe 
mandou pedir Madre Maluco , hum dos Ca- 
pitães do Reyno do Decan , o foccorreíTe 
contra o Nizamaluco feu vizinho , que lhe 
tinha tomada a Cidade de Doltabad , cabe- 
ça de feu Eftado , e pertendia conquiílar-lhe 
o reftante delle. E que por eíle benefício fe 
queria fazer feu vaítallo. ElRey Badur dei- 
xando para outro tempo a jornada contra 
o Delij , fe foi á Cidade de Doltabad , de 
que o Nizamaluco fe apoderara , e eííeve 
em cerco fobre ella três mezes , té que a 
tomou 5 nos quaes aos ^ de Outubro da- 
iquelleannOj que foi o 1528, choveo pedra 

tão 



586 ÁSIA DE JoAO DE Barros 

tão groíTa como laranjas , que lhe matou 
muita gente , e cavallos , e té elefantes , 
perque lhe conveio tornar-le ícm fazer mais , 
com tamanho apparato como levou , que rel- 
tiruir a Madre Maluco aquella Cidade que 
tinha perdida. ^ 

Tornado Badur a Champanel com per- 
da de outra muita gente que lhe morreo no 
caminho , por fer tempo de inverno , acer- 
tou a ver na cafa , onde fe arrecadavam feus 
direitos naquella Cidade , certos homens , 
que eram Gentios , e do Reyno dos CoIIijs , 
que fica entre o Reyno de Mandou , e Cham- 
panel , os quaes também arrecadavam direi- 
tos para íeu Rey. E poílo que clie fabia 
bem a caufa por que alli vinham pedir , e 
cobrar aquelles direitos , fez que não fabia 
parte diílo , e perguntou que direitos eram 
aquelles , que fe davam de fua fazenda aquel- 
les Gentios ? Refpondêram-lhe , que havia 
muitos annos que os tinham , e a caufa era , 
porque havendo entre o Reyno dos Col- 
lijs, e aquella Cidade de Champanel guer- 
ra, era mui perfeguida delles , por lhes vi- 
rem todos os annos a queimar os pães , e 
as mais novidades. E que vendo ElRey feu 
bifavô , que era menos m.al dar-lhes alguma 
coufa por anno , que a perda que o povo 
daquella Cidade recebia, houve entre elles 

con- 

a Dejia guerra Jc ejcrevco no cap. 14. do liv 2, 



Década IV. Liv. V. Cap. VIL 5-87 

concerto , que lhes pagaíTem em cada Jium 
anno a quarta parte do rendimento daquel- 
la Cidade , e que ifto era o que aquelles 
homens alli arrecadavam. Soltam Badur , 
que era homem fem nenhum diícurfo no 
que fozia , mandou prender aquelles Gen- 
tios ; e porque íe nao quizeram tornar Mou- 
ros , os mandou esfollar vivos , dizendo , 
que aquelle era o tributo que de Champa- 
nel haviam de levar os Collijs. Sabido efte 
feito pelo Rey daquella gente , mandou hu- 
ma noite dar em hum lugar cinco léguas 
de Champanel, e tomaram delle cincoenta 
peíToas , que mandou esfollar vivos , e fi- 
caram pendurados cada hum em feu páo 
como carneiros. Em vingança foi Soltam 
Badur íbbre aquelle Reyno , e por íer já 
no inverno , fem fazer coufa alguma , le 
veio com determinação de tornar fobre el- 
le como vieíTe o verão. 

Mas fobreveio coufa que o impedio , e 
foi 5 que hum Senhor do Reyno do Decan 
chamado Baamane o mandou chamar para 
lhe entregar duas fortalezas , e muita fazen- 
da , que tinha em feu poder do Nizama- 
luco 5 por aggravos que lhe fizera. Polo que 
em o mez de Setembro do anno de 1529 
partio ElRey Badur de Champanel com fe- 
tenta mil de cavallo , e duzentos mil de pé , 
dos quaes lhe morreram dous mil na paíTa- 

gem 



5*88 ÁSIA DE João de Barros 

gem do rio de Baroche , e aíli outros mui- 
tos de pedra que choveo , e de frio por 
caufa das neves. E primeiro que cntraíTe nas 
terras do Nizamaluco , combateo huma Ser- 
ra mui afpera , onde eílava hum Gentio 
cham.ado Largiz , homem poderofo , e tri- 
butário do Nizamaluco. O qual vendo o 
grande poder de Badur , fe entregou a elle ; 
mas mais fe entregou Badur a huma irmã 
de Largiz , de que fe namorou tanto que a 
tomou por mulher , e aquella foi a primei- 
ra que recebeo , e logo dalli a mandou mui 
acompanhada á Cidade de Champanel. Pro- 
feguindo feu caminho , poz cerco á Cidade 
Patarij , que era tão forte , que a não pode 
tomar , (a qual fora do Madre Maluco , e 
o Nizamaluco lha tinha tomada , ) polo que 
fe determinou em ir deílruindo as terras 
chans do Nizamaluco , antes que deter-fe 
em cercar Cidades , e fortalezas. Tanto que 
chegou ás terras do Hidalchan , com quem 
tinha amizade , mandou arvorar huma fre- 
cha 5 fegundo feu coftume , para que foíTe 
notório a todos , que não haviam de fazer 
mal , nem. damno a coufa do Hidalchan. 

Sabendo o Nizamaluco do eftrago que 
Soltam Badur hia fazendo , não lhe quiz^ 
ir ao encontro , temendo o grande poder 
que levava ; mas chamando em fua ajuda o 
Verido , que he outro Capitão dos do Rey- 

no 



Década IV. Liv. V. Cap. VIL ^89 

no de Decaii , foi-fe caminho das terras de 
EmirMahamcd Xiah , fobrinho do Soltam 
Badur, por ler vizinho a cilas. Badur quan- 
do foube deita fua ida , partio feu exercito 
em duas partes , c deo a leu fobrinho trinta 
mil de cavallo , e elle ficou com o mais , 
mandando-lhc que acudiíTe a fuás terras. E 
acertou , que vindo o Verido defavindo do 
Nizamaluco , fobre o modo que haviam de 
ter naquella guerra . e tornando-íe para feu 
Ertado , veio a fe encontrar com Emir Ma- 
hamed Xiah que o hia buícar. Verido , pof- 
to que feu exercito era mui deílgual , por- 
que não levava mais que cinco mil de ca- 
vallo , e doze mil de pé , era tão esforça- 
do , e a fua gente tal , que accommetteo o 
arraial de Mahamcd , palfando para iíTo hum 
rio a vão , e não fe contentou fenão com 
lhe ir cortar as cordas das tendas. Com o 
fubito Ímpeto deíle inimigo fe viram osGu- 
^arates tão embaraçados , que fe começaram 
de desbaratar. E houvera o Verido de fa- 
zer grande eílrago nelles, fenão ufáram de 
iiuma eftratagema , que foi , levantar hum 
fombreiro de pé , o qual ninguém pode tra- 
zer fenão a peífoa d'ElRe7 , para darem a 
entender que era vindo Soltam Badur em 
feu foccorro. E aíH tanto que aquella iníi- 
gnia appareceo , os Guzarates , que não fa- 
biara do cafo , cobraram animo , e o que 

era 



590 ÁSIA DE João de Barros 

era fingido ficou fendo verdade ; porque 
iiaquella conjunção veio ElRey , que fez a 
Verido recolher-fe , dizendo , que náo ha- 
via de levantar arma , onde eíliveíTe a pef- 
foa d'ElRey. Porém com todo feu animo 
perdeo alli fua bandeira , e quatrocentos de 
cavallo 5 que eram a flor de fua gente , e 
ellc matou grande número de Guzarates ; e 
fe não perdera a bandeira , e fc não retira- 
ra por reverencia Q'ElRey , ficara com a 
vitoria. Mas elle o fez na peleja tão esfor- 
çadamente , e com tanta prudência , e mof- 
tras da difciplina militar, que defejou Sol- 
tam Badur de o ter por amigo , e lhe ef- 
crevco , que o quizeíTe fer , e per cartas fi- 
caram grandes amigos , recolhendo- fe cada 
Jium para feu eftado. 

Defta ida deixou Soltam Badur três Ca- 
pitães com doze mil homens de cavallo fo- 
bre as terras do Nizamaluco , que eram vi- 
zinhas de Chaul , onde tínhamos noíTa for- 
taleza. Alli andavam eílcs fazendo guerra , 
e eram aquelles , com quem Francifco Pe- 
reira de Berredo Capitão de Chaul teve o 
recontro que atrás diíli^mos \ E por acudirem 
aos damnos , que António da Silveira fazia 
na deftruição das Cidades de Reiner , e Surat , 
e das outras povoações daquella enfeada , 
deixaram os Capitães aquella parte de Chaul. 

Che- 

a -Ng cap. lo. do Uv. 4. do jiiccejjo de Argao. 



Dec.IV. Liv.V. Cap. VII. E VIII. 5-91 

Chegado Soltam Badur á Cidade de 
Chainpanel , lhe deram nova , que feu ir- 
mão Jangri Chan era morto , o qual cílava 
na Cidade de Abmadabad com o Capitão del- 
ia , que o tinha encuberto , e negado aEl- 
Rey Badur, temendo que o queria matar, 
como fizera aos outros feus irmãos. E por- 
que Badur entendeo que efta nova era fal- 
{ci , fe foi a Abmadabad , e com peçonha 
fez matar ao Capitão , tendo-lhe feito jura- 
mento de lhe não fazer mal , e a capitania 
deo a hum privado chamiado Carija , que 
era Senhor de Cambaiet. E o que fe fez 
defte irmão d^ElRey , e de outro per nome 
Chande Chan , a quem de direito pertencia 
o Reyno de Cambaya , que nefte tempo ef- 
tava no Reyno do Mandou , por fer cafado 
com huma fillia d'ElRey, diíTemos atrás.* 

CAPITULO VIIL 

Como Babor Patxiah Rey dos Mcgole? , //r- 
do para fazer guerra a ElRey de Cam- 
baya , lhe fahlo ao carninho ElRey de 
Chitor\ e da batalha que ambos 
tiveram. 



N 



Eíle tempo Babor Patxiah Rey dos 
Mogoles , e do Delij , por Cv^ufa da 

re- 



a No ccip. 17. do Uv. 4. no çtial fe ejcreveo <jue hum. 
dcjtes in;iiJís :i: B>idur foi viorto , e o outro Uvado a C^a% 



59^ ÁSIA DE JoÂo DE Bakros 

refpofta que Soltam Badur deo á fua embai- 
xada , com grande exercito abalou do De- 
lij , com tenção de entrar nas terras do Gii- 
zarate. Mas eíla determinação lhe foi im- 
pedida por lhe fahir ao caminho ElRey de 
Chitor 5 que he hum dos três mais podero- 
fos Principes daquellas partes. A efte por 
exceilencia os Resbutos chamam Sanga , que 
entre elles quer dizer Emperador j e os ou- 
tros dous Principes são o Çamorij no Ma- 
lavar , e ElRey de Bifnagá no Canará , os 
quaes tem a mefma dignidade Imperial. O 
Sanga dizem que pode pôr em campo du- 
zentos mil homens de cavallo ; e fe he ver- 
dade o que fe diz de feu Eílado , que tem 
cento e cincoenta mil povoações de cincoen- 
ta vizinhos para cima , não fe haverá por 
muito ter duzentos mil de cavallo. Efte veio 
ao encontro de Babor Patxiah , por faber 
que para ir ao Reyno do Guzarate força- 
damente havia de atraveiTar grão parte do 
feuReyno de Chitor. Nefta refiftencia hou- 
ve entre ambos os exércitos humamui cruel 
batalha , em que de huma parte, e outra 
morreo muita gente ; delia ficou o Mogoi 
tão aíFrontado , por cuidar que não acharia 
naquella gente tanto animo , que fe reco- 
Jheo a feu Reyno a fe refazer , para com- 
metter a paífagem com mais poder, como 
fez. 

O 



Década IV. Liv. V. Cap. VíII. 5-93 

O Sanga como foube que Babor íe aper- 
cebia para tornar , o eícreveo a Soltam Ba- 
dur , o qual como fabia que Babor não pre- 
tendia mais das terras do Sanga , que a paf- 
fagem para entrar nas fuás , por cauía dos 
melTagens , que entre elles eram pafiados , 
mandou huma fomma de dinheiro ao mef- 
mo Sanga para ajuda daqueila reíiftencia , 
porque por o esforço da fua gente fabia fer 
elie mui poderofo. Tanto que o Sanga fe 
fez preíles , não quiz efperar em fuás terras 
aos Mogoles , mas com cem mil de cavai- 
lo os foi bufcar além da Cidade de Cha- 
der no fim do Reyno do Mandou , que os 
Mogoles lhe já tinham tomada. E antes de 
fe encontrar com elles , por fer homem de 
idade 5 com o trabalho daqucUa jornada fa- 
lecco. Morto çUe , não deixaram por iiTo feus 
Capitães de feguir feu caminho em bufca 
dos Mogoles j e para os governar , elegeram 
hum , que era o mais principal vaílallo do 
Sanga , que chamavam Salahedin , que era 
Senhor de hum Eftado que chamam Rao- 
fmga 5 ou fegundo outros Rauíina , e pu- 
nha em campo vinte mil homens de cavai- 
lo. Chegado Salahedin aos Mogoles , rom- 
peram fuás batalhas , em que cada huma das 
partes perdeo muita gente, aífi de pé, co- 
mo de cavallo. Epor os Mogoles trazerem 
menos gente da que era a^os Resbutos, 
Tom.IKP.L Pp com 



594 ÁSIA DE João de Barros 

com a grande quebra que houveram , nlo 
quizeram ir mais avante. Neíh batalha di- 
zem que o Salahedin foi prezo ; e outros , 
que elle fc carteou com Babor Patxiah , e 
que na revolta da peleja lè lançou com el- 
le. Em fim elle íe fez Mouro, e ficou em 
ferviço do Babor , que lhe deo muito di- 
nheiro por o ter de ília mao , por luas ter- 
ras ferem a entrada para vir ao Rcyno do 
Mandou , per onde elle determinava de 
accommetter a entrada para o Guzarate , e 
não per Chitor. 

Tornando Babor para o Delij , o Sala- 
hedin fe foi para íi.ias terras , e por temer 
que feu povo o nao receberia por Senhor , 
por fe ter feito Mouro , íe tornou ao eílado 
do Gentio ; e a ceremonia que niilo tem , 
he efta. Eftc Gentio tem a vacca por coufa 
fanta'% e por iíTo não comem a carne del- 
ia 5 nem a matam , e as mais das fuás cere- 
monias fazem, com a ourina , ou eílerco del- 
ia ; e quando fe querem, tornar ao eílado 
de Gentio , por haverem acceitado alguma 

Oli- 

a Como -per todo Oriente feja commum o fonJio Vytha- 
gorico da trnfpaffação das almas a vários corpos de brutos 
animaes , hiiuia das canjas , por que as vaccas são tão ref- 
peitadas daqticHa Gentilidade , lie , por haverem que no 
corpo defia alimária fica huma alma melhor a^a^alhada y 
que em nenhum outro depois que fahe do humano. E affi põem 
Jíia maior lemaventurança em os tomar a morte com as 
mãos nas ancas de huma vacca , efperando que fe recolha 
2 000 a alma nella. 



Dec. IV. Liv. V. Cap. VIII. E IX. 5'95' 

outra feita , mettem huma vacca em huma 
cala muito limpa , e dam-Ihe alli a comer 
milho ^ e tanto que a vacca eílerca , tomam 
aquella boíla , e depois de iecca a lavam, 
c tiram delia o millio que fica inteiro , e 
efle desfazem em farinha , e delia fazem cer- 
to número de bolos , os quaes comem em 
modo de jejum , e penitencia. Ifto fazem per 
efpaço de quarenta dias , e depois fe lavam 
em hum rio de a^ua corrente com certas 

o 

ccremonias feitas per feus Bramenes , no fim 
das quaes ficam no eftado do Gentio que 
de antes tinham. 

CAPITULO IX. 

Como Soltam Badur com feu exercito foi 
contra ElRcy Mamuã de Mandou , e o uen- 
ceo , e matou já cativo ; e encontrando no 
caminho o novo Sanga de Chitor , fez com 
elle alliancas , e o que pafTou com Salahe-- 
din, 

SEndo acabado o inverno , perque aíTi os 
Mogoles , como os Resbutos fe recolhe- 
ram a fuás terras , Soltam Badur ajuntou 
hum grande exercito , e caminhou contra 
Baguer, que he hum Senhorio de Gentios 
Resbutos , que jaz da banda da Cidade de 
Abraadabad contra o Reyno de Chitor , na 
qual ida naolfez coufa alguma de fubftan- 

Pp ii cia^ 



5'9Ó ÁSIA DE João de Barros 

cia 5 fomente íiJgumas efcaramuças com os 
Genrios da terra, que o vinham aíFrontar , 
e fe tornaram logo á Serra. E porque en- 
tre nquella grande Serrania havia hum paí^ 
ío eítreito , perque os Mogoles podiam en- 
trar 3 com o grande poder de gente que le- 
vava , fez alii huma fortaleza , em que fe 
deteve três mezes. Acabada a obra , lançou 
fama que fe hia para feu Reyno de Cam- 
baya 5 e caminhou para o Reyno de Man- 
dou ; e encontrando-fe com o novo Sanga 
deChitor^ (que então fuccedèra a feu pai, 
eleito pç^los Resbutos por leu Emperador , 
paliada a batalha que tiveram com os Mo- 
' goles , de que atrás fizemos menção , o qual 
hia caminho da Cidade de Chandcrij , que 
lhe os Mogoles tinham toinada , ) houve 
entre ellcs viPcas , e novas allianças , por 
caufa dos Mogoles inimigos communs de 
ambos , e fe deo hum a outro muitos pre- 
fentes , e peças ricas em íinal de amizade , 
e principalmente dinheiro, que Soltam Ba- 
dur dco ao Sanga para ajuda da defensão , 
que havia de fazer contra os Mogoles por 
não entrarem pelas terras de Chitor. E por- 
que Soltam Badur deo conta ao Sanga co- 
mo hia fobre as terras delRey Mamud de 
Mandou , em íinal de amizade , mandou o 
Sanga em fua companhia a Salahedin feu 
vaífallo, (que eílava com elle reconcilia- 
do,) 



Década IV. Liv. V. Cap. IX- 5'97 

do , ) com alguma gente , e elle fe foi feu 
caminho para Chandcrij. Mas o Salahedin 
naquclia jornada , como vio tempo , fugio 
ao Badiir , e foi-fe para ElRey Mamud do 
Mandou , moílrando que o hia ajudar con- 
tra Badur. ElRey o reccbco mui bem j mas 
foi para mais fua deílruiçao ; porque por 
meio do Salahedin muitos Capitães do Ma- 
mud fe rebelláram contra elle , lançando-íè 
com Salahedin na Serra do Mandou , que 
per fua afpercza fe não pode entrar''. Mas 
Badur corrompeo com dinheiro aquelies Ca- 
pitães , e fez que lhe abriilem as portas da 
entrada da Serra. Acudindo ElRey Mamud 
a eíla entrada , huns Capitães feus , que ef- 
tavam cm outro paíTo vizinho , nos quaes 
Jiouve mais lealdade que nos outros, entre- 
tiveram a gente de Badur tanto efpaço , que 
ElRey Mamud teve tempo para fe acolher 
a feus paços , que eram no alto da Serra , 
a ordenar algumas coufas , pois não tinha 
outro remédio contra tão poderofo inimi- 
go ^ 

a "Eíla Serra roíUa fete íet^uas , e tem meia de aUii- 
ra, A Cidade ejlá Jituada no mais alto delia , e na (jual 
ejiá cortada ao picão a entrada da Cidade. Nella tinham 
os Reys huns paços mui grandes com huma horta do ta- 
manho de huma ha Villa , e dentro delia três grandes tan- 
ques de agua com hargantijs para fua recreação , no ca- 
lo eUreharias com dex mil cavallos. Antes de chegar a ef- 
tes paços y fe havia de palfar por três fortaíexas , i]He guar- 
davam Capitães com muitos foldados. Fernão Lopes de 
Gaílanheda cap, 97. do Uv, 2. 



5'98 ÁSIA DE João de Barros 

go ; e chamados feus filhos , mandou-Ihes 
que fe puzeíTem em íalvo , porque elle cm 
íua pelToa queria fazer a experiência da 
verdade , ou traição de Badur. Mas nenhum 
de feus íilhos o quiz fazer, fomente Chan- 
de Chan feu genro , irmão do Badur , por 
o perigo que corria de morte, fe acolheo 
por detrás da Serra com algum dinheiro 
que lhe o fogro deo , o qual fe foi para o 
Reyno do Decan. Também fe foi para o 
Reyno do Dclij hum fobrinho de Mamud , 
que alguns dizem que era feu filho. Poílos 
eftes em falvo , chegou ás portas do paço 
d'ElRey hum Senhor do Guzarate chama- 
do Cancaná , e apôs eíle chegou outro por 
nome Cadamo Chan , homem de muita au- 
thoridade , e que muito tempo fora Gover- 
nador do mefmo Guzarate ; os quaes com 
palavras , e promeífas juradas aííi moveram 
ao Mamud , que deo a entrada ao Badur. 
Mas elle não cumprio com o que eftes da 
parte de feu Rey promettêram , que era não 
lhe haver de tomar feu Reyno , mas tor- 
nar-lho a entregar , como feu pai delle Ba- 
dur lho entregara já huma vez , quando o 
tomou ao Sanga paíTado Rey de Chitor, 
que o tinha ufurpado ao mefmo Mamud ^ 
porque em lugar de cumprir fua promeíTa , 
o mandou prender cm ferros , e metter em 
hum andor cerrado, c entregar a hum feu 

Ca- 



Década IV. Liv. V. Cap. IX. 5-99 

Capitão chamado Dacafo Chan , com voz 
que o levafie a Champanel ; e no caminho 
íe fez per ordem d'EiRey Badur hum ar- 
roido feitiço , e dentro no andor mataram a 
EiReyMamud ás eílocadas. Os filhos foram 
também levados prezos á Serra de Cham- 
panel , e mettidos em tal parte , que mais 
era para os matar , que para os ter em guar- 
da , fendo moços innocentes. A mulher deo 
a hum feu privado chamado Minao Chan , 
e de três filhas que tinha , elle tomou a 
maior j outra deo a feu fobrinho Emir Ma- 
hamed Xiah , e a outra a outro. 

Feito Soltam Badur Senhor de todo o 
Pveyno do Mandou , lhe vieram dar a obe- 
diência todos os Príncipes do Reyno ; e lo- 
go começou dar o pago aos Capitães d'El- 
Rev Mamud por a traição que contra feu 
Senhor commettêram ; porque metteo entre 
dous mais principaes tal zizania , que hum 
mstou ao outro , e elle mandou degollar ao 
matador , moftrando que fazia delle juftiça 
por fe moílrarRey juflo j e per outros mo- 
dos , e artificio? , por cumprir com fua má 
inclinação, a todos caftigou com morte. Ao 
Salahedin , porque foi o que ordio a trai- 
ção dos Capitães , mandou-lhe dar todo o 
theíouro que fe achou d'ElRey , que eram 
quinze colores , que valem de noíTa moeda 
três contos de ouro. Mas como Salahedin 

não 



6oo ÁSIA DE João de Barros 

não era menos maliciofo que Eillcy , e en- 
tendeo que aquillo era para o fegurar , ciif- 
íimulou com elle , e pedio-lhe licença pa- 
ra mandar feu filho herdeiro chamado Bo- 
tiparao ao Reyno de Chitor a cafar com 
huma irmã do Sanga , dando-lhe entender 
que era para elle Badur fazer fuás coufas 
naquelle Reyno mais levemente , tendo feu 
filho tanta razão nelle , como era fer cafa- 
do com huma irmã d'ElRe7. Havida eíla 
licença, e poílo o filho em faivo com gran- 
de apparato de noivo , para melhor encu- 
brir feus intentos , acolheo-fe também o Sa- 
lahedin para o Senhorio de Raofinga , que 
he huma Serra inexpugnável , onde tinha 
huma Cidade , aíli por fitio , como por ar^ 
te mui defenfavel , que era a cabeça de feu 
Eftado. Badur como era homem aftuto , e 
que em todas fuás coufas ufava de artifício , 
e manha , não moílrou fenrim.ento da ida 
do Salahedin , antes lançou fama que o ha- 
via de deixar por Governador daquelle Rey- 
no do Mandou. 



CA^ 



Década IV. Liv. V. 6oi 

CAPITULO X. 

Como Salãhedín por engano do Soltam 
Badur , vindo ao Reyno de Mandou , foi 
prezo , e Badur fe foi a Raojlnga em buf- 
ca de Botiparao , que lhe efcapou : e como 
q:íiz dar batalha ao Chitor menino irmão 
do Sanga , com quem tinha feitas lianças , 
e amizade. 

Soltam Badur como efperava tempo per 
algum engano haver ás mãos o SaJane- 
din 5 aproveirou-fe da occaííão que le lhe 
Jogo oíFereceo , e foi andar nova entre os 
do íeu arraial , que os Portuguezes vinham 
fobre Cam.baya. Polo que elcreveo ao Sa- 
lahedin , encommendando-Ihe muito que ie 
yit'í^^ para Mandou , porque elie tornava 
a fuás terras contra o m.ar por aquella vin- 
da dos Portuguezes. Salahedin confiado nos 
mimos das cartas , e vendo que Badur ti* 
zera já duas jornadas de caminho para a 
parte que lhe dizia , ajuntou hum bom exer- 
cito , e com çiVíQ^ fe veio direito ao Man- 
dou. Mas Badur , que trazia efpias fobre 
qWq 5 lhe furtou a volta , e hum dia ama- 
nhece© íòbre feu arraial de improvifo ; po- 
lo que vendo Salahedin que lhe nao podia 
efcapar , por lhe ferem os caminhos toma- 
dos , fe entregou a Badur , o qual o fez 

Mou- 



é02 ÁSIA DE JOAO DE BaRROS 

Mouro per força , e mandou hum de feus 
Capitães fobrc Raoíinga , cuidando que fe 
lhe entregaíTe. Mas Botiparao filho herdei- 
ro do Salahedin , vendo que fizera Mouro 
a feu pai , não lhe quiz obedecer , nem me- 
nos os feus fubdiros de Raofmga , que por 
o mefmo refpeito lhe tinham ódio. 

A eíle mefmo tempo chegou recado a 
ElRey Badur , como o Governador Nuno 
da Cunha com grande Armada hia fobre 
Dio ; com efta nova efpedio com grande 
preíFa dous Capitães com muita gente , e 
munições. Alii lhe veio também nova , que 
o Sanga novo Rey de Chitor , com quem 
elle j poucos dias Jia via, aílcntára grandes ami- 
zades nas viftas que tiveram , morrera na- 
quelle caminho que fòzia para Chanderij ; 
e que levantando por Rey hum feu irmão 
moço de pouca idade , por o qual governa- 
va íua mãi a Rainha Crementij , que livra- 
ra da morte a Badur , fe foram os grandes 
para fuás terras. Per aquelle mefmo tempo 
era vindo, onde Soltam Badur eftava,.Tear 
Chan , homem de muita confiança , e autho- 
ridade , que lhe tinha ElRey dado a capi- 
tania da Serra de Champanel , que era a 
mais forte coufa de feu Reynó , onde elle 
tinha todo feu thefouro , e muitas vezes dei- 
xava fuás mulheres , quando fazia alguma 
comprida jornada j ao qual mandou chamar 

que 



Década IV. Liv. V. Cap. X. 603 

que vieííe para elle com gente , porque ef- 
perava fazer o que fez com a nova que lhe 
deram. E foi mandar logo dalli Madre Ma- 
luco feu Capitão com doze mil de cavallo 
a Raormga per hum caminho , e elle to- 
mou outro m.enos ufido , cuidando que pu- 
deííe acolher a Botiparao filho de SaJahe- 
din. Mas como elle trazia efpias no arraial 
de Badur , tanto que foube deftes feus ca- 
irânhos , entregou a Serra de Raoíinga a 
hum feu Capitão , e com feu exercito fe 
foi caminho de Chitor. Eíla ida fez elle y 
porque fabia que Badur levava feu pai pre- 
20 5 e que o havia de cercar a elle naqueí- 
la Serra ; e que fe lha não entregaíTe , co- 
mo determinava fazer, lhe mataria feu pai 
ante feus olhos. Mas Soltam Badur como 
foube do caminho que Botiparao levava , a 
grande preífa mandou a Madre Maluco feu 
Capitão que lhe foííe tomar hum paíFo de 
afpera montanha per onde elle havia de paf- 
far ; m^as Botiparao era já paíTado quando 
elle chegou ao paíTo. 

Soltam Badur , deixada a maior parte 
de feu exercito em Raoíinga , o entregou a 
Tear Chan , e foi com outra parte delle ao 
paíTo 5 onde eftava Madre Maluco ; e juntos 
ambos os exércitos , foi caminho das terras 
do novo Sanga , moço de poucos annos , 
mais com tenjâo de o tentar , fe o achava 

tão 



6o4 ÁSIA DE João de Barros 

tão defcuidado , e defapercebido , como lhe 
diziam que eítava , que de o confolar pola 
morre de feu irmão , c a Rainlia Cremen- 
tij , (a quem elle tinha tanta obrigação , ) 
pola de ícu filho. Mas o moço , ainda que 
nao tinha idade para governar, teve-a para 
defender leu Reyno , vindo a impedir ao 
Badur que nâo lhe entraííe nelle com quinze 
mil de cavallo , governados por mui bons 
Capitães. Badur trazia dez mil , e duzentos 
Elefantes , e alguma artilheria. Chegados 
ambos á vifta em parte que lhe ficava hu- 
ma ribeira no meio , cada hum fortalecco 
feu arraial , efperando que vieííe a manha 
para darem a batalha , a qual nao houve 
eiFcito por vir recado a Badur , que o San- 
ga fugira aquella noite , fem ficar no campo 
mais que humas poucas de tendas velhas , e 
outras coufas de pouco preço. Huns dizem 
que o Badur fentio o ardil do Sanga , que 
fe fez fugido para elle Badur o feguir té 
que cahiíTe na cilada que lhe tinha armada : 
outros affirmam , que Badur foi avifa^o per 
peíToas que o Sanga trazia no feu cçmfelho , 
que o avifavam de tudo o que pafiíava. Por- 
que Badur trabalhava muito que lhe cuftaf- 
fem as vitorias dinheiro , e não fangue , e 
nifto gaftava grande parte do feu. Finalmen- 
te por qualquer caufa que foiTe , elle nao 
feguio o caminho que levava, e deixou alli 

em 



Década IV. Liv. V. Cap. X. 605- 

em hum certo palTo ao Madre Maluco com 
cjuarro mil de cavallo , como homem que 
temia vircm-lhe dar nas coíías , e tornou-fc 
a Raoíjnga , onde chegou Muílafli , que Ei- 
Rey mandou ir deDio, a que dco o nome 
de Rume Chan , e fez as meicês que atrás 
clcrevemos ; e para fazer experiência de fua 
peflba , e induílria , lhe mandou que com- 
bateíle a Cidade com osfeusPvumes que le- 
vava , e com os Francezes da ndo do Bri- 
gas , de que atrás efcrevemos , com oito 
Portuguezes que andavam no íeu arraial. A 
Cidade eílava aíTentada no alto da Serra , 
em íitio tão íngrime , e afpero , que ás pe- 
dradas fe podiam defender os paíTos perque 
íè entrava nellc , nos quaes havia baluartes 
com muita artiiheria. O primeiro foi entra- 
do pelos Portuguezes ; e o que fe dellcs 
adiantou foi hum mancebo por nomeFran- 
cifco Tavares , que na tomada do fegundo 
bnhaarte mataram , e feus companheiros fo- 
ram bem feridos. Duraram eíles combates 
quatro mezes , té que ganhando todos os 
baluartes , ElRey chegou a dar huma bate- 
ria á Cidade , com que derribaram hum 
grande lanço delia. 



CA- 



6o6 ÁSIA DE João de Barros 
CAPITULO XI. 

Como o Soltam Badur tomou a Cidade de 
Raofinga a partido : e da verdade , e di- 
ligencia que ufou , para que os venci- 
dos não recebe IJem ojfenfa : e do va- 
ler of o feito de Salahedin , e de 
fuás mulheres, 

NAo querendo Botiparao efpcrar em 
__ Raofinga ao Soltam Badur, epôr em 
perigo feu pai fe fe defendeíle , foi com- 
bater huma Cidade notável de feu Eílado , 
que confinava com o Delij , que hum Rej 
daquelle Reyno chamado Alamo lhe trazia 
ufurpada , ao qual venceo Botiparao, e co- 
brou fua Cidade. Alamo em ódio de Bo- 
tiparao , e pertendendo recuperar a mefma 
Cidade , fe veio para Soltam Badur ao tem- 
po que elle eftava já em partido com a gen- 
te da Cidade de Raoíinga , que tivera em 
cerco. O Badur quando vio hum Príncipe 
tão grande , que trazia com^íigo doze mil 
de cavallo , que fe vinha oíFerecer para o fer- 
vir naquella guerra , fez-lhe muita honra ; 
e como era vão , e mui altivo , por mof- 
trar-fe magnifico , e grandiofo , lhe deo mui- 
to dinheiro , cavallos , e grandes atavios , 
e terras , que lhe rendeílem , em quanto an- 
daíTe com elle. 

O 



Década IV. Liv. V. Cap. XT. G07 

O partido que os da Cidade moveram 
ao Soltam Badur , foi , depois de nao terem 
pólvora, frechas, e munições, com que fe 
defendeílem , que entregariam a Cidade, 
com que lhe feguraíTe as vidas , e fazendas , 
c a defpejáram , por quanto fe queriam, ir 
Jiabiiar a outras partes , e que os que qui- 
zeílem fcaficm livremente. Feito cfíe con- 
certo , huma ante manhã veic-lè a maior 
parte da gente da Cidade alTentar em huma 
fralda da Serra em modo de arraial , para 
dalli feguircm feu caminho. E de quão pou- 
ca fé Soltam Badur guardou com juramento 
a outras peflbas , com eíta g^nlç: , fucceden- 
do o negocio contrario á eíperança que àú- 
le fe tinha (como fe verá ) teve tanta con- 
ta em cumprir o que prometteo , que re- 
ceando que os íeus foldados lhe fizeíTem al- 
gum damno , mandou a iiuin feu íbbrinho , 
que com fua gente eftiveííe em guarda da- 
cuella que fe lhe entregava. E porque ú\^ 
cuidou, que as primeiras peíToas que fahif- 
fem foífem as mulheres , filhos , e familia 
de Saiahedin , que elle trazia prezo com.íi- 
go , vendo que era já muita gente em bai- 
xo , e cilas não defciam , mandou trazer Sa- 
iahedin ante íi , e perguníou-lhe porque nao 
vinham fuás mulheres ? Ao que elle não fou- 
be refponder , fomente diífe que mandaífe 
lá alguma peílba que vieíTe em guarda dei- 
las. 



6o8 ÁSIA deJoÂo de Barros 

las , que per ventura com temor de recebe- 
rem aJguma offenfa da gente de guerra , nao 
oufavam de vir. Para o que ElRey mandou 
logo hum privado feu chamado Aiicer , que 
era aquelle Capitão , que perdeo as fuílas em 
tempo de Lopo Vaz de Sampaio "" ^ dando- 
Ihe aviíb que tiveíTe grande recado no the- 
fouro de Salahedin ; porque como havia 
pouco tempo que elle havia dado a Salahe- 
din o que tomara a ElRey do Mandou , e 
mais fabia fer elie muito rico , e que havia 
grande tempo que enthefourava , parccia-lhe 
ter alii huma mui grande preza. Chegando 
Aiicer ao muro da Cidade , veio recado das 
mulheres de Salahedin perque lhe faziam 
faber , que ellas nao fe haviam de entregar 
a pcílba alguma , fenao ao mefmo Salahe- 
din ; e quando elle fofíe morto , á própria 
peílba d'ElRey. Trazido eíle recado a Ba- 
dur , mandou a Salahedin que foíTe lá para 
virem em fua companhia , e o mefmo Aii- 
cer em guarda deile , com pouca gente , 
por nao fazer eftrondo , com que as mulhe- 
res fe aíTombraircm. 

Entrando Salahedin onde ellas o eílavam 
efperando apercebidas para o que determi- 
navam fazer , começaram de lhe lembrar 
fua honra, e quão mal o tinha feito em fe 
tornar Mouro , porque iílo procedia da von- 

ta- 

a Como fã referlo no cap. 14. do Uv. 2. 



Década IV. Liv. V. Cap. XI. 609 

tadc , e os cafos da guerra , e fua prizao da 
Fortuna , com outras palavras tacs , que nao 
teve Salnhcdin que lhe refpondcr , fenao que 
de vonradc nunca fora Mouro , e o que niíTo 
fizera fora por falvar a vida , e a vir alli of- 
ferecer por íalvaçao delias , ou para morrer 
com ellas juntamente. Eram cilas mulheres 
com fuás efcravas por todas quinhentas Gen- 
tias , a fóra algumas Mouras , que na guerra 
foram cativas. As quaes mulheres , fegun- 
do feu coilume Gentilico , de fe queimarem 
quando morrem feus maridos , eftavam of- 
ferccidas a efta morte antes que ir a po- 
der de Soltam Badur ; e para ifto tinham 
em hum pateo grande muita madeira junta 
de fandalo , páo de aguila , beijoim , e ou- 
tras couíiis odoriferas , evafos de azeite, e 
manteiga para melhor arder. O Salahediíi 
quando per ellas lhe foi moftrado aquelle 
inílrumento de feu fim , chamou todos os 
parentes , e criados , que eftavam em guar- 
da delias , que feriam ceeto e vinte homens ; 
e depois de lhes fazer huma arenga ^ em que 
tratou da honra , e louvor que ganhariam 
em morrer todos juntamente por não cahi- 
rem nas mãos de feus inimigos , e virem á 
baixeza , e cativeiro i todos fe foram a hum 
tanque de agua , que tinham, das portas a den- 
tro , onde fe lavaram , e feitas íuas ceremo- 
nias naquelle lavatório , em remifsão (ícgua- 
TomAF, P.L Qg do 



6io ÁSIA DE João de Barros 

do elles criam ) de fcus peccados , veílindo- 
fe cada hum hun^a camila lavada , e os ca- 
bellos feitos , per honra da liberdade , íe vie- 
ram ás mulheres com iuas cípadas nas mãos , 
com palavras, e cercmonias de fua religião. 
O Salahedin foi o primeiro , que íobre aquel- 
le ajuntamento de madeira começou de de- 
gollar fuás miulheres , indo eilas ornadas de 
muitas jóias de ouro, e pedraria , e de todo 
o melhor que tinham para cevo do fogo. 
O Capitão Alicer , que com o Salahe- 
din viera , como não eílava podcrofo para 
o^eftorvar , poílo que niíTo lhe fallou em 
modo de piedade , e compaixão , temendo 
que aquelia fum vielle a quebrar nelle , tor- 
nou-fe com grande preíía dar conta a Sol- 
tam Eadur daquelle efíranho auto , a que 
devia de acudir ao menos , quando não pu- 
deífe falvar as peíToas , para falvar a rique- 
za antes de fe queimar. O que elle logo 
fez , pondo-fe a cavallo , e mandando cer- 
tos Capitães , que eftavam m.ais prciles , que 
foífcm diante a entreter que não houvefie 
tanta perda. Mas quando chegaram a hurs 
baluartes , c\ue eílavami no meio da Serra , 
acharam o Salahedin, que com os feus ti- 
nham morto ã efpada muita gente , que guar- 
dava aqueíla entrada da Serra ; e os paços 
do Salahedin pareciam o mefmo inferno de 
chammas de fogo, entre fumo de mil co- 
res. 



Década IV. Liv. V. Ca?. XI. 6ii 

rcs , fegundc a inatcrin que o fogo queima- 
va. Finalmente o SalciJiedin com os feus , 
como quem queria vender íua vida a troco 
de muitas , andando todos armados , fize- 
ram couilas , que não pareciam de homens , 
ícnáo de Demónios , que andavam reveíli- 
dos nelles ; porque iendo fòs cento e vinte 
homens , mataram mais de quinhentos , té 
que mais caníados , que vencidos , a ferro 
foram mortos. E fe o Salahedin não mor- 
rera Jogo de huma efpingardada na prim.eira 
fúria , ainda o damno fora maior. E entre 
os feridos daquelle infulto , que foram mui- 
tos , foi hum Portuguez , e dous FrancezesJ 
E porque o fobrinho de Soltam Badur , 
que elle mandara pôr em guarda da gefite , 
que fe fahíra da Cidade fobre fua fé , liao 
podia reter os foldados , que não foífem a 
roubar , por a indignação que tomaram dei- 
te feito do Salahedin , acudio o mefmo Ba- 
dur a efia fúria por manter fua palavra ; e 
eíla foi a primeira que guardou. E ainda 
lhe foi iílo mais louvado , porque temendo- 
fe que todavia os foldados fedefmandaP- 
fem , mandou avifar aos principaes da gen- 
te que era fahida , que aquella noite fe fof- 
fem caladamente em. boa hora , e fizeíTem 
fogos , e deixaíTem algumas tendas velhas 
armadas para terem tempo de fe ir efcoan- 
do pela outra fralda da Serra, porque elle 
Qg ii man- 



6i2 ASTA DE João de Bauros 

mandaria ao Capitão da guarda dclles , que 
ningucm folie ao feu arraia] • e em quanto 
viílem algumas tendas , e fogos , prefumi- 
riam não feiem partidos. Elles o fizeram af- 
íi , e Ib falváram , luins fazendo caminho 
para o Rcyno de Ciiiior , outros para o de 
Delij. E de quanto thefouro Badur efperava 
de haver doSalahedin, achou fómen^ qua- 
fi hum milhão e meio de valor , entre ou- 
ro , prata , e coufas de cafa , porque o mais 
fe queimou, e havia levado Botiparao quan- 
do fe dalli foi. 

CAPITULO XII. 

Como Badur jjiandou dar honrada fepul- 
tura a Salahedtn , e aos que com pile mor- 
reram : e cordo fez afogar Alicer feu pri- 
'vado em hum rio : e da vifitação que lhe 
fez Me li que Tocam : e como tomou o Rey- 
710 de Chiíor ao Sanga , e das condições 
com que fe lhe fez vajfallo. 

REcoIhido odefpojo da Cidade dcRao- 
íinga , mandou Eliley fazer huma no- 
bre fcpultura a Salahedin , c aos Mouros ^ 
que com elle m.orrêram ao feu modo : e aos 
mais principaes Gentios mandou queimar os 
corpos , e levar fuás cinzas ao rio Ganga , 
que he o Ganges, legundo feu coftume. A 
Cidade , e toda a Serra deo a Soltam Al- 

mo , 



Década IV. Liv.V. Cap. XII. 613 

mo y que novamente era vindo ao fervír 
naquclla guerra , a qual logo foi povoada de 
gente da terra. E em quanto íe EIRey alli 
deteve , mandou a Tear Chan , que com 
liia gente , e outro's alguns Capitães folTe 
tomar a fortaleza de Doçor no Reyno de 
Mandou , que o Sanga paífado tinha toma- 
da , a qual levemente cobrou por fe deC- 
pejar , e deixando nella Capitães , fe veio 
caminho do Mandou , onde já achou EIRey 
que efteve alii té o fim do inverno, E co- 
mo Badur era homem , que feu efpirito nao 
aíTocegava fem fazer algum mal , paíTeando 
hum dia a cavallo ao longo do rio Nar- 
banda , que fe vem metter na énfeada de 
Cambaya junto da Cidade de Baroche , por 
nafcer naqueilas Serras do Mandou , entrou 
em huma fufta , que mandou fazer para fca 
paíTatempo , e em huma almadia muito pe- 
quena fez entrar o Capitão Alicer ; e como 
tinha ordenada a morte defte , os remeiros , 
que remavam a almadia , deram com elle 
na agua em modo de folgar , como que 
queria EIRcy ver fe fabia nadar. E ouvin- 
do os brados , e laftimas que Alicer dizia , 
pedmdo que lhe acudiíTem , Badur fe ma- 
tava de rifo , té que o miferavel fe aíFo- 
gou. Era efte Alicer naquelíe tempo mui 
privado d'ElRey , e de ninguém confiava 
fua mãi , e quantas mulheres tinha, fenáo 

dçl* 



^ 



614 ÁSIA DE João de Barros 

delle , como já fiara lua Arn\ada das furtas 
de Dio 5 e de íeii pai Camalmaluco a ca- 
pitania da mefma Cidade. 

Nefte tempo veio Mclique Tocam , que 
eftava em Dio , viíirar a ElRey com gran- 
des prefentes , e dar-Ihe conta como tinha 
nova mui cerra da vinda dos Rumes, para 
ElRey ordenar o que niíío havia de fazer, 
e outros aíTombramentos das Armadas dos 
Portuguezes , para moílrar a muita neceíli- 
dade que havia delle ihr fempre prcfente 
naquella Cidade ; por a quai razão ElRey 
o defpedio logo , e lhe deo alguns Portu- 
guezes 5 e Francezes que lá andavam. , por 
os haver por mais fieis que os Turcos , re- 
mendo que vieilem como Melique Tocam 
lhe dizia. E havendo já diss que eile era 
partido para Dio , e eílando EiRey em Cham- 
panel ordenando hum a grande feíla , a que 
elles chamam. Bacharij 5 em que matam gran- 
de número de gado de toda a forte , cm 
memoria daquclle ficrificio que Abrahao fez 
do carneiro em lugar de leu filho líac , lhe 
chegou recado deite Melique Tocam , em 
que lhe fazia faber que fobre Dio era che- 
gada huma groífa x\rmada , e que >ainda náo 
tinha fabido fe eram Rumes , lè Portugue- 
zes. Com cila nova defamparou ElRey a 
feíla 5 e a grande preíTa fe veio a Dio. 
Aquclla Armada era a de António de Sal- 

da- 



c 



Década IV. Liv. V. Cap. XII. 615' 

danlia, de que atrás efcrevemos. '^ E como 
EIRcy achou recado cm Dio , que a Ar- 
mada não fizera mais damno , que tomar 
algumas ndos , que vinham do eftrcito do 
mar Roxo , íem accommetter a Cidade , fi- 
cou deícançado ; e Icm alli fazer detença , 
porque eíperava de ir fazer guerra ao San- 
ga Rcy de Chitor ,. mandou levar de Dio 
feiscentas peças de artilheria , em que en- 
travam cinco bafiiiícos , e com cem mil de 
cavallo , e gente de pé, íem número , da 
qual a que fomente fervia no arraial en- 
chia os campos , fe abalou. 

O Sanga o efperou junto deDoçorj mas 
como vio aquella grande potencia de gen- 
te , armas , e artilheria , nao oufando efpe- 
rar mais , fe rccolheo pára Chitor / , em 
cujo alcance mandou Badur té o encerrar 
na Cidade. Efta da mcfma maneira de Rao- 
fmga eítá fituada fobre huma grande Serra 
mui afpera de fubir , fomente de fronte tení 
hum pico , que lhe fica quafi igual em al- 
tura 5 que por fer vizinho á Cidade , por 
caufa delia fe chama Chitorij , como dimi- 

nu- 

a No cap. ly. do Uv. 4. 

h Chitor na linf^tca da terra tjuer dl^er Somhreiro do 
Mundo , e affi o era ejla Cdade , por fer a mais voíyre , 
e rica do Indojlan , na qual havia fumntuflfos edifícios dos 
Jet^ pagodes , e defetis moradores , cujas paredes eram for- 
rífdas de taboas douradas , oa iranfjueodas com hum hitnme 
TÁui alvo , e rijo , q:ie parecia vidro, Fernão Lopes de Caf- 
tanheda cap, 96. do liv. S. 



6i6 ÁSIA DE João de Barros 

nutivo. Dcfte pico fe começou a bater a 
Cidade ; e delle , c de outras partes , cm 
queElRey como chegou mandou aíTeílar a 
artilheria , foi tão grande a bateria dos ba- 
lilifcos 5 e de outros tiros groflbs , que der- 
ribaram hum grande lanço do muro da Ci- 
dade. Os de dentro fe viram em tanto pe- 
rigo , e aperto , havendo dous mezes que 
durava o cerco , em que fe defenderam mui 
esforçadamente , que vieram a concerto , e 
foi : Qiie ElRey de Chitor lhe alargaíTe to- 
das as terras , que tinha tomadas do Reyno 
do Mandou , e todas as pcíToas que tinha 
em arrefens , por o refgate que o Soltam 
Mamud do Mandou lhe ficou devendo ; e 
aíli huma coroa de pedraria , e certas jóias 
outras , que o mefmo Soltam dera em pa- 
gamento de feu refgate , quando foi venci- 
do na batalha que lhe o Sanga velho deo ; 
e que hum irm.no mais moço do Sanga o 
ferviífe com dous mil de cavallo , e que o 
Sanga rio fim do anno foíTe á Corte delle 
Soltam Badur a lhe fazer a íalema como 
ièu vaíTallo ^ e que Botiparao filho do Sala- 
hedin morto , que eílava cafado com huma 
fua irmã , YÍefí^c a fervir a elle Rey Badur 
como feu vaíTalIo. Feitos fobre eíle concer- 
to feus contratos ao feu modo , Badur foi 
entregue de tudo j e entre algumas Villas , 
e Cidades que o Sanga entregou , a que 

mais 



Dec.IV. Liv.V. Cap.XIT. eXIII. 617 

mais fcntio foi a Cidade de Renatambor , 
que eílá nos confins do Rey:no do Delij , 
lituada em huma Serra redonda , que tem 
doze legaas em torno , todas de campina 
iem agua , perque nao pódc fer cercada. DeP 
ta maneira pagou Badur o beneficio que a 
Rainha Crementij deChitor lhe fez quando 
o livrou da morte, que EIRey feu marido 
lhe queria dar , pola que elle deo fem cau- 
la cm fua prefença a hum feu Fidalgo prin- 
cipal. E niílo pararam as amizades , e lian- 
ças que o Sanga mancebo , e elle contrata- 
ram. E com eíla vitoria ficou Soltam Badur 
Senhor de três grandes Reynos , do Guza- 
rate , do Mandou , e do Chitor , cujos Reis 
de cada hum per li era potentiíTmio , e ri- 
quiílimo havia poucos dias. 

CAPITULO XIII. 

Como veio nova a Soltam Badur , que 
Babor Rey dos Mogoles era falecido : e da, 
vinda do Principe Mir Zaman , cunhado 
do novo Rey , d Corte do Badur : e como 
elle intentou diminuir osfoldos , e quantias 
que a gente de guerra tinha delle, 

ACabadas eftas coufas com os de Chi- 
tor , Soltam, Badur fe partio para a 
Cidade do Mandou , onde lhe veio nova 
que Babor Patxiah Rey dos Mogoles era 

fa- 



6i8 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

falecido , e que hum filho feu per nome 
Omaum Patxiah reinava , ao qual elle logo 
ordenou mandar vifitar per hum Capicao íeu 
Mouro de naçáo Cora cone , por íaber bem 
os eftilos dos Mogol^s , e com elle hum 
Caciz homem mui religiofo de fua feira. A 
fubílancia deila viíitacao , e embaixada era 
alegrar-fe com elle do novo Eiiado que her- 
dara , e oíerecer-lhe fua amizade , e que 
como amigos , e alliados aílentafíem pazes , 
para o que o Caciz levava os Livros de íua 
lei 5 para ferem juradas nella , havendo que 
os Mogoles náo eram táo doutrinados nas 
coufis delia como eram os Mouros do 
Guzarate , por a vizinhança , e commercio 
que tinham com a cafa de Meca. 

Nelk conjunção chegou á Corre de Ba- 
dur Triíláo de Gá , que Nuno da C^unha 
inandára fobre concerto de pazes , como 
dilTemos atrás". E no tempo que eftavam 
na Corte do Mogol os Embaixadores de 
Soltam Badur , veio á fua hum Principe 
chamado Mir Zaman * , cunhado de Omaum 
Parxiah , que era calado com huma fua ir- 
mã. Sua vinda era com temor d'ElRey , 
que fufpeitava que Mir Zaman intentava trai- 
ção p^ra o matar. Trazia eâe Principe com- 

íigo 

a No cap. 2j. do Viv. 4. 

h Dos progenitores dejle Zaman escreve Diogo do Cou- 
to n9 cap. ij. dõ Uv> i. da 5. Década, 



Década IV. Liv. V. Cap. XIII. Ó19 

íigo mil homens de cavallo , e grande ap- 
parato , como a feu eftado convinha , poíío 
que lua partida fora apreíTada , como quem 
fugia. Soltam Badur, fobre muitas honras 
que lhe fez, lhe deo logo dinheiro para fe 
prover de coufas neccíTarias á fua cafa , e 
para feu fuílento a Cidade de Borodá , que 
rendia cento e oitenta mil pardáos. Omaum 
Patxiah feu cunhado , como foube fer elle 
acolhido a Cambaya , efcreveo a Soltam 
Badur que lho mandaíTe entregar ; e em quan- 
to náo teve refpoih delle , não quiz defpa- 
char de todo o Embaixador, polo que Uiq 
conveio deixar lá o Caciz , e hum Meliqiie , 
que era a fegunda peíToa da embaixada , e 
vir-fe a Soltam Badur fobre o cafo. Badur 
o tornou logo a enviar mais a intentar ami- 
zade entre Omaum , e feu cunhado , que a 
dar promeíTa de lho entregar. 

Eilando eílas coufas aííi movidas , fuc- 
cedeo para Badur não alTentar paz com o 
Governador da índia , e com Omaum Pat- 
xiah , que lliQ veio nova , que hum feu tio 
irmão de fua mãi fe levantou por Rey , com 
favor de hum Capado Capitão da Cidade 
de Mambadabad , e de outros Capitães , no 
que entrava Mujate Chan. Soltam Badur 
como foube defte alevantamento , (de que 
o avifou o mefmo Capado , temendo que 
íe não fuccedeíTe o cafo bem ;, que depois 

vief- 



6io x\SIA DE João de Barros 

viefle elle a pagar efta traição com a vida , ) 
acudio logo com mão armada . e não ío- 
mcnte matou o tio , mas duas peíToas prin- 
cipaes , que publicamente favoreceram iqucl- 
la rebeiliáo ^ e com Mu j ate Chan di:1iinu- 
lou, por fer hum dos mais antigos Senho- 
res do Guzarate. E a Tear Chan , que era 
feu principal Regedor , e Capitão da Serra 
de Champanel , onde tinha feus thefouros , 
c muliíeres , per alguns indicios que de al- 
guns Teus criados , e peíToas a elle chegadas , 
teve de elle favorecer cíle cafo do tio , o 
fufpendeo por alguns dias do cargo, té elle 
ir em peíToa a Champanel ver fe achava al- 
gum raftro para accrefcentar o caíligo ; e 
ao Capitão Capado fez honra , e mercê. E 
como hcou deíaííombrado da principal gen- 
te que tinha morto , e fe vio Senhor do 
Reyno do Mandou , e o de Chitor eftava 
á fua obediência, parecia-] he que eftava fe- 
guro de noffa parte, e da do Mcgol , por 
as pazes que determinava ter com. elle , e 
com o Governador Nuno da Cunha. Polo 
que fe refolveo defpedir a gente de guerra , 
e encurtar as comedias que tinha ordena- 
das aos Capitães , por eftarem preftes com 
gente quando os chamaíTe. E chegou a tan- 
to cite negocio , que diíTe aos Senhores que 
tinham terras , e rendimentos para eíta deC- 
peza , que lhes havia de dcfcontar certos 

an' 



Dec. IV. Liv. y. Cap. XIII. E XIV. é2 1 

annos que comeram os rendimentos , fem 
haver guerra , e fem elles terem a gente obri- 
gada. E aili começou a mover huma cou- 
ia , que fe antes lhe tinham ódio por fuás 
crueldades , c por quão vario , e fubito era 
cm luas acções , com iílo fe dobrou , e lo- 
go le pníTáram para o Mogol quatro mil ho- 
mens nobres eícandalizados defta novidade. 

CAPITULO XIV. 

Como Soltam Baãur pr Mujate Chan 
lhe contrariar que nao tirajje as comedias 
aos nobres que o fervíram na guerra , o 
viandou a Dio para Me U que Tocam o ma- 
tar : e do valerofo feito que fizeram , Me- 
li que em defcubrir aquelle Jegredo a Mu- 
jate 5 e Mujate em fe ir aprefentar a El- 
Rey para que elle o mataffe, 

VEndo Mujate Chan , que era hum dos 
mais antigos , e poderofos Senhores 
do Reyno de Guzarate , a defcrdem que 
ElRey intentava com aquelles nobres que 
o íervíram nas guerras, dizia em público, 
cue não havia de coníentir que á gente no- 
bre Ihefcíle tirado o q\\q. tinha, por o ha- 
verem merecido per ferviços de íeus avós , 
e (íeus. Polo que Soltam Badur , que tinha 
fuTpeita que favorecera a feu tio no alevan- 
tamento que fez contra elle, e defejava de 

o caf- 



022 ÁSIA DE JOAO DE BaKROS 

O caíligar , e nao oufava por a grande qua- 
lidade de fua peííoa , por contrariar aqucl- 
Ja fua ordem , determinou de o matar per 
manha , como era íeu coílume. Para o que 
cliamando-o hum dia , Jhe diífe , que ellc 
iàbia bera com.o tinha aíTentado com Nuno 
da Cunha Governador da índia de fe verem 
cm Dio j e porque temia que vindo o Go- 
vernador poderofamente , achaíTe Dio des- 
apercebida , \\\Q rogava íc foíTe para lá , pa- 
ra favorecer com fua peílba , e gente a Me- 
Jique Tocam , em quanto qWq nao foíTe , e 
que hi o efperaííe. Partido MujateChan pa- 
ra Dio, defpedio logo Badur hum feu Se- 
cretario 5 por nome Mu]a Mamed , com hu- 
ma carta para Melique Tocam , em que lhe 
mandava , que tanto que Mujate Chan foí- 
fe na Cidade , por ihe fazer feíla o JevaíTe 
hum dia em huma fuíla ao mar, e o lança f- 
fe nclle com huma pedra ao pefcoço j e que 
quando defta maneira o não pudeíTe matar , 
foíTe de qualquer outra , com que nao ef- 
capaíTe de morte. 

Na noite que efte Mula Mamed chegou 
a Dio 5 deixou a fua tenda na quinta de Me- 
lique , e veio embuçado á Cidade dar-lhe 
conta do negocio a que vinha , e como tra- 
zia huma carta d'ElRey , a que elles cha- 
mam formão 5 a qual também com o feu 
fato deixara na quinta, c por não fe pôr a 

def- 



Década IV. Liv. V. Cap. XIV. 623 

deícnfardclar logo per nnte es fcus , fe vie- 
ra íem eJla antes que Mujate Clian chcgaf- 
fe 5 que devia já vir f erto. Melique Tocam , 
quando ouvio eíla maldade d'ElRey , ficou 
alTombrado , e refpondeo a Mula Mamed 
que fe torna ííe alua tenda, e como homem 
que vinha canlkio repoulaife té o outro dia 
já tarde , pcis Mujate Chan nao era chega- 
do. Defpedido ]\lelique de Mula Mamed, 
mandou logo cliamar alguns homens , de 
que muito confiava , a que deo conta do que 
IheElRcy mandava fazer, pííiido-lhe dian- 
te quão grande Senhor era Mujate Chan , 
que fomente de parentes , criados , e vaííal- 
los tinha dez mil de cavallo , e que bem 
íabiam quão leal fempre fora aos Reys. E 
-que fegundo o que tinha fabido , que a cau- 
fa de o ElRey mandar m.atar procedia de 
lhe elle ir á m:áo por hum darano tão no- 
tável 5 como era querer tirar as comedias aos 
homens que as tinham m.erecidas ao Rey^ 
no , e a ellc próprio Badur. Mas como elle 
era homem perverfo , que per miui leves cou- 
fas fe m.ovia apor emeífeito qualquer gran- 
de m.aldade , c nafcêra para derramar quan- 
to nobre fangue havia no Reyno de Guza- 
rate , elle Melique eftava determinado em 
não fazer o que Badur lhe m,andava , mas 
que com tudo queria o parecer delles. Q 
voto de Melique approváram todos, e aiiv 

da 



624 ASlA DE JoÂo DE Barros 

da accrefccntáram muitas mais razoes para 
lhe nao haver de obedecer ; tão aborrecida , 
edcícontente eftava a gente da vida, e fei- 
tos daquelle Rey. Pola qual razão Melique 
Tocam cfpedio logo hum deites homens a 
grande preíTa a Mujate Chan , perque IJie 
mandava dizer o que paílava , por iíTo vií- 
fe o que fazia- e como elle vinha já muito 
perto de Dio , aquella noite teve eíte reca- 
do 3 o qual da gente que trazia m^andou lo- 
go trezentos de cavallo , que ante manha 
foíFem dar na tenda de Mula Mamed , e o 
prenderam , e lhe bufcáram o fato que tra- 
zia , té acharem a carta d'ElRe7 P^^^ ^^' 
lique Tocam , a qual logo foi levada a 
Mujate. E tanto que pela carta d'ElRey vi o 
fer verdade o que Melique lhe mandara di- 
zer , fem fazer mais detença , da mais lim- 
pa gente , e efcolhida oue trazia tomou 
quinhentos de cavallo , e com elles fe tor- 
nou a Cambaya , onde ElRey eílava. E co- 
mo homem confiado em fua peííba , por fer 
mui cavalleiro , e am.ado de todos por Rias 
qualidades , fe foi a ElRey , (que fe vinha 
chegando a Dio para fe ver com Nuno da 
Cunha,) e tanto que eíleve ante elle, tirou 
de hum terçado que trazia na cinta , e lan- 
çou-fe aos pés de Badur , dizendo: Se te 
eu mereço a morte , áíjui efid o traidor ^ 
€ O ferro fará lhe cortares a cabeça j e ain- 
da 



Década IV. Liv. V. Cap. XIV. 625' 

da que nao r.iereça , fe dijjo tens contenta-^ 
mento , que maior honra pojjò eu defejar , 
que perder a cabeça per tua mao , por fa* 
tisfazer a teu appetite. Mas mandares-me 
matar por hum teu efcravo , filho de outro , 
ijio não pojjo eu fojfrer , fendo innocente. 
Outra couja te merecíamos meus avós , e 
meu pai ^ e eu ^ por quantos fervi cos temos 
feitos aos teus , e a ti. E fe ifto mandavas 
fazer , ou nao , eis-aqui a tua carta, El- 
Rey quando vio que Mujate Clian lhe apre- 
fentou a fua carta , ficou confufo , e tão en- 
vergonhado , que lhe nao íoube refponder , 
fomente o levantou nos braços. E por coP- 
turnarem os Principaes daquellas partes, quan- 
do querem fazer honra a alguém , ou mot 
trarem-lhe fmal de amor , mandarem-Jhe dar 
huma verte , a que elles chamam Cambaya , 
defpio ElRey huma que tinha mui rica, e 
•lançou-a nos hombros a Mujate Chan com 
grandes palavras de amor , e confiança , e 
algumas defcuípas. E por o mais contentar , 
lhe diíTe , que tomava o terçado , como de 
mão de hum feu vaíTallo mui leal , e em 
retorno delle lhe mandou dar huma efpada , 
que lhe Nuno da Cunha com outras coufas 
mandara de prefcnte , quando concertaram 
as vifías em Dio , que nao houveram effeito. 



Tom.IF.P.L Rr CA- 



626 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

CAPITULO XV. 

Como Badur Rey de Cambaya mandou fe- 
cretamente a Kurne Chan tomar Dio , e 
fe Melique Tocam fe quizejje defen- 
der , que o matafje : e que homem 
era João de Sant-lago , o que foi 
por lingua a Cambaya, 

TAnto que ElRey fatisfez com afagos, 
e mercês a Mujate Chan ^ pcdindo-lhe 
que fe foffc para as Cidades de Palitaria , 
e Talajá 5 que eram fuás vizinhas , na enlea- 
da de Cambaya ; e porque entendco que Me- 
jique Tocam fora o defcubridor da morre 
que \\\Q mandava dar , determinou de o ir 
per fi caíligar. Para o que teve grande in- 
citador em Rume Chan , o qual defejava 
muito ter Dio, e queria grande mal a Me- 
lique. A caufa deíle ódio era , porque or- 
denara com ElRey que lhe tiraíTe a Cida- 
de de Baroche , que lhe dera quando a elle 
veio 5 fazendo crer a ElRey que Baroche 
era huma Cidade mui forte , e importante 
a feu Eílado ; e que fendo pofla em poder 
de Rume Chan, recolheria alli todos os Ru- 
mes que vieílcm áquellas partes ; e como ho- 
mem que era livre , e aventureiro , daria de- 
pois muito trabalho áquelle feu Reyno. Ef- 
te confeiho lhe pagou Rume Chan em a 

meí- 



Década IV. Liv. V. Cap. XV. 627 

mclma moeda a Melique , dizendo a El- 
Rey , que homem que defcubria os feus fe- 
gredos táo importantes, que o devia de ha- 
ver por traidor ; e que não feria muito ter- 
fe concertado com os Portuguezes para lhe 
entregar Dio , que elles tanto defejavam de 
haver , para le aíTegurar de Sua Alteza por 
o delido que fizera : polo que íeu parecer 
era , que logo antes de Melique fe prover 
per alguma maneira , foíTe pôr cobro Ibbre 
Dio. ElRey como neíle tempo era gover- 
nado per Rume Chan , pareceo-lhe melhor 
o feu confelho , que o de outros feus accei- 
tos , a que também deo parte defte cafo. 
Porque os Príncipes que fe deixam governar 
por homens que lhes faliam á vontade , são 
como os homens frafcarios , e fujeitos a mu- 
lheres , que aquella que he mais nova na con- 
verfação , lhes he mais acceita. AÍH Badur 
governado polo novo privado Rume Chan , 
o mandou logo dalli de Cambaya onde eC- 
tava com alguns navios de remo , e deo- 
Ihe huma Provisão per elle aíTmada , que to- 
dos em Dio lhe obedeceíTem com.o a fua 
própria peífoa fob pena de morte ; e per ou- 
tra Provisão fecreta lhe mandou , que fe 
metteíTe em Dio, e trabalhaíTe de qualquer 
modo de matar a Melique Tocam. Chega- 
do Rume Chan á cadeia , que cftá atraveíía- 
*a no porto de Dio , fendo Melique Tocam 
Rr ii na 



628 ÁSIA DE João de Barros 

-na fua quinta , nao lhe quiz o Capitão , que 
elle deixou cm feu Jugar na Cidade , abrir , 
té que Rume Chan lhe moílrou o formão 
d'E]Rey , e como foi dentio na Cidade, 
apoderou-íe delia aquella noite. Sendo efta 
nova dada a Meiique , por não fazer eftron- 
do , feveio com pouca gente ao outro dia, 
como homem íèguro , camhiho da Cidade , 
e chegando ao cães que eílava da banda 
onde elle havia de embarcar para paíTar , os 
criados de Rume Chan que eflavam nas fuf- 
tas em que elle veio, lhe defenderam a paf- 
fagem. Acrcc reboliço acudio Rume Chan, 
para naquella volta matar a Meiique; mas 
os Arábios que elle trazia em fua guarda o 
•defenderam como leaes , e valentes homens 
■que eram. Meiique vendo o cafo , entendeo 
•fer mandado d'ElRe7 , e temendo que vi- 
ria logo per terra , tornou-fe a fua quinta , 
e fem fazer nella detença , tomiou p mais 
dinheiro, e jóias que pode levar , e fua mu- 
lher , e duas efcravas que a fcrviíTem , e fu- 
gio caminho de Sinde. EIRey , que ficava 
em Cambava , partio per mar , e veio deP 
embarcar em Gogá , e dalli per terra veio 
ter a Dio. E tanto que foube o que era paf- 
iàdo , efcreveo a Meiique Tocam grandes 
amores , c mandou-lhe hum feguro , com o 
qual , e com a palavra de Cancaná , (que 
era o principal Senhor do Guzarate em fan- 

gue. 



Década IV. Liv. V. Cap. XV. 629 

gue , e renda , a que ElRey tinha grande, 
relpeito , e o meímo Melique , ) fe tornou. 
E já ncíte tempo também era vindo Meli- 
que Saca ícu irmão com outro tal feguro , 
e promeíTa de Cancaná , o qual eftava em 
Cambaya com Mir Mamud Xiah , fobrinho 
d'ElRey , que ficou alli com a Corte toda 
em leu lugar. 

De Dio , (onde neíle tempo veio Nuno 
da Cunha para as villas com Badur , que 
náo houveram eíFeito , ) fe foi Soltam Badur 
para Champanel , levando comíigo a João 
deSant-Iago, que fora porlingua de Simão 
Ferreira quando foi a Dio fobre as viítas 
de Nuno da Cunha com ElRey. E para que 
fe faiba os coílumes daquelles Reys do Ori- 
ente , e de quão baixos homens fe fervem 
inuitas vezes no governo de feus Eílados , 
e lhes dam as maiores dignidades delles , e 
quanto no do Guzarate pode eíle , daremos 
deile alguma noticia. Eíle homem era Ará- 
bio de nação , efcravo de hum marinheiro 
Portuguez , que andava na Armada da ín- 
dia , e por faber bem algumas linguas , fe 
fervia delle Nuno da Cunha de interprete 
cm algumas coufas de pouca fubítancia , ma- 
io rmente nas que não requeriam fegredo : 
como tal o levou por lingua Simão Ferrei- 
ra , quando foi a Cambaya ao negocio das 
viílas que diífemos. E por afagaçidade que 

cáe 



630 ÁSIA DE JoÂo DE Barros 

çfte homem tinha , e huma dilcrição apra- 
zível na convcríação , com que lè accom- 
modava á vontade de muitos, todos fe lhe 
aífeiçoavam. Tanto fe contentou Soltam Ba- 
dur delle as vezes que o vio fallar , que 
mandou dizer a Nuno da Cunha , (quando 
veio ter a Dio , ) que levava Sant-Iago com- 
íigo 5 para per elle lhe mandar certos cati- 
vos que lá tinha , e Nuno da Cunha lhe 
pedia , e por elTe refpeito ficou com ElRey , 
á opinião de alguns , tão Mouro como o 
mefmo Badur , dando a entender a Nuno 
da Cunha que Badur o entretinha conira Aia 
vontade , e que feu coração eílava em Goa , 
e nos facrifícios da Igreja. E a coufa per 
que fcmais infinuava na benevolência d'El- 
Rey , era as muitas lifongerias que lhe di- 
'zia , apoucando as coufas de Nuno da Cu- 
nha , e dos Portuguezes , que não eram mais 
poderofos que para eípancar o mar , rou- 
bando a pobre gente que navegava , e que 
todo o poder da Chriftandade não fe po- 
dia comparar com o delle Badur em Eíla- 
do 5 e riqueza , e que levemente podia lan- 
çar da índia aos Portuguezes. E como era 
difcreto 5 e entendeo a arte de Badur, e fa- 
bia dar-lhe razão de qualquer coufa , ga- 
nhou-lhe a vontade de maneira , que a pri- 
meira coufa que Badur fez por elk , como 
fe fora liomeni de grande experiência , e 

qua- 



Década IV. Liv. V. Cap. XV. 631 

qualidade , foi fazer-lhe mercê de dez mil 
pardios , para fe aperceber do neceíl^irio , 
como hum de léus Capitães , e cada anuo 
(juareura mil pardáos de renda de aíTenta- 
Kiento , com obrigação de o fervir com qua- 
trocentos e ciiicoenta de cavallo , e o fez 
Capitão dos Portuguezes , e Francezes que 
lá andavam , e lhe poz nome Frangue Chan ; 
Frangue , porque era CJiriflao ; e Chan , por 
fer nome de honra , como atrás diíTemos. E 
de fua peíToa , e confelho fe ajudava nas 
coufas que tocavam aoEllado da índia , co- 
mo de hum dos feus mais acceitos Capi- 
tães "" . Deíle género de homens efcravos 5 e 
muitas vezes de Capados , fe fervem os Reys 
daquelle Oriente , quando per fuás peífoas 
fe avantajam dos outros na guerra , ou os 
fervem em coufas de fuás rendas , ou appe- 
tites 5 fem fazerem diííerença de fervo a li- 
vre , ou de natural a eílrangeiro ; e aili co- 
mo muitas vezes os levantam da terra em 
lium dia , aíli em huma hora os tornam a 
derribar por leve caufa. 

CA- 



« Outros vários fncce[Jos de JoTxo ãe Sant-laç^o efcre» 
vc Diogo do Couto no cap, lo. do liv. i. da Dec. 5, 



632 ÁSIA DE JoAo DE Barros 

CAPITULO XVI. 

Como Soltam Badur , e Omaum Patxiah fe 

vieram a defavir , e começaram fazer 

guerra entre Ji , por Badur lhe não 

querer entregar Mir Zaman, 

Soltam Badur Rey de Cambaya , pofto 
que era ]ium dos mais poderofos , e ri- 
cos Príncipes de todo o Oriente , fempre fe 
temeo das armas dos Mogolcs , como de 
gente mais esforçada que a fua , e de mais 
valor que as outras de que clle havia triun- 
fado j e nenhuma couía mais dcíejava que 
fazer pazes , e lianças com Omaum Patxiah 
Rey do Delij 5 com as quacs lhe parecia lhe 
feria fácil lançar os Portuguezes da índia, 
e alcançar a quietação, com q.ue gozaíTe das 
boas venturas que houvera. E já na efpe- 
rança daquella liança , além dos confelhos 
de feus privados, que o lifonjeavam , refu- 
fára as viílas com o Governador Nuno da 
Cunha , de que fez m.enos cafo do que de- 
vera , não duvidando de trazer Omaum com 
bons partidos á fua amizade. Mas iílo lhe 
não fuccedeo como qWq. cuidava ; porque 
Omaum Patxiah , aíTi por a entrega que Ba- 
dur Ih^ não fizia de Mir Zaman feu cu- 
nhado , como por a informação que teve, 
ijue os Embaixadores que Badur a elle man- 
dava 



Década IV. Liv. V. Cap. XVL Ó33 

dava levavam muito dinheiro para peitar , 
e corromper feus confelheiros , e privados , 
provocando-os a fazer traição , e muitos 11- 
uaes em branco para lhe fazer mercês de 
terras , rendas , e honras , fe fe paflaíTem a 
elle 5 fentio-o muito , e teve-lhe á grande 
baixeza querer com preço como mercador , 
e não polo valor das armas , e de fua pef- 
foa , haver delle vitoria , que houvera de pro- 
curar per guerra guerreada, e limpa , como 
cavalleiro , polo que elle não ouvia bem aos 
Embaixadores , nem os queria confentir em 
fua Corte. E como homem efcandalizado 
de Badur , aíll por efta caufa , como por os 
favores que fazia a Mir Zaman , fe defaveo 
com dÍQ , e lhe negou as pazes. 

Badur fentio muito efta deíavença por 
muitos refpeitos , de que era o principal o 
maícabo , em que cahia com o Governador 
Nuno da Cunha , a que não quizera ver, 
fazendo-o ir a Dio para iíTo , como quem 
eftava infolente com a liga que já cuidava 
que tinha feita com Omaum Rey tão temi- 
do de todos : polo que inflava mais na con- 
córdia com eJle , e lhe mandou outros Em- 
baixadores. Mas elles partidos, lhe vieram 
novas que á terra do Sinde , vizinha aos 
Resbutos , com os quaes elle tinha guerra, 
eram vindos alguns Capitães de Omaum , ç 
houvera entre elles, e os da terra algumgs 



634 ÁSIA DE João de Barros 

efcaramiiças , como gente que queria atra- 
veíTar as Serras , e entrar no Guzarate. Com 
efta nova mandou a Sadar Chan com dez 
mil de cavallo a Morbij , que he contra 
aquella parte , para reter os Mogoles que 
não entraíTem mais pela terra ; e elle tam- 
bém fe fez preftes em Champanel , lançan- 
do fama que queria ir fobre a noiTa forta- 
leza de Chaul. E para mais acreditar efta 
fama , mandou levar fuás tendas , e appara- 
tos de guerra a hum lugar chamado Olor , 
que eftá no caminho para Baroche , e que 
dahi fe iria a Chaul , no qual lugar todos 
os Capitães , e Senhores eftiveram té fim de 
Junho. Entre tanto mandou lançar ao mar 
em Cambaya fete galés , e algumas fuftas , 
c outros navios de remo , dizendo , que nef- 
tas embarcações havia de mandar muita ar- 
tilheria , e munições para per mar pôr cerco 
a Chaul. E depois de fer tarde , que noíTas 
Armadas lhe não podiam fazer damno , man- 
dou eftes navios caminho de Dio , dizendo , 
que alli eftariam mais feguros de os Portu- 
guezes os poderem queimar. 

Partida efta Armada , mandou hum Ca- 
pitão chamado Albergij , que era feu cu- 
nhado , que leva fte toda efta artilheria , que 
elle ajuntara para a ida de Chaul caminho 
do Mandou , porque temia nefta conjunção 
mais a vinda dos Mogoles para aquella par- 
te. 



Década IV. Liv. V. Cap. XVI. 635: 

te , e a voz de vir a Chaul era fingida por 
caula dclles , moftrando que mais lhe lem- 
bravam noíTas Armadas daquella cofta de 
Cambaya , que a vinda de Mogoles. Com 
tudo por as novas que cada dia tinha dcl- 
les , e de quão pouco lá faziam feus Em- 
baixadores , de Olor , onde eftava junto feu 
exercito , partio na primeira vifta da Lua 
de Junho , tempo mui obfervado delle por 
lua religião , pofto que elle na verdade an- 
dava aílombrado no feu animo , receando 
muito romper guerra com os Mogoles , por 
ter experiência que a gente de Cambaya era 
fraca , e não coftumada ao curfo daquella 
gente valente , foífredora de grandes traba- 
lhos , e experta na guerra. E fe alguma cou- 
fa com feus Guzarates tinha ganhado , era 
porque os inimigos eram também fracos , e 
porque de fuás vitorias muitas houvera mais 
per fua induílria , e peitas , que á força de 
braço ; e a gente eftrangeira que comfigo tra- 
zia de Portuguezes , Rumes , Parfios , e 
Arábios eram mui poucos. 

Finalmente per idas , e vindas de feus 
Embaixadores , a refoluçao deftes dous Prín- 
cipes foi 5 que Omaum Patxiah pedia a Sol- 
tam Badur , que lhe entregaífe feu cunhado 
Mir Zaman , e foltaífe o Príncipe do Man- 
ílou 5 e feus irmãos, e lhe reftituiíTe oRey- 
no que lhes tinha tomado. Ao que refpon- 

deo 



636 ÁSIA DE João de Barros 

deo Badur, que quando elle Omaum reíli- 
tuiíTe o Reyno do Delij a cujo era , que en- 
tão íoltaria elle o de Mandou ; e que me- 
Jhor feria , pois ambos eram irmãos na lei , 
que o foííem em amor , e paz , eftando ca- 
da hum em fcu Reyno fazendo guerra ao 
Gentio fem lei , e aos Chrillãos , a quem 
tão odiofas eram as coufas de feu Profeta 
Mafamede. E quanto a feu cunhado , vifto 
como entre elles havia parentefco de primos , 
e fer calado com fua irmá , de que tinha 
filhos , e ao efcandaio que delle tinJia nao 
fer coufa indigna de perdão , feria melhor 
apartallo defi, dando-lhe alguma coufa com 
que viveífe conforme a feu eftado , e elle 
lhe daria também naquella parte a elle vi- 
zinha algumas terras para fe ajudar a man- 
ter , eaíli viveria entre os dous eftremos de 
feus Reynos fem efcandaio algum, eque fi- 
caife livre , fem ter obediência de vaílalio a 
hum , nem a outro. Sobre elks recados hou- 
ve outros , eni que já fe começavam efquen- 
tar em palavras 5 té mandar dizer Soltam Ba- 
dur a Omaum , que nao curaíTe de fe pôr 
em caminho , e vir bufcar feu cunhado , que 
elle o levaria comfigo ao Reyno do Delij , 
eque là lhe faria a entrega delle. Com eíle 
recado lhe mandou de prefente hum veílido 
de mulher de grandes ornamentos , como 
em defprezo.;. .porque os Mogoles. sao ho- 
mens , 



Década IV. Liv. V. Cap. XVI. Gij 

iiiens 5 que fe prezam de andarem na guerra 
mui ataviados nos vertidos de fuás pcíToas , 
e ornomentos de feus cavallos. Em retorno 
daquelle prefente , com outras palavras que 
refpondiam ásdeBadur, oMogoi ]he man- 
dou hum cáo , e hum açoute com que açou- 
tam os cavallos ; porque os Guzarares não 
tem ufo de efporas , e alli lhe mandou hum 
dromedário , e hum cavallo , dizendo pala- 
vras per que o provocava a ir encontrar-fe 
com elle tão á preíTa como dizia , porque 
deftas allegorias , e figuras uíkm muito aqu^I- 
\t^ Mouros do Oriente em femclhantes ne- 



gócios. 



Fim do Livro V. da Década IV. 




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DS Barros, João de 
411 Da Ásia de João de Barros e 
.7 de Diogo de Couto 

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